terça-feira, julho 22, 2008

Adaptação

Às vezes tenho a sensação de que o ápice da criação é o princípio do clichê. Quem faz algo inovador, por mais que não seja hostilizado pelos seus contemporâneos, ainda assim corre o risco de ter sua imagem pra sempre aprisionada em uma criação.

Gosto dos heterônimos. Ouvi dizer que os artistas japoneses são os mais afeitos à idéia de mudar de nome para impedir, ou pelo menos inibir, a rotulagem das suas criações.

Amor tem disso também. No momento do encontro há boas doses de futuros motivos para o desencontro. Uma simples vontade de mudança de um vira o desespero do outro.

O mundo está cheio de pessoas pouco afeiçoadas a transformações.

domingo, julho 06, 2008

Rascunho de um romance inacabado

Para a releitura das crônicas e memórias de viagem, escolheu a sala de estar, precisamente por ser o canto da casa mais aberto e neutro. Em seu quarto, precisava pedir licença, abrir caminho entre os sonhos ali gestados, paridos e abortados, entre as lembranças de amores pela metade e sofrimentos por inteiro. Na sala, ficava exposta a todas as interferências que sempre detestou, como o barulho do rádio na estação de notícias, da louça sendo lavada, do telefone que nunca atendia, das conversas de seu irmão em tom irritantemente entusiasmado, da curiosidade eterna de seu pai em relação ao que tanto ela escrevia, quando não no computador, em um caderninho de capa de couro e, por dentro, folhas de papel envelhecido – presente de Natal dado por sua irmã, que trouxera o agrado de Florença.

Hoje, ela precisava de todas essas interferências, talvez para evitar o barulho dos tambores de seus sentimentos enquanto relia as caras recordações.

O primeiro texto, escolhido aleatoriamente, era um começo pelo fim. Versava sobre o dia da partida:

"Naquela manhã em que, de mochila nas costas e adeus nas mãos, orientei meus passos rumo ao aeroporto de Schiphol, de onde partiria com destino a Guarulhos, os cinco graus centígrados no termômetro me pareceram uma mística despedida. Desde minha chegada à Europa, três meses antes, cada cidade visitada me recebera com sol: Londres, Amsterdã, Paris, Porto, Amsterdã outra vez, Bruxelas, Paris novamente, Londres ainda, Amsterdã por fim. Dias chuvosos eram véspera da minha chegada ensolarada. A gente aprende a acreditar em uns mistérios bobos pra deixar a vida mais bonita... e nessa, o mundo acaba ganhando cor de verdade.

Os últimos dias na preferida Amsterdã foram de temperatura que oscilava entre 11 e 15 graus. O outubro mais quente em trezentos anos, disseram os noticiários. A minha alma brasileira, tão acostumada com o Rio de Janeiro, não se abalou com os oito graus da véspera da partida e a linda chuva de pedacinhos de gelo (da qual nos protegemos, Dani e eu, no café de Nieuwmarkt)".


CONTINUA

quinta-feira, junho 05, 2008

Conto do prazer em fá

Enfado. Ela percebeu que tudo seguia daquele jeito monocórdio. Insípido, inodoro e incolor. Apático, indolor, pálido e morno. Eram dias de extrema estabilidade, de linhas obtusamente retas. De ares primaveris vazios de qualquer flor. Em dias assim é difícil morrer. Mantém-se intacto o ciclo da mesmice. Em dias assim é difícil renascer.

Fado. Ela ouviu ao longe um canto triste que, de tão agudo, estilhaçou a velha rotina que costumava seguir sempre em frente e sem ruído.

Afago. Atrito leve, calor forte. Energia dissipada, espalhada, explodida em milhares de lampejos de cor, cheiro e música. O que era insípido, inodoro e incolor, assim permaneceu, mas matou a sede dos corpos suados, embebedados do prazer há muito esquecido.

Faz-se fato uma façanha. Do gemido nasceu um rebento furtacor. A vida recebeu de volta o direito de chorar, de sentir, de pulsar.

Conto do prazer em fá

Enfado. Ela percebeu que tudo seguia daquele jeito monocórdio. Insípido, inodoro e incolor. Apático, indolor, pálido e morno. Eram dias de extrema estabilidade, de linhas obtusamente retas. De ares primaveris vazios de qualquer flor. Em dias assim é difícil morrer. Mantém-se intacto o ciclo da mesmice. Em dias assim é difícil renascer.

Fado. Ela ouviu ao longe um canto triste que, de tão agudo, estilhaçou a velha rotina que costumava seguir sempre em frente e sem ruído.

Afago. Atrito leve, calor forte. Energia dissipada, espalhada, explodida em milhares de lampejos de cor, cheiro e música. O que era insípido, inodoro e incolor, assim permaneceu, mas matou a sede dos corpos suados, embebedados do prazer há muito esquecido.

Faz-se fato uma façanha. Do gemido nasceu um rebento furtacor. A vida recebeu de volta o direito de chorar, de sentir, de pulsar.

terça-feira, maio 06, 2008

Uma tarde num rio do Sul

O nome do rio era Guaíba. Lembro daquela tarde, do pôr-do-sol primeiro de muitos. Conversamos sobre a vida, sonhamos e nos maravilhamos com o nada, ao som da água calma, com a fumaça dos cigarros que acendíamos um atrás do outro devido à falta de fósforos.

Naquele fevereiro de 2002, o desconforto da barraca divida, o acampamento no Parque da Harmonia, as caminhadas pelas ruas de Porto Alegre em busca de uma famosa cachaçaria, o chimarrão, o vinho, o telão de cinema, as dúvidas sobre o futuro, a certeza da existência de muito mais, os shows e todos os acontecimentos daqueles 10 dias eram apenas coadjuvantes de um bem maior que ali nascia.

(escrito em 18.12.2006)

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Conto do prazer em lá

Com a cabeça em algum lugar que não o terreno irregular onde pisava, num tempo intrometido que insistia em roubar o posto do agora, por fim chegou ao templo.

O monge sequer se deu o trabalho de dispensar-lhe qualquer tipo de cumprimento, um olhar ou aceno de cabeça. Continuou a sua refeição de frutas e iogurte enquanto um tipo de funcionário do lugar indicava a entrada do salão ocupado por uns bancos, uma espécie de altar e uma estátua de Buda de uns dois metros de altura. Em seguida a porta se fechou e ela ficou a sós com seus pensamentos, com a disposição de ver algum sentido naquelas inéditas estranhezas diante dos olhos.

Circulou pelo salão, chegou mais perto do altar e encarou o Buda, que como resposta permaneceu parado, com um comportamento típico e da natureza de qualquer estátua. Esperava ela algum sinal? Em busca de não se sabe o quê, continuou a vasculhar o local com os olhos, se deteve em fotos, relíquias e badulaques, mas sentido mesmo não conseguia ver, talvez por não saber procurar ali o que sempre pensou encontrar lá, no lugar dos outros tempos e lugares.

Mesmo assim, sem sentido ou direção, sentou-se e fingiu meditar, porque de tanto fingir talvez se fizesse acreditar que podia crer, mas não adiantou, e por isso quis sair correndo, e quase o fez, mas sabiamente entendeu que fugir devagar seria a maneira mais eficaz de desaparecer depressa e de vez, sem ser importunada com perguntas e gestos de compaixão por sua loucura.

E nessa de sutilmente fugir, não encontrou o suposto funcionário que a atendeu, e não estava nos seus planos dar importância para o fato, mas se esbarrou no monge, um homem de uns dois metros de altura, e ela se fixou naqueles bondosos olhos azuis, e de repente ir embora perdeu o sentido, talvez porque ali, naquele momento, o sentido havia sido encontrado.

O teor da conversa nas três horas seguintes permanece desconhecido, pois apenas a estátua de Buda a testemunhou, bem como testemunhou as carícias, os beijos, os tremores, suspiros, suores e gemidos. E, com um comportamento atípico e contra a natureza de qualquer estátua, Buda, naquele dia, sorriu.

Conto do prazer em lá

Com a cabeça em algum lugar que não o terreno irregular onde pisava, num tempo intrometido que insistia em roubar o posto do agora, por fim chegou ao templo.

O monge sequer se deu o trabalho de dispensar-lhe qualquer tipo de cumprimento, um olhar ou aceno de cabeça. Continuou a sua refeição de frutas e iogurte enquanto um tipo de funcionário do lugar indicava a entrada do salão ocupado por uns bancos, uma espécie de altar e uma estátua de Buda de uns dois metros de altura. Em seguida a porta se fechou e ela ficou a sós com seus pensamentos, com a disposição de ver algum sentido naquelas inéditas estranhezas diante dos olhos.

Circulou pelo salão, chegou mais perto do altar e encarou o Buda, que como resposta permaneceu parado, com um comportamento típico e da natureza de qualquer estátua. Esperava ela algum sinal? Em busca de não se sabe o quê, continuou a vasculhar o local com os olhos, se deteve em fotos, relíquias e badulaques, mas sentido mesmo não conseguia ver, talvez por não saber procurar ali o que sempre pensou encontrar lá, no lugar dos outros tempos e lugares.

Mesmo assim, sem sentido ou direção, sentou-se e fingiu meditar, porque de tanto fingir talvez se fizesse acreditar que podia crer, mas não adiantou, e por isso quis sair correndo, e quase o fez, mas sabiamente entendeu que fugir devagar seria a maneira mais eficaz de desaparecer depressa e de vez, sem ser importunada com perguntas e gestos de compaixão por sua loucura.

E nessa de sutilmente fugir, não encontrou o suposto funcionário que a atendeu, e não estava nos seus planos dar importância para o fato, mas se esbarrou no monge, um homem de uns dois metros de altura, e ela se fixou naqueles bondosos olhos azuis, e de repente ir embora perdeu o sentido, talvez porque ali, naquele momento, o sentido havia sido encontrado.

O teor da conversa nas três horas seguintes permanece desconhecido, pois apenas a estátua de Buda a testemunhou, bem como testemunhou as carícias, os beijos, os tremores, suspiros, suores e gemidos. E, com um comportamento atípico e contra a natureza de qualquer estátua, Buda, naquele dia, sorriu.

Vênus e madrepérolas

Dia desses conheci uma mãe que me desconcertou. Puta merda, não duvido um milímetro dessa coisa de que mãe tem uma percepção diferente, mas olhar praquela mãe foi particularmente desconcertante porque a sensação era de reconhecimento e eu, que não acredito em vidas passadas, me vi vasculhada, lida e reconhecida a cada olhadela de relance daquela mãe.

Ela era belíssima, ou pelo menos a imagem registrada e mantida é de uma mulher belíssima, palpitante e parcimoniosa ao mesmo tempo, de voz mansa porém firme, mas, parando pra pensar, acho que nem sei dizer como ela é. Sim, lembro bem dos olhões azuis impressionantes, tanto mais porque cada vez que eu me deparava com eles me batia uma inquietação que me paralizava, se é que isso é possível, porque o desejo de fugir daqueles olhos tinha a mesma intensidade da vontade de espiá-los.

Meu fascínio pelas mães e mulheres é recente. Sempre tive muitos amigos homens e, coincidentemente, as minhas poucas amigas mulheres eram aquelas que tinham muitos amigos homens. Não saberia precisar em que momento a chave virou e eu passei a admirá-las (mulheres, mães de fato ou em potencial). Inventei aquele marco meio pomposo: o contato com Clarice Lispector, depois Simone de Beauvoir, Virginia Wolf, Adélia Prado. Afetação ou não, acho mesmo que faz sentido. Contribuiu também o fato de ter conhecido mulheres fantásticas, daquele jeito que o Vinícius falava, "mulher que se sabe mulher", feito a Helô, que por acaso também é mãe.

Uma vez escrevi que durante a minha adolescência, e até bem pouco tempo atrás na verdade, nunca me imaginei mãe de menina. Muito provavelmente porque me assustava a idéia de ter que lidar com uma mocinha tão angustiada, dramática e visceral feito eu. Mas, nessa auto-análise, bem lúcida até, não considerei que fui criada desde os 11 anos pelo meu pai e que o fato de crescer num ambiente sem a figura materna há de alterar percepções e formas de relação.

Tardiamente ou não, parei pra prestar atenção nelas e muito freqüentemente sinto um certo "orgulho da espécie" quando vejo uma mulher que encanta. É isso. Orgulho é a palavra. Só consigo admirar. Disseram uma vez e concordei: as belas têm uma função importante no mundo. Acrescento: as inteligentes, as sensíveis, as neuróticas, as afetadas também - e até mesmo as angustiadas, dramáticas e viscerais.