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terça-feira, julho 22, 2008

Conto do prazer em mi

Esta é a estória de Bela M., ensimesmada e distraída, que um dia mergulhou no mundo ao redor, de onde jorrava toda a realidade que tão pouco a interessava, mal enternecia, nem servia para entristecer.

Um belo dia, Bela M. decidiu que abriria os olhos, respiraria fundo e, de peito dilatado e veias latejantes, pulsaria no rumo das pessoas, no curso das coisas, na direção dos outros.

A primeira medida foi fingir, pra acreditar à toa, a torto e a direito, que o mundo era de uma fácil magia; que com as novelas era possível chorar, que a política a indignava, que sentia palpitações com a arte, a estética, a música e o cinema, que reuniões de família e álbuns de recordações faziam parte da vida dos felizes de verdade, que amava as tolices e desimportâncias dos amigos e amantes que passou a colecionar.

Bela M. rendeu-se ao viver dos outros, e à medida que lhe era mais fácil fingir, percebia que tornara-se verdade, real, filha do mundo, de Deus, das virtudes e vícios humanos.

Mais feliz que jamais soube, nem coube, dissolveu-se de si e viveu para sempre, nem sempre feliz, mas do jeito que quis.

Conto do prazer em mi

Esta é a estória de Bela M., ensimesmada e distraída, que um dia mergulhou no mundo ao redor, de onde jorrava toda a realidade que tão pouco a interessava, mal enternecia, nem servia para entristecer.

Um belo dia, Bela M. decidiu que abriria os olhos, respiraria fundo e, de peito dilatado e veias latejantes, pulsaria no rumo das pessoas, no curso das coisas, na direção dos outros.

A primeira medida foi fingir, pra acreditar à toa, a torto e a direito, que o mundo era de uma fácil magia; que com as novelas era possível chorar, que a política a indignava, que sentia palpitações com a arte, a estética, a música e o cinema, que reuniões de família e álbuns de recordações faziam parte da vida dos felizes de verdade, que amava as tolices e desimportâncias dos amigos e amantes que passou a colecionar.

Bela M. rendeu-se ao viver dos outros, e à medida que lhe era mais fácil fingir, percebia que tornara-se verdade, real, filha do mundo, de Deus, das virtudes e vícios humanos.

Mais feliz que jamais soube, nem coube, dissolveu-se de si e viveu para sempre, nem sempre feliz, mas do jeito que quis.

quinta-feira, junho 05, 2008

Conto do prazer em fá

Enfado. Ela percebeu que tudo seguia daquele jeito monocórdio. Insípido, inodoro e incolor. Apático, indolor, pálido e morno. Eram dias de extrema estabilidade, de linhas obtusamente retas. De ares primaveris vazios de qualquer flor. Em dias assim é difícil morrer. Mantém-se intacto o ciclo da mesmice. Em dias assim é difícil renascer.

Fado. Ela ouviu ao longe um canto triste que, de tão agudo, estilhaçou a velha rotina que costumava seguir sempre em frente e sem ruído.

Afago. Atrito leve, calor forte. Energia dissipada, espalhada, explodida em milhares de lampejos de cor, cheiro e música. O que era insípido, inodoro e incolor, assim permaneceu, mas matou a sede dos corpos suados, embebedados do prazer há muito esquecido.

Faz-se fato uma façanha. Do gemido nasceu um rebento furtacor. A vida recebeu de volta o direito de chorar, de sentir, de pulsar.

Conto do prazer em fá

Enfado. Ela percebeu que tudo seguia daquele jeito monocórdio. Insípido, inodoro e incolor. Apático, indolor, pálido e morno. Eram dias de extrema estabilidade, de linhas obtusamente retas. De ares primaveris vazios de qualquer flor. Em dias assim é difícil morrer. Mantém-se intacto o ciclo da mesmice. Em dias assim é difícil renascer.

Fado. Ela ouviu ao longe um canto triste que, de tão agudo, estilhaçou a velha rotina que costumava seguir sempre em frente e sem ruído.

Afago. Atrito leve, calor forte. Energia dissipada, espalhada, explodida em milhares de lampejos de cor, cheiro e música. O que era insípido, inodoro e incolor, assim permaneceu, mas matou a sede dos corpos suados, embebedados do prazer há muito esquecido.

Faz-se fato uma façanha. Do gemido nasceu um rebento furtacor. A vida recebeu de volta o direito de chorar, de sentir, de pulsar.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Conto do prazer em lá

Com a cabeça em algum lugar que não o terreno irregular onde pisava, num tempo intrometido que insistia em roubar o posto do agora, por fim chegou ao templo.

O monge sequer se deu o trabalho de dispensar-lhe qualquer tipo de cumprimento, um olhar ou aceno de cabeça. Continuou a sua refeição de frutas e iogurte enquanto um tipo de funcionário do lugar indicava a entrada do salão ocupado por uns bancos, uma espécie de altar e uma estátua de Buda de uns dois metros de altura. Em seguida a porta se fechou e ela ficou a sós com seus pensamentos, com a disposição de ver algum sentido naquelas inéditas estranhezas diante dos olhos.

Circulou pelo salão, chegou mais perto do altar e encarou o Buda, que como resposta permaneceu parado, com um comportamento típico e da natureza de qualquer estátua. Esperava ela algum sinal? Em busca de não se sabe o quê, continuou a vasculhar o local com os olhos, se deteve em fotos, relíquias e badulaques, mas sentido mesmo não conseguia ver, talvez por não saber procurar ali o que sempre pensou encontrar lá, no lugar dos outros tempos e lugares.

Mesmo assim, sem sentido ou direção, sentou-se e fingiu meditar, porque de tanto fingir talvez se fizesse acreditar que podia crer, mas não adiantou, e por isso quis sair correndo, e quase o fez, mas sabiamente entendeu que fugir devagar seria a maneira mais eficaz de desaparecer depressa e de vez, sem ser importunada com perguntas e gestos de compaixão por sua loucura.

E nessa de sutilmente fugir, não encontrou o suposto funcionário que a atendeu, e não estava nos seus planos dar importância para o fato, mas se esbarrou no monge, um homem de uns dois metros de altura, e ela se fixou naqueles bondosos olhos azuis, e de repente ir embora perdeu o sentido, talvez porque ali, naquele momento, o sentido havia sido encontrado.

O teor da conversa nas três horas seguintes permanece desconhecido, pois apenas a estátua de Buda a testemunhou, bem como testemunhou as carícias, os beijos, os tremores, suspiros, suores e gemidos. E, com um comportamento atípico e contra a natureza de qualquer estátua, Buda, naquele dia, sorriu.

Conto do prazer em lá

Com a cabeça em algum lugar que não o terreno irregular onde pisava, num tempo intrometido que insistia em roubar o posto do agora, por fim chegou ao templo.

O monge sequer se deu o trabalho de dispensar-lhe qualquer tipo de cumprimento, um olhar ou aceno de cabeça. Continuou a sua refeição de frutas e iogurte enquanto um tipo de funcionário do lugar indicava a entrada do salão ocupado por uns bancos, uma espécie de altar e uma estátua de Buda de uns dois metros de altura. Em seguida a porta se fechou e ela ficou a sós com seus pensamentos, com a disposição de ver algum sentido naquelas inéditas estranhezas diante dos olhos.

Circulou pelo salão, chegou mais perto do altar e encarou o Buda, que como resposta permaneceu parado, com um comportamento típico e da natureza de qualquer estátua. Esperava ela algum sinal? Em busca de não se sabe o quê, continuou a vasculhar o local com os olhos, se deteve em fotos, relíquias e badulaques, mas sentido mesmo não conseguia ver, talvez por não saber procurar ali o que sempre pensou encontrar lá, no lugar dos outros tempos e lugares.

Mesmo assim, sem sentido ou direção, sentou-se e fingiu meditar, porque de tanto fingir talvez se fizesse acreditar que podia crer, mas não adiantou, e por isso quis sair correndo, e quase o fez, mas sabiamente entendeu que fugir devagar seria a maneira mais eficaz de desaparecer depressa e de vez, sem ser importunada com perguntas e gestos de compaixão por sua loucura.

E nessa de sutilmente fugir, não encontrou o suposto funcionário que a atendeu, e não estava nos seus planos dar importância para o fato, mas se esbarrou no monge, um homem de uns dois metros de altura, e ela se fixou naqueles bondosos olhos azuis, e de repente ir embora perdeu o sentido, talvez porque ali, naquele momento, o sentido havia sido encontrado.

O teor da conversa nas três horas seguintes permanece desconhecido, pois apenas a estátua de Buda a testemunhou, bem como testemunhou as carícias, os beijos, os tremores, suspiros, suores e gemidos. E, com um comportamento atípico e contra a natureza de qualquer estátua, Buda, naquele dia, sorriu.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Conto do prazer em ré

Volto no tempo, dois anos antes, quando nos conhecemos. Amigos em comum, interesses mesmos e vem a empatia fácil. Descamba para admiração. Ok, nada demais. A linha de segurança é forte. Sem tesão não há solução. De minha parte não há tesão, logo tudo está prévia e irremediavelmente solucionado. Porque não existe perigo, nem penso em me proteger. A serpente sequer dá-se ao trabalho de chegar em silêncio. Ao contrário, faz música com seu chiado. E, porque gosto de ouvir, aproveita e vem se enroscando. E porque gosto de sentir, já não a afasto mais.

Ela já faz parte de mim, embora eu recuse os frutos que vez e outra me oferece. Com sua alma de serpente, ela sabe que qualquer dia provo do caminho do pecado, então apenas espera, pacientemente, o tempo preciso.

Chega por fim o momento da sedução, do degustar o fruto, da consciência da nudez num paraíso que já não há. Com olhos que vêem o Bem e o Mal, escolho o Pior. Deus se cala e apenas chora, daquele jeito dolorido de quem paga o preço de confiar na humanidade e conceder-lhe liberdade.

E então, o agora. Ergo-me. Já é chegada a hora da redenção e vida eterna não se concede a quem rasteja. Sigo com fé porque o torpor de todo veneno um dia se extingue.

Conto do prazer em ré

Volto no tempo, dois anos antes, quando nos conhecemos. Amigos em comum, interesses mesmos e vem a empatia fácil. Descamba para admiração. Ok, nada demais. A linha de segurança é forte. Sem tesão não há solução. De minha parte não há tesão, logo tudo está prévia e irremediavelmente solucionado. Porque não existe perigo, nem penso em me proteger. A serpente sequer dá-se ao trabalho de chegar em silêncio. Ao contrário, faz música com seu chiado. E, porque gosto de ouvir, aproveita e vem se enroscando. E porque gosto de sentir, já não a afasto mais.

Ela já faz parte de mim, embora eu recuse os frutos que vez e outra me oferece. Com sua alma de serpente, ela sabe que qualquer dia provo do caminho do pecado, então apenas espera, pacientemente, o tempo preciso.

Chega por fim o momento da sedução, do degustar o fruto, da consciência da nudez num paraíso que já não há. Com olhos que vêem o Bem e o Mal, escolho o Pior. Deus se cala e apenas chora, daquele jeito dolorido de quem paga o preço de confiar na humanidade e conceder-lhe liberdade.

E então, o agora. Ergo-me. Já é chegada a hora da redenção e vida eterna não se concede a quem rasteja. Sigo com fé porque o torpor de todo veneno um dia se extingue.

segunda-feira, junho 04, 2007

Conto do prazer em dó

Sentada no chão, apertava com força o telefone para controlar a dor que tentava lhe escapar pela boca em forma de grito, impropérios e vômito. Deixou-se ferir lentamente por cada uma daquelas palavras que lhe chegavam de longe. Depois, telefone de volta ao gancho, encostou o corpo soluçante numas das portas, mas se levantou depressa porque era orgulhosa demais pra sofrer feito personagem qualquer de novela ordinária.

Escolheu a música, despiu-se, dançou forte e cantou alto. Lavada de suor e lágrima, esboçou um sorriso como se desse boas-vindas àquela dor fininha e maldita que conheceu poucas e marcantes vezes, que conseguiu expelir de si em outros tempos, mas que agora retornava triunfante: dor de felicidade não vivida. Dentro dela, um abismo de sentimentos que novamente dariam em lugar nenhum. Uma vez mais, fora muita fé pra pouco santo.

Copo pela metade pra uma sede inteira. Gota de água benta pra legião de lazarentos. Meia promessa de vida eterna pra dois mil e seis moribundos. Um prato de feijão pra dezessete desvalidos. Ela ganhara um palmo de terra pra sufocar vinte e oito brotos de esperança. “Ao vencedor as batatas”, disse para si, rindo de dó.

Ele era um homem casado. Ofereceu a ela palavras e depois carícias. Despediu-se de repente prometendo voltar de vez. Pouco depois, telefonou desfazendo os planos e despedaçando os sonhos. Ele mudou de idéia alegando mal-estar da consciência. Ela se calou, sem idéia e quase inconsciente de tanto mal-estar.

Ela pediu conselhos a três santas de sua devoção e todos os sagrados corações de moles Marias abençoaram a dúvida do pobre diabo e se benzeram acusando-na de pecados madalenos. Sentindo-se traída, ela despojou-se de sua fé, jogou fora todas as imagens, terços, incensos e escapulários. Vestiu uma blusa decotada, pintou as unhas de vermelho, untou-se de provocantes cheiros. Saiu às ruas. E em pouco tempo, estava cercada de devotos.

Conto do prazer em dó

Sentada no chão, apertava com força o telefone para controlar a dor que tentava lhe escapar pela boca em forma de grito, impropérios e vômito. Deixou-se ferir lentamente por cada uma daquelas palavras que lhe chegavam de longe. Depois, telefone de volta ao gancho, encostou o corpo soluçante numas das portas, mas se levantou depressa porque era orgulhosa demais pra sofrer feito personagem qualquer de novela ordinária.

Escolheu a música, despiu-se, dançou forte e cantou alto. Lavada de suor e lágrima, esboçou um sorriso como se desse boas-vindas àquela dor fininha e maldita que conheceu poucas e marcantes vezes, que conseguiu expelir de si em outros tempos, mas que agora retornava triunfante: dor de felicidade não vivida. Dentro dela, um abismo de sentimentos que novamente dariam em lugar nenhum. Uma vez mais, fora muita fé pra pouco santo.

Copo pela metade pra uma sede inteira. Gota de água benta pra legião de lazarentos. Meia promessa de vida eterna pra dois mil e seis moribundos. Um prato de feijão pra dezessete desvalidos. Ela ganhara um palmo de terra pra sufocar vinte e oito brotos de esperança. “Ao vencedor as batatas”, disse para si, rindo de dó.

Ele era um homem casado. Ofereceu a ela palavras e depois carícias. Despediu-se de repente prometendo voltar de vez. Pouco depois, telefonou desfazendo os planos e despedaçando os sonhos. Ele mudou de idéia alegando mal-estar da consciência. Ela se calou, sem idéia e quase inconsciente de tanto mal-estar.

Ela pediu conselhos a três santas de sua devoção e todos os sagrados corações de moles Marias abençoaram a dúvida do pobre diabo e se benzeram acusando-na de pecados madalenos. Sentindo-se traída, ela despojou-se de sua fé, jogou fora todas as imagens, terços, incensos e escapulários. Vestiu uma blusa decotada, pintou as unhas de vermelho, untou-se de provocantes cheiros. Saiu às ruas. E em pouco tempo, estava cercada de devotos.