sexta-feira, janeiro 28, 2005

Que Deus nos livre da mediocridade. Amém.

“Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca”
(Apocalipse 3:15,16)

Este versículo bíblico não saiu da minha cabeça a semana inteira. Minha interpretação pessoal inicialmente é que a mediocridade parece ser mais abominável que o Mal em si, existindo ele. Posto desta forma, muitos dos que até agora estiveram em paz com suas consciências podem estar condenados ao refluxo Divino e serem regurgitados para fora do Paraíso - o qual não sabemos onde se encontra, apesar de sempre dele facilmente nos perdemos. Interessante lermos assim o manual de onde foram extraídos os “sopros” para a formulação de tantas de nossas regras sociais e morais...

Dia desses, o Alexandre (amigo querido e brilhante teólogo) explicou que a palavra por nós conhecida como “pecado”, no original hebraico das Sagradas Escrituras tem um sentido bastante mais amplo: seria algo que nos afasta do eixo de nossa plenitude humana. É um conceito judaico que remonta aos tempos antes de Cristo, considerando que o Novo Testamento já não foi escrito na língua dos hebreus, mas na dos gregos.

Partindo desse princípio, uma vez que nos encontremos afastados da tal plenitude, penso que inicia-se imediatamente a tentativa de resgate das metas fundamentais. Mas, para ocorrer o movimento em direção ao caminho supostamente perdido, é necessária a tomada de consciência que legitima e reconhece o desvio. Sendo assim, no desencontro máximo está a origem mesma do reencontro.

Em nenhum dos pólos “frio” e “quente” consigo identificar a metáfora do essencialmente bom ou essencialmente ruim. Mas diria que o frio remete à necessidade de calor, e o quente clama pelo refrescamento. Nesse sentido, nos dois lados há iminência de movimento.

A mornidão relaxa, acomoda, paralisa. É do conforto que vem a letargia, o não caminhar, a impossibilidade de errância. A mediocridade nos protege da marginalização e da genialidade – aliás, outro par que pressupõe o mútuo deslocamento, na minha opinião. Estar morno, dando um significado mais popular à sagrada exortação, quer dizer viver “à meia bomba”. Sem impotência nem priapismo.

Tendo em vista tal inércia diabólica, a ira dos céus seria uma redenção. Afinal, os mornos são lançados para fora, arrancados à força do estômago Supremo, rejeitados pelo Santo organismo, deslocados à força. Regurgitados, expulsos e, com isso, impulsionados, e devolvidos à essência do movimento em direção à plenitude.

Deus, por favor, vomite. E dê-nos a Graça de sermos eventualmente atormentados. Amém.

16 comentários:

deianowhy disse...

sei q vc poderia ter falado bem mais sobre o tema....

mas afinal, o que eh priapismo?

bjs

A metanóica disse...

É possível desenvolver o tema em outras ocasiões, afinal não existem muitos limites para isso.
Mas eu NÃO poderia escrever mais neste momento, e o fato de eu ter parado é o melhor forma de constatar isso.
Você é a minha leitora mais exigente, acho que é porque a que mais me conhece. Nossas conversas são sempre bem animadas, principalmente sobre questões teológicas, mas escrever é diferente.
Tentarei expor melhor minhas idéias da próxima vez. Suas críticas são sempre um impulso! Só espero não ter sido morna...
Beijos!

Eric Moreira disse...

Meu amor,

Você me fez lembrar de um versículo que há muito não lia...usávamos muito este trecho para exortar-nos uns aos outros, quado eu participava da coordenação do Grupo Jovem Goel na minha amada Igreja Católica.

Fico feliz por saber que alguém tem uma visão tão mais profunda do significado do pecado. No senso comum, a palavra ganhou uma conotação "maldita".

Agora, bricando um pouco, "errância" me fez lembrar um professor iacsiano...

Beijos

A metanóica disse...

É bom estarmos atentos e constantemente reavaliarmos o que nos dita o tal senso comum. Fora isso, fico feliz que a visita ao "digerindo" tenha trazido à lembrança bons momentos.
Ah, e você está coberto de razão! "Errância" me lembra André Queiroz! Da próxima vez eu escrevo sobre a minha errância atravessada por um devir qualquer.
Beijo, menino! Sinto mesmo a sua falta.

lefou disse...

"a los tibios los vomito de mi boca" el coran dice algo similar, les llaman los neutros... Tibio, mediocre, neutro, un tanto asi como salvarse (No te salves - M. Benedetti) para las cosas con las que no se debe dar el lujo de no participar...
Zapatero a tus zapatos es una frase que expresa que cada quien debe hacer lo que le corresponde, ahora no recuerdo por que la escribi jejejejeje...
UN gran beso, y que no pare la digestion....

Ritinha disse...

Não conhecia o versículo, mas encaro-o como á minha vida... ou boa ou má, mas nunca banal!
Beijo

camila teicher disse...

Gisele, eu nao comento com tanta frequencia seus textos, mas sempre venho ler. E me identifiquei muito com esse, apesar de nao ser nada religiosa e conhecer muito pouco da bíblia. Eu tenho umas filosofias particulares nas quais isso tudo escrito por voce se encaixa, de alguma maneira. Te adoro e adoro te ler. Beijos.

A metanóica disse...

Lefoucito:
Obrigada por enriquecer a digestão. Infelizmente conheço pouco do Corão. Quem sabe não é o início de uma série de reflexões (ou digestões) ecumênicas? Eu acharia ótimo!

Ritinha:
Vai ver que é por isso que suas palavras me tocam tanto: elas nunca são mornas!

Camilita:
Também sempre dou uma espiada no "La vida...". É uma boa forma de matar as saudades, pelo menos em parte. Também adoro você, e acho que você já sabe disso, né?
Beijos, beijos, beijos!

deianowhy disse...

QUERO MAIS POSTS!!!!

Anônimo disse...

O primeiro comment deste texto foi enviado e respondido e eu comecei a escrever o meu e recuei.Fiquei prestando atenção em todos que foram surgindo.
Eu gostei tanto , tanto, tanto que não sabia o que escrever para revelar isto.
Eu quero um dia poder sentar numa mesa de bar, ou num lugar qualquer, onde todos se sintam bem relaxados e ficar ouvindo, juro, sem falar nada: você, a sua amiga deianowhy e a Camila conversando... Nossa, vou ter que levar um babador! Vai ser difícil segurar a onda de tanta genialidade junta. beijos Mônica

A metanóica disse...

Deia:
Acabo de atender seu pedido.

Mônica:
Não sei se merecemos tanto! Contei pra Déia deste seu comentário. Saiba que seu nome já havia inspirado alguns escritos dela também.
Considero o seu comentário da mesa de bar como a expressão máxima do carinho, porque já usei as mesmas palavras para traduzir minha vontade de estar perto dos que admiro. Só que, diante de alguém como você, muda ficaríamos nós! Que idéia!

deianowhy disse...

Querida Monica,

ratifico tudo dito pela Gi. Obrigada por me incluir nessa otima conversa de bar.
E que a ideia nao morra aqui no blog. Assim que a Camila voltar, juntemo-nos!
Beijos

A metanóica disse...

Monica e deianowhy:
Então, tá decidido! Conversa de bar para depois do dia 14 de fevereiro, quando a "mãe dos blogs" voltar ao Rio. Sugiro um domingo, em Ipanema (como não poderia deixar de ser). Lá ficamos a vontade pra escolher. Deixo já algumas opções, vocês digam as suas:
Se for um café (e não exatamente bar), tem o "Café Ubaldo", no segundo andar do "Letras & Expressões", ou o café da "Livraria da Travessa", a grande (Travessona), que fica quase no Leblon.
Para um chopinho, qualquer lugar é lugar! Se tiver uma cachacinha e um caldinho de feijão... hum... melhor ainda!
Estou adorando isso!

Anônimo disse...

Para você e deianowhy:
Negócio fechado.Domingo,Ipanema, depois do dia 14/02,meu voto é no chopp,assim as opções se multiplicam e o papo também.Beijos Mônica
obs: Eu também estou adorando isso.

jimmy sudario disse...

Menina Bonita,
Estou cativo pela intensidade das letras. Escreves bem por demais. Não é que as expectativas não fossem exatamente grandes demais, mas não esperava tamanha expressividade literária em cantos provincianos e desconhecidos da web. Ainda bem que não segui conselhos seus, lendo apenas os escritos indicados. “Apaixonados pelo consumo dos corpos”, é simplesmente brilhante. Fala com muita propriedade acerca de tudo que escreve. “Deus nos livre da mediocridade”...o desnudar da alma humana feita em poucas letras. A inquietude do ser tomado pelo movimento, a dinâmica da trama humana. Percepção de um espirito inquieto, como o seu, e do velho e amado D.Quixote. Conseguiu teologizar nossas cotidianidades. Bem vinda, aos meandros labirinticos da inutilidade, das brincadeiras e discursos teológicos.
beijo grande
Espero que os arraiáis goianos te receba em tempos apoucados.
Jimmy Sudário

ailton disse...

Não ligue para o Jimmy,
Apenas para suas palavras.
Um abraço.
Ailton