segunda-feira, maio 16, 2005

Algo sobre muito pouco

Por conta das minhas recentes digestões acerca de overdoses informacionais e da pergunta que finalizou meu último post, decidi falar a respeito daquilo que mais me remete a excesso: falta.

Uma vez me interroguei sobre as três coisas essenciais que me fariam feliz e sem as quais não poderia viver. Pensei em amados amigos (entre os quais incluo os amantes), livros e cinema. Depois disso, fiquei toda prosa de ter conseguido excluir das minhas essencialidades algo tão fundamental quanto viajar, por exemplo. Analisei bem, por fim concluí que dá sim para viver sem as sonhadas andanças, e ainda lembrei da citação budista: “o que não está bom aqui, não estará bom lá”.

Orgulhosa da minha renúncia a "quase todos" os prazeres, caí na besteira de mencionar isso para uma ex-aluna, do tempo das aulas voluntárias de inglês no morro do Preventório. K., daquele jeito meigo dela, me respondeu: “Cinema é legal mesmo! Fui a primeira vez no mês passado!”. Senti muita vontade de chorar por minha falta de sensibilidade. K. contava seus vinte anos na época, o que significa que ela passara duas décadas sem um dos itens da minha fórmula da vida feliz. Nem digo nada sobre livros...

Naquele mesmo dia, por coincidência, ela quis muito conversar. Convidei-a para um lanche, por minha conta, obviamente, mas ela recusou porque precisava preparar o jantar. Ofereci-me para ajudar a fazer o arroz e, com isso, conheci a casa onde ela morava de favor com uma senhora de 70 anos, empregada doméstica desde que tem lembrança, que, como é de se esperar, não tem condições de se aposentar. No lar simples, faltava tudo o que eu nem percebo que tenho. Na minha listinha, eu jamais me lembraria de escrever ‘água encanada’...

Muita gente cansa de ouvir tais histórias, que já viraram banais. Mas é muito diferente ver, vivenciar. Lembrei de um dia, numa festa no Rio Scenarium, de chopp custando 5 reais, em que a Lili abaixou a cabeça na mesa, de tristeza por pensar que nenhum dos alunos dela poderia estar ali, na Lapa antes tão marginal e, por isso, outrora tão “inclusiva”, em certo sentido.

Um dos tantos textos que me chama atenção na Bíblia é um Salmo, em que Deus fala para Davi que a verdadeira paz de uma certa cidade viria com a prosperidade das vizinhas. Sei que não cometo um crime social quando decido assistir a duas sessões de cinema por semana, mas queria muito que meu prazer fosse amplamente compartilhado. O cristianismo tem como símbolo uma mesa de comunhão, onde compartilha-se, antes de mais nada. De pão e vinho; de saciar, mas também de abundância em alegria. Como disse Frei Betto, o ser humano tem fome de pão e de beleza.

Agora, meu contato é com os meninos da Grota que, além de viverem na ausência do básico, como a K. do Preventório, ainda experimentam a violência diária do tráfico de drogas. Na segunda-feira passada, numa dinâmica com a turma, a Lili e eu perguntamos se desejavam um jornal em que eles mesmos pudessem se expressar acerca da realidade que ninguém de fora conhece melhor. Para nossa surpresa, não acham uma boa idéia. “Fotografar e escrever com os caras de fuzil na mão, tia?”.

Minha lista para a felicidade suprema ganhou muitos acréscimos. Acho que nunca serei plenamente feliz, mas minha paz interior guarda uma relação diretamente proporcional à minha capacidade de não me conformar e ao desejo de agir. Enquanto isso, sigo buscando. Há trabalho para duas vidas, mas espero que pelo menos uma valha à pena.

5 comentários:

O Micróbio disse...

Amigos, cinema e livros... e que mais acréscimos vais juntar?

Clarissa disse...

Li num post anterior q ia enriquecer teu blog com links, imagens e citações alheias...acho interessante apesar de que o que você mesma escreve já me inspira muito, e já deixa o blog muito rico. Mas então vou deixar uma citação que tem a ver com esse post, com você, comigo. É a dedicatória de Paulo Freire no livro que inspira este teu novo trabalho na Grota:

"aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim, descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam"

Um beijo da sua amiga e leitora assídua, mais uma Áries com ascendente em Áries...

A metanóica disse...

o micróbio:
acrescento amigos, cinema e livros para todos.
Beijos

clarissa:
Os teus comentários como leitora assídua me inspiram, me fortalecem, me impulsionam. Enquanto amiga, você é um dos ítens da minha felicidade.

PS - Apesar de não entender muito desses assuntos, Áries com ascendente em áries deve ser coisa boa... ;)

lefou disse...

para no perder mi agrio sentido del humor, recomendare una pelicula parte de la muestra internacional, "las tortugas pueden volar"(turtles can fly) convendria hacerle una lista para la felicidad a esos niños de la pelicula..
un beso

Adriana disse...

Amei o post... de verdade...!