segunda-feira, fevereiro 16, 2009

Estória de uma vida destrambelhada e descabida

Bela M. sofria de estreitamento da visão periférica e aprofundamento do olhar perdido, por isso esbarrava nas pessoas e atropelava as coisas. Às vezes não ouvia e muito calava. Mas, com seu jeito desencontrado, sempre se achava.

Desembestada e descabida, andava na rua franzindo o cenho e falando sozinha, uns dias sorria, em outros até gesticulava. Não era de se entristecer, mas, para se manter afinada com suas sensações, de quando em quando chorava escondida, com direito a beiço e soluço, mãos nas têmporas e maquiagem borrada, peito arfante e cara amassada. De repente, encontrava nova esperança, enxugava o rosto e seguia do seu jeito, sempre ensimesmada, meio boba e pra lá de distraída.

Era mais um belo dia de Bela M., ensolarado e dolorido de tanta luz a iluminar seus escondidos brilhos. Foi quando ela se deu conta de que andara sonhando em demasia e resolveu buscar a cura para seu olhar extraviado. Decidiu buscar respostas e soluções, mergulhou em si, afogou-se e desfaleceu, sufocou e morreu. E como sabia muito bem ressuscitar, voltou a vagar pelo mundo, destrambelhada e decidida, cheia da nova vida.

***

Em 8 de novembro de 2008

Estória de uma vida destrambelhada e descabida

Bela M. sofria de estreitamento da visão periférica e aprofundamento do olhar perdido, por isso esbarrava nas pessoas e atropelava as coisas. Às vezes não ouvia e muito calava. Mas, com seu jeito desencontrado, sempre se achava.

Desembestada e descabida, andava na rua franzindo o cenho e falando sozinha, uns dias sorria, em outros até gesticulava. Não era de se entristecer, mas, para se manter afinada com suas sensações, de quando em quando chorava escondida, com direito a beiço e soluço, mãos nas têmporas e maquiagem borrada, peito arfante e cara amassada. De repente, encontrava nova esperança, enxugava o rosto e seguia do seu jeito, sempre ensimesmada, meio boba e pra lá de distraída.

Era mais um belo dia de Bela M., ensolarado e dolorido de tanta luz a iluminar seus escondidos brilhos. Foi quando ela se deu conta de que andara sonhando em demasia e resolveu buscar a cura para seu olhar extraviado. Decidiu buscar respostas e soluções, mergulhou em si, afogou-se e desfaleceu, sufocou e morreu. E como sabia muito bem ressuscitar, voltou a vagar pelo mundo, destrambelhada e decidida, cheia da nova vida.

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Em 8 de novembro de 2008

sexta-feira, novembro 07, 2008

Mudança

Mudei definitivamente de casa virtual: agora meus textos moram no novo Digerindo. É isso. Abandonando mais um espaço, sem paranóia.

terça-feira, setembro 16, 2008

Conselheiro afiado

Em horas de receio diante de cisco qualquer de novo, sinto no cangote o bafo quente de um ancião decrépito, presença constante de momentos assim, que sussurra para fazer escárnio das minhas pobres relutâncias e, por fim, dá uma gargalhada triunfante por constatar que ele não é o único a perder a vida aos poucos; pois, mesmo velho e fraco, não se retrai diante daquilo que sua experiência ensinou não passar de medo tolo e infantil, quase inofensivo - não fosse o fato de ser responsável por sugar anos e escoar juventudes.

terça-feira, julho 22, 2008

Conto do prazer em mi

Esta é a estória de Bela M., ensimesmada e distraída, que um dia mergulhou no mundo ao redor, de onde jorrava toda a realidade que tão pouco a interessava, mal enternecia, nem servia para entristecer.

Um belo dia, Bela M. decidiu que abriria os olhos, respiraria fundo e, de peito dilatado e veias latejantes, pulsaria no rumo das pessoas, no curso das coisas, na direção dos outros.

A primeira medida foi fingir, pra acreditar à toa, a torto e a direito, que o mundo era de uma fácil magia; que com as novelas era possível chorar, que a política a indignava, que sentia palpitações com a arte, a estética, a música e o cinema, que reuniões de família e álbuns de recordações faziam parte da vida dos felizes de verdade, que amava as tolices e desimportâncias dos amigos e amantes que passou a colecionar.

Bela M. rendeu-se ao viver dos outros, e à medida que lhe era mais fácil fingir, percebia que tornara-se verdade, real, filha do mundo, de Deus, das virtudes e vícios humanos.

Mais feliz que jamais soube, nem coube, dissolveu-se de si e viveu para sempre, nem sempre feliz, mas do jeito que quis.

Conto do prazer em mi

Esta é a estória de Bela M., ensimesmada e distraída, que um dia mergulhou no mundo ao redor, de onde jorrava toda a realidade que tão pouco a interessava, mal enternecia, nem servia para entristecer.

Um belo dia, Bela M. decidiu que abriria os olhos, respiraria fundo e, de peito dilatado e veias latejantes, pulsaria no rumo das pessoas, no curso das coisas, na direção dos outros.

A primeira medida foi fingir, pra acreditar à toa, a torto e a direito, que o mundo era de uma fácil magia; que com as novelas era possível chorar, que a política a indignava, que sentia palpitações com a arte, a estética, a música e o cinema, que reuniões de família e álbuns de recordações faziam parte da vida dos felizes de verdade, que amava as tolices e desimportâncias dos amigos e amantes que passou a colecionar.

Bela M. rendeu-se ao viver dos outros, e à medida que lhe era mais fácil fingir, percebia que tornara-se verdade, real, filha do mundo, de Deus, das virtudes e vícios humanos.

Mais feliz que jamais soube, nem coube, dissolveu-se de si e viveu para sempre, nem sempre feliz, mas do jeito que quis.

Adaptação

Às vezes tenho a sensação de que o ápice da criação é o princípio do clichê. Quem faz algo inovador, por mais que não seja hostilizado pelos seus contemporâneos, ainda assim corre o risco de ter sua imagem pra sempre aprisionada em uma criação.

Gosto dos heterônimos. Ouvi dizer que os artistas japoneses são os mais afeitos à idéia de mudar de nome para impedir, ou pelo menos inibir, a rotulagem das suas criações.

Amor tem disso também. No momento do encontro há boas doses de futuros motivos para o desencontro. Uma simples vontade de mudança de um vira o desespero do outro.

O mundo está cheio de pessoas pouco afeiçoadas a transformações.

domingo, julho 06, 2008

Rascunho de um romance inacabado

Para a releitura das crônicas e memórias de viagem, escolheu a sala de estar, precisamente por ser o canto da casa mais aberto e neutro. Em seu quarto, precisava pedir licença, abrir caminho entre os sonhos ali gestados, paridos e abortados, entre as lembranças de amores pela metade e sofrimentos por inteiro. Na sala, ficava exposta a todas as interferências que sempre detestou, como o barulho do rádio na estação de notícias, da louça sendo lavada, do telefone que nunca atendia, das conversas de seu irmão em tom irritantemente entusiasmado, da curiosidade eterna de seu pai em relação ao que tanto ela escrevia, quando não no computador, em um caderninho de capa de couro e, por dentro, folhas de papel envelhecido – presente de Natal dado por sua irmã, que trouxera o agrado de Florença.

Hoje, ela precisava de todas essas interferências, talvez para evitar o barulho dos tambores de seus sentimentos enquanto relia as caras recordações.

O primeiro texto, escolhido aleatoriamente, era um começo pelo fim. Versava sobre o dia da partida:

"Naquela manhã em que, de mochila nas costas e adeus nas mãos, orientei meus passos rumo ao aeroporto de Schiphol, de onde partiria com destino a Guarulhos, os cinco graus centígrados no termômetro me pareceram uma mística despedida. Desde minha chegada à Europa, três meses antes, cada cidade visitada me recebera com sol: Londres, Amsterdã, Paris, Porto, Amsterdã outra vez, Bruxelas, Paris novamente, Londres ainda, Amsterdã por fim. Dias chuvosos eram véspera da minha chegada ensolarada. A gente aprende a acreditar em uns mistérios bobos pra deixar a vida mais bonita... e nessa, o mundo acaba ganhando cor de verdade.

Os últimos dias na preferida Amsterdã foram de temperatura que oscilava entre 11 e 15 graus. O outubro mais quente em trezentos anos, disseram os noticiários. A minha alma brasileira, tão acostumada com o Rio de Janeiro, não se abalou com os oito graus da véspera da partida e a linda chuva de pedacinhos de gelo (da qual nos protegemos, Dani e eu, no café de Nieuwmarkt)".


CONTINUA