Esta é a estória de Bela M., ensimesmada e distraída, que um dia mergulhou no mundo ao redor, de onde jorrava toda a realidade que tão pouco a interessava, mal enternecia, nem servia para entristecer.
Um belo dia, Bela M. decidiu que abriria os olhos, respiraria fundo e, de peito dilatado e veias latejantes, pulsaria no rumo das pessoas, no curso das coisas, na direção dos outros.
A primeira medida foi fingir, pra acreditar à toa, a torto e a direito, que o mundo era de uma fácil magia; que com as novelas era possível chorar, que a política a indignava, que sentia palpitações com a arte, a estética, a música e o cinema, que reuniões de família e álbuns de recordações faziam parte da vida dos felizes de verdade, que amava as tolices e desimportâncias dos amigos e amantes que passou a colecionar.
Bela M. rendeu-se ao viver dos outros, e à medida que lhe era mais fácil fingir, percebia que tornara-se verdade, real, filha do mundo, de Deus, das virtudes e vícios humanos.
Mais feliz que jamais soube, nem coube, dissolveu-se de si e viveu para sempre, nem sempre feliz, mas do jeito que quis.
terça-feira, julho 22, 2008
Conto do prazer em mi
Esta é a estória de Bela M., ensimesmada e distraída, que um dia mergulhou no mundo ao redor, de onde jorrava toda a realidade que tão pouco a interessava, mal enternecia, nem servia para entristecer.
Um belo dia, Bela M. decidiu que abriria os olhos, respiraria fundo e, de peito dilatado e veias latejantes, pulsaria no rumo das pessoas, no curso das coisas, na direção dos outros.
A primeira medida foi fingir, pra acreditar à toa, a torto e a direito, que o mundo era de uma fácil magia; que com as novelas era possível chorar, que a política a indignava, que sentia palpitações com a arte, a estética, a música e o cinema, que reuniões de família e álbuns de recordações faziam parte da vida dos felizes de verdade, que amava as tolices e desimportâncias dos amigos e amantes que passou a colecionar.
Bela M. rendeu-se ao viver dos outros, e à medida que lhe era mais fácil fingir, percebia que tornara-se verdade, real, filha do mundo, de Deus, das virtudes e vícios humanos.
Mais feliz que jamais soube, nem coube, dissolveu-se de si e viveu para sempre, nem sempre feliz, mas do jeito que quis.
Um belo dia, Bela M. decidiu que abriria os olhos, respiraria fundo e, de peito dilatado e veias latejantes, pulsaria no rumo das pessoas, no curso das coisas, na direção dos outros.
A primeira medida foi fingir, pra acreditar à toa, a torto e a direito, que o mundo era de uma fácil magia; que com as novelas era possível chorar, que a política a indignava, que sentia palpitações com a arte, a estética, a música e o cinema, que reuniões de família e álbuns de recordações faziam parte da vida dos felizes de verdade, que amava as tolices e desimportâncias dos amigos e amantes que passou a colecionar.
Bela M. rendeu-se ao viver dos outros, e à medida que lhe era mais fácil fingir, percebia que tornara-se verdade, real, filha do mundo, de Deus, das virtudes e vícios humanos.
Mais feliz que jamais soube, nem coube, dissolveu-se de si e viveu para sempre, nem sempre feliz, mas do jeito que quis.
Adaptação
Às vezes tenho a sensação de que o ápice da criação é o princípio do clichê. Quem faz algo inovador, por mais que não seja hostilizado pelos seus contemporâneos, ainda assim corre o risco de ter sua imagem pra sempre aprisionada em uma criação.
Gosto dos heterônimos. Ouvi dizer que os artistas japoneses são os mais afeitos à idéia de mudar de nome para impedir, ou pelo menos inibir, a rotulagem das suas criações.
Amor tem disso também. No momento do encontro há boas doses de futuros motivos para o desencontro. Uma simples vontade de mudança de um vira o desespero do outro.
O mundo está cheio de pessoas pouco afeiçoadas a transformações.
Gosto dos heterônimos. Ouvi dizer que os artistas japoneses são os mais afeitos à idéia de mudar de nome para impedir, ou pelo menos inibir, a rotulagem das suas criações.
Amor tem disso também. No momento do encontro há boas doses de futuros motivos para o desencontro. Uma simples vontade de mudança de um vira o desespero do outro.
O mundo está cheio de pessoas pouco afeiçoadas a transformações.
domingo, julho 06, 2008
Rascunho de um romance inacabado
Para a releitura das crônicas e memórias de viagem, escolheu a sala de estar, precisamente por ser o canto da casa mais aberto e neutro. Em seu quarto, precisava pedir licença, abrir caminho entre os sonhos ali gestados, paridos e abortados, entre as lembranças de amores pela metade e sofrimentos por inteiro. Na sala, ficava exposta a todas as interferências que sempre detestou, como o barulho do rádio na estação de notícias, da louça sendo lavada, do telefone que nunca atendia, das conversas de seu irmão em tom irritantemente entusiasmado, da curiosidade eterna de seu pai em relação ao que tanto ela escrevia, quando não no computador, em um caderninho de capa de couro e, por dentro, folhas de papel envelhecido – presente de Natal dado por sua irmã, que trouxera o agrado de Florença.
Hoje, ela precisava de todas essas interferências, talvez para evitar o barulho dos tambores de seus sentimentos enquanto relia as caras recordações.
O primeiro texto, escolhido aleatoriamente, era um começo pelo fim. Versava sobre o dia da partida:
"Naquela manhã em que, de mochila nas costas e adeus nas mãos, orientei meus passos rumo ao aeroporto de Schiphol, de onde partiria com destino a Guarulhos, os cinco graus centígrados no termômetro me pareceram uma mística despedida. Desde minha chegada à Europa, três meses antes, cada cidade visitada me recebera com sol: Londres, Amsterdã, Paris, Porto, Amsterdã outra vez, Bruxelas, Paris novamente, Londres ainda, Amsterdã por fim. Dias chuvosos eram véspera da minha chegada ensolarada. A gente aprende a acreditar em uns mistérios bobos pra deixar a vida mais bonita... e nessa, o mundo acaba ganhando cor de verdade.
Os últimos dias na preferida Amsterdã foram de temperatura que oscilava entre 11 e 15 graus. O outubro mais quente em trezentos anos, disseram os noticiários. A minha alma brasileira, tão acostumada com o Rio de Janeiro, não se abalou com os oito graus da véspera da partida e a linda chuva de pedacinhos de gelo (da qual nos protegemos, Dani e eu, no café de Nieuwmarkt)".
CONTINUA
Hoje, ela precisava de todas essas interferências, talvez para evitar o barulho dos tambores de seus sentimentos enquanto relia as caras recordações.
O primeiro texto, escolhido aleatoriamente, era um começo pelo fim. Versava sobre o dia da partida:
"Naquela manhã em que, de mochila nas costas e adeus nas mãos, orientei meus passos rumo ao aeroporto de Schiphol, de onde partiria com destino a Guarulhos, os cinco graus centígrados no termômetro me pareceram uma mística despedida. Desde minha chegada à Europa, três meses antes, cada cidade visitada me recebera com sol: Londres, Amsterdã, Paris, Porto, Amsterdã outra vez, Bruxelas, Paris novamente, Londres ainda, Amsterdã por fim. Dias chuvosos eram véspera da minha chegada ensolarada. A gente aprende a acreditar em uns mistérios bobos pra deixar a vida mais bonita... e nessa, o mundo acaba ganhando cor de verdade.
Os últimos dias na preferida Amsterdã foram de temperatura que oscilava entre 11 e 15 graus. O outubro mais quente em trezentos anos, disseram os noticiários. A minha alma brasileira, tão acostumada com o Rio de Janeiro, não se abalou com os oito graus da véspera da partida e a linda chuva de pedacinhos de gelo (da qual nos protegemos, Dani e eu, no café de Nieuwmarkt)".
CONTINUA
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quinta-feira, junho 05, 2008
Conto do prazer em fá
Enfado. Ela percebeu que tudo seguia daquele jeito monocórdio. Insípido, inodoro e incolor. Apático, indolor, pálido e morno. Eram dias de extrema estabilidade, de linhas obtusamente retas. De ares primaveris vazios de qualquer flor. Em dias assim é difícil morrer. Mantém-se intacto o ciclo da mesmice. Em dias assim é difícil renascer.
Fado. Ela ouviu ao longe um canto triste que, de tão agudo, estilhaçou a velha rotina que costumava seguir sempre em frente e sem ruído.
Afago. Atrito leve, calor forte. Energia dissipada, espalhada, explodida em milhares de lampejos de cor, cheiro e música. O que era insípido, inodoro e incolor, assim permaneceu, mas matou a sede dos corpos suados, embebedados do prazer há muito esquecido.
Faz-se fato uma façanha. Do gemido nasceu um rebento furtacor. A vida recebeu de volta o direito de chorar, de sentir, de pulsar.
Fado. Ela ouviu ao longe um canto triste que, de tão agudo, estilhaçou a velha rotina que costumava seguir sempre em frente e sem ruído.
Afago. Atrito leve, calor forte. Energia dissipada, espalhada, explodida em milhares de lampejos de cor, cheiro e música. O que era insípido, inodoro e incolor, assim permaneceu, mas matou a sede dos corpos suados, embebedados do prazer há muito esquecido.
Faz-se fato uma façanha. Do gemido nasceu um rebento furtacor. A vida recebeu de volta o direito de chorar, de sentir, de pulsar.
Conto do prazer em fá
Enfado. Ela percebeu que tudo seguia daquele jeito monocórdio. Insípido, inodoro e incolor. Apático, indolor, pálido e morno. Eram dias de extrema estabilidade, de linhas obtusamente retas. De ares primaveris vazios de qualquer flor. Em dias assim é difícil morrer. Mantém-se intacto o ciclo da mesmice. Em dias assim é difícil renascer.
Fado. Ela ouviu ao longe um canto triste que, de tão agudo, estilhaçou a velha rotina que costumava seguir sempre em frente e sem ruído.
Afago. Atrito leve, calor forte. Energia dissipada, espalhada, explodida em milhares de lampejos de cor, cheiro e música. O que era insípido, inodoro e incolor, assim permaneceu, mas matou a sede dos corpos suados, embebedados do prazer há muito esquecido.
Faz-se fato uma façanha. Do gemido nasceu um rebento furtacor. A vida recebeu de volta o direito de chorar, de sentir, de pulsar.
Fado. Ela ouviu ao longe um canto triste que, de tão agudo, estilhaçou a velha rotina que costumava seguir sempre em frente e sem ruído.
Afago. Atrito leve, calor forte. Energia dissipada, espalhada, explodida em milhares de lampejos de cor, cheiro e música. O que era insípido, inodoro e incolor, assim permaneceu, mas matou a sede dos corpos suados, embebedados do prazer há muito esquecido.
Faz-se fato uma façanha. Do gemido nasceu um rebento furtacor. A vida recebeu de volta o direito de chorar, de sentir, de pulsar.
terça-feira, maio 06, 2008
Uma tarde num rio do Sul
O nome do rio era Guaíba. Lembro daquela tarde, do pôr-do-sol primeiro de muitos. Conversamos sobre a vida, sonhamos e nos maravilhamos com o nada, ao som da água calma, com a fumaça dos cigarros que acendíamos um atrás do outro devido à falta de fósforos.
Naquele fevereiro de 2002, o desconforto da barraca divida, o acampamento no Parque da Harmonia, as caminhadas pelas ruas de Porto Alegre em busca de uma famosa cachaçaria, o chimarrão, o vinho, o telão de cinema, as dúvidas sobre o futuro, a certeza da existência de muito mais, os shows e todos os acontecimentos daqueles 10 dias eram apenas coadjuvantes de um bem maior que ali nascia.
(escrito em 18.12.2006)
Naquele fevereiro de 2002, o desconforto da barraca divida, o acampamento no Parque da Harmonia, as caminhadas pelas ruas de Porto Alegre em busca de uma famosa cachaçaria, o chimarrão, o vinho, o telão de cinema, as dúvidas sobre o futuro, a certeza da existência de muito mais, os shows e todos os acontecimentos daqueles 10 dias eram apenas coadjuvantes de um bem maior que ali nascia.
(escrito em 18.12.2006)
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quarta-feira, janeiro 30, 2008
Conto do prazer em lá
Com a cabeça em algum lugar que não o terreno irregular onde pisava, num tempo intrometido que insistia em roubar o posto do agora, por fim chegou ao templo.
O monge sequer se deu o trabalho de dispensar-lhe qualquer tipo de cumprimento, um olhar ou aceno de cabeça. Continuou a sua refeição de frutas e iogurte enquanto um tipo de funcionário do lugar indicava a entrada do salão ocupado por uns bancos, uma espécie de altar e uma estátua de Buda de uns dois metros de altura. Em seguida a porta se fechou e ela ficou a sós com seus pensamentos, com a disposição de ver algum sentido naquelas inéditas estranhezas diante dos olhos.
Circulou pelo salão, chegou mais perto do altar e encarou o Buda, que como resposta permaneceu parado, com um comportamento típico e da natureza de qualquer estátua. Esperava ela algum sinal? Em busca de não se sabe o quê, continuou a vasculhar o local com os olhos, se deteve em fotos, relíquias e badulaques, mas sentido mesmo não conseguia ver, talvez por não saber procurar ali o que sempre pensou encontrar lá, no lugar dos outros tempos e lugares.
Mesmo assim, sem sentido ou direção, sentou-se e fingiu meditar, porque de tanto fingir talvez se fizesse acreditar que podia crer, mas não adiantou, e por isso quis sair correndo, e quase o fez, mas sabiamente entendeu que fugir devagar seria a maneira mais eficaz de desaparecer depressa e de vez, sem ser importunada com perguntas e gestos de compaixão por sua loucura.
E nessa de sutilmente fugir, não encontrou o suposto funcionário que a atendeu, e não estava nos seus planos dar importância para o fato, mas se esbarrou no monge, um homem de uns dois metros de altura, e ela se fixou naqueles bondosos olhos azuis, e de repente ir embora perdeu o sentido, talvez porque ali, naquele momento, o sentido havia sido encontrado.
O teor da conversa nas três horas seguintes permanece desconhecido, pois apenas a estátua de Buda a testemunhou, bem como testemunhou as carícias, os beijos, os tremores, suspiros, suores e gemidos. E, com um comportamento atípico e contra a natureza de qualquer estátua, Buda, naquele dia, sorriu.
O monge sequer se deu o trabalho de dispensar-lhe qualquer tipo de cumprimento, um olhar ou aceno de cabeça. Continuou a sua refeição de frutas e iogurte enquanto um tipo de funcionário do lugar indicava a entrada do salão ocupado por uns bancos, uma espécie de altar e uma estátua de Buda de uns dois metros de altura. Em seguida a porta se fechou e ela ficou a sós com seus pensamentos, com a disposição de ver algum sentido naquelas inéditas estranhezas diante dos olhos.
Circulou pelo salão, chegou mais perto do altar e encarou o Buda, que como resposta permaneceu parado, com um comportamento típico e da natureza de qualquer estátua. Esperava ela algum sinal? Em busca de não se sabe o quê, continuou a vasculhar o local com os olhos, se deteve em fotos, relíquias e badulaques, mas sentido mesmo não conseguia ver, talvez por não saber procurar ali o que sempre pensou encontrar lá, no lugar dos outros tempos e lugares.
Mesmo assim, sem sentido ou direção, sentou-se e fingiu meditar, porque de tanto fingir talvez se fizesse acreditar que podia crer, mas não adiantou, e por isso quis sair correndo, e quase o fez, mas sabiamente entendeu que fugir devagar seria a maneira mais eficaz de desaparecer depressa e de vez, sem ser importunada com perguntas e gestos de compaixão por sua loucura.
E nessa de sutilmente fugir, não encontrou o suposto funcionário que a atendeu, e não estava nos seus planos dar importância para o fato, mas se esbarrou no monge, um homem de uns dois metros de altura, e ela se fixou naqueles bondosos olhos azuis, e de repente ir embora perdeu o sentido, talvez porque ali, naquele momento, o sentido havia sido encontrado.
O teor da conversa nas três horas seguintes permanece desconhecido, pois apenas a estátua de Buda a testemunhou, bem como testemunhou as carícias, os beijos, os tremores, suspiros, suores e gemidos. E, com um comportamento atípico e contra a natureza de qualquer estátua, Buda, naquele dia, sorriu.
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