Com a cabeça em algum lugar que não o terreno irregular onde pisava, num tempo intrometido que insistia em roubar o posto do agora, por fim chegou ao templo.
O monge sequer se deu o trabalho de dispensar-lhe qualquer tipo de cumprimento, um olhar ou aceno de cabeça. Continuou a sua refeição de frutas e iogurte enquanto um tipo de funcionário do lugar indicava a entrada do salão ocupado por uns bancos, uma espécie de altar e uma estátua de Buda de uns dois metros de altura. Em seguida a porta se fechou e ela ficou a sós com seus pensamentos, com a disposição de ver algum sentido naquelas inéditas estranhezas diante dos olhos.
Circulou pelo salão, chegou mais perto do altar e encarou o Buda, que como resposta permaneceu parado, com um comportamento típico e da natureza de qualquer estátua. Esperava ela algum sinal? Em busca de não se sabe o quê, continuou a vasculhar o local com os olhos, se deteve em fotos, relíquias e badulaques, mas sentido mesmo não conseguia ver, talvez por não saber procurar ali o que sempre pensou encontrar lá, no lugar dos outros tempos e lugares.
Mesmo assim, sem sentido ou direção, sentou-se e fingiu meditar, porque de tanto fingir talvez se fizesse acreditar que podia crer, mas não adiantou, e por isso quis sair correndo, e quase o fez, mas sabiamente entendeu que fugir devagar seria a maneira mais eficaz de desaparecer depressa e de vez, sem ser importunada com perguntas e gestos de compaixão por sua loucura.
E nessa de sutilmente fugir, não encontrou o suposto funcionário que a atendeu, e não estava nos seus planos dar importância para o fato, mas se esbarrou no monge, um homem de uns dois metros de altura, e ela se fixou naqueles bondosos olhos azuis, e de repente ir embora perdeu o sentido, talvez porque ali, naquele momento, o sentido havia sido encontrado.
O teor da conversa nas três horas seguintes permanece desconhecido, pois apenas a estátua de Buda a testemunhou, bem como testemunhou as carícias, os beijos, os tremores, suspiros, suores e gemidos. E, com um comportamento atípico e contra a natureza de qualquer estátua, Buda, naquele dia, sorriu.
quarta-feira, janeiro 30, 2008
Conto do prazer em lá
Com a cabeça em algum lugar que não o terreno irregular onde pisava, num tempo intrometido que insistia em roubar o posto do agora, por fim chegou ao templo.
O monge sequer se deu o trabalho de dispensar-lhe qualquer tipo de cumprimento, um olhar ou aceno de cabeça. Continuou a sua refeição de frutas e iogurte enquanto um tipo de funcionário do lugar indicava a entrada do salão ocupado por uns bancos, uma espécie de altar e uma estátua de Buda de uns dois metros de altura. Em seguida a porta se fechou e ela ficou a sós com seus pensamentos, com a disposição de ver algum sentido naquelas inéditas estranhezas diante dos olhos.
Circulou pelo salão, chegou mais perto do altar e encarou o Buda, que como resposta permaneceu parado, com um comportamento típico e da natureza de qualquer estátua. Esperava ela algum sinal? Em busca de não se sabe o quê, continuou a vasculhar o local com os olhos, se deteve em fotos, relíquias e badulaques, mas sentido mesmo não conseguia ver, talvez por não saber procurar ali o que sempre pensou encontrar lá, no lugar dos outros tempos e lugares.
Mesmo assim, sem sentido ou direção, sentou-se e fingiu meditar, porque de tanto fingir talvez se fizesse acreditar que podia crer, mas não adiantou, e por isso quis sair correndo, e quase o fez, mas sabiamente entendeu que fugir devagar seria a maneira mais eficaz de desaparecer depressa e de vez, sem ser importunada com perguntas e gestos de compaixão por sua loucura.
E nessa de sutilmente fugir, não encontrou o suposto funcionário que a atendeu, e não estava nos seus planos dar importância para o fato, mas se esbarrou no monge, um homem de uns dois metros de altura, e ela se fixou naqueles bondosos olhos azuis, e de repente ir embora perdeu o sentido, talvez porque ali, naquele momento, o sentido havia sido encontrado.
O teor da conversa nas três horas seguintes permanece desconhecido, pois apenas a estátua de Buda a testemunhou, bem como testemunhou as carícias, os beijos, os tremores, suspiros, suores e gemidos. E, com um comportamento atípico e contra a natureza de qualquer estátua, Buda, naquele dia, sorriu.
O monge sequer se deu o trabalho de dispensar-lhe qualquer tipo de cumprimento, um olhar ou aceno de cabeça. Continuou a sua refeição de frutas e iogurte enquanto um tipo de funcionário do lugar indicava a entrada do salão ocupado por uns bancos, uma espécie de altar e uma estátua de Buda de uns dois metros de altura. Em seguida a porta se fechou e ela ficou a sós com seus pensamentos, com a disposição de ver algum sentido naquelas inéditas estranhezas diante dos olhos.
Circulou pelo salão, chegou mais perto do altar e encarou o Buda, que como resposta permaneceu parado, com um comportamento típico e da natureza de qualquer estátua. Esperava ela algum sinal? Em busca de não se sabe o quê, continuou a vasculhar o local com os olhos, se deteve em fotos, relíquias e badulaques, mas sentido mesmo não conseguia ver, talvez por não saber procurar ali o que sempre pensou encontrar lá, no lugar dos outros tempos e lugares.
Mesmo assim, sem sentido ou direção, sentou-se e fingiu meditar, porque de tanto fingir talvez se fizesse acreditar que podia crer, mas não adiantou, e por isso quis sair correndo, e quase o fez, mas sabiamente entendeu que fugir devagar seria a maneira mais eficaz de desaparecer depressa e de vez, sem ser importunada com perguntas e gestos de compaixão por sua loucura.
E nessa de sutilmente fugir, não encontrou o suposto funcionário que a atendeu, e não estava nos seus planos dar importância para o fato, mas se esbarrou no monge, um homem de uns dois metros de altura, e ela se fixou naqueles bondosos olhos azuis, e de repente ir embora perdeu o sentido, talvez porque ali, naquele momento, o sentido havia sido encontrado.
O teor da conversa nas três horas seguintes permanece desconhecido, pois apenas a estátua de Buda a testemunhou, bem como testemunhou as carícias, os beijos, os tremores, suspiros, suores e gemidos. E, com um comportamento atípico e contra a natureza de qualquer estátua, Buda, naquele dia, sorriu.
Vênus e madrepérolas
Dia desses conheci uma mãe que me desconcertou. Puta merda, não duvido um milímetro dessa coisa de que mãe tem uma percepção diferente, mas olhar praquela mãe foi particularmente desconcertante porque a sensação era de reconhecimento e eu, que não acredito em vidas passadas, me vi vasculhada, lida e reconhecida a cada olhadela de relance daquela mãe.
Ela era belíssima, ou pelo menos a imagem registrada e mantida é de uma mulher belíssima, palpitante e parcimoniosa ao mesmo tempo, de voz mansa porém firme, mas, parando pra pensar, acho que nem sei dizer como ela é. Sim, lembro bem dos olhões azuis impressionantes, tanto mais porque cada vez que eu me deparava com eles me batia uma inquietação que me paralizava, se é que isso é possível, porque o desejo de fugir daqueles olhos tinha a mesma intensidade da vontade de espiá-los.
Meu fascínio pelas mães e mulheres é recente. Sempre tive muitos amigos homens e, coincidentemente, as minhas poucas amigas mulheres eram aquelas que tinham muitos amigos homens. Não saberia precisar em que momento a chave virou e eu passei a admirá-las (mulheres, mães de fato ou em potencial). Inventei aquele marco meio pomposo: o contato com Clarice Lispector, depois Simone de Beauvoir, Virginia Wolf, Adélia Prado. Afetação ou não, acho mesmo que faz sentido. Contribuiu também o fato de ter conhecido mulheres fantásticas, daquele jeito que o Vinícius falava, "mulher que se sabe mulher", feito a Helô, que por acaso também é mãe.
Uma vez escrevi que durante a minha adolescência, e até bem pouco tempo atrás na verdade, nunca me imaginei mãe de menina. Muito provavelmente porque me assustava a idéia de ter que lidar com uma mocinha tão angustiada, dramática e visceral feito eu. Mas, nessa auto-análise, bem lúcida até, não considerei que fui criada desde os 11 anos pelo meu pai e que o fato de crescer num ambiente sem a figura materna há de alterar percepções e formas de relação.
Tardiamente ou não, parei pra prestar atenção nelas e muito freqüentemente sinto um certo "orgulho da espécie" quando vejo uma mulher que encanta. É isso. Orgulho é a palavra. Só consigo admirar. Disseram uma vez e concordei: as belas têm uma função importante no mundo. Acrescento: as inteligentes, as sensíveis, as neuróticas, as afetadas também - e até mesmo as angustiadas, dramáticas e viscerais.
Ela era belíssima, ou pelo menos a imagem registrada e mantida é de uma mulher belíssima, palpitante e parcimoniosa ao mesmo tempo, de voz mansa porém firme, mas, parando pra pensar, acho que nem sei dizer como ela é. Sim, lembro bem dos olhões azuis impressionantes, tanto mais porque cada vez que eu me deparava com eles me batia uma inquietação que me paralizava, se é que isso é possível, porque o desejo de fugir daqueles olhos tinha a mesma intensidade da vontade de espiá-los.
Meu fascínio pelas mães e mulheres é recente. Sempre tive muitos amigos homens e, coincidentemente, as minhas poucas amigas mulheres eram aquelas que tinham muitos amigos homens. Não saberia precisar em que momento a chave virou e eu passei a admirá-las (mulheres, mães de fato ou em potencial). Inventei aquele marco meio pomposo: o contato com Clarice Lispector, depois Simone de Beauvoir, Virginia Wolf, Adélia Prado. Afetação ou não, acho mesmo que faz sentido. Contribuiu também o fato de ter conhecido mulheres fantásticas, daquele jeito que o Vinícius falava, "mulher que se sabe mulher", feito a Helô, que por acaso também é mãe.
Uma vez escrevi que durante a minha adolescência, e até bem pouco tempo atrás na verdade, nunca me imaginei mãe de menina. Muito provavelmente porque me assustava a idéia de ter que lidar com uma mocinha tão angustiada, dramática e visceral feito eu. Mas, nessa auto-análise, bem lúcida até, não considerei que fui criada desde os 11 anos pelo meu pai e que o fato de crescer num ambiente sem a figura materna há de alterar percepções e formas de relação.
Tardiamente ou não, parei pra prestar atenção nelas e muito freqüentemente sinto um certo "orgulho da espécie" quando vejo uma mulher que encanta. É isso. Orgulho é a palavra. Só consigo admirar. Disseram uma vez e concordei: as belas têm uma função importante no mundo. Acrescento: as inteligentes, as sensíveis, as neuróticas, as afetadas também - e até mesmo as angustiadas, dramáticas e viscerais.
sexta-feira, janeiro 25, 2008
Linhas tortas e vidas paralelas
Não sei se por rebeldia, mas o meu trajeto só se compreende pelas margens. Parando pra pensar, muitos dos meus objetivos atingi aos trancos e se não me sinto frustrada isso se deve ao fato de ter vivido intensamente as rebarbas dos meus alvos.
Sintomático: eu precisando estudar pro mestrado e eis que dou uma "breve pausa" para repensar a decoração do meu quarto. Ok, meu quarto é meu templo e sinto muita necessidade de estar bem nele. Mas no domingo eu comecei a pintar as paredes, na segunda à noite terminei, depois arrumei o armário, limpei os cantos, sacudi a poeira. Como se não bastasse, resolvi me render de vez aos encantos da culinária. Nos últimos dias fiz vários pratos com berijela, abobrinha para todos os gostos, caldo de beterraba, sopa de abóbora com gengibre, cenoura com atum. Fico brincando com temperos e misturas. Uma pena que o mestrado não seja em decoração ou gastronomia. Se fosse, me animaria mais com a filosofia tão necessária.
Sem medo de errar na avaliação, digo que os melhores textos de blog eu escrevi quando o trabalho me brochava. Se fosse escritora, era capaz de montar uma banda de rock pra me inspirar.
Os livros mais marcantes foram devorados em momentos absolutamente inoportunos. Nas aulas de teoria da comunicação, sociologia e comunicação, filosofia da comunicação, comunicação social comparada, análise do discurso, ética jornalística e por aí vai, a leitura obrigatória muitas vezes ficou pra última hora não porque eu quisesse me dedicar a outras atividades que não a de sentar o rabo e ler. Com a minha essência procrastinadora, eu logo catava um outro livro pra me distrair - por puro prazer de enrolar, imagino. Lembro que uma vez fui até sacaneada pelo Éric, um calouro meu, que me viu carregar tantos livros diferentes num mesmo período que um dia comentou: "Ou você vai repetir o período ou você traz esses livros só pra tirar onda de que lê". Não cheguei a repetir matéria naquele período, mas era certo que uma parte da minha vida andava sendo empurrada com a barriga, e por acaso era o trabalho. Mas repeti muito quando o trabalho me empolgou. Eu não sei mesmo me administrar.
Quase todos os livros do Saramago que li são do tempo da faculdade e o mesmo aconteceu com a maior parte dos do Gabriel García Marquez. Os do Dostoiévski também entram na conta do período. Terminada a faculdade - que demorou mais de seis anos pra ser concluída, importante dizer - passo tempos sem leitura.
Internet, download de música, balé moderno, meditação, quadrinhos, música erudita ou cinema russo constam na lista de atividades impróprias para determinados momentos da minha vida, quando eu precisava de maior foco e concentração. Talvez eu devesse desistir de vez de tudo que me exija foco e concentração, mas aí corro o risco de me tornar, além de desfocada e desconcentrada, um fantasma desinteressado do mundo.
Não sei por quanto tempo ainda me mantenho na periferia do meu próprio destino. Mas até agora só o desvio me fez prosseguir.
Sintomático: eu precisando estudar pro mestrado e eis que dou uma "breve pausa" para repensar a decoração do meu quarto. Ok, meu quarto é meu templo e sinto muita necessidade de estar bem nele. Mas no domingo eu comecei a pintar as paredes, na segunda à noite terminei, depois arrumei o armário, limpei os cantos, sacudi a poeira. Como se não bastasse, resolvi me render de vez aos encantos da culinária. Nos últimos dias fiz vários pratos com berijela, abobrinha para todos os gostos, caldo de beterraba, sopa de abóbora com gengibre, cenoura com atum. Fico brincando com temperos e misturas. Uma pena que o mestrado não seja em decoração ou gastronomia. Se fosse, me animaria mais com a filosofia tão necessária.
Sem medo de errar na avaliação, digo que os melhores textos de blog eu escrevi quando o trabalho me brochava. Se fosse escritora, era capaz de montar uma banda de rock pra me inspirar.
Os livros mais marcantes foram devorados em momentos absolutamente inoportunos. Nas aulas de teoria da comunicação, sociologia e comunicação, filosofia da comunicação, comunicação social comparada, análise do discurso, ética jornalística e por aí vai, a leitura obrigatória muitas vezes ficou pra última hora não porque eu quisesse me dedicar a outras atividades que não a de sentar o rabo e ler. Com a minha essência procrastinadora, eu logo catava um outro livro pra me distrair - por puro prazer de enrolar, imagino. Lembro que uma vez fui até sacaneada pelo Éric, um calouro meu, que me viu carregar tantos livros diferentes num mesmo período que um dia comentou: "Ou você vai repetir o período ou você traz esses livros só pra tirar onda de que lê". Não cheguei a repetir matéria naquele período, mas era certo que uma parte da minha vida andava sendo empurrada com a barriga, e por acaso era o trabalho. Mas repeti muito quando o trabalho me empolgou. Eu não sei mesmo me administrar.
Quase todos os livros do Saramago que li são do tempo da faculdade e o mesmo aconteceu com a maior parte dos do Gabriel García Marquez. Os do Dostoiévski também entram na conta do período. Terminada a faculdade - que demorou mais de seis anos pra ser concluída, importante dizer - passo tempos sem leitura.
Internet, download de música, balé moderno, meditação, quadrinhos, música erudita ou cinema russo constam na lista de atividades impróprias para determinados momentos da minha vida, quando eu precisava de maior foco e concentração. Talvez eu devesse desistir de vez de tudo que me exija foco e concentração, mas aí corro o risco de me tornar, além de desfocada e desconcentrada, um fantasma desinteressado do mundo.
Não sei por quanto tempo ainda me mantenho na periferia do meu próprio destino. Mas até agora só o desvio me fez prosseguir.
sexta-feira, outubro 26, 2007
Álbum de família - parte I
A Dani e eu, há uns seis anos, fizemos o trato de morarmos no mesmo prédio depois de casadas. Dizíamos também que na casa de uma e de outra haveria um quarto de hóspedes e nos revezaríamos nas visitas frequentes. Não me lembro bem, mas acho que a idéia partiu dela, que não gostava de pensar na possibilidade de ficar longe de mim. Apesar da Dani ser quatro anos e meio mais velha, eu a protegia. Ela corria pra minha cama quando tinha pesadelo – ela sempre tinha pesadelo – e muitas vezes cismava de dormir de luz acesa. Quando eu tinha 18 anos, no Kibbutz, recebi uma carta sua que dizia algo como: “agora não tenho mais como pular na sua cama quando sinto medo. Para amenizar a situação, pedi para papai comprar uma lâmpada fraquinha, assim não durmo no escuro. O cara da loja indicou a luz azul pois, segundo a cromoterapia, acalma o bebê. Papai só ficou com vergonha de dizer que o bebê tinha 23 anos”.
Ela sempre se assustava com tudo, via fantasmas. Eu não, era mais deste mundo, então a Dani, quando éramos crianças, tinha que se esforçar muito para me convencer a ficar no banheiro enquanto ela tomava banho – e aqueles banhos demorados que só ela sabe tomar. Ela me enrolava de muitas maneiras e era criativa demais. Primeiro tentou me convencer dizendo que, na minha vez de tomar banho, me esperaria. Mas não colou porque eu nunca sentia medo, logo não precisava do favor. Então passou a me pedir para cantar as musiquinhas que eu havia aprendido na escola, e era um tal de: “repete aquela primeira! Gostei tanto!”, “mais uma vez!”, e assim o banho acabava. Foram muitos os truques, piadas e segredos que ela inventou pra me manter no banheiro durante várias noites da minha infância.
Na verdade, eu sentia medo sim, mas era de umas coisas que ela fazia. Meu irmão do meio e eu muito frequentemente chorávamos depois de brincar de algum jogo de tabuleiro com dados ou roleta. A Dani, na sua vez de jogar, olhava pra gente com um sorriso pavoroso e repetia o número que ela queria: “Seis, seis, seis”. E dava o seis. Na nossa vez, valia a mentalização dela também, mas com objetivo inverso: “um, um, um”. E dava o um. Saíamos choramingando, meu irmão e eu: “Mãaaae! Olha a Dani fazendo macumba!”.
Seus poderes tornaram a minha infância mágica. Eu não podia ver o que minha irmã via, não recebia a visita da dindinha e da vovó mortas, mas imaginava tudo. E ela ainda tinha essa tal de força mental assustadora. Como se não bastasse, era manipuladora e sacana ao extremo. Coitadas das outras crianças, que eram persuadidas a fazer trocas absurdas e perdiam os melhores papéis de carta pra ela. Comiam balas recheadas com pimenta e, sem entender muito bem o que acontecia, ainda pediam mais. Tenho fotos do Artur, meu irmão, vermelho de tanto chorar, aos três anos, com colares enormes, brincos de pressão e uma maquiagem bizarra. Obra de quem?
Artur, sempre o primeiro a dormir e com seu sono pesado, sofria. Não raro acordava aos berros, todo cagado de pasta de dente ou maquiado, ou simplesmente puto pelo sono interrompido depois de horas de cosquinha no nariz feita com o pincel da escola. Óbvio que eu, só por assistir, acabava apanhando no dia seguinte. Na Dani, dois anos mais velha, ele não podia bater.
Como Artur nasceu com problemas respiratórios, a cena dele dormindo era motivo de riso: boca aberta, baba que não acabava mais, ronco. Mas a Dani conseguia transformar em chacota também o momento em que ele acordava. Muitas vezes nós duas ficávamos conversando enquanto ele já estava no décimo sono. De repente abria os olhos e pedia pra apagarmos a luz. A Dani então me cutucava, dava uma risadinha, e começava a falar mais baixo, olhando pra ele: “Ih, olha só! Ele tá sonâmbulo. Vamos tomar cuidado pra ele não despertar”. Artur tentava explicar que já havia acordado e queria apenas que apagássemos a luz. E ela continuava: “Não responde, Gisele, porque pode ser perigoso. Não devemos acordar os sonâmbulos”. E ficavam um tempão nessa até que ele se exaltava: “eu não tô dormindoooo”, e ia reclamar com meus pais.
Sabe-se lá o porquê da Dani nunca receber punição. Acho que meu pai era zen demais e minha mãe muito rude e ingênua pra processar aquelas artimanhas. Ou talvez o código dos pais preveja penas somente para atos de agressão física e não para tortura psicológica mirim.
E eu, pra variar, levava um sacode do Artur no dia seguinte...
(continua no próximo post)
Ela sempre se assustava com tudo, via fantasmas. Eu não, era mais deste mundo, então a Dani, quando éramos crianças, tinha que se esforçar muito para me convencer a ficar no banheiro enquanto ela tomava banho – e aqueles banhos demorados que só ela sabe tomar. Ela me enrolava de muitas maneiras e era criativa demais. Primeiro tentou me convencer dizendo que, na minha vez de tomar banho, me esperaria. Mas não colou porque eu nunca sentia medo, logo não precisava do favor. Então passou a me pedir para cantar as musiquinhas que eu havia aprendido na escola, e era um tal de: “repete aquela primeira! Gostei tanto!”, “mais uma vez!”, e assim o banho acabava. Foram muitos os truques, piadas e segredos que ela inventou pra me manter no banheiro durante várias noites da minha infância.
Na verdade, eu sentia medo sim, mas era de umas coisas que ela fazia. Meu irmão do meio e eu muito frequentemente chorávamos depois de brincar de algum jogo de tabuleiro com dados ou roleta. A Dani, na sua vez de jogar, olhava pra gente com um sorriso pavoroso e repetia o número que ela queria: “Seis, seis, seis”. E dava o seis. Na nossa vez, valia a mentalização dela também, mas com objetivo inverso: “um, um, um”. E dava o um. Saíamos choramingando, meu irmão e eu: “Mãaaae! Olha a Dani fazendo macumba!”.
Seus poderes tornaram a minha infância mágica. Eu não podia ver o que minha irmã via, não recebia a visita da dindinha e da vovó mortas, mas imaginava tudo. E ela ainda tinha essa tal de força mental assustadora. Como se não bastasse, era manipuladora e sacana ao extremo. Coitadas das outras crianças, que eram persuadidas a fazer trocas absurdas e perdiam os melhores papéis de carta pra ela. Comiam balas recheadas com pimenta e, sem entender muito bem o que acontecia, ainda pediam mais. Tenho fotos do Artur, meu irmão, vermelho de tanto chorar, aos três anos, com colares enormes, brincos de pressão e uma maquiagem bizarra. Obra de quem?
Artur, sempre o primeiro a dormir e com seu sono pesado, sofria. Não raro acordava aos berros, todo cagado de pasta de dente ou maquiado, ou simplesmente puto pelo sono interrompido depois de horas de cosquinha no nariz feita com o pincel da escola. Óbvio que eu, só por assistir, acabava apanhando no dia seguinte. Na Dani, dois anos mais velha, ele não podia bater.
Como Artur nasceu com problemas respiratórios, a cena dele dormindo era motivo de riso: boca aberta, baba que não acabava mais, ronco. Mas a Dani conseguia transformar em chacota também o momento em que ele acordava. Muitas vezes nós duas ficávamos conversando enquanto ele já estava no décimo sono. De repente abria os olhos e pedia pra apagarmos a luz. A Dani então me cutucava, dava uma risadinha, e começava a falar mais baixo, olhando pra ele: “Ih, olha só! Ele tá sonâmbulo. Vamos tomar cuidado pra ele não despertar”. Artur tentava explicar que já havia acordado e queria apenas que apagássemos a luz. E ela continuava: “Não responde, Gisele, porque pode ser perigoso. Não devemos acordar os sonâmbulos”. E ficavam um tempão nessa até que ele se exaltava: “eu não tô dormindoooo”, e ia reclamar com meus pais.
Sabe-se lá o porquê da Dani nunca receber punição. Acho que meu pai era zen demais e minha mãe muito rude e ingênua pra processar aquelas artimanhas. Ou talvez o código dos pais preveja penas somente para atos de agressão física e não para tortura psicológica mirim.
E eu, pra variar, levava um sacode do Artur no dia seguinte...
(continua no próximo post)
quinta-feira, agosto 30, 2007
Conto do prazer em ré
Volto no tempo, dois anos antes, quando nos conhecemos. Amigos em comum, interesses mesmos e vem a empatia fácil. Descamba para admiração. Ok, nada demais. A linha de segurança é forte. Sem tesão não há solução. De minha parte não há tesão, logo tudo está prévia e irremediavelmente solucionado. Porque não existe perigo, nem penso em me proteger. A serpente sequer dá-se ao trabalho de chegar em silêncio. Ao contrário, faz música com seu chiado. E, porque gosto de ouvir, aproveita e vem se enroscando. E porque gosto de sentir, já não a afasto mais.
Ela já faz parte de mim, embora eu recuse os frutos que vez e outra me oferece. Com sua alma de serpente, ela sabe que qualquer dia provo do caminho do pecado, então apenas espera, pacientemente, o tempo preciso.
Chega por fim o momento da sedução, do degustar o fruto, da consciência da nudez num paraíso que já não há. Com olhos que vêem o Bem e o Mal, escolho o Pior. Deus se cala e apenas chora, daquele jeito dolorido de quem paga o preço de confiar na humanidade e conceder-lhe liberdade.
E então, o agora. Ergo-me. Já é chegada a hora da redenção e vida eterna não se concede a quem rasteja. Sigo com fé porque o torpor de todo veneno um dia se extingue.
Ela já faz parte de mim, embora eu recuse os frutos que vez e outra me oferece. Com sua alma de serpente, ela sabe que qualquer dia provo do caminho do pecado, então apenas espera, pacientemente, o tempo preciso.
Chega por fim o momento da sedução, do degustar o fruto, da consciência da nudez num paraíso que já não há. Com olhos que vêem o Bem e o Mal, escolho o Pior. Deus se cala e apenas chora, daquele jeito dolorido de quem paga o preço de confiar na humanidade e conceder-lhe liberdade.
E então, o agora. Ergo-me. Já é chegada a hora da redenção e vida eterna não se concede a quem rasteja. Sigo com fé porque o torpor de todo veneno um dia se extingue.
Conto do prazer em ré
Volto no tempo, dois anos antes, quando nos conhecemos. Amigos em comum, interesses mesmos e vem a empatia fácil. Descamba para admiração. Ok, nada demais. A linha de segurança é forte. Sem tesão não há solução. De minha parte não há tesão, logo tudo está prévia e irremediavelmente solucionado. Porque não existe perigo, nem penso em me proteger. A serpente sequer dá-se ao trabalho de chegar em silêncio. Ao contrário, faz música com seu chiado. E, porque gosto de ouvir, aproveita e vem se enroscando. E porque gosto de sentir, já não a afasto mais.
Ela já faz parte de mim, embora eu recuse os frutos que vez e outra me oferece. Com sua alma de serpente, ela sabe que qualquer dia provo do caminho do pecado, então apenas espera, pacientemente, o tempo preciso.
Chega por fim o momento da sedução, do degustar o fruto, da consciência da nudez num paraíso que já não há. Com olhos que vêem o Bem e o Mal, escolho o Pior. Deus se cala e apenas chora, daquele jeito dolorido de quem paga o preço de confiar na humanidade e conceder-lhe liberdade.
E então, o agora. Ergo-me. Já é chegada a hora da redenção e vida eterna não se concede a quem rasteja. Sigo com fé porque o torpor de todo veneno um dia se extingue.
Ela já faz parte de mim, embora eu recuse os frutos que vez e outra me oferece. Com sua alma de serpente, ela sabe que qualquer dia provo do caminho do pecado, então apenas espera, pacientemente, o tempo preciso.
Chega por fim o momento da sedução, do degustar o fruto, da consciência da nudez num paraíso que já não há. Com olhos que vêem o Bem e o Mal, escolho o Pior. Deus se cala e apenas chora, daquele jeito dolorido de quem paga o preço de confiar na humanidade e conceder-lhe liberdade.
E então, o agora. Ergo-me. Já é chegada a hora da redenção e vida eterna não se concede a quem rasteja. Sigo com fé porque o torpor de todo veneno um dia se extingue.
quarta-feira, agosto 29, 2007
Das primaveras aos 26
Faz alguns dias, por conta do meu aniversário que vinha chegando (e chegou ontem), lembrei que há dois anos planejei escrever um texto sobre o significado da data pra mim.
Aos 24 anos, tive vontade de escrever sobre o que me fazia não gostar de aniversários. Pensei em falar do meu aborrecimento com organização de festa pra mim mesma, em ter que dizer para as pessoas que faço questão da presença delas quando na verdade entendo que todos têm suas urgências, em fazer as pessoas saírem de casa em dia de semana. E tinha também a implicância com bolos, parabéns e celular tocando o dia inteiro. Desejei confessar a minha total inabilidade em reunir grupos diferentes e meu incômodo de me saber um elo desajustado entre eles. Quis muito externar o quanto achava sem sentido comprar roupas e sapatos novos para a data especial, porque depois eles não serviriam para os outros dias da minha vida que, de modo geral, é feita de jornadas extraordinariamente comuns.
Ontem, aos 26 anos, eu continuava achando o mesmo. Ainda assim, mandei e-mail pros chegados e marquei encontro de última hora no bar que mais gosto, em plena terça-feira chuvosa. Liguei pra confirmar algumas queridas presenças. Recebi com alegria todos os parabéns e fiquei feliz porque o celular tocou irritantemente o dia inteiro.
Comprei um sapato novo que ficará lindo com as minhas calças jeans. Usei um vestido da Beca, que adora me fazer experimentar suas roupas e brincar de me maquiar. Ela sempre me dizia que queria um dia fazer eu ficar poderosa. E conseguiu. A Pri chegou e saímos de casa, eu quase borrando os olhos de emoção, de tão bonita que fiquei depois dos cuidados da Beca, de seus cremes, maquiagens e perfumes. Pensei que esse negócio de ser gostada faz mesmo a gente se sentir com poderes especiais.
No bar, amigos de faculdade, do trabalho, da dança, da vizinhança. Amigos dos amigos, namorados das amigas, namoradas dos amigos, mais aquela gente que simplesmente encontrei pela vida. Dorien, Nique, João, Rê, Ed, Léo, Clarice, Diogo, Geraldine, Gus, Magoo, Di, Dê, Beto, Roblis, Tante...
Eu, totalmente inábil para reunir grupos diferentes, pulei de mesa em mesa, falei besteira, apresentei todo mundo pra todo mundo, contando sempre um caso, dizendo por que cada um ali era especial. Bebi uns drinks com tequila e fiz ainda mais jus ao meu posto de elo desajustado (e feliz!) entre eles.
Só faltou o bolo, mas aí também já seria demais...
Aos 24 anos, tive vontade de escrever sobre o que me fazia não gostar de aniversários. Pensei em falar do meu aborrecimento com organização de festa pra mim mesma, em ter que dizer para as pessoas que faço questão da presença delas quando na verdade entendo que todos têm suas urgências, em fazer as pessoas saírem de casa em dia de semana. E tinha também a implicância com bolos, parabéns e celular tocando o dia inteiro. Desejei confessar a minha total inabilidade em reunir grupos diferentes e meu incômodo de me saber um elo desajustado entre eles. Quis muito externar o quanto achava sem sentido comprar roupas e sapatos novos para a data especial, porque depois eles não serviriam para os outros dias da minha vida que, de modo geral, é feita de jornadas extraordinariamente comuns.
Ontem, aos 26 anos, eu continuava achando o mesmo. Ainda assim, mandei e-mail pros chegados e marquei encontro de última hora no bar que mais gosto, em plena terça-feira chuvosa. Liguei pra confirmar algumas queridas presenças. Recebi com alegria todos os parabéns e fiquei feliz porque o celular tocou irritantemente o dia inteiro.
Comprei um sapato novo que ficará lindo com as minhas calças jeans. Usei um vestido da Beca, que adora me fazer experimentar suas roupas e brincar de me maquiar. Ela sempre me dizia que queria um dia fazer eu ficar poderosa. E conseguiu. A Pri chegou e saímos de casa, eu quase borrando os olhos de emoção, de tão bonita que fiquei depois dos cuidados da Beca, de seus cremes, maquiagens e perfumes. Pensei que esse negócio de ser gostada faz mesmo a gente se sentir com poderes especiais.
No bar, amigos de faculdade, do trabalho, da dança, da vizinhança. Amigos dos amigos, namorados das amigas, namoradas dos amigos, mais aquela gente que simplesmente encontrei pela vida. Dorien, Nique, João, Rê, Ed, Léo, Clarice, Diogo, Geraldine, Gus, Magoo, Di, Dê, Beto, Roblis, Tante...
Eu, totalmente inábil para reunir grupos diferentes, pulei de mesa em mesa, falei besteira, apresentei todo mundo pra todo mundo, contando sempre um caso, dizendo por que cada um ali era especial. Bebi uns drinks com tequila e fiz ainda mais jus ao meu posto de elo desajustado (e feliz!) entre eles.
Só faltou o bolo, mas aí também já seria demais...
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