Não sei se por rebeldia, mas o meu trajeto só se compreende pelas margens. Parando pra pensar, muitos dos meus objetivos atingi aos trancos e se não me sinto frustrada isso se deve ao fato de ter vivido intensamente as rebarbas dos meus alvos.
Sintomático: eu precisando estudar pro mestrado e eis que dou uma "breve pausa" para repensar a decoração do meu quarto. Ok, meu quarto é meu templo e sinto muita necessidade de estar bem nele. Mas no domingo eu comecei a pintar as paredes, na segunda à noite terminei, depois arrumei o armário, limpei os cantos, sacudi a poeira. Como se não bastasse, resolvi me render de vez aos encantos da culinária. Nos últimos dias fiz vários pratos com berijela, abobrinha para todos os gostos, caldo de beterraba, sopa de abóbora com gengibre, cenoura com atum. Fico brincando com temperos e misturas. Uma pena que o mestrado não seja em decoração ou gastronomia. Se fosse, me animaria mais com a filosofia tão necessária.
Sem medo de errar na avaliação, digo que os melhores textos de blog eu escrevi quando o trabalho me brochava. Se fosse escritora, era capaz de montar uma banda de rock pra me inspirar.
Os livros mais marcantes foram devorados em momentos absolutamente inoportunos. Nas aulas de teoria da comunicação, sociologia e comunicação, filosofia da comunicação, comunicação social comparada, análise do discurso, ética jornalística e por aí vai, a leitura obrigatória muitas vezes ficou pra última hora não porque eu quisesse me dedicar a outras atividades que não a de sentar o rabo e ler. Com a minha essência procrastinadora, eu logo catava um outro livro pra me distrair - por puro prazer de enrolar, imagino. Lembro que uma vez fui até sacaneada pelo Éric, um calouro meu, que me viu carregar tantos livros diferentes num mesmo período que um dia comentou: "Ou você vai repetir o período ou você traz esses livros só pra tirar onda de que lê". Não cheguei a repetir matéria naquele período, mas era certo que uma parte da minha vida andava sendo empurrada com a barriga, e por acaso era o trabalho. Mas repeti muito quando o trabalho me empolgou. Eu não sei mesmo me administrar.
Quase todos os livros do Saramago que li são do tempo da faculdade e o mesmo aconteceu com a maior parte dos do Gabriel García Marquez. Os do Dostoiévski também entram na conta do período. Terminada a faculdade - que demorou mais de seis anos pra ser concluída, importante dizer - passo tempos sem leitura.
Internet, download de música, balé moderno, meditação, quadrinhos, música erudita ou cinema russo constam na lista de atividades impróprias para determinados momentos da minha vida, quando eu precisava de maior foco e concentração. Talvez eu devesse desistir de vez de tudo que me exija foco e concentração, mas aí corro o risco de me tornar, além de desfocada e desconcentrada, um fantasma desinteressado do mundo.
Não sei por quanto tempo ainda me mantenho na periferia do meu próprio destino. Mas até agora só o desvio me fez prosseguir.
sexta-feira, janeiro 25, 2008
sexta-feira, outubro 26, 2007
Álbum de família - parte I
A Dani e eu, há uns seis anos, fizemos o trato de morarmos no mesmo prédio depois de casadas. Dizíamos também que na casa de uma e de outra haveria um quarto de hóspedes e nos revezaríamos nas visitas frequentes. Não me lembro bem, mas acho que a idéia partiu dela, que não gostava de pensar na possibilidade de ficar longe de mim. Apesar da Dani ser quatro anos e meio mais velha, eu a protegia. Ela corria pra minha cama quando tinha pesadelo – ela sempre tinha pesadelo – e muitas vezes cismava de dormir de luz acesa. Quando eu tinha 18 anos, no Kibbutz, recebi uma carta sua que dizia algo como: “agora não tenho mais como pular na sua cama quando sinto medo. Para amenizar a situação, pedi para papai comprar uma lâmpada fraquinha, assim não durmo no escuro. O cara da loja indicou a luz azul pois, segundo a cromoterapia, acalma o bebê. Papai só ficou com vergonha de dizer que o bebê tinha 23 anos”.
Ela sempre se assustava com tudo, via fantasmas. Eu não, era mais deste mundo, então a Dani, quando éramos crianças, tinha que se esforçar muito para me convencer a ficar no banheiro enquanto ela tomava banho – e aqueles banhos demorados que só ela sabe tomar. Ela me enrolava de muitas maneiras e era criativa demais. Primeiro tentou me convencer dizendo que, na minha vez de tomar banho, me esperaria. Mas não colou porque eu nunca sentia medo, logo não precisava do favor. Então passou a me pedir para cantar as musiquinhas que eu havia aprendido na escola, e era um tal de: “repete aquela primeira! Gostei tanto!”, “mais uma vez!”, e assim o banho acabava. Foram muitos os truques, piadas e segredos que ela inventou pra me manter no banheiro durante várias noites da minha infância.
Na verdade, eu sentia medo sim, mas era de umas coisas que ela fazia. Meu irmão do meio e eu muito frequentemente chorávamos depois de brincar de algum jogo de tabuleiro com dados ou roleta. A Dani, na sua vez de jogar, olhava pra gente com um sorriso pavoroso e repetia o número que ela queria: “Seis, seis, seis”. E dava o seis. Na nossa vez, valia a mentalização dela também, mas com objetivo inverso: “um, um, um”. E dava o um. Saíamos choramingando, meu irmão e eu: “Mãaaae! Olha a Dani fazendo macumba!”.
Seus poderes tornaram a minha infância mágica. Eu não podia ver o que minha irmã via, não recebia a visita da dindinha e da vovó mortas, mas imaginava tudo. E ela ainda tinha essa tal de força mental assustadora. Como se não bastasse, era manipuladora e sacana ao extremo. Coitadas das outras crianças, que eram persuadidas a fazer trocas absurdas e perdiam os melhores papéis de carta pra ela. Comiam balas recheadas com pimenta e, sem entender muito bem o que acontecia, ainda pediam mais. Tenho fotos do Artur, meu irmão, vermelho de tanto chorar, aos três anos, com colares enormes, brincos de pressão e uma maquiagem bizarra. Obra de quem?
Artur, sempre o primeiro a dormir e com seu sono pesado, sofria. Não raro acordava aos berros, todo cagado de pasta de dente ou maquiado, ou simplesmente puto pelo sono interrompido depois de horas de cosquinha no nariz feita com o pincel da escola. Óbvio que eu, só por assistir, acabava apanhando no dia seguinte. Na Dani, dois anos mais velha, ele não podia bater.
Como Artur nasceu com problemas respiratórios, a cena dele dormindo era motivo de riso: boca aberta, baba que não acabava mais, ronco. Mas a Dani conseguia transformar em chacota também o momento em que ele acordava. Muitas vezes nós duas ficávamos conversando enquanto ele já estava no décimo sono. De repente abria os olhos e pedia pra apagarmos a luz. A Dani então me cutucava, dava uma risadinha, e começava a falar mais baixo, olhando pra ele: “Ih, olha só! Ele tá sonâmbulo. Vamos tomar cuidado pra ele não despertar”. Artur tentava explicar que já havia acordado e queria apenas que apagássemos a luz. E ela continuava: “Não responde, Gisele, porque pode ser perigoso. Não devemos acordar os sonâmbulos”. E ficavam um tempão nessa até que ele se exaltava: “eu não tô dormindoooo”, e ia reclamar com meus pais.
Sabe-se lá o porquê da Dani nunca receber punição. Acho que meu pai era zen demais e minha mãe muito rude e ingênua pra processar aquelas artimanhas. Ou talvez o código dos pais preveja penas somente para atos de agressão física e não para tortura psicológica mirim.
E eu, pra variar, levava um sacode do Artur no dia seguinte...
(continua no próximo post)
Ela sempre se assustava com tudo, via fantasmas. Eu não, era mais deste mundo, então a Dani, quando éramos crianças, tinha que se esforçar muito para me convencer a ficar no banheiro enquanto ela tomava banho – e aqueles banhos demorados que só ela sabe tomar. Ela me enrolava de muitas maneiras e era criativa demais. Primeiro tentou me convencer dizendo que, na minha vez de tomar banho, me esperaria. Mas não colou porque eu nunca sentia medo, logo não precisava do favor. Então passou a me pedir para cantar as musiquinhas que eu havia aprendido na escola, e era um tal de: “repete aquela primeira! Gostei tanto!”, “mais uma vez!”, e assim o banho acabava. Foram muitos os truques, piadas e segredos que ela inventou pra me manter no banheiro durante várias noites da minha infância.
Na verdade, eu sentia medo sim, mas era de umas coisas que ela fazia. Meu irmão do meio e eu muito frequentemente chorávamos depois de brincar de algum jogo de tabuleiro com dados ou roleta. A Dani, na sua vez de jogar, olhava pra gente com um sorriso pavoroso e repetia o número que ela queria: “Seis, seis, seis”. E dava o seis. Na nossa vez, valia a mentalização dela também, mas com objetivo inverso: “um, um, um”. E dava o um. Saíamos choramingando, meu irmão e eu: “Mãaaae! Olha a Dani fazendo macumba!”.
Seus poderes tornaram a minha infância mágica. Eu não podia ver o que minha irmã via, não recebia a visita da dindinha e da vovó mortas, mas imaginava tudo. E ela ainda tinha essa tal de força mental assustadora. Como se não bastasse, era manipuladora e sacana ao extremo. Coitadas das outras crianças, que eram persuadidas a fazer trocas absurdas e perdiam os melhores papéis de carta pra ela. Comiam balas recheadas com pimenta e, sem entender muito bem o que acontecia, ainda pediam mais. Tenho fotos do Artur, meu irmão, vermelho de tanto chorar, aos três anos, com colares enormes, brincos de pressão e uma maquiagem bizarra. Obra de quem?
Artur, sempre o primeiro a dormir e com seu sono pesado, sofria. Não raro acordava aos berros, todo cagado de pasta de dente ou maquiado, ou simplesmente puto pelo sono interrompido depois de horas de cosquinha no nariz feita com o pincel da escola. Óbvio que eu, só por assistir, acabava apanhando no dia seguinte. Na Dani, dois anos mais velha, ele não podia bater.
Como Artur nasceu com problemas respiratórios, a cena dele dormindo era motivo de riso: boca aberta, baba que não acabava mais, ronco. Mas a Dani conseguia transformar em chacota também o momento em que ele acordava. Muitas vezes nós duas ficávamos conversando enquanto ele já estava no décimo sono. De repente abria os olhos e pedia pra apagarmos a luz. A Dani então me cutucava, dava uma risadinha, e começava a falar mais baixo, olhando pra ele: “Ih, olha só! Ele tá sonâmbulo. Vamos tomar cuidado pra ele não despertar”. Artur tentava explicar que já havia acordado e queria apenas que apagássemos a luz. E ela continuava: “Não responde, Gisele, porque pode ser perigoso. Não devemos acordar os sonâmbulos”. E ficavam um tempão nessa até que ele se exaltava: “eu não tô dormindoooo”, e ia reclamar com meus pais.
Sabe-se lá o porquê da Dani nunca receber punição. Acho que meu pai era zen demais e minha mãe muito rude e ingênua pra processar aquelas artimanhas. Ou talvez o código dos pais preveja penas somente para atos de agressão física e não para tortura psicológica mirim.
E eu, pra variar, levava um sacode do Artur no dia seguinte...
(continua no próximo post)
quinta-feira, agosto 30, 2007
Conto do prazer em ré
Volto no tempo, dois anos antes, quando nos conhecemos. Amigos em comum, interesses mesmos e vem a empatia fácil. Descamba para admiração. Ok, nada demais. A linha de segurança é forte. Sem tesão não há solução. De minha parte não há tesão, logo tudo está prévia e irremediavelmente solucionado. Porque não existe perigo, nem penso em me proteger. A serpente sequer dá-se ao trabalho de chegar em silêncio. Ao contrário, faz música com seu chiado. E, porque gosto de ouvir, aproveita e vem se enroscando. E porque gosto de sentir, já não a afasto mais.
Ela já faz parte de mim, embora eu recuse os frutos que vez e outra me oferece. Com sua alma de serpente, ela sabe que qualquer dia provo do caminho do pecado, então apenas espera, pacientemente, o tempo preciso.
Chega por fim o momento da sedução, do degustar o fruto, da consciência da nudez num paraíso que já não há. Com olhos que vêem o Bem e o Mal, escolho o Pior. Deus se cala e apenas chora, daquele jeito dolorido de quem paga o preço de confiar na humanidade e conceder-lhe liberdade.
E então, o agora. Ergo-me. Já é chegada a hora da redenção e vida eterna não se concede a quem rasteja. Sigo com fé porque o torpor de todo veneno um dia se extingue.
Ela já faz parte de mim, embora eu recuse os frutos que vez e outra me oferece. Com sua alma de serpente, ela sabe que qualquer dia provo do caminho do pecado, então apenas espera, pacientemente, o tempo preciso.
Chega por fim o momento da sedução, do degustar o fruto, da consciência da nudez num paraíso que já não há. Com olhos que vêem o Bem e o Mal, escolho o Pior. Deus se cala e apenas chora, daquele jeito dolorido de quem paga o preço de confiar na humanidade e conceder-lhe liberdade.
E então, o agora. Ergo-me. Já é chegada a hora da redenção e vida eterna não se concede a quem rasteja. Sigo com fé porque o torpor de todo veneno um dia se extingue.
Conto do prazer em ré
Volto no tempo, dois anos antes, quando nos conhecemos. Amigos em comum, interesses mesmos e vem a empatia fácil. Descamba para admiração. Ok, nada demais. A linha de segurança é forte. Sem tesão não há solução. De minha parte não há tesão, logo tudo está prévia e irremediavelmente solucionado. Porque não existe perigo, nem penso em me proteger. A serpente sequer dá-se ao trabalho de chegar em silêncio. Ao contrário, faz música com seu chiado. E, porque gosto de ouvir, aproveita e vem se enroscando. E porque gosto de sentir, já não a afasto mais.
Ela já faz parte de mim, embora eu recuse os frutos que vez e outra me oferece. Com sua alma de serpente, ela sabe que qualquer dia provo do caminho do pecado, então apenas espera, pacientemente, o tempo preciso.
Chega por fim o momento da sedução, do degustar o fruto, da consciência da nudez num paraíso que já não há. Com olhos que vêem o Bem e o Mal, escolho o Pior. Deus se cala e apenas chora, daquele jeito dolorido de quem paga o preço de confiar na humanidade e conceder-lhe liberdade.
E então, o agora. Ergo-me. Já é chegada a hora da redenção e vida eterna não se concede a quem rasteja. Sigo com fé porque o torpor de todo veneno um dia se extingue.
Ela já faz parte de mim, embora eu recuse os frutos que vez e outra me oferece. Com sua alma de serpente, ela sabe que qualquer dia provo do caminho do pecado, então apenas espera, pacientemente, o tempo preciso.
Chega por fim o momento da sedução, do degustar o fruto, da consciência da nudez num paraíso que já não há. Com olhos que vêem o Bem e o Mal, escolho o Pior. Deus se cala e apenas chora, daquele jeito dolorido de quem paga o preço de confiar na humanidade e conceder-lhe liberdade.
E então, o agora. Ergo-me. Já é chegada a hora da redenção e vida eterna não se concede a quem rasteja. Sigo com fé porque o torpor de todo veneno um dia se extingue.
quarta-feira, agosto 29, 2007
Das primaveras aos 26
Faz alguns dias, por conta do meu aniversário que vinha chegando (e chegou ontem), lembrei que há dois anos planejei escrever um texto sobre o significado da data pra mim.
Aos 24 anos, tive vontade de escrever sobre o que me fazia não gostar de aniversários. Pensei em falar do meu aborrecimento com organização de festa pra mim mesma, em ter que dizer para as pessoas que faço questão da presença delas quando na verdade entendo que todos têm suas urgências, em fazer as pessoas saírem de casa em dia de semana. E tinha também a implicância com bolos, parabéns e celular tocando o dia inteiro. Desejei confessar a minha total inabilidade em reunir grupos diferentes e meu incômodo de me saber um elo desajustado entre eles. Quis muito externar o quanto achava sem sentido comprar roupas e sapatos novos para a data especial, porque depois eles não serviriam para os outros dias da minha vida que, de modo geral, é feita de jornadas extraordinariamente comuns.
Ontem, aos 26 anos, eu continuava achando o mesmo. Ainda assim, mandei e-mail pros chegados e marquei encontro de última hora no bar que mais gosto, em plena terça-feira chuvosa. Liguei pra confirmar algumas queridas presenças. Recebi com alegria todos os parabéns e fiquei feliz porque o celular tocou irritantemente o dia inteiro.
Comprei um sapato novo que ficará lindo com as minhas calças jeans. Usei um vestido da Beca, que adora me fazer experimentar suas roupas e brincar de me maquiar. Ela sempre me dizia que queria um dia fazer eu ficar poderosa. E conseguiu. A Pri chegou e saímos de casa, eu quase borrando os olhos de emoção, de tão bonita que fiquei depois dos cuidados da Beca, de seus cremes, maquiagens e perfumes. Pensei que esse negócio de ser gostada faz mesmo a gente se sentir com poderes especiais.
No bar, amigos de faculdade, do trabalho, da dança, da vizinhança. Amigos dos amigos, namorados das amigas, namoradas dos amigos, mais aquela gente que simplesmente encontrei pela vida. Dorien, Nique, João, Rê, Ed, Léo, Clarice, Diogo, Geraldine, Gus, Magoo, Di, Dê, Beto, Roblis, Tante...
Eu, totalmente inábil para reunir grupos diferentes, pulei de mesa em mesa, falei besteira, apresentei todo mundo pra todo mundo, contando sempre um caso, dizendo por que cada um ali era especial. Bebi uns drinks com tequila e fiz ainda mais jus ao meu posto de elo desajustado (e feliz!) entre eles.
Só faltou o bolo, mas aí também já seria demais...
Aos 24 anos, tive vontade de escrever sobre o que me fazia não gostar de aniversários. Pensei em falar do meu aborrecimento com organização de festa pra mim mesma, em ter que dizer para as pessoas que faço questão da presença delas quando na verdade entendo que todos têm suas urgências, em fazer as pessoas saírem de casa em dia de semana. E tinha também a implicância com bolos, parabéns e celular tocando o dia inteiro. Desejei confessar a minha total inabilidade em reunir grupos diferentes e meu incômodo de me saber um elo desajustado entre eles. Quis muito externar o quanto achava sem sentido comprar roupas e sapatos novos para a data especial, porque depois eles não serviriam para os outros dias da minha vida que, de modo geral, é feita de jornadas extraordinariamente comuns.
Ontem, aos 26 anos, eu continuava achando o mesmo. Ainda assim, mandei e-mail pros chegados e marquei encontro de última hora no bar que mais gosto, em plena terça-feira chuvosa. Liguei pra confirmar algumas queridas presenças. Recebi com alegria todos os parabéns e fiquei feliz porque o celular tocou irritantemente o dia inteiro.
Comprei um sapato novo que ficará lindo com as minhas calças jeans. Usei um vestido da Beca, que adora me fazer experimentar suas roupas e brincar de me maquiar. Ela sempre me dizia que queria um dia fazer eu ficar poderosa. E conseguiu. A Pri chegou e saímos de casa, eu quase borrando os olhos de emoção, de tão bonita que fiquei depois dos cuidados da Beca, de seus cremes, maquiagens e perfumes. Pensei que esse negócio de ser gostada faz mesmo a gente se sentir com poderes especiais.
No bar, amigos de faculdade, do trabalho, da dança, da vizinhança. Amigos dos amigos, namorados das amigas, namoradas dos amigos, mais aquela gente que simplesmente encontrei pela vida. Dorien, Nique, João, Rê, Ed, Léo, Clarice, Diogo, Geraldine, Gus, Magoo, Di, Dê, Beto, Roblis, Tante...
Eu, totalmente inábil para reunir grupos diferentes, pulei de mesa em mesa, falei besteira, apresentei todo mundo pra todo mundo, contando sempre um caso, dizendo por que cada um ali era especial. Bebi uns drinks com tequila e fiz ainda mais jus ao meu posto de elo desajustado (e feliz!) entre eles.
Só faltou o bolo, mas aí também já seria demais...
terça-feira, agosto 21, 2007
Dos acúmulos

Quanto mofo nesta virtualidade. Não por meu descuido ou falta de vontade, que fique claro. Ah... me gosto mais quando escrevo. Pessoas me redescobrem ao me ler, aconteceu diversas vezes. Os comentários eu coleciono na memória, mas um destaco agora: “Gi, você escrevendo é clara e serena” (bem diferente da versão 3D, é o que posso intuir). Outro bem oportuno, de alguém então muito, muito presente na minha vida: “li seus textos e me dei conta de que nunca te ouvi”. E aquele do amigo há 14 anos: “que pretensão alguém achar que te conhece”.
Sim, se trata de um retorno “umbiguista” feito outros, porque de novo me acumulei demais. “Orai e vigiai sem cessar”, dizia São Paulo. “Use Cepacol diariamente e visite seu dentista regularmente”. Tudo, tudo nessa vida segue a lógica da manutenção. Não posso me acumular, eu sei e sei. Escrever sempre, ainda não aprendi? Essa mania de engolir tudo pra vomitar de uma vez.. De novo a sutileza de existir num mundo físico em que todo corpo tende ao repouso, mas o tempo não pára.
A ordem do dia é entender melhor as conseqüências de meus passos. Quase sempre me parece fácil sair correndo, me sobra fôlego e energia para disparar, e até aí nada de errado. De repente me canso, e me vejo de novo sozinha. Ontem me senti assim, e aí lembrei de um post-desabafo, de dezembro de 2005, de título “marido sem lágrimas”, autoria da Helô, mulher que se sabe mulher, poderosa e eficiente. Transcrevo abaixo:
"vontade de chorar, mas cadê as lágrimas?
assim como no samba, queria desabafar o que sinto no peito e não posso dizer. ok, posso escrever.
quero um marido cuidando de mim."
Até ontem esse era o tipo de confissão de me provocar calafrios. Pura afetação de balzaquianas inconsoláveis que não descobriram como se amar e se completar. Ok, eu me amo, me sinto completa e ontem me descobri uma balzaquiana inconsolável – e afetada.
No melhor estilo mulher almodovariana, cabelos presos no alto da cabeça, blusa e unhas vermelhas, ontem borrei a maquiagem dos olhos porque eu quero um marido cuidando de mim.
segunda-feira, junho 04, 2007
Sem paranóia...
Preto e branco. Ininterrupto ciclo, do casulo pro céu e vice-versa, larva e borboleta e larva de novo, por ainda não saber se é melhor o vôo ou a preparação – ansiosa, natural e feliz – pelo dia de voar. Andando assim, de um extremo a outro, só pra tornar obrigatória a passagem pelo caminho do meio e não perder seu norte móvel de vista. Sauna e ducha gelada pra agitar o desfile do sangue pelas veias, fervendo tudo por contraste. É isso. Metanóia sem paranóia.
OBS - A quem interessar possa, a Digestora revive. http//digerindo.blogspot.com
OBS - A quem interessar possa, a Digestora revive. http//digerindo.blogspot.com
Conto do prazer em dó
Sentada no chão, apertava com força o telefone para controlar a dor que tentava lhe escapar pela boca em forma de grito, impropérios e vômito. Deixou-se ferir lentamente por cada uma daquelas palavras que lhe chegavam de longe. Depois, telefone de volta ao gancho, encostou o corpo soluçante numas das portas, mas se levantou depressa porque era orgulhosa demais pra sofrer feito personagem qualquer de novela ordinária.
Escolheu a música, despiu-se, dançou forte e cantou alto. Lavada de suor e lágrima, esboçou um sorriso como se desse boas-vindas àquela dor fininha e maldita que conheceu poucas e marcantes vezes, que conseguiu expelir de si em outros tempos, mas que agora retornava triunfante: dor de felicidade não vivida. Dentro dela, um abismo de sentimentos que novamente dariam em lugar nenhum. Uma vez mais, fora muita fé pra pouco santo.
Copo pela metade pra uma sede inteira. Gota de água benta pra legião de lazarentos. Meia promessa de vida eterna pra dois mil e seis moribundos. Um prato de feijão pra dezessete desvalidos. Ela ganhara um palmo de terra pra sufocar vinte e oito brotos de esperança. “Ao vencedor as batatas”, disse para si, rindo de dó.
Ele era um homem casado. Ofereceu a ela palavras e depois carícias. Despediu-se de repente prometendo voltar de vez. Pouco depois, telefonou desfazendo os planos e despedaçando os sonhos. Ele mudou de idéia alegando mal-estar da consciência. Ela se calou, sem idéia e quase inconsciente de tanto mal-estar.
Ela pediu conselhos a três santas de sua devoção e todos os sagrados corações de moles Marias abençoaram a dúvida do pobre diabo e se benzeram acusando-na de pecados madalenos. Sentindo-se traída, ela despojou-se de sua fé, jogou fora todas as imagens, terços, incensos e escapulários. Vestiu uma blusa decotada, pintou as unhas de vermelho, untou-se de provocantes cheiros. Saiu às ruas. E em pouco tempo, estava cercada de devotos.
Escolheu a música, despiu-se, dançou forte e cantou alto. Lavada de suor e lágrima, esboçou um sorriso como se desse boas-vindas àquela dor fininha e maldita que conheceu poucas e marcantes vezes, que conseguiu expelir de si em outros tempos, mas que agora retornava triunfante: dor de felicidade não vivida. Dentro dela, um abismo de sentimentos que novamente dariam em lugar nenhum. Uma vez mais, fora muita fé pra pouco santo.
Copo pela metade pra uma sede inteira. Gota de água benta pra legião de lazarentos. Meia promessa de vida eterna pra dois mil e seis moribundos. Um prato de feijão pra dezessete desvalidos. Ela ganhara um palmo de terra pra sufocar vinte e oito brotos de esperança. “Ao vencedor as batatas”, disse para si, rindo de dó.
Ele era um homem casado. Ofereceu a ela palavras e depois carícias. Despediu-se de repente prometendo voltar de vez. Pouco depois, telefonou desfazendo os planos e despedaçando os sonhos. Ele mudou de idéia alegando mal-estar da consciência. Ela se calou, sem idéia e quase inconsciente de tanto mal-estar.
Ela pediu conselhos a três santas de sua devoção e todos os sagrados corações de moles Marias abençoaram a dúvida do pobre diabo e se benzeram acusando-na de pecados madalenos. Sentindo-se traída, ela despojou-se de sua fé, jogou fora todas as imagens, terços, incensos e escapulários. Vestiu uma blusa decotada, pintou as unhas de vermelho, untou-se de provocantes cheiros. Saiu às ruas. E em pouco tempo, estava cercada de devotos.
Assinar:
Postagens (Atom)
