Faz alguns dias, por conta do meu aniversário que vinha chegando (e chegou ontem), lembrei que há dois anos planejei escrever um texto sobre o significado da data pra mim.
Aos 24 anos, tive vontade de escrever sobre o que me fazia não gostar de aniversários. Pensei em falar do meu aborrecimento com organização de festa pra mim mesma, em ter que dizer para as pessoas que faço questão da presença delas quando na verdade entendo que todos têm suas urgências, em fazer as pessoas saírem de casa em dia de semana. E tinha também a implicância com bolos, parabéns e celular tocando o dia inteiro. Desejei confessar a minha total inabilidade em reunir grupos diferentes e meu incômodo de me saber um elo desajustado entre eles. Quis muito externar o quanto achava sem sentido comprar roupas e sapatos novos para a data especial, porque depois eles não serviriam para os outros dias da minha vida que, de modo geral, é feita de jornadas extraordinariamente comuns.
Ontem, aos 26 anos, eu continuava achando o mesmo. Ainda assim, mandei e-mail pros chegados e marquei encontro de última hora no bar que mais gosto, em plena terça-feira chuvosa. Liguei pra confirmar algumas queridas presenças. Recebi com alegria todos os parabéns e fiquei feliz porque o celular tocou irritantemente o dia inteiro.
Comprei um sapato novo que ficará lindo com as minhas calças jeans. Usei um vestido da Beca, que adora me fazer experimentar suas roupas e brincar de me maquiar. Ela sempre me dizia que queria um dia fazer eu ficar poderosa. E conseguiu. A Pri chegou e saímos de casa, eu quase borrando os olhos de emoção, de tão bonita que fiquei depois dos cuidados da Beca, de seus cremes, maquiagens e perfumes. Pensei que esse negócio de ser gostada faz mesmo a gente se sentir com poderes especiais.
No bar, amigos de faculdade, do trabalho, da dança, da vizinhança. Amigos dos amigos, namorados das amigas, namoradas dos amigos, mais aquela gente que simplesmente encontrei pela vida. Dorien, Nique, João, Rê, Ed, Léo, Clarice, Diogo, Geraldine, Gus, Magoo, Di, Dê, Beto, Roblis, Tante...
Eu, totalmente inábil para reunir grupos diferentes, pulei de mesa em mesa, falei besteira, apresentei todo mundo pra todo mundo, contando sempre um caso, dizendo por que cada um ali era especial. Bebi uns drinks com tequila e fiz ainda mais jus ao meu posto de elo desajustado (e feliz!) entre eles.
Só faltou o bolo, mas aí também já seria demais...
quarta-feira, agosto 29, 2007
terça-feira, agosto 21, 2007
Dos acúmulos

Quanto mofo nesta virtualidade. Não por meu descuido ou falta de vontade, que fique claro. Ah... me gosto mais quando escrevo. Pessoas me redescobrem ao me ler, aconteceu diversas vezes. Os comentários eu coleciono na memória, mas um destaco agora: “Gi, você escrevendo é clara e serena” (bem diferente da versão 3D, é o que posso intuir). Outro bem oportuno, de alguém então muito, muito presente na minha vida: “li seus textos e me dei conta de que nunca te ouvi”. E aquele do amigo há 14 anos: “que pretensão alguém achar que te conhece”.
Sim, se trata de um retorno “umbiguista” feito outros, porque de novo me acumulei demais. “Orai e vigiai sem cessar”, dizia São Paulo. “Use Cepacol diariamente e visite seu dentista regularmente”. Tudo, tudo nessa vida segue a lógica da manutenção. Não posso me acumular, eu sei e sei. Escrever sempre, ainda não aprendi? Essa mania de engolir tudo pra vomitar de uma vez.. De novo a sutileza de existir num mundo físico em que todo corpo tende ao repouso, mas o tempo não pára.
A ordem do dia é entender melhor as conseqüências de meus passos. Quase sempre me parece fácil sair correndo, me sobra fôlego e energia para disparar, e até aí nada de errado. De repente me canso, e me vejo de novo sozinha. Ontem me senti assim, e aí lembrei de um post-desabafo, de dezembro de 2005, de título “marido sem lágrimas”, autoria da Helô, mulher que se sabe mulher, poderosa e eficiente. Transcrevo abaixo:
"vontade de chorar, mas cadê as lágrimas?
assim como no samba, queria desabafar o que sinto no peito e não posso dizer. ok, posso escrever.
quero um marido cuidando de mim."
Até ontem esse era o tipo de confissão de me provocar calafrios. Pura afetação de balzaquianas inconsoláveis que não descobriram como se amar e se completar. Ok, eu me amo, me sinto completa e ontem me descobri uma balzaquiana inconsolável – e afetada.
No melhor estilo mulher almodovariana, cabelos presos no alto da cabeça, blusa e unhas vermelhas, ontem borrei a maquiagem dos olhos porque eu quero um marido cuidando de mim.
segunda-feira, junho 04, 2007
Sem paranóia...
Preto e branco. Ininterrupto ciclo, do casulo pro céu e vice-versa, larva e borboleta e larva de novo, por ainda não saber se é melhor o vôo ou a preparação – ansiosa, natural e feliz – pelo dia de voar. Andando assim, de um extremo a outro, só pra tornar obrigatória a passagem pelo caminho do meio e não perder seu norte móvel de vista. Sauna e ducha gelada pra agitar o desfile do sangue pelas veias, fervendo tudo por contraste. É isso. Metanóia sem paranóia.
OBS - A quem interessar possa, a Digestora revive. http//digerindo.blogspot.com
OBS - A quem interessar possa, a Digestora revive. http//digerindo.blogspot.com
Conto do prazer em dó
Sentada no chão, apertava com força o telefone para controlar a dor que tentava lhe escapar pela boca em forma de grito, impropérios e vômito. Deixou-se ferir lentamente por cada uma daquelas palavras que lhe chegavam de longe. Depois, telefone de volta ao gancho, encostou o corpo soluçante numas das portas, mas se levantou depressa porque era orgulhosa demais pra sofrer feito personagem qualquer de novela ordinária.
Escolheu a música, despiu-se, dançou forte e cantou alto. Lavada de suor e lágrima, esboçou um sorriso como se desse boas-vindas àquela dor fininha e maldita que conheceu poucas e marcantes vezes, que conseguiu expelir de si em outros tempos, mas que agora retornava triunfante: dor de felicidade não vivida. Dentro dela, um abismo de sentimentos que novamente dariam em lugar nenhum. Uma vez mais, fora muita fé pra pouco santo.
Copo pela metade pra uma sede inteira. Gota de água benta pra legião de lazarentos. Meia promessa de vida eterna pra dois mil e seis moribundos. Um prato de feijão pra dezessete desvalidos. Ela ganhara um palmo de terra pra sufocar vinte e oito brotos de esperança. “Ao vencedor as batatas”, disse para si, rindo de dó.
Ele era um homem casado. Ofereceu a ela palavras e depois carícias. Despediu-se de repente prometendo voltar de vez. Pouco depois, telefonou desfazendo os planos e despedaçando os sonhos. Ele mudou de idéia alegando mal-estar da consciência. Ela se calou, sem idéia e quase inconsciente de tanto mal-estar.
Ela pediu conselhos a três santas de sua devoção e todos os sagrados corações de moles Marias abençoaram a dúvida do pobre diabo e se benzeram acusando-na de pecados madalenos. Sentindo-se traída, ela despojou-se de sua fé, jogou fora todas as imagens, terços, incensos e escapulários. Vestiu uma blusa decotada, pintou as unhas de vermelho, untou-se de provocantes cheiros. Saiu às ruas. E em pouco tempo, estava cercada de devotos.
Escolheu a música, despiu-se, dançou forte e cantou alto. Lavada de suor e lágrima, esboçou um sorriso como se desse boas-vindas àquela dor fininha e maldita que conheceu poucas e marcantes vezes, que conseguiu expelir de si em outros tempos, mas que agora retornava triunfante: dor de felicidade não vivida. Dentro dela, um abismo de sentimentos que novamente dariam em lugar nenhum. Uma vez mais, fora muita fé pra pouco santo.
Copo pela metade pra uma sede inteira. Gota de água benta pra legião de lazarentos. Meia promessa de vida eterna pra dois mil e seis moribundos. Um prato de feijão pra dezessete desvalidos. Ela ganhara um palmo de terra pra sufocar vinte e oito brotos de esperança. “Ao vencedor as batatas”, disse para si, rindo de dó.
Ele era um homem casado. Ofereceu a ela palavras e depois carícias. Despediu-se de repente prometendo voltar de vez. Pouco depois, telefonou desfazendo os planos e despedaçando os sonhos. Ele mudou de idéia alegando mal-estar da consciência. Ela se calou, sem idéia e quase inconsciente de tanto mal-estar.
Ela pediu conselhos a três santas de sua devoção e todos os sagrados corações de moles Marias abençoaram a dúvida do pobre diabo e se benzeram acusando-na de pecados madalenos. Sentindo-se traída, ela despojou-se de sua fé, jogou fora todas as imagens, terços, incensos e escapulários. Vestiu uma blusa decotada, pintou as unhas de vermelho, untou-se de provocantes cheiros. Saiu às ruas. E em pouco tempo, estava cercada de devotos.
Conto do prazer em dó
Sentada no chão, apertava com força o telefone para controlar a dor que tentava lhe escapar pela boca em forma de grito, impropérios e vômito. Deixou-se ferir lentamente por cada uma daquelas palavras que lhe chegavam de longe. Depois, telefone de volta ao gancho, encostou o corpo soluçante numas das portas, mas se levantou depressa porque era orgulhosa demais pra sofrer feito personagem qualquer de novela ordinária.
Escolheu a música, despiu-se, dançou forte e cantou alto. Lavada de suor e lágrima, esboçou um sorriso como se desse boas-vindas àquela dor fininha e maldita que conheceu poucas e marcantes vezes, que conseguiu expelir de si em outros tempos, mas que agora retornava triunfante: dor de felicidade não vivida. Dentro dela, um abismo de sentimentos que novamente dariam em lugar nenhum. Uma vez mais, fora muita fé pra pouco santo.
Copo pela metade pra uma sede inteira. Gota de água benta pra legião de lazarentos. Meia promessa de vida eterna pra dois mil e seis moribundos. Um prato de feijão pra dezessete desvalidos. Ela ganhara um palmo de terra pra sufocar vinte e oito brotos de esperança. “Ao vencedor as batatas”, disse para si, rindo de dó.
Ele era um homem casado. Ofereceu a ela palavras e depois carícias. Despediu-se de repente prometendo voltar de vez. Pouco depois, telefonou desfazendo os planos e despedaçando os sonhos. Ele mudou de idéia alegando mal-estar da consciência. Ela se calou, sem idéia e quase inconsciente de tanto mal-estar.
Ela pediu conselhos a três santas de sua devoção e todos os sagrados corações de moles Marias abençoaram a dúvida do pobre diabo e se benzeram acusando-na de pecados madalenos. Sentindo-se traída, ela despojou-se de sua fé, jogou fora todas as imagens, terços, incensos e escapulários. Vestiu uma blusa decotada, pintou as unhas de vermelho, untou-se de provocantes cheiros. Saiu às ruas. E em pouco tempo, estava cercada de devotos.
Escolheu a música, despiu-se, dançou forte e cantou alto. Lavada de suor e lágrima, esboçou um sorriso como se desse boas-vindas àquela dor fininha e maldita que conheceu poucas e marcantes vezes, que conseguiu expelir de si em outros tempos, mas que agora retornava triunfante: dor de felicidade não vivida. Dentro dela, um abismo de sentimentos que novamente dariam em lugar nenhum. Uma vez mais, fora muita fé pra pouco santo.
Copo pela metade pra uma sede inteira. Gota de água benta pra legião de lazarentos. Meia promessa de vida eterna pra dois mil e seis moribundos. Um prato de feijão pra dezessete desvalidos. Ela ganhara um palmo de terra pra sufocar vinte e oito brotos de esperança. “Ao vencedor as batatas”, disse para si, rindo de dó.
Ele era um homem casado. Ofereceu a ela palavras e depois carícias. Despediu-se de repente prometendo voltar de vez. Pouco depois, telefonou desfazendo os planos e despedaçando os sonhos. Ele mudou de idéia alegando mal-estar da consciência. Ela se calou, sem idéia e quase inconsciente de tanto mal-estar.
Ela pediu conselhos a três santas de sua devoção e todos os sagrados corações de moles Marias abençoaram a dúvida do pobre diabo e se benzeram acusando-na de pecados madalenos. Sentindo-se traída, ela despojou-se de sua fé, jogou fora todas as imagens, terços, incensos e escapulários. Vestiu uma blusa decotada, pintou as unhas de vermelho, untou-se de provocantes cheiros. Saiu às ruas. E em pouco tempo, estava cercada de devotos.
sábado, maio 19, 2007
Conto do prazer em sol
Todos buscavam uma oportunidade para falar com o Mestre. Havia muito que o sábio homem não participava de grandes encontros públicos por se dedicar, desde uns tempos, à solitária tarefa de escrever um livro cujo penoso tema era a morte. Tomara para si a dura tarefa de discorrer sobre o que ninguém sabe ao certo, sobre esse que é o medo de tantos vivos. Talvez porque apenas os mais sábios compreendam a importância de morrer.
Em verdade, ele não se afastara do assédio dos seguidores apenas devido ao trabalho a que se entregara nos últimos meses. Naquele sábio homem pesavam a contagem de muitos anos e uma enfermidade que, ele bem sabia, o consumiria aos poucos e pra sempre, até o dia em que entenderia na prática o que agora tentava teorizar.
Apesar de debilitado, ele parecia sentir prazer em satisfazer seus discípulos; ora deixando-os inebriados com suas estórias de vida, ora contando divertidos causos, ora recitando algumas de suas poesias. Todavia, por vezes apenas os ouvia com seus olhos azuis firmes e suas frágeis mãos trêmulas.
Foi nessa ocasião, quando se encontrava distraído de seus pensamentos e dores, que ele a conheceu. Ela, uma mulher que ainda se esquecia de deixar pra trás a meninice, falava ao mestre de maneira eloqüente, mas com uma voz que lhe saía tímida. O esforço em aparentar desembaraço pretendia esconder o desconforto de se ver inesperadamente diante do tão respeitável mestre. Mas ele se fascinou: com as palavras escolhidas e também com as besteiras que escapuliam dos belos lábios daquela jovem de cabelos e olhos vibrantes de tão negros.
Tiveram muitas outras conversas. Os discípulos esperavam muito para ganhar alguns momentos da atenção que o sábio passou a dedicar exclusivamente àquela mulher.
Certa noite, aquele discípulo mais amado tomou-a pela mão, conduzindo-a até o quarto do sábio, que a esperava. Ficaram a sós. O Mestre parecia não se importar com o fato de vestir um ridículo pijama, mas se confessou envergonhado pela emoção adolescente que agora sentia. Contou-lhe, com seus olhos azuis doces e as pernas trêmulas de calor, que o coração batia outra vez. “Eu escrevo sobre a noite e você foi meu interlúdio de sol”, disse o sábio.
Depois da confissão, veio um pedido: “Eu gostaria de dormir de mãos dadas com você”. E citou a passagem bíblica em que o Rei Davi, já íntimo da velhice e beijando a face da morte, expressou o desejo de se deitar com uma virgem, apenas para que ela lhe aquecesse os pés.
A mulher, de tão menina, não conseguiu entender a beleza do pedido. Negou-se a atendê-lo. E se arrependeu pelo resto de seus dias.
Em verdade, ele não se afastara do assédio dos seguidores apenas devido ao trabalho a que se entregara nos últimos meses. Naquele sábio homem pesavam a contagem de muitos anos e uma enfermidade que, ele bem sabia, o consumiria aos poucos e pra sempre, até o dia em que entenderia na prática o que agora tentava teorizar.
Apesar de debilitado, ele parecia sentir prazer em satisfazer seus discípulos; ora deixando-os inebriados com suas estórias de vida, ora contando divertidos causos, ora recitando algumas de suas poesias. Todavia, por vezes apenas os ouvia com seus olhos azuis firmes e suas frágeis mãos trêmulas.
Foi nessa ocasião, quando se encontrava distraído de seus pensamentos e dores, que ele a conheceu. Ela, uma mulher que ainda se esquecia de deixar pra trás a meninice, falava ao mestre de maneira eloqüente, mas com uma voz que lhe saía tímida. O esforço em aparentar desembaraço pretendia esconder o desconforto de se ver inesperadamente diante do tão respeitável mestre. Mas ele se fascinou: com as palavras escolhidas e também com as besteiras que escapuliam dos belos lábios daquela jovem de cabelos e olhos vibrantes de tão negros.
Tiveram muitas outras conversas. Os discípulos esperavam muito para ganhar alguns momentos da atenção que o sábio passou a dedicar exclusivamente àquela mulher.
Certa noite, aquele discípulo mais amado tomou-a pela mão, conduzindo-a até o quarto do sábio, que a esperava. Ficaram a sós. O Mestre parecia não se importar com o fato de vestir um ridículo pijama, mas se confessou envergonhado pela emoção adolescente que agora sentia. Contou-lhe, com seus olhos azuis doces e as pernas trêmulas de calor, que o coração batia outra vez. “Eu escrevo sobre a noite e você foi meu interlúdio de sol”, disse o sábio.
Depois da confissão, veio um pedido: “Eu gostaria de dormir de mãos dadas com você”. E citou a passagem bíblica em que o Rei Davi, já íntimo da velhice e beijando a face da morte, expressou o desejo de se deitar com uma virgem, apenas para que ela lhe aquecesse os pés.
A mulher, de tão menina, não conseguiu entender a beleza do pedido. Negou-se a atendê-lo. E se arrependeu pelo resto de seus dias.
Conto do prazer em sol
Todos buscavam uma oportunidade para falar com o Mestre. Havia muito que o sábio homem não participava de grandes encontros públicos por se dedicar, desde uns tempos, à solitária tarefa de escrever um livro cujo penoso tema era a morte. Tomara para si a dura tarefa de discorrer sobre o que ninguém sabe ao certo, sobre esse que é o medo de tantos vivos. Talvez porque apenas os mais sábios compreendam a importância de morrer.
Em verdade, ele não se afastara do assédio dos seguidores apenas devido ao trabalho a que se entregara nos últimos meses. Naquele sábio homem pesavam a contagem de muitos anos e uma enfermidade que, ele bem sabia, o consumiria aos poucos e pra sempre, até o dia em que entenderia na prática o que agora tentava teorizar.
Apesar de debilitado, ele parecia sentir prazer em satisfazer seus discípulos; ora deixando-os inebriados com suas estórias de vida, ora contando divertidos causos, ora recitando algumas de suas poesias. Todavia, por vezes apenas os ouvia com seus olhos azuis firmes e suas frágeis mãos trêmulas.
Foi nessa ocasião, quando se encontrava distraído de seus pensamentos e dores, que ele a conheceu. Ela, uma mulher que ainda se esquecia de deixar pra trás a meninice, falava ao mestre de maneira eloqüente, mas com uma voz que lhe saía tímida. O esforço em aparentar desembaraço pretendia esconder o desconforto de se ver inesperadamente diante do tão respeitável mestre. Mas ele se fascinou: com as palavras escolhidas e também com as besteiras que escapuliam dos belos lábios daquela jovem de cabelos e olhos vibrantes de tão negros.
Tiveram muitas outras conversas. Os discípulos esperavam muito para ganhar alguns momentos da atenção que o sábio passou a dedicar exclusivamente àquela mulher.
Certa noite, aquele discípulo mais amado tomou-a pela mão, conduzindo-a até o quarto do sábio, que a esperava. Ficaram a sós. O Mestre parecia não se importar com o fato de vestir um ridículo pijama, mas se confessou envergonhado pela emoção adolescente que agora sentia. Contou-lhe, com seus olhos azuis doces e as pernas trêmulas de calor, que o coração batia outra vez. “Eu escrevo sobre a noite e você foi meu interlúdio de sol”, disse o sábio.
Depois da confissão, veio um pedido: “Eu gostaria de dormir de mãos dadas com você”. E citou a passagem bíblica em que o Rei Davi, já íntimo da velhice e beijando a face da morte, expressou o desejo de se deitar com uma virgem, apenas para que ela lhe aquecesse os pés.
A mulher, de tão menina, não conseguiu entender a beleza do pedido. Negou-se a atendê-lo. E se arrependeu pelo resto de seus dias.
Em verdade, ele não se afastara do assédio dos seguidores apenas devido ao trabalho a que se entregara nos últimos meses. Naquele sábio homem pesavam a contagem de muitos anos e uma enfermidade que, ele bem sabia, o consumiria aos poucos e pra sempre, até o dia em que entenderia na prática o que agora tentava teorizar.
Apesar de debilitado, ele parecia sentir prazer em satisfazer seus discípulos; ora deixando-os inebriados com suas estórias de vida, ora contando divertidos causos, ora recitando algumas de suas poesias. Todavia, por vezes apenas os ouvia com seus olhos azuis firmes e suas frágeis mãos trêmulas.
Foi nessa ocasião, quando se encontrava distraído de seus pensamentos e dores, que ele a conheceu. Ela, uma mulher que ainda se esquecia de deixar pra trás a meninice, falava ao mestre de maneira eloqüente, mas com uma voz que lhe saía tímida. O esforço em aparentar desembaraço pretendia esconder o desconforto de se ver inesperadamente diante do tão respeitável mestre. Mas ele se fascinou: com as palavras escolhidas e também com as besteiras que escapuliam dos belos lábios daquela jovem de cabelos e olhos vibrantes de tão negros.
Tiveram muitas outras conversas. Os discípulos esperavam muito para ganhar alguns momentos da atenção que o sábio passou a dedicar exclusivamente àquela mulher.
Certa noite, aquele discípulo mais amado tomou-a pela mão, conduzindo-a até o quarto do sábio, que a esperava. Ficaram a sós. O Mestre parecia não se importar com o fato de vestir um ridículo pijama, mas se confessou envergonhado pela emoção adolescente que agora sentia. Contou-lhe, com seus olhos azuis doces e as pernas trêmulas de calor, que o coração batia outra vez. “Eu escrevo sobre a noite e você foi meu interlúdio de sol”, disse o sábio.
Depois da confissão, veio um pedido: “Eu gostaria de dormir de mãos dadas com você”. E citou a passagem bíblica em que o Rei Davi, já íntimo da velhice e beijando a face da morte, expressou o desejo de se deitar com uma virgem, apenas para que ela lhe aquecesse os pés.
A mulher, de tão menina, não conseguiu entender a beleza do pedido. Negou-se a atendê-lo. E se arrependeu pelo resto de seus dias.
segunda-feira, maio 14, 2007
Conto do prazer em si
Havia algo de gozo inédito naquele dia em que se entregou ao seu ritual de prazer solitário. Desta vez, aqueles dedos – sempre tão úmidos que chegavam a enrugar – aqueles dedos estavam embebidos de uma vitória espessa cujo sabor jamais experimentara.
Fazia tempo ela se convencera de que precisava de um homem à sua imagem e semelhança: mistura de força e delicadeza, altivez e humildade, beleza simples e alma vibrante, sarcasmo e bondade, requinte e desprendimento, intelecto e sensibilidade. Yin e yang bem dosados. E êxtase pra esporrar em tudo.
Naquele dia as mãos percorreram caminhos há muito desbravados, mas uma grande estréia se desenhou no pensamento. Pela primeira vez, era o seu próprio rosto que lhe sorria naquele corpo imaginário que criara pra se satisfazer. Assim refletida, sentiu prazer em dobro. Possuiu-se duplamente, da maneira que os homens nunca souberam como. Ou como nunca souberam que.
Dali pra frente tornou-se refém de si. E nunca mais deixou de sorrir.
Fazia tempo ela se convencera de que precisava de um homem à sua imagem e semelhança: mistura de força e delicadeza, altivez e humildade, beleza simples e alma vibrante, sarcasmo e bondade, requinte e desprendimento, intelecto e sensibilidade. Yin e yang bem dosados. E êxtase pra esporrar em tudo.
Naquele dia as mãos percorreram caminhos há muito desbravados, mas uma grande estréia se desenhou no pensamento. Pela primeira vez, era o seu próprio rosto que lhe sorria naquele corpo imaginário que criara pra se satisfazer. Assim refletida, sentiu prazer em dobro. Possuiu-se duplamente, da maneira que os homens nunca souberam como. Ou como nunca souberam que.
Dali pra frente tornou-se refém de si. E nunca mais deixou de sorrir.
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