quarta-feira, agosto 29, 2007

Das primaveras aos 26

Faz alguns dias, por conta do meu aniversário que vinha chegando (e chegou ontem), lembrei que há dois anos planejei escrever um texto sobre o significado da data pra mim.

Aos 24 anos, tive vontade de escrever sobre o que me fazia não gostar de aniversários. Pensei em falar do meu aborrecimento com organização de festa pra mim mesma, em ter que dizer para as pessoas que faço questão da presença delas quando na verdade entendo que todos têm suas urgências, em fazer as pessoas saírem de casa em dia de semana. E tinha também a implicância com bolos, parabéns e celular tocando o dia inteiro. Desejei confessar a minha total inabilidade em reunir grupos diferentes e meu incômodo de me saber um elo desajustado entre eles. Quis muito externar o quanto achava sem sentido comprar roupas e sapatos novos para a data especial, porque depois eles não serviriam para os outros dias da minha vida que, de modo geral, é feita de jornadas extraordinariamente comuns.

Ontem, aos 26 anos, eu continuava achando o mesmo. Ainda assim, mandei e-mail pros chegados e marquei encontro de última hora no bar que mais gosto, em plena terça-feira chuvosa. Liguei pra confirmar algumas queridas presenças. Recebi com alegria todos os parabéns e fiquei feliz porque o celular tocou irritantemente o dia inteiro.

Comprei um sapato novo que ficará lindo com as minhas calças jeans. Usei um vestido da Beca, que adora me fazer experimentar suas roupas e brincar de me maquiar. Ela sempre me dizia que queria um dia fazer eu ficar poderosa. E conseguiu. A Pri chegou e saímos de casa, eu quase borrando os olhos de emoção, de tão bonita que fiquei depois dos cuidados da Beca, de seus cremes, maquiagens e perfumes. Pensei que esse negócio de ser gostada faz mesmo a gente se sentir com poderes especiais.

No bar, amigos de faculdade, do trabalho, da dança, da vizinhança. Amigos dos amigos, namorados das amigas, namoradas dos amigos, mais aquela gente que simplesmente encontrei pela vida. Dorien, Nique, João, Rê, Ed, Léo, Clarice, Diogo, Geraldine, Gus, Magoo, Di, Dê, Beto, Roblis, Tante...

Eu, totalmente inábil para reunir grupos diferentes, pulei de mesa em mesa, falei besteira, apresentei todo mundo pra todo mundo, contando sempre um caso, dizendo por que cada um ali era especial. Bebi uns drinks com tequila e fiz ainda mais jus ao meu posto de elo desajustado (e feliz!) entre eles.

Só faltou o bolo, mas aí também já seria demais...

terça-feira, agosto 21, 2007

Dos acúmulos



Quanto mofo nesta virtualidade. Não por meu descuido ou falta de vontade, que fique claro. Ah... me gosto mais quando escrevo. Pessoas me redescobrem ao me ler, aconteceu diversas vezes. Os comentários eu coleciono na memória, mas um destaco agora: “Gi, você escrevendo é clara e serena” (bem diferente da versão 3D, é o que posso intuir). Outro bem oportuno, de alguém então muito, muito presente na minha vida: “li seus textos e me dei conta de que nunca te ouvi”. E aquele do amigo há 14 anos: “que pretensão alguém achar que te conhece”.

Sim, se trata de um retorno “umbiguista” feito outros, porque de novo me acumulei demais. “Orai e vigiai sem cessar”, dizia São Paulo. “Use Cepacol diariamente e visite seu dentista regularmente”. Tudo, tudo nessa vida segue a lógica da manutenção. Não posso me acumular, eu sei e sei. Escrever sempre, ainda não aprendi? Essa mania de engolir tudo pra vomitar de uma vez.. De novo a sutileza de existir num mundo físico em que todo corpo tende ao repouso, mas o tempo não pára.

A ordem do dia é entender melhor as conseqüências de meus passos. Quase sempre me parece fácil sair correndo, me sobra fôlego e energia para disparar, e até aí nada de errado. De repente me canso, e me vejo de novo sozinha. Ontem me senti assim, e aí lembrei de um post-desabafo, de dezembro de 2005, de título “marido sem lágrimas”, autoria da Helô, mulher que se sabe mulher, poderosa e eficiente. Transcrevo abaixo:

"vontade de chorar, mas cadê as lágrimas?
assim como no samba, queria desabafar o que sinto no peito e não posso dizer. ok, posso escrever.
quero um marido cuidando de mim."


Até ontem esse era o tipo de confissão de me provocar calafrios. Pura afetação de balzaquianas inconsoláveis que não descobriram como se amar e se completar. Ok, eu me amo, me sinto completa e ontem me descobri uma balzaquiana inconsolável – e afetada.

No melhor estilo mulher almodovariana, cabelos presos no alto da cabeça, blusa e unhas vermelhas, ontem borrei a maquiagem dos olhos porque eu quero um marido cuidando de mim.

segunda-feira, junho 04, 2007

Sem paranóia...

Preto e branco. Ininterrupto ciclo, do casulo pro céu e vice-versa, larva e borboleta e larva de novo, por ainda não saber se é melhor o vôo ou a preparação – ansiosa, natural e feliz – pelo dia de voar. Andando assim, de um extremo a outro, só pra tornar obrigatória a passagem pelo caminho do meio e não perder seu norte móvel de vista. Sauna e ducha gelada pra agitar o desfile do sangue pelas veias, fervendo tudo por contraste. É isso. Metanóia sem paranóia.

OBS - A quem interessar possa, a Digestora revive. http//digerindo.blogspot.com

Conto do prazer em dó

Sentada no chão, apertava com força o telefone para controlar a dor que tentava lhe escapar pela boca em forma de grito, impropérios e vômito. Deixou-se ferir lentamente por cada uma daquelas palavras que lhe chegavam de longe. Depois, telefone de volta ao gancho, encostou o corpo soluçante numas das portas, mas se levantou depressa porque era orgulhosa demais pra sofrer feito personagem qualquer de novela ordinária.

Escolheu a música, despiu-se, dançou forte e cantou alto. Lavada de suor e lágrima, esboçou um sorriso como se desse boas-vindas àquela dor fininha e maldita que conheceu poucas e marcantes vezes, que conseguiu expelir de si em outros tempos, mas que agora retornava triunfante: dor de felicidade não vivida. Dentro dela, um abismo de sentimentos que novamente dariam em lugar nenhum. Uma vez mais, fora muita fé pra pouco santo.

Copo pela metade pra uma sede inteira. Gota de água benta pra legião de lazarentos. Meia promessa de vida eterna pra dois mil e seis moribundos. Um prato de feijão pra dezessete desvalidos. Ela ganhara um palmo de terra pra sufocar vinte e oito brotos de esperança. “Ao vencedor as batatas”, disse para si, rindo de dó.

Ele era um homem casado. Ofereceu a ela palavras e depois carícias. Despediu-se de repente prometendo voltar de vez. Pouco depois, telefonou desfazendo os planos e despedaçando os sonhos. Ele mudou de idéia alegando mal-estar da consciência. Ela se calou, sem idéia e quase inconsciente de tanto mal-estar.

Ela pediu conselhos a três santas de sua devoção e todos os sagrados corações de moles Marias abençoaram a dúvida do pobre diabo e se benzeram acusando-na de pecados madalenos. Sentindo-se traída, ela despojou-se de sua fé, jogou fora todas as imagens, terços, incensos e escapulários. Vestiu uma blusa decotada, pintou as unhas de vermelho, untou-se de provocantes cheiros. Saiu às ruas. E em pouco tempo, estava cercada de devotos.

Conto do prazer em dó

Sentada no chão, apertava com força o telefone para controlar a dor que tentava lhe escapar pela boca em forma de grito, impropérios e vômito. Deixou-se ferir lentamente por cada uma daquelas palavras que lhe chegavam de longe. Depois, telefone de volta ao gancho, encostou o corpo soluçante numas das portas, mas se levantou depressa porque era orgulhosa demais pra sofrer feito personagem qualquer de novela ordinária.

Escolheu a música, despiu-se, dançou forte e cantou alto. Lavada de suor e lágrima, esboçou um sorriso como se desse boas-vindas àquela dor fininha e maldita que conheceu poucas e marcantes vezes, que conseguiu expelir de si em outros tempos, mas que agora retornava triunfante: dor de felicidade não vivida. Dentro dela, um abismo de sentimentos que novamente dariam em lugar nenhum. Uma vez mais, fora muita fé pra pouco santo.

Copo pela metade pra uma sede inteira. Gota de água benta pra legião de lazarentos. Meia promessa de vida eterna pra dois mil e seis moribundos. Um prato de feijão pra dezessete desvalidos. Ela ganhara um palmo de terra pra sufocar vinte e oito brotos de esperança. “Ao vencedor as batatas”, disse para si, rindo de dó.

Ele era um homem casado. Ofereceu a ela palavras e depois carícias. Despediu-se de repente prometendo voltar de vez. Pouco depois, telefonou desfazendo os planos e despedaçando os sonhos. Ele mudou de idéia alegando mal-estar da consciência. Ela se calou, sem idéia e quase inconsciente de tanto mal-estar.

Ela pediu conselhos a três santas de sua devoção e todos os sagrados corações de moles Marias abençoaram a dúvida do pobre diabo e se benzeram acusando-na de pecados madalenos. Sentindo-se traída, ela despojou-se de sua fé, jogou fora todas as imagens, terços, incensos e escapulários. Vestiu uma blusa decotada, pintou as unhas de vermelho, untou-se de provocantes cheiros. Saiu às ruas. E em pouco tempo, estava cercada de devotos.

sábado, maio 19, 2007

Conto do prazer em sol

Todos buscavam uma oportunidade para falar com o Mestre. Havia muito que o sábio homem não participava de grandes encontros públicos por se dedicar, desde uns tempos, à solitária tarefa de escrever um livro cujo penoso tema era a morte. Tomara para si a dura tarefa de discorrer sobre o que ninguém sabe ao certo, sobre esse que é o medo de tantos vivos. Talvez porque apenas os mais sábios compreendam a importância de morrer.

Em verdade, ele não se afastara do assédio dos seguidores apenas devido ao trabalho a que se entregara nos últimos meses. Naquele sábio homem pesavam a contagem de muitos anos e uma enfermidade que, ele bem sabia, o consumiria aos poucos e pra sempre, até o dia em que entenderia na prática o que agora tentava teorizar.

Apesar de debilitado, ele parecia sentir prazer em satisfazer seus discípulos; ora deixando-os inebriados com suas estórias de vida, ora contando divertidos causos, ora recitando algumas de suas poesias. Todavia, por vezes apenas os ouvia com seus olhos azuis firmes e suas frágeis mãos trêmulas.

Foi nessa ocasião, quando se encontrava distraído de seus pensamentos e dores, que ele a conheceu. Ela, uma mulher que ainda se esquecia de deixar pra trás a meninice, falava ao mestre de maneira eloqüente, mas com uma voz que lhe saía tímida. O esforço em aparentar desembaraço pretendia esconder o desconforto de se ver inesperadamente diante do tão respeitável mestre. Mas ele se fascinou: com as palavras escolhidas e também com as besteiras que escapuliam dos belos lábios daquela jovem de cabelos e olhos vibrantes de tão negros.

Tiveram muitas outras conversas. Os discípulos esperavam muito para ganhar alguns momentos da atenção que o sábio passou a dedicar exclusivamente àquela mulher.

Certa noite, aquele discípulo mais amado tomou-a pela mão, conduzindo-a até o quarto do sábio, que a esperava. Ficaram a sós. O Mestre parecia não se importar com o fato de vestir um ridículo pijama, mas se confessou envergonhado pela emoção adolescente que agora sentia. Contou-lhe, com seus olhos azuis doces e as pernas trêmulas de calor, que o coração batia outra vez. “Eu escrevo sobre a noite e você foi meu interlúdio de sol”, disse o sábio.

Depois da confissão, veio um pedido: “Eu gostaria de dormir de mãos dadas com você”. E citou a passagem bíblica em que o Rei Davi, já íntimo da velhice e beijando a face da morte, expressou o desejo de se deitar com uma virgem, apenas para que ela lhe aquecesse os pés.

A mulher, de tão menina, não conseguiu entender a beleza do pedido. Negou-se a atendê-lo. E se arrependeu pelo resto de seus dias.

Conto do prazer em sol

Todos buscavam uma oportunidade para falar com o Mestre. Havia muito que o sábio homem não participava de grandes encontros públicos por se dedicar, desde uns tempos, à solitária tarefa de escrever um livro cujo penoso tema era a morte. Tomara para si a dura tarefa de discorrer sobre o que ninguém sabe ao certo, sobre esse que é o medo de tantos vivos. Talvez porque apenas os mais sábios compreendam a importância de morrer.

Em verdade, ele não se afastara do assédio dos seguidores apenas devido ao trabalho a que se entregara nos últimos meses. Naquele sábio homem pesavam a contagem de muitos anos e uma enfermidade que, ele bem sabia, o consumiria aos poucos e pra sempre, até o dia em que entenderia na prática o que agora tentava teorizar.

Apesar de debilitado, ele parecia sentir prazer em satisfazer seus discípulos; ora deixando-os inebriados com suas estórias de vida, ora contando divertidos causos, ora recitando algumas de suas poesias. Todavia, por vezes apenas os ouvia com seus olhos azuis firmes e suas frágeis mãos trêmulas.

Foi nessa ocasião, quando se encontrava distraído de seus pensamentos e dores, que ele a conheceu. Ela, uma mulher que ainda se esquecia de deixar pra trás a meninice, falava ao mestre de maneira eloqüente, mas com uma voz que lhe saía tímida. O esforço em aparentar desembaraço pretendia esconder o desconforto de se ver inesperadamente diante do tão respeitável mestre. Mas ele se fascinou: com as palavras escolhidas e também com as besteiras que escapuliam dos belos lábios daquela jovem de cabelos e olhos vibrantes de tão negros.

Tiveram muitas outras conversas. Os discípulos esperavam muito para ganhar alguns momentos da atenção que o sábio passou a dedicar exclusivamente àquela mulher.

Certa noite, aquele discípulo mais amado tomou-a pela mão, conduzindo-a até o quarto do sábio, que a esperava. Ficaram a sós. O Mestre parecia não se importar com o fato de vestir um ridículo pijama, mas se confessou envergonhado pela emoção adolescente que agora sentia. Contou-lhe, com seus olhos azuis doces e as pernas trêmulas de calor, que o coração batia outra vez. “Eu escrevo sobre a noite e você foi meu interlúdio de sol”, disse o sábio.

Depois da confissão, veio um pedido: “Eu gostaria de dormir de mãos dadas com você”. E citou a passagem bíblica em que o Rei Davi, já íntimo da velhice e beijando a face da morte, expressou o desejo de se deitar com uma virgem, apenas para que ela lhe aquecesse os pés.

A mulher, de tão menina, não conseguiu entender a beleza do pedido. Negou-se a atendê-lo. E se arrependeu pelo resto de seus dias.

segunda-feira, maio 14, 2007

Conto do prazer em si

Havia algo de gozo inédito naquele dia em que se entregou ao seu ritual de prazer solitário. Desta vez, aqueles dedos – sempre tão úmidos que chegavam a enrugar – aqueles dedos estavam embebidos de uma vitória espessa cujo sabor jamais experimentara.

Fazia tempo ela se convencera de que precisava de um homem à sua imagem e semelhança: mistura de força e delicadeza, altivez e humildade, beleza simples e alma vibrante, sarcasmo e bondade, requinte e desprendimento, intelecto e sensibilidade. Yin e yang bem dosados. E êxtase pra esporrar em tudo.

Naquele dia as mãos percorreram caminhos há muito desbravados, mas uma grande estréia se desenhou no pensamento. Pela primeira vez, era o seu próprio rosto que lhe sorria naquele corpo imaginário que criara pra se satisfazer. Assim refletida, sentiu prazer em dobro. Possuiu-se duplamente, da maneira que os homens nunca souberam como. Ou como nunca souberam que.

Dali pra frente tornou-se refém de si. E nunca mais deixou de sorrir.

Conto do prazer em si

Havia algo de gozo inédito naquele dia em que se entregou ao seu ritual de prazer solitário. Desta vez, aqueles dedos – sempre tão úmidos que chegavam a enrugar – aqueles dedos estavam embebidos de uma vitória espessa cujo sabor jamais experimentara.

Fazia tempo ela se convencera de que precisava de um homem à sua imagem e semelhança: mistura de força e delicadeza, altivez e humildade, beleza simples e alma vibrante, sarcasmo e bondade, requinte e desprendimento, intelecto e sensibilidade. Yin e yang bem dosados. E êxtase pra esporrar em tudo.

Naquele dia as mãos percorreram caminhos há muito desbravados, mas uma grande estréia se desenhou no pensamento. Pela primeira vez, era o seu próprio rosto que lhe sorria naquele corpo imaginário que criara pra se satisfazer. Assim refletida, sentiu prazer em dobro. Possuiu-se duplamente, da maneira que os homens nunca souberam como. Ou como nunca souberam que.

Dali pra frente tornou-se refém de si. E nunca mais deixou de sorrir.

sábado, maio 05, 2007

Em tempo

"A tristeza é senhora / Desde que o samba é samba é assim"

Branda ausência de porvir

Por que me nego tanto a escrever sobre o amor? Todos, absolutamente todos os dias eu me flagro com pensamentos que se referem, diretamente ou não, a esse tal de amor. Sim, falo daquele amor que li nos livros, que assisti em filmes e que protagonizei algumas vezes. Esse tal de amor romântico me consome precisamente por tudo que rechaço nele, por tudo o que há de cristalizações, pelas quase impossíveis desconstruções, pelas certezas involuntárias que rondam mentes e veias palpitantes.

Há alguns anos meu coração não conhece esse amor. Só às vezes ele se ocupa com a lembrança de algum ardor, agonia ou êxtase que restam espalhados em trechos esquecidos da minha estrada empoeirada. Nessas horas, eu até que sinto saudades do que não vivi. Mas faz tempo que me abrir para uma vivência a dois não representa mais tanto calor. Não sei se voltarei a senti-lo, e isso não significa descrença ou proteção. Apenas que eu não sei. E resolvi me libertar do meu porvir, ou da ausência de vinda no meu coração.

Branda ausência de porvir

Por que me nego tanto a escrever sobre o amor? Todos, absolutamente todos os dias eu me flagro com pensamentos que se referem, diretamente ou não, a esse tal de amor. Sim, falo daquele amor que li nos livros, que assisti em filmes e que protagonizei algumas vezes. Esse tal de amor romântico me consome precisamente por tudo que rechaço nele, por tudo o que há de cristalizações, pelas quase impossíveis desconstruções, pelas certezas involuntárias que rondam mentes e veias palpitantes.

Há alguns anos meu coração não conhece esse amor. Só às vezes ele se ocupa com a lembrança de algum ardor, agonia ou êxtase que restam espalhados em trechos esquecidos da minha estrada empoeirada. Nessas horas, eu até que sinto saudades do que não vivi. Mas faz tempo que me abrir para uma vivência a dois não representa mais tanto calor. Não sei se voltarei a senti-lo, e isso não significa descrença ou proteção. Apenas que eu não sei. E resolvi me libertar do meu porvir, ou da ausência de vinda no meu coração.

Inverno de viver

O friozinho de ontem me fez reviver. Definitivamente meu tempo de verões escaldantes se foi. O inverno que se aproxima me parece mágico. Me dei conta de que as boas e banais lembranças de anos recentes se referem a invernos, a céus de junho no Rio de Janeiro. Há três anos atrás, nesta mesma época, senti vontade de fazer curso de montanhismo só pra ter o céu do Rio de Janeiro mais próximo de mim.

A euforia do verão perdeu a magia. Não há tristeza nisso, afinal hoje aguardo a chegada do outono, inverno e primavera com a mesma ansiedade infantil que antes eu reservava exclusivamente aos dias de ápice do calor.

Eu me encanto com a contrição invernal. Mistério de algo que não se dá, que pede pra ser descoberto. E descortinando o inverno a gente encontra a primavera.

Digerindo o fruto esquecido...

Eu, que me canso tanto de mim mesma, senti saudade de uma parte que julgava apodrecida, que matei achando que era pra sempre. Não mais será. Hoje, revivo por aqui, porque só plantar dói. Certas horas é preciso saber pegar o fruto maduro, comê-lo, e descansar na sombra, digerindo...

Digerindo o fruto esquecido...

Eu, que me canso tanto de mim mesma, senti saudade de uma parte que julgava apodrecida, que matei achando que era pra sempre. Não mais será. Hoje, revivo por aqui, porque só plantar dói. Certas horas é preciso saber pegar o fruto maduro, comê-lo, e descansar na sombra, digerindo...

sexta-feira, maio 04, 2007

Sobre risos e rugas

Eu estava feliz e minhas amigas foram tão brochantes com minhas novidades que isso me deprimiu. Não apenas porque me senti muito só na minha felicidade, mas porque me invadiu uma profunda preocupação com elas, e eu já não consegui mais deixar de imaginá-las fazendo sexo com aquela mesma cara sem graça, de cu sem dono. Mania minha de achar que tesão é estado de espírito e que transcende quartos, paredes, camas e amantes. Nos meus dias de muito tesão na vida, me envergonho de conversar com homens, receio que eles me achem interessante demais, sem que essa seja minha intenção. Então, tento me enfeiar de alguma forma, pra me concentrar no que estou sentindo e querendo transmitir, porque não se pode confundir, e aí me recuso a ser sensual. Tenho certas vaidades, mas também me dou o direito de vestir roupa larga, calcinha grande, fazer coque no cabelo e prender com lápis, usar óculos, chinelo com meia.

Um cara era apaixonado por mim, e um dia eu vivi um lance tão bacana que fiquei com muita vontade de compartilhar e, por acaso, ele foi a primeira pessoa que encontrei. Então, tava eu lá, em alfa, contando o que havia acontecido, e quando dei por mim vi que ele me ouvia com uma cara de bobo, os coraçõezinhos pulavam da cabeça, e eu perguntei por que ele me olhava daquele jeito, e ele suspirou e me disse que era maravilhoso me ouvir. Estragou tudo. O cara não tava nem aí pro que eu falava, e isso me preocupou seriamente porque um dia serei uma velha pelancuda, então acho que ninguém mais vai me ouvir. Mas ali ele me ouvia. Não pelo que eu dizia propriamente, pois naquele momento eu tive como certo o fato de que se eu peidasse ele interpretaria como poesia gaseificada.

Ah, preciso ser honesta: nesse dias em que tenho tesão em tudo, em ver, em cheiros, a verdade é que eu mesma sinto vontade de me comer. A que ponto chego... Dia desses a Lu me disse: “Amiga, você se arreganha tanto pra vida que um dia o cosmo vai te foder”.

Mas sou fascinante apenas e enquanto preservo meu muro e mantenho meu espaço. Se eu abrir a guarda, afugento. Sempre foi assim e não acuso ninguém. Para tal pecado não há condenação. Porque quando eu me abro é feito baú com um monte de brinquedo guardado: cai uma avalanche de novidade esquecida, no início é aquela felicidade, mas depois vem a frustração de não saber o que fazer com tanta diversão esparramada. Sinto que as pessoas têm uma enorme dificuldade de brincar comigo e não as julgo por isso. Minha exaltação é castigo. Pra me prevenir de mim, resolvi cortar o meu rabo e ficar cotó, assim não corro o risco de, na primeira emoção infantil, eu sair me abanando feliz por aí.

Tenho uma crença irritante de me considerar predestinada à missão de tornar este mundo melhor, me julgo responsável por salpicar o Universo de beleza, e daí entro numa de querer espalhar sorrisos e compartilhar minha felicidade, só que isso não existe. Quando estou extremamente feliz e divido isso com os amigos, eles fazem cara de peido – que pra mim não é poesia gaseificada – e eu então fico ainda mais radiante, num esforço de ser mais óbvia, quase dizendo, “porra, eu tô feliz! Fique também, por favor!”. E aí eu começo a ficar muito cansada de me exaltar, e minha felicidade se transforma numa grande fraqueza, porque minhas energias se esvaem nessa de tanto pular de alegria. E porque gasto minha energia em tentativas saltitantes, em estados de alegria eu fico muito vulnerável a qualquer tristeza.

Rir demais marca a expressão. Dá ruga tanto quanto chorar. Todo mundo faz careta quando a gargalhada é forte que nem choro. Mas expressão de Monalisa é sempre obra-prima, e porque não diz algo propriamente, é aí que a gente fica em paz, apenas tentando decifrar o que sente quando vê, e essa tentativa já é o sentir tomando conta.

Depois de passar algumas horas com meus amigos, as sensações podem ser duas, extremo cansaço ou paz, e agora me vem a constatação que empiricamente eu já provara: quando falo muito, discuto, me exalto, sou feliz, me bate em seguida uma angústia que é essa tal falta de energia. Mas nas vezes em que apenas ouço, presto atenção nas discussões sobre o mundo, mas não participo delas, porque na verdade ninguém se ouve mais, quando minha postura é mais recolhida, aí então consigo me manter mais suave e sempre saio com a leveza de quem contribuiu da melhor forma.

Chega de tanto estardalhaço. Só preciso entender que meu espaço pra explosão é escrever, e ninguém é obrigado a ler, e eu me torno mais leve assim. Simples.

terça-feira, maio 01, 2007

Crônicas de vôos e soluços no escuro

"Para amar o abismo é preciso ter asas. Para se ter asas é preciso amar. Para amar precisa-se conhecer o abismo."
Nietzsche

Eu, que me julgava tão alada, senti medo de um abismozinho de nada. Há muito se cristalizara em mim a sensação de que eu poderia viver de peito aberto em qualquer mundo deste planeta. Recentemente, soube de certeza que, com meu coração encontrado, território estranho não é suficiente pra eu me perder.

Mas veio o baque. Mergulhando no abismo, confirmei minhas asas, mas me descobri com medo do escuro. Tão segura de mim, orgulhosa dos meus vôos, roguei por asas maiores e mais fortes, me esquecendo de pedir para que houvesse luz. E eu chorei feito criança. Ah, Pai... esse foi o espinho que plantastes na minha carne. Pra eu não me ensoberbecer.

O meu entusiasmo sucumbiu às sombrias reações dos que me amam. Sim, me amam, e talvez por isso mesmo às vezes me façam tão mal. Sempre me chamou a atenção a passagem do Evangelho em que Jesus revela seu destino a Pedro. O discípulo, com sincera indignação, inconsolável, promete protegê-lo. Ao que Jesus responde: “Afasta-te de mim, Satanás”.

Às vezes me considero mais condescendente com os maus sentimentos. É como se o mal aprisionasse uma bondade guerreira que sempre acaba por explodir em liberdade, salpicando o Universo de beleza. Se nos admitirmos pecadores, eternamente buscaremos a perfeição. Mas ai dos que se julgam puros e donos de bons sentimentos que me provocam calafrios. O grande amor de Pedro seria capaz de proteger Jesus de seu destino maior, de tornar-se o Cristo. Afasta-te de mim, Satanás...

Escrevo para não esquecer. Preciso apagar de vez em mim o que ainda resta de expectativa em relação aos outros e necessidade de compreensão. Carrego o amor incondicional de quem conheceu o abismo - sem apegos e sem julgamentos - e isso basta para seguir em frente, com um sorriso sereno nos lábios e uma paz outra vez inabalável no peito.

quarta-feira, abril 11, 2007

Febril

Minha febre já completa um mês. Baixa como sempre, oscilando entre 36.9 e 37.1, quase imperceptível, mas presente o tempo inteiro. Ontem fui no meu homeopata, já que o especialista do mês passado, os 10 dias de antibiótico e o uso de paracetamol não alteraram o quadro.

O homeopata também não soube dizer muita coisa. Solicitou exames, pediu que eu evitasse doces e me pareceu intrigado. Mas eu já não estranho. Estar febril virou rotina.

De leis da física e cenas de cinema

A Lei da Inércia é um engodo. Todo corpo tende ao repouso, mas tudo ao redor se movimenta. O repouso é uma falsa tendência do meu corpo, que vive do impulso de não perder momentos.

Na minha vida hão de caber todas as minhas inquietações. A idéia de que o tempo passa rápido não pode encontrar espaço. Lembrei das aulas de cinema: 24 quadros por segundo, velocidade normal. Pra câmera rápida, menos quadros por segundo. Câmera lenta, mais quadros. Não, não troquei as bolas. Quanto menos detalhes, mais rápido o fim de seja lá o que for.

Os dias acontecem no ritmo dessas cenas que resolvo encaixar em cada um deles. Tantos detalhes de sonho, decepção, cansaço, esperança e sentido em poucas horas que uma existência inteira cabe em 24 delas. Um dia, 24 horas: eis a convenção, o que não tem jeito. Um segundo, 24 quadros. Esse é o normal. Aprendo, então, a burlar o que parecia inalterável. Não engano o tempo pedindo mais horas no meu dia. A mim, me basta viver muitas vidas por segundo.

segunda-feira, março 26, 2007

Promessas pra Santa Teresa

Subi. Depois... cadê a vontade de descer?

Fui de bonde até o Largo dos Guimarães, onde encontrei o Paulo. Almoçamos no Mineiro uma carne-seca com purê de abóbora, couve, arroz e feijão. No capricho, honrando a tradição do restaurante. Duas doses de cachaça pra acompanhar, pra comemorar.

De lá, partimos pra nova casa, onde conversamos. Com aquele vento gostoso que entra o dia inteiro pelos janelões, com aquela vista pro Rio de Janeiro que há muito eu não via tão mágico.

Mais um pouquinho e descemos até o vizinho Léo, pra prosear e tomar o cafezinho que ainda não podemos fazer por falta de cafeteira, por falta de fogão. A geladeira, o som, o sofá e a mesa da sala o Paulo já providenciou. Ele está feliz da vida de já poder ter alguém pra quem cozinhar. Ah, ele adora cozinhar... Faz uns quitutes árabes que valem algumas cuecas lavadas em troca.

O papo animado na casa do Léo, som do pandeiro que o anfitrião aprendeu a tocar com a Dona Patroa, bela Clarice, percussionista das boas, que toca ali pertinho, onde Santa acaba e a Lapa começa.

Depois voltamos lá pra casa, o Léo junto, e tomamos cerveja nós três. Não fosse o compromisso de encontrar o pessoal do Caroço no Largo do Machado, eu nem tinha voltado pra dormir em Niterói.

Pensei no Luquinhas o tempo inteiro enquanto perambulava pelas ruas do meu novo bairro. Será que ele vai gostar de andar no bonde daqui? Ah, se depender de mim, ele vai crescer achando o Rio mágico.