Todos buscavam uma oportunidade para falar com o Mestre. Havia muito que o sábio homem não participava de grandes encontros públicos por se dedicar, desde uns tempos, à solitária tarefa de escrever um livro cujo penoso tema era a morte. Tomara para si a dura tarefa de discorrer sobre o que ninguém sabe ao certo, sobre esse que é o medo de tantos vivos. Talvez porque apenas os mais sábios compreendam a importância de morrer.
Em verdade, ele não se afastara do assédio dos seguidores apenas devido ao trabalho a que se entregara nos últimos meses. Naquele sábio homem pesavam a contagem de muitos anos e uma enfermidade que, ele bem sabia, o consumiria aos poucos e pra sempre, até o dia em que entenderia na prática o que agora tentava teorizar.
Apesar de debilitado, ele parecia sentir prazer em satisfazer seus discípulos; ora deixando-os inebriados com suas estórias de vida, ora contando divertidos causos, ora recitando algumas de suas poesias. Todavia, por vezes apenas os ouvia com seus olhos azuis firmes e suas frágeis mãos trêmulas.
Foi nessa ocasião, quando se encontrava distraído de seus pensamentos e dores, que ele a conheceu. Ela, uma mulher que ainda se esquecia de deixar pra trás a meninice, falava ao mestre de maneira eloqüente, mas com uma voz que lhe saía tímida. O esforço em aparentar desembaraço pretendia esconder o desconforto de se ver inesperadamente diante do tão respeitável mestre. Mas ele se fascinou: com as palavras escolhidas e também com as besteiras que escapuliam dos belos lábios daquela jovem de cabelos e olhos vibrantes de tão negros.
Tiveram muitas outras conversas. Os discípulos esperavam muito para ganhar alguns momentos da atenção que o sábio passou a dedicar exclusivamente àquela mulher.
Certa noite, aquele discípulo mais amado tomou-a pela mão, conduzindo-a até o quarto do sábio, que a esperava. Ficaram a sós. O Mestre parecia não se importar com o fato de vestir um ridículo pijama, mas se confessou envergonhado pela emoção adolescente que agora sentia. Contou-lhe, com seus olhos azuis doces e as pernas trêmulas de calor, que o coração batia outra vez. “Eu escrevo sobre a noite e você foi meu interlúdio de sol”, disse o sábio.
Depois da confissão, veio um pedido: “Eu gostaria de dormir de mãos dadas com você”. E citou a passagem bíblica em que o Rei Davi, já íntimo da velhice e beijando a face da morte, expressou o desejo de se deitar com uma virgem, apenas para que ela lhe aquecesse os pés.
A mulher, de tão menina, não conseguiu entender a beleza do pedido. Negou-se a atendê-lo. E se arrependeu pelo resto de seus dias.
sábado, maio 19, 2007
Conto do prazer em sol
Todos buscavam uma oportunidade para falar com o Mestre. Havia muito que o sábio homem não participava de grandes encontros públicos por se dedicar, desde uns tempos, à solitária tarefa de escrever um livro cujo penoso tema era a morte. Tomara para si a dura tarefa de discorrer sobre o que ninguém sabe ao certo, sobre esse que é o medo de tantos vivos. Talvez porque apenas os mais sábios compreendam a importância de morrer.
Em verdade, ele não se afastara do assédio dos seguidores apenas devido ao trabalho a que se entregara nos últimos meses. Naquele sábio homem pesavam a contagem de muitos anos e uma enfermidade que, ele bem sabia, o consumiria aos poucos e pra sempre, até o dia em que entenderia na prática o que agora tentava teorizar.
Apesar de debilitado, ele parecia sentir prazer em satisfazer seus discípulos; ora deixando-os inebriados com suas estórias de vida, ora contando divertidos causos, ora recitando algumas de suas poesias. Todavia, por vezes apenas os ouvia com seus olhos azuis firmes e suas frágeis mãos trêmulas.
Foi nessa ocasião, quando se encontrava distraído de seus pensamentos e dores, que ele a conheceu. Ela, uma mulher que ainda se esquecia de deixar pra trás a meninice, falava ao mestre de maneira eloqüente, mas com uma voz que lhe saía tímida. O esforço em aparentar desembaraço pretendia esconder o desconforto de se ver inesperadamente diante do tão respeitável mestre. Mas ele se fascinou: com as palavras escolhidas e também com as besteiras que escapuliam dos belos lábios daquela jovem de cabelos e olhos vibrantes de tão negros.
Tiveram muitas outras conversas. Os discípulos esperavam muito para ganhar alguns momentos da atenção que o sábio passou a dedicar exclusivamente àquela mulher.
Certa noite, aquele discípulo mais amado tomou-a pela mão, conduzindo-a até o quarto do sábio, que a esperava. Ficaram a sós. O Mestre parecia não se importar com o fato de vestir um ridículo pijama, mas se confessou envergonhado pela emoção adolescente que agora sentia. Contou-lhe, com seus olhos azuis doces e as pernas trêmulas de calor, que o coração batia outra vez. “Eu escrevo sobre a noite e você foi meu interlúdio de sol”, disse o sábio.
Depois da confissão, veio um pedido: “Eu gostaria de dormir de mãos dadas com você”. E citou a passagem bíblica em que o Rei Davi, já íntimo da velhice e beijando a face da morte, expressou o desejo de se deitar com uma virgem, apenas para que ela lhe aquecesse os pés.
A mulher, de tão menina, não conseguiu entender a beleza do pedido. Negou-se a atendê-lo. E se arrependeu pelo resto de seus dias.
Em verdade, ele não se afastara do assédio dos seguidores apenas devido ao trabalho a que se entregara nos últimos meses. Naquele sábio homem pesavam a contagem de muitos anos e uma enfermidade que, ele bem sabia, o consumiria aos poucos e pra sempre, até o dia em que entenderia na prática o que agora tentava teorizar.
Apesar de debilitado, ele parecia sentir prazer em satisfazer seus discípulos; ora deixando-os inebriados com suas estórias de vida, ora contando divertidos causos, ora recitando algumas de suas poesias. Todavia, por vezes apenas os ouvia com seus olhos azuis firmes e suas frágeis mãos trêmulas.
Foi nessa ocasião, quando se encontrava distraído de seus pensamentos e dores, que ele a conheceu. Ela, uma mulher que ainda se esquecia de deixar pra trás a meninice, falava ao mestre de maneira eloqüente, mas com uma voz que lhe saía tímida. O esforço em aparentar desembaraço pretendia esconder o desconforto de se ver inesperadamente diante do tão respeitável mestre. Mas ele se fascinou: com as palavras escolhidas e também com as besteiras que escapuliam dos belos lábios daquela jovem de cabelos e olhos vibrantes de tão negros.
Tiveram muitas outras conversas. Os discípulos esperavam muito para ganhar alguns momentos da atenção que o sábio passou a dedicar exclusivamente àquela mulher.
Certa noite, aquele discípulo mais amado tomou-a pela mão, conduzindo-a até o quarto do sábio, que a esperava. Ficaram a sós. O Mestre parecia não se importar com o fato de vestir um ridículo pijama, mas se confessou envergonhado pela emoção adolescente que agora sentia. Contou-lhe, com seus olhos azuis doces e as pernas trêmulas de calor, que o coração batia outra vez. “Eu escrevo sobre a noite e você foi meu interlúdio de sol”, disse o sábio.
Depois da confissão, veio um pedido: “Eu gostaria de dormir de mãos dadas com você”. E citou a passagem bíblica em que o Rei Davi, já íntimo da velhice e beijando a face da morte, expressou o desejo de se deitar com uma virgem, apenas para que ela lhe aquecesse os pés.
A mulher, de tão menina, não conseguiu entender a beleza do pedido. Negou-se a atendê-lo. E se arrependeu pelo resto de seus dias.
segunda-feira, maio 14, 2007
Conto do prazer em si
Havia algo de gozo inédito naquele dia em que se entregou ao seu ritual de prazer solitário. Desta vez, aqueles dedos – sempre tão úmidos que chegavam a enrugar – aqueles dedos estavam embebidos de uma vitória espessa cujo sabor jamais experimentara.
Fazia tempo ela se convencera de que precisava de um homem à sua imagem e semelhança: mistura de força e delicadeza, altivez e humildade, beleza simples e alma vibrante, sarcasmo e bondade, requinte e desprendimento, intelecto e sensibilidade. Yin e yang bem dosados. E êxtase pra esporrar em tudo.
Naquele dia as mãos percorreram caminhos há muito desbravados, mas uma grande estréia se desenhou no pensamento. Pela primeira vez, era o seu próprio rosto que lhe sorria naquele corpo imaginário que criara pra se satisfazer. Assim refletida, sentiu prazer em dobro. Possuiu-se duplamente, da maneira que os homens nunca souberam como. Ou como nunca souberam que.
Dali pra frente tornou-se refém de si. E nunca mais deixou de sorrir.
Fazia tempo ela se convencera de que precisava de um homem à sua imagem e semelhança: mistura de força e delicadeza, altivez e humildade, beleza simples e alma vibrante, sarcasmo e bondade, requinte e desprendimento, intelecto e sensibilidade. Yin e yang bem dosados. E êxtase pra esporrar em tudo.
Naquele dia as mãos percorreram caminhos há muito desbravados, mas uma grande estréia se desenhou no pensamento. Pela primeira vez, era o seu próprio rosto que lhe sorria naquele corpo imaginário que criara pra se satisfazer. Assim refletida, sentiu prazer em dobro. Possuiu-se duplamente, da maneira que os homens nunca souberam como. Ou como nunca souberam que.
Dali pra frente tornou-se refém de si. E nunca mais deixou de sorrir.
Conto do prazer em si
Havia algo de gozo inédito naquele dia em que se entregou ao seu ritual de prazer solitário. Desta vez, aqueles dedos – sempre tão úmidos que chegavam a enrugar – aqueles dedos estavam embebidos de uma vitória espessa cujo sabor jamais experimentara.
Fazia tempo ela se convencera de que precisava de um homem à sua imagem e semelhança: mistura de força e delicadeza, altivez e humildade, beleza simples e alma vibrante, sarcasmo e bondade, requinte e desprendimento, intelecto e sensibilidade. Yin e yang bem dosados. E êxtase pra esporrar em tudo.
Naquele dia as mãos percorreram caminhos há muito desbravados, mas uma grande estréia se desenhou no pensamento. Pela primeira vez, era o seu próprio rosto que lhe sorria naquele corpo imaginário que criara pra se satisfazer. Assim refletida, sentiu prazer em dobro. Possuiu-se duplamente, da maneira que os homens nunca souberam como. Ou como nunca souberam que.
Dali pra frente tornou-se refém de si. E nunca mais deixou de sorrir.
Fazia tempo ela se convencera de que precisava de um homem à sua imagem e semelhança: mistura de força e delicadeza, altivez e humildade, beleza simples e alma vibrante, sarcasmo e bondade, requinte e desprendimento, intelecto e sensibilidade. Yin e yang bem dosados. E êxtase pra esporrar em tudo.
Naquele dia as mãos percorreram caminhos há muito desbravados, mas uma grande estréia se desenhou no pensamento. Pela primeira vez, era o seu próprio rosto que lhe sorria naquele corpo imaginário que criara pra se satisfazer. Assim refletida, sentiu prazer em dobro. Possuiu-se duplamente, da maneira que os homens nunca souberam como. Ou como nunca souberam que.
Dali pra frente tornou-se refém de si. E nunca mais deixou de sorrir.
sábado, maio 05, 2007
Branda ausência de porvir
Por que me nego tanto a escrever sobre o amor? Todos, absolutamente todos os dias eu me flagro com pensamentos que se referem, diretamente ou não, a esse tal de amor. Sim, falo daquele amor que li nos livros, que assisti em filmes e que protagonizei algumas vezes. Esse tal de amor romântico me consome precisamente por tudo que rechaço nele, por tudo o que há de cristalizações, pelas quase impossíveis desconstruções, pelas certezas involuntárias que rondam mentes e veias palpitantes.
Há alguns anos meu coração não conhece esse amor. Só às vezes ele se ocupa com a lembrança de algum ardor, agonia ou êxtase que restam espalhados em trechos esquecidos da minha estrada empoeirada. Nessas horas, eu até que sinto saudades do que não vivi. Mas faz tempo que me abrir para uma vivência a dois não representa mais tanto calor. Não sei se voltarei a senti-lo, e isso não significa descrença ou proteção. Apenas que eu não sei. E resolvi me libertar do meu porvir, ou da ausência de vinda no meu coração.
Há alguns anos meu coração não conhece esse amor. Só às vezes ele se ocupa com a lembrança de algum ardor, agonia ou êxtase que restam espalhados em trechos esquecidos da minha estrada empoeirada. Nessas horas, eu até que sinto saudades do que não vivi. Mas faz tempo que me abrir para uma vivência a dois não representa mais tanto calor. Não sei se voltarei a senti-lo, e isso não significa descrença ou proteção. Apenas que eu não sei. E resolvi me libertar do meu porvir, ou da ausência de vinda no meu coração.
Branda ausência de porvir
Por que me nego tanto a escrever sobre o amor? Todos, absolutamente todos os dias eu me flagro com pensamentos que se referem, diretamente ou não, a esse tal de amor. Sim, falo daquele amor que li nos livros, que assisti em filmes e que protagonizei algumas vezes. Esse tal de amor romântico me consome precisamente por tudo que rechaço nele, por tudo o que há de cristalizações, pelas quase impossíveis desconstruções, pelas certezas involuntárias que rondam mentes e veias palpitantes.
Há alguns anos meu coração não conhece esse amor. Só às vezes ele se ocupa com a lembrança de algum ardor, agonia ou êxtase que restam espalhados em trechos esquecidos da minha estrada empoeirada. Nessas horas, eu até que sinto saudades do que não vivi. Mas faz tempo que me abrir para uma vivência a dois não representa mais tanto calor. Não sei se voltarei a senti-lo, e isso não significa descrença ou proteção. Apenas que eu não sei. E resolvi me libertar do meu porvir, ou da ausência de vinda no meu coração.
Há alguns anos meu coração não conhece esse amor. Só às vezes ele se ocupa com a lembrança de algum ardor, agonia ou êxtase que restam espalhados em trechos esquecidos da minha estrada empoeirada. Nessas horas, eu até que sinto saudades do que não vivi. Mas faz tempo que me abrir para uma vivência a dois não representa mais tanto calor. Não sei se voltarei a senti-lo, e isso não significa descrença ou proteção. Apenas que eu não sei. E resolvi me libertar do meu porvir, ou da ausência de vinda no meu coração.
Inverno de viver
O friozinho de ontem me fez reviver. Definitivamente meu tempo de verões escaldantes se foi. O inverno que se aproxima me parece mágico. Me dei conta de que as boas e banais lembranças de anos recentes se referem a invernos, a céus de junho no Rio de Janeiro. Há três anos atrás, nesta mesma época, senti vontade de fazer curso de montanhismo só pra ter o céu do Rio de Janeiro mais próximo de mim.
A euforia do verão perdeu a magia. Não há tristeza nisso, afinal hoje aguardo a chegada do outono, inverno e primavera com a mesma ansiedade infantil que antes eu reservava exclusivamente aos dias de ápice do calor.
Eu me encanto com a contrição invernal. Mistério de algo que não se dá, que pede pra ser descoberto. E descortinando o inverno a gente encontra a primavera.
A euforia do verão perdeu a magia. Não há tristeza nisso, afinal hoje aguardo a chegada do outono, inverno e primavera com a mesma ansiedade infantil que antes eu reservava exclusivamente aos dias de ápice do calor.
Eu me encanto com a contrição invernal. Mistério de algo que não se dá, que pede pra ser descoberto. E descortinando o inverno a gente encontra a primavera.
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