quarta-feira, abril 11, 2007

Febril

Minha febre já completa um mês. Baixa como sempre, oscilando entre 36.9 e 37.1, quase imperceptível, mas presente o tempo inteiro. Ontem fui no meu homeopata, já que o especialista do mês passado, os 10 dias de antibiótico e o uso de paracetamol não alteraram o quadro.

O homeopata também não soube dizer muita coisa. Solicitou exames, pediu que eu evitasse doces e me pareceu intrigado. Mas eu já não estranho. Estar febril virou rotina.

De leis da física e cenas de cinema

A Lei da Inércia é um engodo. Todo corpo tende ao repouso, mas tudo ao redor se movimenta. O repouso é uma falsa tendência do meu corpo, que vive do impulso de não perder momentos.

Na minha vida hão de caber todas as minhas inquietações. A idéia de que o tempo passa rápido não pode encontrar espaço. Lembrei das aulas de cinema: 24 quadros por segundo, velocidade normal. Pra câmera rápida, menos quadros por segundo. Câmera lenta, mais quadros. Não, não troquei as bolas. Quanto menos detalhes, mais rápido o fim de seja lá o que for.

Os dias acontecem no ritmo dessas cenas que resolvo encaixar em cada um deles. Tantos detalhes de sonho, decepção, cansaço, esperança e sentido em poucas horas que uma existência inteira cabe em 24 delas. Um dia, 24 horas: eis a convenção, o que não tem jeito. Um segundo, 24 quadros. Esse é o normal. Aprendo, então, a burlar o que parecia inalterável. Não engano o tempo pedindo mais horas no meu dia. A mim, me basta viver muitas vidas por segundo.

segunda-feira, março 26, 2007

Promessas pra Santa Teresa

Subi. Depois... cadê a vontade de descer?

Fui de bonde até o Largo dos Guimarães, onde encontrei o Paulo. Almoçamos no Mineiro uma carne-seca com purê de abóbora, couve, arroz e feijão. No capricho, honrando a tradição do restaurante. Duas doses de cachaça pra acompanhar, pra comemorar.

De lá, partimos pra nova casa, onde conversamos. Com aquele vento gostoso que entra o dia inteiro pelos janelões, com aquela vista pro Rio de Janeiro que há muito eu não via tão mágico.

Mais um pouquinho e descemos até o vizinho Léo, pra prosear e tomar o cafezinho que ainda não podemos fazer por falta de cafeteira, por falta de fogão. A geladeira, o som, o sofá e a mesa da sala o Paulo já providenciou. Ele está feliz da vida de já poder ter alguém pra quem cozinhar. Ah, ele adora cozinhar... Faz uns quitutes árabes que valem algumas cuecas lavadas em troca.

O papo animado na casa do Léo, som do pandeiro que o anfitrião aprendeu a tocar com a Dona Patroa, bela Clarice, percussionista das boas, que toca ali pertinho, onde Santa acaba e a Lapa começa.

Depois voltamos lá pra casa, o Léo junto, e tomamos cerveja nós três. Não fosse o compromisso de encontrar o pessoal do Caroço no Largo do Machado, eu nem tinha voltado pra dormir em Niterói.

Pensei no Luquinhas o tempo inteiro enquanto perambulava pelas ruas do meu novo bairro. Será que ele vai gostar de andar no bonde daqui? Ah, se depender de mim, ele vai crescer achando o Rio mágico.

terça-feira, março 13, 2007

Quem diria digo eu

Apesar da minha tentativa de forçar um resultado igual ao da Déia, parece que Paris é meu lugar.




You Belong in Paris



You enjoy all that life has to offer, and you can appreciate the fine tastes and sites of Paris.

You're the perfect person to wander the streets of Paris aimlessly, enjoying architecture and a crepe.

sexta-feira, março 02, 2007

Dia de festa

(e-mail enviado por mim no dia 22 de fevereiro)

Olá, amigos queridos.
No próximo dia 28 meu pai completa 61 anos. Há um tempinho comento com alguns de vcs que gostaria de fazer algo na minha casa pra criar uma aproximação dos meus amigos com o seu Artur. Acho que a oportunidade é boa. Só tem uma questão: seu Artur foge de festas, ainda mais se for a do próprio aniversário. A Dani já esperneou muito nessa vida por causa do jeito bicho-do-mato do nosso pai. Mas acho que encontrei uma solução divertida: fazer uma festa em homenagem ao seu Artur, mesmo que ele não participe.

Há dois dias, disse que daria uma festa e ele me respondeu que, então, sairia de casa para um retiro espiritual. Me pareceu sublime. Minha comemoração será um estímulo para orações. Além disso, decidi instituir a santidade do dia 28 de fevereiro, quando, a partir deste ano, celebrarei a vida de quem me criou e me ensinou tanto, mesmo quando não era a intenção, mesmo quando aprendi pelo avesso, sendo contrária ao que ele queria me ensinar.

Usando as palavras da Déia, esta é quase uma forma de vencer a morte. Daqui a muitos anos, quando o meu pai não estiver mais aqui, continuarei comemorando e nem vou sentir diferença. A ausência é uma das formas mais bonitas de presença, sempre achei...

Ele riu com a minha conclusão e me lembrou que isso é precisamente o que fazemos na tradição cristã. Em nome do Cristo "ausente" várias pessoas se reúnem, em tantos cantos desse mundo. Talvez este tenha sido o maior milagre: perpetuar o encontro. Então, como Jesus mesmo disse que faríamos obras maiores que as Dele, acho que não faz mal algum tranformar o dia do seu Artur num dia de encontro, celebração da amizade e de comunhão.

Depois dessa, vou querer também festejar os aniversários atrasados de fevereiro: da Dani (dia 1), que mora em Amsterdã, e da Déia (dia 8), que vive em Londres. Pode ser num sábado desses aí. Mas o do seu Artur eu faço questão que seja no dia 28.

Me digam o que acham.
Abraços,
Gi

PS - Questões práticas: vou fazer o bolo e as várias pizzas. Tragam a bebida. Pensei em marcar às 20hs.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Do cio de existir

A pequena morte
“Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu vôo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena Morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena Morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce”. (Eduardo Galeano)


Nascer é uma alegria que dói. Remédio bom tem gosto ruim. Pra eletrizar é preciso muito atrito. Sexo bom faz cansar. Todo corpo tende ao repouso, mas a gente sempre se levanta. “Viver é muito perigoso”, diz compadre meu Riobaldo.

Às vezes acho que dei adeus demais. Mudei de escola sete vezes, já abandonei uma faculdade, sou filha de pais separados, não conheci os avós paternos, não lembro do avô materno. A única avó com quem pouco convivi era amarga demais pra me mimar e morreu de câncer quando eu tinha nove anos. Chorei de amor pela primeira vez aos 11, passei adolescência longe de mãe, morei no Oriente Médio, viajei por oito países, perdi irmã, sobrinho e melhor amiga pro Velho Continente. Mais de uma vez tive dois trabalhos, sempre ganhei mal, fiquei quatro anos sem férias e só descansei desempregada. Golpe de vida meu peito sempre agüenta.

Já dei exemplos do princípio da realidade dinâmica. Por causa dessa lei, deixei contos por terminar, amores ficaram pelo caminho, amizades pela metade. Eu me forço ao repouso, mas tudo ao redor se movimenta. 2007 ainda é fevereiro e já tive salário atrasado, cumpri um aviso prévio, comecei no meu novo emprego, tive quatro paixões espirituais platônicas, comprei três pares de sapato, fiz duas viagens, me relacionei de lampejo no plano físico com quatro caras – e nem era Carnaval. Conheci muita, muita gente bacana.

Eu morreria tranqüila, mas tenho muitas dívidas. Voltei pra dança e continuo na ioga, consegui meu certificado do IELTS, tenho ido ao cinema com freqüência e cuidado dos meus amigos. Quero montar uma bandinha de rock pra ser vocalista, fazer mestrado, aprender francês e holandês, escrever um livro.

Deus, me dê mais de uma existência.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Por um espírito verde

Há um animal aqui. De repente me dei conta de que está grande, quase um monstro. Antes o crescimento era tímido, mas o tempo passou e já não suporto seu peso que me sufoca, seus dentes e unhas que me comem por dentro, me rasgam.

Nada disso. O monstro sou eu. Porque aprisiono o animal, porque o sufoco aqui dentro de mim, porque não o liberto. Porque atrofio suas unhas e dentes.

Que meu espírito seja corrosivo, faça buracos nesta carne podre e saia para fora, para uma liberdade que ainda desconheço. Porque só assim os frutos maduros que guardo aqui dentro poderão ser comidos, e então me tornarei mais leve e mais vazia, e pronta para me encher de um novo espírito, verde e criança.

sábado, janeiro 20, 2007

Playing the angel

Sometimes I try
Sometimes I lie, with you
Sometimes I cry
Sometimes I die, it's true