You Belong in Paris |
![]() You enjoy all that life has to offer, and you can appreciate the fine tastes and sites of Paris. You're the perfect person to wander the streets of Paris aimlessly, enjoying architecture and a crepe. |
terça-feira, março 13, 2007
Quem diria digo eu
Apesar da minha tentativa de forçar um resultado igual ao da Déia, parece que Paris é meu lugar.
sexta-feira, março 02, 2007
Dia de festa
(e-mail enviado por mim no dia 22 de fevereiro)
Olá, amigos queridos.
No próximo dia 28 meu pai completa 61 anos. Há um tempinho comento com alguns de vcs que gostaria de fazer algo na minha casa pra criar uma aproximação dos meus amigos com o seu Artur. Acho que a oportunidade é boa. Só tem uma questão: seu Artur foge de festas, ainda mais se for a do próprio aniversário. A Dani já esperneou muito nessa vida por causa do jeito bicho-do-mato do nosso pai. Mas acho que encontrei uma solução divertida: fazer uma festa em homenagem ao seu Artur, mesmo que ele não participe.
Há dois dias, disse que daria uma festa e ele me respondeu que, então, sairia de casa para um retiro espiritual. Me pareceu sublime. Minha comemoração será um estímulo para orações. Além disso, decidi instituir a santidade do dia 28 de fevereiro, quando, a partir deste ano, celebrarei a vida de quem me criou e me ensinou tanto, mesmo quando não era a intenção, mesmo quando aprendi pelo avesso, sendo contrária ao que ele queria me ensinar.
Usando as palavras da Déia, esta é quase uma forma de vencer a morte. Daqui a muitos anos, quando o meu pai não estiver mais aqui, continuarei comemorando e nem vou sentir diferença. A ausência é uma das formas mais bonitas de presença, sempre achei...
Ele riu com a minha conclusão e me lembrou que isso é precisamente o que fazemos na tradição cristã. Em nome do Cristo "ausente" várias pessoas se reúnem, em tantos cantos desse mundo. Talvez este tenha sido o maior milagre: perpetuar o encontro. Então, como Jesus mesmo disse que faríamos obras maiores que as Dele, acho que não faz mal algum tranformar o dia do seu Artur num dia de encontro, celebração da amizade e de comunhão.
Depois dessa, vou querer também festejar os aniversários atrasados de fevereiro: da Dani (dia 1), que mora em Amsterdã, e da Déia (dia 8), que vive em Londres. Pode ser num sábado desses aí. Mas o do seu Artur eu faço questão que seja no dia 28.
Me digam o que acham.
Abraços,
Gi
PS - Questões práticas: vou fazer o bolo e as várias pizzas. Tragam a bebida. Pensei em marcar às 20hs.
Olá, amigos queridos.
No próximo dia 28 meu pai completa 61 anos. Há um tempinho comento com alguns de vcs que gostaria de fazer algo na minha casa pra criar uma aproximação dos meus amigos com o seu Artur. Acho que a oportunidade é boa. Só tem uma questão: seu Artur foge de festas, ainda mais se for a do próprio aniversário. A Dani já esperneou muito nessa vida por causa do jeito bicho-do-mato do nosso pai. Mas acho que encontrei uma solução divertida: fazer uma festa em homenagem ao seu Artur, mesmo que ele não participe.
Há dois dias, disse que daria uma festa e ele me respondeu que, então, sairia de casa para um retiro espiritual. Me pareceu sublime. Minha comemoração será um estímulo para orações. Além disso, decidi instituir a santidade do dia 28 de fevereiro, quando, a partir deste ano, celebrarei a vida de quem me criou e me ensinou tanto, mesmo quando não era a intenção, mesmo quando aprendi pelo avesso, sendo contrária ao que ele queria me ensinar.
Usando as palavras da Déia, esta é quase uma forma de vencer a morte. Daqui a muitos anos, quando o meu pai não estiver mais aqui, continuarei comemorando e nem vou sentir diferença. A ausência é uma das formas mais bonitas de presença, sempre achei...
Ele riu com a minha conclusão e me lembrou que isso é precisamente o que fazemos na tradição cristã. Em nome do Cristo "ausente" várias pessoas se reúnem, em tantos cantos desse mundo. Talvez este tenha sido o maior milagre: perpetuar o encontro. Então, como Jesus mesmo disse que faríamos obras maiores que as Dele, acho que não faz mal algum tranformar o dia do seu Artur num dia de encontro, celebração da amizade e de comunhão.
Depois dessa, vou querer também festejar os aniversários atrasados de fevereiro: da Dani (dia 1), que mora em Amsterdã, e da Déia (dia 8), que vive em Londres. Pode ser num sábado desses aí. Mas o do seu Artur eu faço questão que seja no dia 28.
Me digam o que acham.
Abraços,
Gi
PS - Questões práticas: vou fazer o bolo e as várias pizzas. Tragam a bebida. Pensei em marcar às 20hs.
sexta-feira, fevereiro 23, 2007
Do cio de existir
A pequena morte
“Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu vôo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena Morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena Morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce”. (Eduardo Galeano)
Nascer é uma alegria que dói. Remédio bom tem gosto ruim. Pra eletrizar é preciso muito atrito. Sexo bom faz cansar. Todo corpo tende ao repouso, mas a gente sempre se levanta. “Viver é muito perigoso”, diz compadre meu Riobaldo.
Às vezes acho que dei adeus demais. Mudei de escola sete vezes, já abandonei uma faculdade, sou filha de pais separados, não conheci os avós paternos, não lembro do avô materno. A única avó com quem pouco convivi era amarga demais pra me mimar e morreu de câncer quando eu tinha nove anos. Chorei de amor pela primeira vez aos 11, passei adolescência longe de mãe, morei no Oriente Médio, viajei por oito países, perdi irmã, sobrinho e melhor amiga pro Velho Continente. Mais de uma vez tive dois trabalhos, sempre ganhei mal, fiquei quatro anos sem férias e só descansei desempregada. Golpe de vida meu peito sempre agüenta.
Já dei exemplos do princípio da realidade dinâmica. Por causa dessa lei, deixei contos por terminar, amores ficaram pelo caminho, amizades pela metade. Eu me forço ao repouso, mas tudo ao redor se movimenta. 2007 ainda é fevereiro e já tive salário atrasado, cumpri um aviso prévio, comecei no meu novo emprego, tive quatro paixões espirituais platônicas, comprei três pares de sapato, fiz duas viagens, me relacionei de lampejo no plano físico com quatro caras – e nem era Carnaval. Conheci muita, muita gente bacana.
Eu morreria tranqüila, mas tenho muitas dívidas. Voltei pra dança e continuo na ioga, consegui meu certificado do IELTS, tenho ido ao cinema com freqüência e cuidado dos meus amigos. Quero montar uma bandinha de rock pra ser vocalista, fazer mestrado, aprender francês e holandês, escrever um livro.
Deus, me dê mais de uma existência.
“Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu vôo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena Morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena Morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce”. (Eduardo Galeano)
Nascer é uma alegria que dói. Remédio bom tem gosto ruim. Pra eletrizar é preciso muito atrito. Sexo bom faz cansar. Todo corpo tende ao repouso, mas a gente sempre se levanta. “Viver é muito perigoso”, diz compadre meu Riobaldo.
Às vezes acho que dei adeus demais. Mudei de escola sete vezes, já abandonei uma faculdade, sou filha de pais separados, não conheci os avós paternos, não lembro do avô materno. A única avó com quem pouco convivi era amarga demais pra me mimar e morreu de câncer quando eu tinha nove anos. Chorei de amor pela primeira vez aos 11, passei adolescência longe de mãe, morei no Oriente Médio, viajei por oito países, perdi irmã, sobrinho e melhor amiga pro Velho Continente. Mais de uma vez tive dois trabalhos, sempre ganhei mal, fiquei quatro anos sem férias e só descansei desempregada. Golpe de vida meu peito sempre agüenta.
Já dei exemplos do princípio da realidade dinâmica. Por causa dessa lei, deixei contos por terminar, amores ficaram pelo caminho, amizades pela metade. Eu me forço ao repouso, mas tudo ao redor se movimenta. 2007 ainda é fevereiro e já tive salário atrasado, cumpri um aviso prévio, comecei no meu novo emprego, tive quatro paixões espirituais platônicas, comprei três pares de sapato, fiz duas viagens, me relacionei de lampejo no plano físico com quatro caras – e nem era Carnaval. Conheci muita, muita gente bacana.
Eu morreria tranqüila, mas tenho muitas dívidas. Voltei pra dança e continuo na ioga, consegui meu certificado do IELTS, tenho ido ao cinema com freqüência e cuidado dos meus amigos. Quero montar uma bandinha de rock pra ser vocalista, fazer mestrado, aprender francês e holandês, escrever um livro.
Deus, me dê mais de uma existência.
segunda-feira, fevereiro 12, 2007
Por um espírito verde
Há um animal aqui. De repente me dei conta de que está grande, quase um monstro. Antes o crescimento era tímido, mas o tempo passou e já não suporto seu peso que me sufoca, seus dentes e unhas que me comem por dentro, me rasgam.
Nada disso. O monstro sou eu. Porque aprisiono o animal, porque o sufoco aqui dentro de mim, porque não o liberto. Porque atrofio suas unhas e dentes.
Que meu espírito seja corrosivo, faça buracos nesta carne podre e saia para fora, para uma liberdade que ainda desconheço. Porque só assim os frutos maduros que guardo aqui dentro poderão ser comidos, e então me tornarei mais leve e mais vazia, e pronta para me encher de um novo espírito, verde e criança.
Nada disso. O monstro sou eu. Porque aprisiono o animal, porque o sufoco aqui dentro de mim, porque não o liberto. Porque atrofio suas unhas e dentes.
Que meu espírito seja corrosivo, faça buracos nesta carne podre e saia para fora, para uma liberdade que ainda desconheço. Porque só assim os frutos maduros que guardo aqui dentro poderão ser comidos, e então me tornarei mais leve e mais vazia, e pronta para me encher de um novo espírito, verde e criança.
sábado, janeiro 20, 2007
How to disappear completely - 2
Tem dias assim: em que toda a minha onipotência é desmentida feito barata esmagada por pé de criança. Me repito sempre, por mesmo acreditar, que vantagem minha é estar morta, e viver de vagar por aqui, só achando graça das coisas. Mas, vez e outra, essa dormência de não existir me dói.
terça-feira, janeiro 16, 2007
Tudo sobre minha calcinha preta
A Beca me ligou ontem às dez da noite. Disse que eu estava sumida, tal, mas não fez muito rodeio e mandou:
— Gi, você esqueceu uma calcinha preta aqui?
Resposta afirmativa. Ela pediu detalhes:
— Mas como é exatamente a calcinha?
E eu descrevi.
— Pois esse filho da puta aqui do meu lado escapou de morrer agora. A sorte foi que ele me lembrou que você ficou com o apartamento no Ano Novo, quando estávamos em Salvador.
Tivemos uma crise de riso.
Mas a história está longe de acabar por aí. Alguns dados: a Beca é a namorada do Dés, que me emprestou seu apartamento em Ipanema para o Réveillon. O Dés e eu namoramos durante um ano e meio, de agosto de 2002 a janeiro de 2004. Mais que amantes, fomos grandes amigos. Parceiros. Cúmplices. Mas, quando decidimos que não seríamos mais um casal, não teve jeito de salvar amizade, parceria ou cumplicidade. Tudo irremediavelmente perdido, parecia, até que, quase dois anos depois, bati à sua porta. Era o Natal de 2005, eu havia acabado de dar de cara com o meu último amor, num bar na Praça Nossa Senhora da Paz, que estava acompanhado. Naquele momento, pensei que somente um reencontro com o meu passado me livraria de um doloroso desespero. E eu não me enganei...
Quando o reencontrei, vi encarnadas as respostas pra tantas das minhas perguntas. Os questionamentos se tornaram desnecessários e eu me compreendi. Revê-lo me proporcionou instantâneas lições que, hoje, guardo no bolso, no peito e em todos os cantos de mim. Como eu escrevi dias depois que tudo aconteceu:
"Naquela hora e meia, tudo fez sentido. Eu, que nunca entendi por que a gente ama tanto pra acabar, compreendi finalmente que algumas reações de amor, desencadeadas, explodem no infinito, pra salpicar o universo. Ejaculação de um aparente caos que engravida o cosmo e gera beleza. Porque 'a beleza salvará o mundo'.
(...)
Durante aquela conversa de portaria, fez muito sentido amar. Não para se ter algo, mas para engravidar o mundo de beleza. Eu senti muito orgulho porque um dia dediquei tanto amor a um cara tão bacana. Simples assim."
A amizade foi resgatada, de uma maneira — me atrevo a dizer! — ainda mais bonita. Passamos juntos o Reveillon de 2005, na festa em que conheci muitos de seus novos amigos, que só dois meses depois souberam do nosso namoro no passado. Combinamos assim. Não fazia sentido me apresentar como ex, com um rótulo desses. Amiga e pronto, e sempre. Seus novos amigos (que não eram da “minha época”) me acolheram, entre eles a Beca. E passaram a me convidar para todos os programas. Dois meses depois, quando resolvemos contar o “detalhe” (para evitar uma futura confusão, porque a Beca se apaixonara pelo Dés, o Dés por ela, e o primo dela por mim), até que levaram um susto, mas aí já não importava mais. Em pouco meses o Dés estava namorando com a Beca, e ela já gostava tanto de mim, e eu dela, que não nada podia mudar isso.
Obviamente que muita gente mal consegue disfarçar o espanto . “Você pegou a chave do apartamento do ex? Mas e a namorada dele? Não fala nada? Vocês são amigas? Que gente mais moderna...”. Quando cheguei de viagem, em novembro, os dois me convidaram para um almoço no meu primeiro final de semana aqui. Outros amigos do Dés estavam presentes — desta vez os antigos, os da “minha época”. As pessoas se entreolhavam muito, flagrei tantos cochichos que, então, resolvemos nos pronunciar, a Beca e eu: “É, a gente se gosta”.
Na verdade, tem uma parte nisso tudo que não me agrada: a Beca acabou com uma das minhas diversões favoritas, que era falar mal das atuais dos ex-namorados, ou das ex-namoradas dos atuais. Porque a Beca, além de ser doce, sensível, amiga, falar com um sotaque baiano muito do charmoso, ser atriz e também cantar de um jeito lindo, ainda tem um metro e oitenta e é belíssima.
Pois então. Depois de ter passado quatro noites no apartamento emprestado, minha calcinha preta, esquecida no varal no dia 2 de janeiro, foi parar na gaveta da Beca. Quando ela viu, acordou o Dés aos sacolejos, pedindo satisfações. Mas, afinal, tudo se resolveu: a calcinha era da ex.
— Gi, você esqueceu uma calcinha preta aqui?
Resposta afirmativa. Ela pediu detalhes:
— Mas como é exatamente a calcinha?
E eu descrevi.
— Pois esse filho da puta aqui do meu lado escapou de morrer agora. A sorte foi que ele me lembrou que você ficou com o apartamento no Ano Novo, quando estávamos em Salvador.
Tivemos uma crise de riso.
Mas a história está longe de acabar por aí. Alguns dados: a Beca é a namorada do Dés, que me emprestou seu apartamento em Ipanema para o Réveillon. O Dés e eu namoramos durante um ano e meio, de agosto de 2002 a janeiro de 2004. Mais que amantes, fomos grandes amigos. Parceiros. Cúmplices. Mas, quando decidimos que não seríamos mais um casal, não teve jeito de salvar amizade, parceria ou cumplicidade. Tudo irremediavelmente perdido, parecia, até que, quase dois anos depois, bati à sua porta. Era o Natal de 2005, eu havia acabado de dar de cara com o meu último amor, num bar na Praça Nossa Senhora da Paz, que estava acompanhado. Naquele momento, pensei que somente um reencontro com o meu passado me livraria de um doloroso desespero. E eu não me enganei...
Quando o reencontrei, vi encarnadas as respostas pra tantas das minhas perguntas. Os questionamentos se tornaram desnecessários e eu me compreendi. Revê-lo me proporcionou instantâneas lições que, hoje, guardo no bolso, no peito e em todos os cantos de mim. Como eu escrevi dias depois que tudo aconteceu:
"Naquela hora e meia, tudo fez sentido. Eu, que nunca entendi por que a gente ama tanto pra acabar, compreendi finalmente que algumas reações de amor, desencadeadas, explodem no infinito, pra salpicar o universo. Ejaculação de um aparente caos que engravida o cosmo e gera beleza. Porque 'a beleza salvará o mundo'.
(...)
Durante aquela conversa de portaria, fez muito sentido amar. Não para se ter algo, mas para engravidar o mundo de beleza. Eu senti muito orgulho porque um dia dediquei tanto amor a um cara tão bacana. Simples assim."
A amizade foi resgatada, de uma maneira — me atrevo a dizer! — ainda mais bonita. Passamos juntos o Reveillon de 2005, na festa em que conheci muitos de seus novos amigos, que só dois meses depois souberam do nosso namoro no passado. Combinamos assim. Não fazia sentido me apresentar como ex, com um rótulo desses. Amiga e pronto, e sempre. Seus novos amigos (que não eram da “minha época”) me acolheram, entre eles a Beca. E passaram a me convidar para todos os programas. Dois meses depois, quando resolvemos contar o “detalhe” (para evitar uma futura confusão, porque a Beca se apaixonara pelo Dés, o Dés por ela, e o primo dela por mim), até que levaram um susto, mas aí já não importava mais. Em pouco meses o Dés estava namorando com a Beca, e ela já gostava tanto de mim, e eu dela, que não nada podia mudar isso.
Obviamente que muita gente mal consegue disfarçar o espanto . “Você pegou a chave do apartamento do ex? Mas e a namorada dele? Não fala nada? Vocês são amigas? Que gente mais moderna...”. Quando cheguei de viagem, em novembro, os dois me convidaram para um almoço no meu primeiro final de semana aqui. Outros amigos do Dés estavam presentes — desta vez os antigos, os da “minha época”. As pessoas se entreolhavam muito, flagrei tantos cochichos que, então, resolvemos nos pronunciar, a Beca e eu: “É, a gente se gosta”.
Na verdade, tem uma parte nisso tudo que não me agrada: a Beca acabou com uma das minhas diversões favoritas, que era falar mal das atuais dos ex-namorados, ou das ex-namoradas dos atuais. Porque a Beca, além de ser doce, sensível, amiga, falar com um sotaque baiano muito do charmoso, ser atriz e também cantar de um jeito lindo, ainda tem um metro e oitenta e é belíssima.
Pois então. Depois de ter passado quatro noites no apartamento emprestado, minha calcinha preta, esquecida no varal no dia 2 de janeiro, foi parar na gaveta da Beca. Quando ela viu, acordou o Dés aos sacolejos, pedindo satisfações. Mas, afinal, tudo se resolveu: a calcinha era da ex.
segunda-feira, janeiro 15, 2007
quinta-feira, janeiro 11, 2007
Guimarães e amores, insônia e incenso
Já em casa (sem sono, pra variar). Papo de madrugada com a Santa Helô no msn sobre Grande Sertão: Veredas. Acabei pegando o livro e relendo grifos antigos.
"Comigo, as coisas não têm hoje e ant'ôntem amanhã: é sempre. Tormentos.
(...) relembrando minha vida para trás, eu gosto de todos, só curtindo desprezo e desgosto é por minha mesma antiga pessoa".
Não é à toa que os homens da minha vida sejam todos santos. Faz tempo que não me sobra tempo para condená-los. Quase uma santa... É que eu percebi que autoflagelo é mais produtivo. Faz andar.
Estou lembrando de outro papo (não mais com a Helô). Ele me disse que eu fui suicida, que não lutei por meus amores. Mas eu olho daqui os meus amores e me prefiro sem eles, sem a parte que os amou. Aquela que foi carcomida, que apodreceu, que também morreu.
Preciso dormir. Faz dias que não tomo café, mas meu organismo anda muito distraído e ainda não se deu conta disso.
Em tempo: terceira noite de "incensada" na redação. E o Rio de Janeiro continua uma Varsóvia de tranqüilidade... Os incensos estão virando lenda. Pedidos já para que sejam acendidos todas as noites.
"Comigo, as coisas não têm hoje e ant'ôntem amanhã: é sempre. Tormentos.
(...) relembrando minha vida para trás, eu gosto de todos, só curtindo desprezo e desgosto é por minha mesma antiga pessoa".
Não é à toa que os homens da minha vida sejam todos santos. Faz tempo que não me sobra tempo para condená-los. Quase uma santa... É que eu percebi que autoflagelo é mais produtivo. Faz andar.
Estou lembrando de outro papo (não mais com a Helô). Ele me disse que eu fui suicida, que não lutei por meus amores. Mas eu olho daqui os meus amores e me prefiro sem eles, sem a parte que os amou. Aquela que foi carcomida, que apodreceu, que também morreu.
Preciso dormir. Faz dias que não tomo café, mas meu organismo anda muito distraído e ainda não se deu conta disso.
Em tempo: terceira noite de "incensada" na redação. E o Rio de Janeiro continua uma Varsóvia de tranqüilidade... Os incensos estão virando lenda. Pedidos já para que sejam acendidos todas as noites.
terça-feira, janeiro 09, 2007
Solange Frazão da Índia
Primeira aula de ioga do ano. Muitos exercícios de purificação, limpeza dos chacras, vibrações de lam, vam, ram, ham... Relaxamento, respiração e muita concentração. Na aula de 14h45, eu era a única aluna, então tive aquela atenção especial da professora, que, no final, ainda me vendeu uns incensos muito bons: de cereja e gengibre (paz, equilíbrio e força interior) e de flor de pitanga (vitalidade, prazer e afeição). Saí da aula e passei no Mundo Verde, que fica bem em frente.Estou falando tudo isso porque recebi um e-mail da Déia ontem. Ela me dizia:
"Não gosto qd vc exagera no estilo zen: qd so sabe falar de Aloe Vera e meditação. Tudo bem, eh legal se cuidar, mas dar uma de Solange Frazão da Índia não dá".
A crítica fazia parte de um jogo que propus ontem. A brincadeira consiste em cada uma falar tudo o que incomoda na outra.
Pois eu respondi:
"Sobre meu estilo zen, não acho que exagere nele de modo específico. Sou obcecada com muitas coisas e minhas 'novidades' sempre me tornam repetitiva, porque eu me empolgo e não páro de falar delas. Pra ficar mais gatinha, eu precisaria calar minha boca, de um modo geral.
(...)
Você é muito mandona."
Autocrítica também é fundamental.
****************************
Resta Um
Mais uma demissão em massa no jornal. Só na minha editoria, cortaram mais 4 cabeças (um outro cara, que entrou comigo, já tinha ido embora antes do Natal).
Quando deu meia-noite, acendi o incenso de flor de pitanga na redação, com a aprovação dos "coleguinhas" (eu tenho pavor dessa expressão). Uma purificada no ambiente caía bem. A repórter de cidade, que tava na escuta hoje, pediu um só pra ela, pra ficar do lado do rádio com a freqüência da polícia.
Fomos embora à uma da manhã. O Rio de Janeiro estava quase uma Varsóvia de tão tranqüilo. Ou a energização foi boa, ou o Cabral tá amedrontando a rapeize mesmo...
****************************
Samurai-Zen
A ilustração acima é do Dés. O Goiaba, além de morar em Ipanema, comer ração de salmão e gozar com Radiohead, ainda tem pai artista.
Quem quiser ver mais ilustrações do Dés, pode visitar a Renderia. Como ele bem definiu, é "um puxadinho de idéias". Espero que tome vergonha na cara e faça logo o site. Material tem. Ô.
sexta-feira, janeiro 05, 2007
Goiaba
Cadê a cadeira que tava aqui? O gato comeu!
Uma fábula. O Dés viajou pra Salvador com a Beca e, gentilmente, deixou a chave do ap em Ipanema comigo, me salvando do que seria a grande furada do Réveillon: tentar voltar pra Niterói depois do plantão que terminava às 23hs.
Foram quatro dias, só eu e o Goiaba, o gato do Dés. Cheguei na sexta-feira 30. O bicho miava tanto que, depois de checar água, ração e terra 74 vezes, saí correndo do ap, me sentindo um fracasso como mãe de gato zona sul, e fui me encontrar com a Dê, o Di, o Bob e o Pedro, que estavam por ali, no Banana Jack.
Cervejas, conversas, teorias, divagações. Depois pizza, mar à noite, mais conversas, teorias e divagações, com brincadeira de chutar areia da praia. Adiamentos do meu reencontro com o gato.
Depois de miados estridentes durante duas madrugadas - sexta pra sábado e sábado pra domingo - acho que ele relaxou. De verdade. Porque na manhã de domingo, assistindo pela trolhogésima vez o clipe de Let Down, comecei a fazer carinho na barriga do Goiaba, que foi se arreganhando. Música rolando, reparo nos movimentos pélvicos do bichano, vejo aquela coisa vermelha ficando mais saliente, depois um troço branco na ponta da coisa vermelha. E, juro, juro, no último acorde, a gotinha cai na cadeira do computador. O Goiaba, de uma sensibilidade muuuuuuuuito maior que a minha, gozou com Radiohead. Gato de bom gosto e muito estáile esse...
Foram quatro dias, só eu e o Goiaba, o gato do Dés. Cheguei na sexta-feira 30. O bicho miava tanto que, depois de checar água, ração e terra 74 vezes, saí correndo do ap, me sentindo um fracasso como mãe de gato zona sul, e fui me encontrar com a Dê, o Di, o Bob e o Pedro, que estavam por ali, no Banana Jack.
Cervejas, conversas, teorias, divagações. Depois pizza, mar à noite, mais conversas, teorias e divagações, com brincadeira de chutar areia da praia. Adiamentos do meu reencontro com o gato.
Depois de miados estridentes durante duas madrugadas - sexta pra sábado e sábado pra domingo - acho que ele relaxou. De verdade. Porque na manhã de domingo, assistindo pela trolhogésima vez o clipe de Let Down, comecei a fazer carinho na barriga do Goiaba, que foi se arreganhando. Música rolando, reparo nos movimentos pélvicos do bichano, vejo aquela coisa vermelha ficando mais saliente, depois um troço branco na ponta da coisa vermelha. E, juro, juro, no último acorde, a gotinha cai na cadeira do computador. O Goiaba, de uma sensibilidade muuuuuuuuito maior que a minha, gozou com Radiohead. Gato de bom gosto e muito estáile esse...
terça-feira, janeiro 02, 2007
Desejo e sonho de sobra pra transformar ímpar em par
Naquele fim-de-ano de 2005 pra 2006, descobri que eu não era a única a ter expectativas em relação aos anos pares e receio quanto aos ímpares. A Déia e o Dés me contaram: depois de pararem pra fazer um balanço dos anos vividos, como eu eles constataram que os pares ganhavam em realizações, surpresas e momentos inesquecíveis.
2006 foi ano de autodescobertas importantes, de sujeiras cansadas da cobertura dos tapetes; de recolhimento mas também de aventuras. De receios que serviram para encorajar. Tempo de peito aberto pra vida, mas também de um olhar pra dentro. Inconstâncias e equilíbrios, estréias e mesmices. Amor nenhum e amores de sempre, amizades novas com cara de velhas, amigos antigos redescobertos, renovados, ressignificados e reinterpretados. Viagens, muitas viagens.
O último dia de 2006 foi um 31 de plantão no jornal até às 23h, de tensão pelos alertas da escuta na redação. Não confirmados carros queimados, comércios fechados e morros a serem invadidos. Sim, repórteres e fuzis. Rio de Janeiro de festas, de fogos e dos infernos. Mas também houve noite de luz em Ipanema, abraços antigos mais apertados, olhos de sempre nunca tão vistos, conversas repetidas para ouvidos transformados, mesmas teorias contadas com risos inéditos. Bocas misturadas, embebidas em beijos e vinhos.
Apelando pros salvadores clichês: 2006 vai entrar pra história. Resta agora fazer de 2007 um ano par. Pra isso, há desejo e sonho de sobra.
2006 foi ano de autodescobertas importantes, de sujeiras cansadas da cobertura dos tapetes; de recolhimento mas também de aventuras. De receios que serviram para encorajar. Tempo de peito aberto pra vida, mas também de um olhar pra dentro. Inconstâncias e equilíbrios, estréias e mesmices. Amor nenhum e amores de sempre, amizades novas com cara de velhas, amigos antigos redescobertos, renovados, ressignificados e reinterpretados. Viagens, muitas viagens.
O último dia de 2006 foi um 31 de plantão no jornal até às 23h, de tensão pelos alertas da escuta na redação. Não confirmados carros queimados, comércios fechados e morros a serem invadidos. Sim, repórteres e fuzis. Rio de Janeiro de festas, de fogos e dos infernos. Mas também houve noite de luz em Ipanema, abraços antigos mais apertados, olhos de sempre nunca tão vistos, conversas repetidas para ouvidos transformados, mesmas teorias contadas com risos inéditos. Bocas misturadas, embebidas em beijos e vinhos.
Apelando pros salvadores clichês: 2006 vai entrar pra história. Resta agora fazer de 2007 um ano par. Pra isso, há desejo e sonho de sobra.
sexta-feira, dezembro 29, 2006
Da série "diálogos"
- Incenso não é coisa de cristão não.
- Ué, um dos reis magos não levou incenso de presente pelo nascimento de Jesus?
- Ah, mas o cheiro devia ser diferente.
- ...
- Ué, um dos reis magos não levou incenso de presente pelo nascimento de Jesus?
- Ah, mas o cheiro devia ser diferente.
- ...
quinta-feira, dezembro 28, 2006
mantra
Foi a trilha sonora pra alguns dos melhores momentos de 2006. Ele canta como se tivesse beijando na boca. E eu queria que fosse a minha boca.
quarta-feira, dezembro 27, 2006
Quem sabe de mim...
Nossas conversas duram horas, o que dizemos é sempre cheio de não-ditos, e eu gosto disso. Quando nos conhecemos, não podíamos nos confessar muitas coisas, por mil razões, e de repente os mistérios e as parábolas se tornaram o que de melhor oferecíamos um para o outro. Nunca estou preparada pras suas palavras, não exatamente pelo que ele diz, mas porque ele sempre quer dizer muito mais. E eu gosto disso. Gosto de não saber aprisionar as pessoas que amo nos meus critérios, conceitos e verdades.
Ele me repete a frase que mais ouço na minha vida: “Você pensa demais”. E vai além, me questiona, me adivinha. Eu nunca sei se quando ele me adivinha é por me saber de sentir mesmo, ou por ter informações a meu respeito, ou porque eu goste de me fazer caber nas idéias que ele tem de mim. Mexe com a minha capital e pecaminosa vaidade. Porque eu queria ser como ele me vê, e acabo acreditando que sou. E todas as vezes que isso acontece, me vejo caindo em mais uma armadilha, e então vejo que gosto das armadilhas.
Ele me diz que não pertenço a este lugar, e me faz bem acreditar. Acha que eu sou uma fêmea tão forte e tão fêmea que assusto, e eu considerei essa uma explicação poética pra minha solidão. Me diz que eu devia acabar com todos os teatros, deixar de querer parecer o que for e compreender o impacto de ser eu mesma. “Esqueceram de te dizer isso, mas você precisa saber que é fantástica”, ele me conta. E ele sabe o que faz quando faz assim.
Ele me repete a frase que mais ouço na minha vida: “Você pensa demais”. E vai além, me questiona, me adivinha. Eu nunca sei se quando ele me adivinha é por me saber de sentir mesmo, ou por ter informações a meu respeito, ou porque eu goste de me fazer caber nas idéias que ele tem de mim. Mexe com a minha capital e pecaminosa vaidade. Porque eu queria ser como ele me vê, e acabo acreditando que sou. E todas as vezes que isso acontece, me vejo caindo em mais uma armadilha, e então vejo que gosto das armadilhas.
Ele me diz que não pertenço a este lugar, e me faz bem acreditar. Acha que eu sou uma fêmea tão forte e tão fêmea que assusto, e eu considerei essa uma explicação poética pra minha solidão. Me diz que eu devia acabar com todos os teatros, deixar de querer parecer o que for e compreender o impacto de ser eu mesma. “Esqueceram de te dizer isso, mas você precisa saber que é fantástica”, ele me conta. E ele sabe o que faz quando faz assim.
domingo, dezembro 24, 2006
CDR - Parte 3
“Tenho te observado todas as noites”, me revelou, repetindo aquela voz rouca, aquele bafo quente, aquele cheiro de cigarro...
O estranho acabara de assaltar meu posto, inverter minha ordem, trocar meu papel. Eu me fazia de invisível, de distraída, pra poder ver e ouvir. E, de repente, um homem de chapéu e lenço vermelho estava ali, diante de mim, me dizendo que eu era a observada. Talvez eu fosse personagem de suas histórias. Mas o que eu inspiraria? Como ele me descreveria? O que em mim chamaria sua atenção?
Ele interrompeu meus pensamentos se apresentando. Se chamava Gerônimo, com G porque o funcionário do cartório assim decidiu, passando por cima da preferência do pai pelo nome com J. Era também Heleno, em homenagem à sua mãe. Gerônimo Heleno. Mais de 50 anos de jornalismo, não me disse quantos de vida exatamente, e eu não perguntei.
(continua...)
O estranho acabara de assaltar meu posto, inverter minha ordem, trocar meu papel. Eu me fazia de invisível, de distraída, pra poder ver e ouvir. E, de repente, um homem de chapéu e lenço vermelho estava ali, diante de mim, me dizendo que eu era a observada. Talvez eu fosse personagem de suas histórias. Mas o que eu inspiraria? Como ele me descreveria? O que em mim chamaria sua atenção?
Ele interrompeu meus pensamentos se apresentando. Se chamava Gerônimo, com G porque o funcionário do cartório assim decidiu, passando por cima da preferência do pai pelo nome com J. Era também Heleno, em homenagem à sua mãe. Gerônimo Heleno. Mais de 50 anos de jornalismo, não me disse quantos de vida exatamente, e eu não perguntei.
(continua...)
sábado, dezembro 23, 2006
Presente adiantado
Papai Noel e Do-Céu, eu, hoje, só queria ler meu novo livro. Mas desde às 8h30 da manhã está rolando uma festa de confraternização do lado da minha casa. Eu saí do jornal ontem/hoje à uma e meia, cheguei em casa quase três, fui dormir quase quatro. O som, superpossante, não só me acordou como me impede de dormir ou viver hoje.
Eu, numa atitude extrema, liguei pra Polícia. Com tanto caso de polícia, parece até que esse nem é. Eu, bestamente, só consegui pensar que na Holanda isso jamais aconteceria. E não porque a polícia lá seja mais eficiente, não, é que as pessoas tem mais senso de coletividade mesmo. Sim, eu pensei isso. Bestamente, eu sei. E liguei pra polícia, e fui muito bem atendida, pra minha surpresa. Eles me pediram que tentasse um acordo antes, o que eu julguei pertinente. Mas descobri que, neste momento, eu sequer sei como me aproximar dessa patuléia maleducada e, hoje especialmente, bêbada. Meu pai, genial como sempre, me fez ver um outro lado, assim que eu comecei o meu discurso de "na Holanda-França-Inglaterra-Dinamarca-Argentina-raio-que-o-parta-não-seria-assim". "Eles é que são revolucionários", mandou seu Artur. "Colocam o som nesta altura pra desafiar, porque sabem que ninguém reclama, nem se mobiliza, nem reage". A atendente da polícia confirmou que era a primeira reclamação, apesar de eu morar num prédio de 15 andares, 4 moradores por andar.
Há outras vozes em mim. Nunca me imaginei pensando/dizendo/escrevendo certas coisas e, hoje, estou aqui, reacionária que só, pra minha surpresa e me sentindo cheia de razão.
Eu tentei ser zen, tranqüila, amorosa. Mas meu destino é brigar, não dá pra fugir disso. Então, Papai Noel, Do-Céu, Da-Terra, Da-Água, Do-Fogo e Da-Justiça, dai-me força, calma e paciência pra esbravejar bastante nessa vida. Porque muitos ainda não estão preparados pro amor e pra beleza.
Eu, numa atitude extrema, liguei pra Polícia. Com tanto caso de polícia, parece até que esse nem é. Eu, bestamente, só consegui pensar que na Holanda isso jamais aconteceria. E não porque a polícia lá seja mais eficiente, não, é que as pessoas tem mais senso de coletividade mesmo. Sim, eu pensei isso. Bestamente, eu sei. E liguei pra polícia, e fui muito bem atendida, pra minha surpresa. Eles me pediram que tentasse um acordo antes, o que eu julguei pertinente. Mas descobri que, neste momento, eu sequer sei como me aproximar dessa patuléia maleducada e, hoje especialmente, bêbada. Meu pai, genial como sempre, me fez ver um outro lado, assim que eu comecei o meu discurso de "na Holanda-França-Inglaterra-Dinamarca-Argentina-raio-que-o-parta-não-seria-assim". "Eles é que são revolucionários", mandou seu Artur. "Colocam o som nesta altura pra desafiar, porque sabem que ninguém reclama, nem se mobiliza, nem reage". A atendente da polícia confirmou que era a primeira reclamação, apesar de eu morar num prédio de 15 andares, 4 moradores por andar.
Há outras vozes em mim. Nunca me imaginei pensando/dizendo/escrevendo certas coisas e, hoje, estou aqui, reacionária que só, pra minha surpresa e me sentindo cheia de razão.
Eu tentei ser zen, tranqüila, amorosa. Mas meu destino é brigar, não dá pra fugir disso. Então, Papai Noel, Do-Céu, Da-Terra, Da-Água, Do-Fogo e Da-Justiça, dai-me força, calma e paciência pra esbravejar bastante nessa vida. Porque muitos ainda não estão preparados pro amor e pra beleza.
sexta-feira, dezembro 22, 2006
Da vaidade de ser burra
Meu pecado capital sempre foi a vaidade. Intelectual, especificamente. Queria respeito, e mesmo admiração, pelas minhas idéias, divagações, projetos, histórias e sonhos; ainda que eu mesma mal digerisse minhas próprias idéias, divagações, projetos, histórias e sonhos. Coincidência ou não, sempre fui tida como alguém inteligente, muitas vezes sem precisar abrir minha boca, o que me deixava tão vaidosa quanto intrigada – afinal, uau!, meus neurônios regados a ovomaltine deviam espirrar no ar e induzir as pessoas ao veredicto que me favorecia. No entanto, acho hoje que a explicação é muito simples. Eu provavelmente me esforçava pra fazer cara de conteúdo. E acabava colando.
Tem um problema nisso tudo. “A porta do inferno é larga, do céu é estreita”, tá escrito na Bíblia há séculos (mesmo!). “Toda unamidade é burra!”, bradou Santo Nelson. E a conclusão: eu não só fazia pose, como precisava mantê-la, tudo pra ter, no fim das contas, um rótulo garantido por unanimidade. Uma conquista preocupante...(Me lembrei do conceito de tirania, sobre o qual escrevi num blog velho que anda perdido nessa virtualidade sem porteiras).
Pensando bem, eu querer me sentir “a mais inteligente” é de um egoísmo muito grande. Porque no dia em que, apesar de todo o meu esforço pra fazer cara de conteúdo, eu for considerada medíocre (pelo menos!), isso significará que, em termos comparativos, a humanidade anda menos imbecil. Motivo de comemoração!
Pois enquanto isso não acontece, eu ando me divertindo com um novo pecado: parecer uma / fazer cara de burra. Já comecei cortando a franja, porque imagem é tudo e vi que convenço mais (me pareceu, simplesmente) sendo uma burra de testa parcialmente coberta. Vai ver influenciada por dizeres dos tempos da infância, quando as testudas da escola respondiam às zombarias alegando que a protuberância era sinal de inteligência (alguém aqui se lembra disso?).
Que sensação de liberdade... já começo a colecionar uns olhares de desdém. São zeros estatísticos, bem verdade, mas é que ainda estou em fase de aperfeiçoamento. Minha meta é, com uma atuação restrita e localizada, chegar à unanimidade inversa àquela que outrora desejei. A ambição me parece cheia de sentido. Vamos ver no que dá. Por enquanto, me sinto ótima.
Tem um problema nisso tudo. “A porta do inferno é larga, do céu é estreita”, tá escrito na Bíblia há séculos (mesmo!). “Toda unamidade é burra!”, bradou Santo Nelson. E a conclusão: eu não só fazia pose, como precisava mantê-la, tudo pra ter, no fim das contas, um rótulo garantido por unanimidade. Uma conquista preocupante...(Me lembrei do conceito de tirania, sobre o qual escrevi num blog velho que anda perdido nessa virtualidade sem porteiras).
Pensando bem, eu querer me sentir “a mais inteligente” é de um egoísmo muito grande. Porque no dia em que, apesar de todo o meu esforço pra fazer cara de conteúdo, eu for considerada medíocre (pelo menos!), isso significará que, em termos comparativos, a humanidade anda menos imbecil. Motivo de comemoração!
Pois enquanto isso não acontece, eu ando me divertindo com um novo pecado: parecer uma / fazer cara de burra. Já comecei cortando a franja, porque imagem é tudo e vi que convenço mais (me pareceu, simplesmente) sendo uma burra de testa parcialmente coberta. Vai ver influenciada por dizeres dos tempos da infância, quando as testudas da escola respondiam às zombarias alegando que a protuberância era sinal de inteligência (alguém aqui se lembra disso?).
Que sensação de liberdade... já começo a colecionar uns olhares de desdém. São zeros estatísticos, bem verdade, mas é que ainda estou em fase de aperfeiçoamento. Minha meta é, com uma atuação restrita e localizada, chegar à unanimidade inversa àquela que outrora desejei. A ambição me parece cheia de sentido. Vamos ver no que dá. Por enquanto, me sinto ótima.
Contos de redação - Parte 2
O meu trabalho me permitia alimentar os vícios prediletos: olhar para as pessoas sem que me notassem e ouvir conversas alheias de forma insuspeita. Alguns rostos me chamavam mais a atenção. O daquele editor de aparência engraçada, por exemplo. Ele me lembrava um personagem de desenho animado: baixo, cabelos claros, barrigudo. Seu sotaque era indefinível, apesar de que, até onde eu sabia, ele morava no Rio desde sempre. Seu humor de maníaco bipolar me divertia mais que espantava, apesar da maneira assustadora como oscilava. Dele, eu ouvia verdadeiras pérolas.
Havia também a fotógrafa sexy que hipnotizava ao passear pela redação: com uma câmera na mão e belos decotes nos peitos. Eu nunca pude explicar de onde vinha minha excitação por fotógrafos, até o dia em que a vi. Descobri, então, que o que me excitava eram as câmeras e as fálicas lentes, não as pessoas por detrás delas. Quem já reparou na maneira como um fotógrafo, ou fotógrafa!, segura o seu instrumento de trabalho, há de me entender.
Outra das minhas caricaturas favoritas era aquele repórter que se julgava engraçado. Sempre perdia alguns momentos olhando pra ele e, ouvindo suas piadas, eu imaginava sua adolescência de garoto feioso desprezado pelas menininhas da escola, mas que um dia descobriu que podia conseguir alguma coisa se fazendo de inteligente e dono da verdade. Daí até virar jornalista foi um pulo, provavelmente. Com esses pré-requisitos, formação vira detalhe.
O editor-chefe da voz bonita também fez com que eu pensasse num menino míope e gorducho do passado que tentou achar soluções para a rejeição das belas. Neste caso, o resultado agradava. Sempre acreditei no potencial dos que, longe de serem considerados obviedades estéticas, precisavam apelar pra justiça da lei da compensação. Cegos desenvolvem melhor tato e olfato, não é assim? Pois conheci muitos homens de beleza ululante, mas nunca eram eles os mais charmosos, mais engraçados ou donos das melhores vozes.
Ah, a voz... a dele me trouxe a lembrança improvável do narrador de filme dublado da Sessão da Tarde de tempos idos. Ecoava por toda a redação. Evitei, durante algum tempo, olhar de verdade para o dono da voz, que estava sempre próximo. Nisso, a minha miopia foi cúmplice. É que aquela voz, assim, só ouvida, me evocava imagens que podiam acabar desmentidas demais, negadas pela realidade. Não queria saber do homem: sua voz me bastava. Eu não queria a realidade, não ali, pelo menos. Desejo feito de ironia e contradição...
(Continua no próximo domingo, véspera de Natal)
Havia também a fotógrafa sexy que hipnotizava ao passear pela redação: com uma câmera na mão e belos decotes nos peitos. Eu nunca pude explicar de onde vinha minha excitação por fotógrafos, até o dia em que a vi. Descobri, então, que o que me excitava eram as câmeras e as fálicas lentes, não as pessoas por detrás delas. Quem já reparou na maneira como um fotógrafo, ou fotógrafa!, segura o seu instrumento de trabalho, há de me entender.
Outra das minhas caricaturas favoritas era aquele repórter que se julgava engraçado. Sempre perdia alguns momentos olhando pra ele e, ouvindo suas piadas, eu imaginava sua adolescência de garoto feioso desprezado pelas menininhas da escola, mas que um dia descobriu que podia conseguir alguma coisa se fazendo de inteligente e dono da verdade. Daí até virar jornalista foi um pulo, provavelmente. Com esses pré-requisitos, formação vira detalhe.
O editor-chefe da voz bonita também fez com que eu pensasse num menino míope e gorducho do passado que tentou achar soluções para a rejeição das belas. Neste caso, o resultado agradava. Sempre acreditei no potencial dos que, longe de serem considerados obviedades estéticas, precisavam apelar pra justiça da lei da compensação. Cegos desenvolvem melhor tato e olfato, não é assim? Pois conheci muitos homens de beleza ululante, mas nunca eram eles os mais charmosos, mais engraçados ou donos das melhores vozes.
Ah, a voz... a dele me trouxe a lembrança improvável do narrador de filme dublado da Sessão da Tarde de tempos idos. Ecoava por toda a redação. Evitei, durante algum tempo, olhar de verdade para o dono da voz, que estava sempre próximo. Nisso, a minha miopia foi cúmplice. É que aquela voz, assim, só ouvida, me evocava imagens que podiam acabar desmentidas demais, negadas pela realidade. Não queria saber do homem: sua voz me bastava. Eu não queria a realidade, não ali, pelo menos. Desejo feito de ironia e contradição...
(Continua no próximo domingo, véspera de Natal)
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