sexta-feira, março 02, 2007

Dia de festa

(e-mail enviado por mim no dia 22 de fevereiro)

Olá, amigos queridos.
No próximo dia 28 meu pai completa 61 anos. Há um tempinho comento com alguns de vcs que gostaria de fazer algo na minha casa pra criar uma aproximação dos meus amigos com o seu Artur. Acho que a oportunidade é boa. Só tem uma questão: seu Artur foge de festas, ainda mais se for a do próprio aniversário. A Dani já esperneou muito nessa vida por causa do jeito bicho-do-mato do nosso pai. Mas acho que encontrei uma solução divertida: fazer uma festa em homenagem ao seu Artur, mesmo que ele não participe.

Há dois dias, disse que daria uma festa e ele me respondeu que, então, sairia de casa para um retiro espiritual. Me pareceu sublime. Minha comemoração será um estímulo para orações. Além disso, decidi instituir a santidade do dia 28 de fevereiro, quando, a partir deste ano, celebrarei a vida de quem me criou e me ensinou tanto, mesmo quando não era a intenção, mesmo quando aprendi pelo avesso, sendo contrária ao que ele queria me ensinar.

Usando as palavras da Déia, esta é quase uma forma de vencer a morte. Daqui a muitos anos, quando o meu pai não estiver mais aqui, continuarei comemorando e nem vou sentir diferença. A ausência é uma das formas mais bonitas de presença, sempre achei...

Ele riu com a minha conclusão e me lembrou que isso é precisamente o que fazemos na tradição cristã. Em nome do Cristo "ausente" várias pessoas se reúnem, em tantos cantos desse mundo. Talvez este tenha sido o maior milagre: perpetuar o encontro. Então, como Jesus mesmo disse que faríamos obras maiores que as Dele, acho que não faz mal algum tranformar o dia do seu Artur num dia de encontro, celebração da amizade e de comunhão.

Depois dessa, vou querer também festejar os aniversários atrasados de fevereiro: da Dani (dia 1), que mora em Amsterdã, e da Déia (dia 8), que vive em Londres. Pode ser num sábado desses aí. Mas o do seu Artur eu faço questão que seja no dia 28.

Me digam o que acham.
Abraços,
Gi

PS - Questões práticas: vou fazer o bolo e as várias pizzas. Tragam a bebida. Pensei em marcar às 20hs.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Do cio de existir

A pequena morte
“Não nos provoca riso o amor quando chega ao mais profundo de sua viagem, ao mais alto de seu vôo: no mais profundo, no mais alto, nos arranca gemidos e suspiros, vozes de dor, embora seja dor jubilosa, e pensando bem não há nada de estranho nisso, porque nascer é uma alegria que dói. Pequena Morte, chamam na França a culminação do abraço, que ao quebrar-nos faz por nos encontrar e acabando conosco nos principia. Pequena Morte, dizem; mas grande, muito grande haverá de ser, se ao nos matar nos nasce”. (Eduardo Galeano)


Nascer é uma alegria que dói. Remédio bom tem gosto ruim. Pra eletrizar é preciso muito atrito. Sexo bom faz cansar. Todo corpo tende ao repouso, mas a gente sempre se levanta. “Viver é muito perigoso”, diz compadre meu Riobaldo.

Às vezes acho que dei adeus demais. Mudei de escola sete vezes, já abandonei uma faculdade, sou filha de pais separados, não conheci os avós paternos, não lembro do avô materno. A única avó com quem pouco convivi era amarga demais pra me mimar e morreu de câncer quando eu tinha nove anos. Chorei de amor pela primeira vez aos 11, passei adolescência longe de mãe, morei no Oriente Médio, viajei por oito países, perdi irmã, sobrinho e melhor amiga pro Velho Continente. Mais de uma vez tive dois trabalhos, sempre ganhei mal, fiquei quatro anos sem férias e só descansei desempregada. Golpe de vida meu peito sempre agüenta.

Já dei exemplos do princípio da realidade dinâmica. Por causa dessa lei, deixei contos por terminar, amores ficaram pelo caminho, amizades pela metade. Eu me forço ao repouso, mas tudo ao redor se movimenta. 2007 ainda é fevereiro e já tive salário atrasado, cumpri um aviso prévio, comecei no meu novo emprego, tive quatro paixões espirituais platônicas, comprei três pares de sapato, fiz duas viagens, me relacionei de lampejo no plano físico com quatro caras – e nem era Carnaval. Conheci muita, muita gente bacana.

Eu morreria tranqüila, mas tenho muitas dívidas. Voltei pra dança e continuo na ioga, consegui meu certificado do IELTS, tenho ido ao cinema com freqüência e cuidado dos meus amigos. Quero montar uma bandinha de rock pra ser vocalista, fazer mestrado, aprender francês e holandês, escrever um livro.

Deus, me dê mais de uma existência.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Por um espírito verde

Há um animal aqui. De repente me dei conta de que está grande, quase um monstro. Antes o crescimento era tímido, mas o tempo passou e já não suporto seu peso que me sufoca, seus dentes e unhas que me comem por dentro, me rasgam.

Nada disso. O monstro sou eu. Porque aprisiono o animal, porque o sufoco aqui dentro de mim, porque não o liberto. Porque atrofio suas unhas e dentes.

Que meu espírito seja corrosivo, faça buracos nesta carne podre e saia para fora, para uma liberdade que ainda desconheço. Porque só assim os frutos maduros que guardo aqui dentro poderão ser comidos, e então me tornarei mais leve e mais vazia, e pronta para me encher de um novo espírito, verde e criança.

sábado, janeiro 20, 2007

Playing the angel

Sometimes I try
Sometimes I lie, with you
Sometimes I cry
Sometimes I die, it's true

How to disappear completely - 2

Tem dias assim: em que toda a minha onipotência é desmentida feito barata esmagada por pé de criança. Me repito sempre, por mesmo acreditar, que vantagem minha é estar morta, e viver de vagar por aqui, só achando graça das coisas. Mas, vez e outra, essa dormência de não existir me dói.

terça-feira, janeiro 16, 2007

Tudo sobre minha calcinha preta

A Beca me ligou ontem às dez da noite. Disse que eu estava sumida, tal, mas não fez muito rodeio e mandou:

— Gi, você esqueceu uma calcinha preta aqui?

Resposta afirmativa. Ela pediu detalhes:

— Mas como é exatamente a calcinha?

E eu descrevi.

— Pois esse filho da puta aqui do meu lado escapou de morrer agora. A sorte foi que ele me lembrou que você ficou com o apartamento no Ano Novo, quando estávamos em Salvador.

Tivemos uma crise de riso.

Mas a história está longe de acabar por aí. Alguns dados: a Beca é a namorada do Dés, que me emprestou seu apartamento em Ipanema para o Réveillon. O Dés e eu namoramos durante um ano e meio, de agosto de 2002 a janeiro de 2004. Mais que amantes, fomos grandes amigos. Parceiros. Cúmplices. Mas, quando decidimos que não seríamos mais um casal, não teve jeito de salvar amizade, parceria ou cumplicidade. Tudo irremediavelmente perdido, parecia, até que, quase dois anos depois, bati à sua porta. Era o Natal de 2005, eu havia acabado de dar de cara com o meu último amor, num bar na Praça Nossa Senhora da Paz, que estava acompanhado. Naquele momento, pensei que somente um reencontro com o meu passado me livraria de um doloroso desespero. E eu não me enganei...

Quando o reencontrei, vi encarnadas as respostas pra tantas das minhas perguntas. Os questionamentos se tornaram desnecessários e eu me compreendi. Revê-lo me proporcionou instantâneas lições que, hoje, guardo no bolso, no peito e em todos os cantos de mim. Como eu escrevi dias depois que tudo aconteceu:

"Naquela hora e meia, tudo fez sentido. Eu, que nunca entendi por que a gente ama tanto pra acabar, compreendi finalmente que algumas reações de amor, desencadeadas, explodem no infinito, pra salpicar o universo. Ejaculação de um aparente caos que engravida o cosmo e gera beleza. Porque 'a beleza salvará o mundo'.
(...)
Durante aquela conversa de portaria, fez muito sentido amar. Não para se ter algo, mas para engravidar o mundo de beleza. Eu senti muito orgulho porque um dia dediquei tanto amor a um cara tão bacana. Simples assim."


A amizade foi resgatada, de uma maneira — me atrevo a dizer! — ainda mais bonita. Passamos juntos o Reveillon de 2005, na festa em que conheci muitos de seus novos amigos, que só dois meses depois souberam do nosso namoro no passado. Combinamos assim. Não fazia sentido me apresentar como ex, com um rótulo desses. Amiga e pronto, e sempre. Seus novos amigos (que não eram da “minha época”) me acolheram, entre eles a Beca. E passaram a me convidar para todos os programas. Dois meses depois, quando resolvemos contar o “detalhe” (para evitar uma futura confusão, porque a Beca se apaixonara pelo Dés, o Dés por ela, e o primo dela por mim), até que levaram um susto, mas aí já não importava mais. Em pouco meses o Dés estava namorando com a Beca, e ela já gostava tanto de mim, e eu dela, que não nada podia mudar isso.

Obviamente que muita gente mal consegue disfarçar o espanto . “Você pegou a chave do apartamento do ex? Mas e a namorada dele? Não fala nada? Vocês são amigas? Que gente mais moderna...”. Quando cheguei de viagem, em novembro, os dois me convidaram para um almoço no meu primeiro final de semana aqui. Outros amigos do Dés estavam presentes — desta vez os antigos, os da “minha época”. As pessoas se entreolhavam muito, flagrei tantos cochichos que, então, resolvemos nos pronunciar, a Beca e eu: “É, a gente se gosta”.

Na verdade, tem uma parte nisso tudo que não me agrada: a Beca acabou com uma das minhas diversões favoritas, que era falar mal das atuais dos ex-namorados, ou das ex-namoradas dos atuais. Porque a Beca, além de ser doce, sensível, amiga, falar com um sotaque baiano muito do charmoso, ser atriz e também cantar de um jeito lindo, ainda tem um metro e oitenta e é belíssima.

Pois então. Depois de ter passado quatro noites no apartamento emprestado, minha calcinha preta, esquecida no varal no dia 2 de janeiro, foi parar na gaveta da Beca. Quando ela viu, acordou o Dés aos sacolejos, pedindo satisfações. Mas, afinal, tudo se resolveu: a calcinha era da ex.

quinta-feira, janeiro 11, 2007

Guimarães e amores, insônia e incenso

Já em casa (sem sono, pra variar). Papo de madrugada com a Santa Helô no msn sobre Grande Sertão: Veredas. Acabei pegando o livro e relendo grifos antigos.

"Comigo, as coisas não têm hoje e ant'ôntem amanhã: é sempre. Tormentos.
(...) relembrando minha vida para trás, eu gosto de todos, só curtindo desprezo e desgosto é por minha mesma antiga pessoa".

Não é à toa que os homens da minha vida sejam todos santos. Faz tempo que não me sobra tempo para condená-los. Quase uma santa... É que eu percebi que autoflagelo é mais produtivo. Faz andar.

Estou lembrando de outro papo (não mais com a Helô). Ele me disse que eu fui suicida, que não lutei por meus amores. Mas eu olho daqui os meus amores e me prefiro sem eles, sem a parte que os amou. Aquela que foi carcomida, que apodreceu, que também morreu.

Preciso dormir. Faz dias que não tomo café, mas meu organismo anda muito distraído e ainda não se deu conta disso.

Em tempo: terceira noite de "incensada" na redação. E o Rio de Janeiro continua uma Varsóvia de tranqüilidade... Os incensos estão virando lenda. Pedidos já para que sejam acendidos todas as noites.