sexta-feira, janeiro 05, 2007

Goiaba



Na hora de definir uma legenda, me valho da sabedoria jornalística. Se fosse pobre, eu diria que é um meliante, tarado, psicopata. Mas como mora em Ipanema e come ração de salmão, é sensível e artista.

Cadê a cadeira que tava aqui? O gato comeu!

Uma fábula. O Dés viajou pra Salvador com a Beca e, gentilmente, deixou a chave do ap em Ipanema comigo, me salvando do que seria a grande furada do Réveillon: tentar voltar pra Niterói depois do plantão que terminava às 23hs.

Foram quatro dias, só eu e o Goiaba, o gato do Dés. Cheguei na sexta-feira 30. O bicho miava tanto que, depois de checar água, ração e terra 74 vezes, saí correndo do ap, me sentindo um fracasso como mãe de gato zona sul, e fui me encontrar com a Dê, o Di, o Bob e o Pedro, que estavam por ali, no Banana Jack.

Cervejas, conversas, teorias, divagações. Depois pizza, mar à noite, mais conversas, teorias e divagações, com brincadeira de chutar areia da praia. Adiamentos do meu reencontro com o gato.

Depois de miados estridentes durante duas madrugadas - sexta pra sábado e sábado pra domingo - acho que ele relaxou. De verdade. Porque na manhã de domingo, assistindo pela trolhogésima vez o clipe de Let Down, comecei a fazer carinho na barriga do Goiaba, que foi se arreganhando. Música rolando, reparo nos movimentos pélvicos do bichano, vejo aquela coisa vermelha ficando mais saliente, depois um troço branco na ponta da coisa vermelha. E, juro, juro, no último acorde, a gotinha cai na cadeira do computador. O Goiaba, de uma sensibilidade muuuuuuuuito maior que a minha, gozou com Radiohead. Gato de bom gosto e muito estáile esse...

terça-feira, janeiro 02, 2007

Desejo e sonho de sobra pra transformar ímpar em par

Naquele fim-de-ano de 2005 pra 2006, descobri que eu não era a única a ter expectativas em relação aos anos pares e receio quanto aos ímpares. A Déia e o Dés me contaram: depois de pararem pra fazer um balanço dos anos vividos, como eu eles constataram que os pares ganhavam em realizações, surpresas e momentos inesquecíveis.

2006 foi ano de autodescobertas importantes, de sujeiras cansadas da cobertura dos tapetes; de recolhimento mas também de aventuras. De receios que serviram para encorajar. Tempo de peito aberto pra vida, mas também de um olhar pra dentro. Inconstâncias e equilíbrios, estréias e mesmices. Amor nenhum e amores de sempre, amizades novas com cara de velhas, amigos antigos redescobertos, renovados, ressignificados e reinterpretados. Viagens, muitas viagens.

O último dia de 2006 foi um 31 de plantão no jornal até às 23h, de tensão pelos alertas da escuta na redação. Não confirmados carros queimados, comércios fechados e morros a serem invadidos. Sim, repórteres e fuzis. Rio de Janeiro de festas, de fogos e dos infernos. Mas também houve noite de luz em Ipanema, abraços antigos mais apertados, olhos de sempre nunca tão vistos, conversas repetidas para ouvidos transformados, mesmas teorias contadas com risos inéditos. Bocas misturadas, embebidas em beijos e vinhos.

Apelando pros salvadores clichês: 2006 vai entrar pra história. Resta agora fazer de 2007 um ano par. Pra isso, há desejo e sonho de sobra.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Da série "diálogos"

- Incenso não é coisa de cristão não.
- Ué, um dos reis magos não levou incenso de presente pelo nascimento de Jesus?
- Ah, mas o cheiro devia ser diferente.
- ...

quinta-feira, dezembro 28, 2006

mantra



Foi a trilha sonora pra alguns dos melhores momentos de 2006. Ele canta como se tivesse beijando na boca. E eu queria que fosse a minha boca.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Quem sabe de mim...

Nossas conversas duram horas, o que dizemos é sempre cheio de não-ditos, e eu gosto disso. Quando nos conhecemos, não podíamos nos confessar muitas coisas, por mil razões, e de repente os mistérios e as parábolas se tornaram o que de melhor oferecíamos um para o outro. Nunca estou preparada pras suas palavras, não exatamente pelo que ele diz, mas porque ele sempre quer dizer muito mais. E eu gosto disso. Gosto de não saber aprisionar as pessoas que amo nos meus critérios, conceitos e verdades.

Ele me repete a frase que mais ouço na minha vida: “Você pensa demais”. E vai além, me questiona, me adivinha. Eu nunca sei se quando ele me adivinha é por me saber de sentir mesmo, ou por ter informações a meu respeito, ou porque eu goste de me fazer caber nas idéias que ele tem de mim. Mexe com a minha capital e pecaminosa vaidade. Porque eu queria ser como ele me vê, e acabo acreditando que sou. E todas as vezes que isso acontece, me vejo caindo em mais uma armadilha, e então vejo que gosto das armadilhas.

Ele me diz que não pertenço a este lugar, e me faz bem acreditar. Acha que eu sou uma fêmea tão forte e tão fêmea que assusto, e eu considerei essa uma explicação poética pra minha solidão. Me diz que eu devia acabar com todos os teatros, deixar de querer parecer o que for e compreender o impacto de ser eu mesma. “Esqueceram de te dizer isso, mas você precisa saber que é fantástica”, ele me conta. E ele sabe o que faz quando faz assim.

domingo, dezembro 24, 2006

CDR - Parte 3

“Tenho te observado todas as noites”, me revelou, repetindo aquela voz rouca, aquele bafo quente, aquele cheiro de cigarro...

O estranho acabara de assaltar meu posto, inverter minha ordem, trocar meu papel. Eu me fazia de invisível, de distraída, pra poder ver e ouvir. E, de repente, um homem de chapéu e lenço vermelho estava ali, diante de mim, me dizendo que eu era a observada. Talvez eu fosse personagem de suas histórias. Mas o que eu inspiraria? Como ele me descreveria? O que em mim chamaria sua atenção?

Ele interrompeu meus pensamentos se apresentando. Se chamava Gerônimo, com G porque o funcionário do cartório assim decidiu, passando por cima da preferência do pai pelo nome com J. Era também Heleno, em homenagem à sua mãe. Gerônimo Heleno. Mais de 50 anos de jornalismo, não me disse quantos de vida exatamente, e eu não perguntei.

(continua...)

sábado, dezembro 23, 2006

Presente adiantado

Papai Noel e Do-Céu, eu, hoje, só queria ler meu novo livro. Mas desde às 8h30 da manhã está rolando uma festa de confraternização do lado da minha casa. Eu saí do jornal ontem/hoje à uma e meia, cheguei em casa quase três, fui dormir quase quatro. O som, superpossante, não só me acordou como me impede de dormir ou viver hoje.

Eu, numa atitude extrema, liguei pra Polícia. Com tanto caso de polícia, parece até que esse nem é. Eu, bestamente, só consegui pensar que na Holanda isso jamais aconteceria. E não porque a polícia lá seja mais eficiente, não, é que as pessoas tem mais senso de coletividade mesmo. Sim, eu pensei isso. Bestamente, eu sei. E liguei pra polícia, e fui muito bem atendida, pra minha surpresa. Eles me pediram que tentasse um acordo antes, o que eu julguei pertinente. Mas descobri que, neste momento, eu sequer sei como me aproximar dessa patuléia maleducada e, hoje especialmente, bêbada. Meu pai, genial como sempre, me fez ver um outro lado, assim que eu comecei o meu discurso de "na Holanda-França-Inglaterra-Dinamarca-Argentina-raio-que-o-parta-não-seria-assim". "Eles é que são revolucionários", mandou seu Artur. "Colocam o som nesta altura pra desafiar, porque sabem que ninguém reclama, nem se mobiliza, nem reage". A atendente da polícia confirmou que era a primeira reclamação, apesar de eu morar num prédio de 15 andares, 4 moradores por andar.

Há outras vozes em mim. Nunca me imaginei pensando/dizendo/escrevendo certas coisas e, hoje, estou aqui, reacionária que só, pra minha surpresa e me sentindo cheia de razão.

Eu tentei ser zen, tranqüila, amorosa. Mas meu destino é brigar, não dá pra fugir disso. Então, Papai Noel, Do-Céu, Da-Terra, Da-Água, Do-Fogo e Da-Justiça, dai-me força, calma e paciência pra esbravejar bastante nessa vida. Porque muitos ainda não estão preparados pro amor e pra beleza.