terça-feira, janeiro 02, 2007

Desejo e sonho de sobra pra transformar ímpar em par

Naquele fim-de-ano de 2005 pra 2006, descobri que eu não era a única a ter expectativas em relação aos anos pares e receio quanto aos ímpares. A Déia e o Dés me contaram: depois de pararem pra fazer um balanço dos anos vividos, como eu eles constataram que os pares ganhavam em realizações, surpresas e momentos inesquecíveis.

2006 foi ano de autodescobertas importantes, de sujeiras cansadas da cobertura dos tapetes; de recolhimento mas também de aventuras. De receios que serviram para encorajar. Tempo de peito aberto pra vida, mas também de um olhar pra dentro. Inconstâncias e equilíbrios, estréias e mesmices. Amor nenhum e amores de sempre, amizades novas com cara de velhas, amigos antigos redescobertos, renovados, ressignificados e reinterpretados. Viagens, muitas viagens.

O último dia de 2006 foi um 31 de plantão no jornal até às 23h, de tensão pelos alertas da escuta na redação. Não confirmados carros queimados, comércios fechados e morros a serem invadidos. Sim, repórteres e fuzis. Rio de Janeiro de festas, de fogos e dos infernos. Mas também houve noite de luz em Ipanema, abraços antigos mais apertados, olhos de sempre nunca tão vistos, conversas repetidas para ouvidos transformados, mesmas teorias contadas com risos inéditos. Bocas misturadas, embebidas em beijos e vinhos.

Apelando pros salvadores clichês: 2006 vai entrar pra história. Resta agora fazer de 2007 um ano par. Pra isso, há desejo e sonho de sobra.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

Da série "diálogos"

- Incenso não é coisa de cristão não.
- Ué, um dos reis magos não levou incenso de presente pelo nascimento de Jesus?
- Ah, mas o cheiro devia ser diferente.
- ...

quinta-feira, dezembro 28, 2006

mantra



Foi a trilha sonora pra alguns dos melhores momentos de 2006. Ele canta como se tivesse beijando na boca. E eu queria que fosse a minha boca.

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Quem sabe de mim...

Nossas conversas duram horas, o que dizemos é sempre cheio de não-ditos, e eu gosto disso. Quando nos conhecemos, não podíamos nos confessar muitas coisas, por mil razões, e de repente os mistérios e as parábolas se tornaram o que de melhor oferecíamos um para o outro. Nunca estou preparada pras suas palavras, não exatamente pelo que ele diz, mas porque ele sempre quer dizer muito mais. E eu gosto disso. Gosto de não saber aprisionar as pessoas que amo nos meus critérios, conceitos e verdades.

Ele me repete a frase que mais ouço na minha vida: “Você pensa demais”. E vai além, me questiona, me adivinha. Eu nunca sei se quando ele me adivinha é por me saber de sentir mesmo, ou por ter informações a meu respeito, ou porque eu goste de me fazer caber nas idéias que ele tem de mim. Mexe com a minha capital e pecaminosa vaidade. Porque eu queria ser como ele me vê, e acabo acreditando que sou. E todas as vezes que isso acontece, me vejo caindo em mais uma armadilha, e então vejo que gosto das armadilhas.

Ele me diz que não pertenço a este lugar, e me faz bem acreditar. Acha que eu sou uma fêmea tão forte e tão fêmea que assusto, e eu considerei essa uma explicação poética pra minha solidão. Me diz que eu devia acabar com todos os teatros, deixar de querer parecer o que for e compreender o impacto de ser eu mesma. “Esqueceram de te dizer isso, mas você precisa saber que é fantástica”, ele me conta. E ele sabe o que faz quando faz assim.

domingo, dezembro 24, 2006

CDR - Parte 3

“Tenho te observado todas as noites”, me revelou, repetindo aquela voz rouca, aquele bafo quente, aquele cheiro de cigarro...

O estranho acabara de assaltar meu posto, inverter minha ordem, trocar meu papel. Eu me fazia de invisível, de distraída, pra poder ver e ouvir. E, de repente, um homem de chapéu e lenço vermelho estava ali, diante de mim, me dizendo que eu era a observada. Talvez eu fosse personagem de suas histórias. Mas o que eu inspiraria? Como ele me descreveria? O que em mim chamaria sua atenção?

Ele interrompeu meus pensamentos se apresentando. Se chamava Gerônimo, com G porque o funcionário do cartório assim decidiu, passando por cima da preferência do pai pelo nome com J. Era também Heleno, em homenagem à sua mãe. Gerônimo Heleno. Mais de 50 anos de jornalismo, não me disse quantos de vida exatamente, e eu não perguntei.

(continua...)

sábado, dezembro 23, 2006

Presente adiantado

Papai Noel e Do-Céu, eu, hoje, só queria ler meu novo livro. Mas desde às 8h30 da manhã está rolando uma festa de confraternização do lado da minha casa. Eu saí do jornal ontem/hoje à uma e meia, cheguei em casa quase três, fui dormir quase quatro. O som, superpossante, não só me acordou como me impede de dormir ou viver hoje.

Eu, numa atitude extrema, liguei pra Polícia. Com tanto caso de polícia, parece até que esse nem é. Eu, bestamente, só consegui pensar que na Holanda isso jamais aconteceria. E não porque a polícia lá seja mais eficiente, não, é que as pessoas tem mais senso de coletividade mesmo. Sim, eu pensei isso. Bestamente, eu sei. E liguei pra polícia, e fui muito bem atendida, pra minha surpresa. Eles me pediram que tentasse um acordo antes, o que eu julguei pertinente. Mas descobri que, neste momento, eu sequer sei como me aproximar dessa patuléia maleducada e, hoje especialmente, bêbada. Meu pai, genial como sempre, me fez ver um outro lado, assim que eu comecei o meu discurso de "na Holanda-França-Inglaterra-Dinamarca-Argentina-raio-que-o-parta-não-seria-assim". "Eles é que são revolucionários", mandou seu Artur. "Colocam o som nesta altura pra desafiar, porque sabem que ninguém reclama, nem se mobiliza, nem reage". A atendente da polícia confirmou que era a primeira reclamação, apesar de eu morar num prédio de 15 andares, 4 moradores por andar.

Há outras vozes em mim. Nunca me imaginei pensando/dizendo/escrevendo certas coisas e, hoje, estou aqui, reacionária que só, pra minha surpresa e me sentindo cheia de razão.

Eu tentei ser zen, tranqüila, amorosa. Mas meu destino é brigar, não dá pra fugir disso. Então, Papai Noel, Do-Céu, Da-Terra, Da-Água, Do-Fogo e Da-Justiça, dai-me força, calma e paciência pra esbravejar bastante nessa vida. Porque muitos ainda não estão preparados pro amor e pra beleza.

sexta-feira, dezembro 22, 2006

Da vaidade de ser burra

Meu pecado capital sempre foi a vaidade. Intelectual, especificamente. Queria respeito, e mesmo admiração, pelas minhas idéias, divagações, projetos, histórias e sonhos; ainda que eu mesma mal digerisse minhas próprias idéias, divagações, projetos, histórias e sonhos. Coincidência ou não, sempre fui tida como alguém inteligente, muitas vezes sem precisar abrir minha boca, o que me deixava tão vaidosa quanto intrigada – afinal, uau!, meus neurônios regados a ovomaltine deviam espirrar no ar e induzir as pessoas ao veredicto que me favorecia. No entanto, acho hoje que a explicação é muito simples. Eu provavelmente me esforçava pra fazer cara de conteúdo. E acabava colando.

Tem um problema nisso tudo. “A porta do inferno é larga, do céu é estreita”, tá escrito na Bíblia há séculos (mesmo!). “Toda unamidade é burra!”, bradou Santo Nelson. E a conclusão: eu não só fazia pose, como precisava mantê-la, tudo pra ter, no fim das contas, um rótulo garantido por unanimidade. Uma conquista preocupante...(Me lembrei do conceito de tirania, sobre o qual escrevi num blog velho que anda perdido nessa virtualidade sem porteiras).

Pensando bem, eu querer me sentir “a mais inteligente” é de um egoísmo muito grande. Porque no dia em que, apesar de todo o meu esforço pra fazer cara de conteúdo, eu for considerada medíocre (pelo menos!), isso significará que, em termos comparativos, a humanidade anda menos imbecil. Motivo de comemoração!

Pois enquanto isso não acontece, eu ando me divertindo com um novo pecado: parecer uma / fazer cara de burra. Já comecei cortando a franja, porque imagem é tudo e vi que convenço mais (me pareceu, simplesmente) sendo uma burra de testa parcialmente coberta. Vai ver influenciada por dizeres dos tempos da infância, quando as testudas da escola respondiam às zombarias alegando que a protuberância era sinal de inteligência (alguém aqui se lembra disso?).

Que sensação de liberdade... já começo a colecionar uns olhares de desdém. São zeros estatísticos, bem verdade, mas é que ainda estou em fase de aperfeiçoamento. Minha meta é, com uma atuação restrita e localizada, chegar à unanimidade inversa àquela que outrora desejei. A ambição me parece cheia de sentido. Vamos ver no que dá. Por enquanto, me sinto ótima.

Contos de redação - Parte 2

O meu trabalho me permitia alimentar os vícios prediletos: olhar para as pessoas sem que me notassem e ouvir conversas alheias de forma insuspeita. Alguns rostos me chamavam mais a atenção. O daquele editor de aparência engraçada, por exemplo. Ele me lembrava um personagem de desenho animado: baixo, cabelos claros, barrigudo. Seu sotaque era indefinível, apesar de que, até onde eu sabia, ele morava no Rio desde sempre. Seu humor de maníaco bipolar me divertia mais que espantava, apesar da maneira assustadora como oscilava. Dele, eu ouvia verdadeiras pérolas.

Havia também a fotógrafa sexy que hipnotizava ao passear pela redação: com uma câmera na mão e belos decotes nos peitos. Eu nunca pude explicar de onde vinha minha excitação por fotógrafos, até o dia em que a vi. Descobri, então, que o que me excitava eram as câmeras e as fálicas lentes, não as pessoas por detrás delas. Quem já reparou na maneira como um fotógrafo, ou fotógrafa!, segura o seu instrumento de trabalho, há de me entender.

Outra das minhas caricaturas favoritas era aquele repórter que se julgava engraçado. Sempre perdia alguns momentos olhando pra ele e, ouvindo suas piadas, eu imaginava sua adolescência de garoto feioso desprezado pelas menininhas da escola, mas que um dia descobriu que podia conseguir alguma coisa se fazendo de inteligente e dono da verdade. Daí até virar jornalista foi um pulo, provavelmente. Com esses pré-requisitos, formação vira detalhe.

O editor-chefe da voz bonita também fez com que eu pensasse num menino míope e gorducho do passado que tentou achar soluções para a rejeição das belas. Neste caso, o resultado agradava. Sempre acreditei no potencial dos que, longe de serem considerados obviedades estéticas, precisavam apelar pra justiça da lei da compensação. Cegos desenvolvem melhor tato e olfato, não é assim? Pois conheci muitos homens de beleza ululante, mas nunca eram eles os mais charmosos, mais engraçados ou donos das melhores vozes.

Ah, a voz... a dele me trouxe a lembrança improvável do narrador de filme dublado da Sessão da Tarde de tempos idos. Ecoava por toda a redação. Evitei, durante algum tempo, olhar de verdade para o dono da voz, que estava sempre próximo. Nisso, a minha miopia foi cúmplice. É que aquela voz, assim, só ouvida, me evocava imagens que podiam acabar desmentidas demais, negadas pela realidade. Não queria saber do homem: sua voz me bastava. Eu não queria a realidade, não ali, pelo menos. Desejo feito de ironia e contradição...

(Continua no próximo domingo, véspera de Natal)