sábado, dezembro 16, 2006

Contos de redação – Parte 1

Por mais uma noite os ponteiros se esbarraram lá no alto, no número 12, e me veio o pensamento costumeiro: “falta mais uma hora”. Era começo de semana e madrugada de Rio de Janeiro tranqüilo-na-medida-do-possível. Na redação, os gatos-pingados de sempre. Por isso, me assustei com a presença estranha, quando ouvi aquela voz rouca, que me chegou aos ouvidos precedida pelo bafo quente na nuca e o cheiro de cigarro. “Boa noite”, me disse.

Não pude responder ao cumprimento. Ao invés disso, busquei ao redor olhares estupefatos e cúmplices do meu. Nada. Ninguém parecia notar aquele homem de chapéu que passara dos 70, metido num terno azul-marinho de corte démodé, com um lenço vermelho que transbordava cafona do bolso direito do paletó.

Com um sorriso meio de lado, que fez balançar o cigarro apagado feito uma antena de barata, ele parecia debochar do meu estupor. “Tenho te observado todas as noites”, me revelou, repetindo aquela voz rouca, aquele bafo quente, aquele cheiro de cigarro...

(Continua no próximo post)

terça-feira, dezembro 12, 2006

Me falta perder?

Eu ando assim. Não tenho medo da morte. Não sinto saudade de bons tempos passados. Meu coração já não conhece mágoa de ex-amores. O muito que me falta não me aborrece mais. Há muito deixei de acreditar que alguma vez perdi tempo. Não li todos os livros que gostaria e isso nem me angustia. Muitos filmes entram e saem de cartaz sem que eu os assista e o mundo não acaba por causa disso, como costumava acontecer (sim, o mundo já acabou várias vezes).

Estou viva. Mas só hoje. As de ontem morreram, há tempos. Tempos que dependem de cada ontem. “A cada dia basta o seu mal” e a cada ontem basta a sua morte. Foram defuntas que amaram aqueles tantos amores. Levaram, em suas mortes, as mágoas. Hoje vivo, logo também sobrevivo, sem grandes mistérios ou aborrecimentos. Todos os dias ganho tempo, até eu perder de vez todo o tempo que um dia me foi dado. Posso ler incansavelmente até que todo o meu tempo ganho seja perdido - e isso é fantástico. Eu vivo, e se vivo é porque o mundo não acabou, e vai continuar aí, inspirando muitos filmes.

Eu acho que nunca perdi de verdade.

quarta-feira, dezembro 06, 2006

Mais coletânea de pensamentos

"Ninguém dirige a quem Deus extravia". -- Raduam Nassar

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"Deus come escondido, e o diabo sai por toda parte lambendo o prato". -- João Guimarães, meu velho Rosa, em seu Grande Sertão.

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"Agüenta eu te dizer que Deus não é bonito. e isto porque Ele não é nem um resultado nem uma conclusão, e tudo o que a gente acha bonito é às vezes apenas porque já está concluído. Mas o que hoje é feio será daqui a séculos visto como beleza, porque terá completado um de seus movimentos". -- Clarice Lispector, Santa Clarice, em Paixão segundo G.H.

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"... se se dá num homem a fé em Deus unida a uma vida de pureza e elevação moral, não é tanto porque crer em Deus o faça bom, quanto porque ser bom, graças a Deus, o faz crer Nele. A bondade é a melhor fonte de clarividência espiritual". -- Miguel de Unamuno, Do sentimento trágico da vida.

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"Há, então, Senhor meu Deus, algo em mim que te possa conter? E o céu e a terra, que fizeste e nos quais me fizeste, são eles capazes de te conter? Ou então, visto que sem ti nada existe daquilo que existe, será que tudo que existe te contém? Portanto, já que eu de fato existo, por que tenho de pedir tua vinda a mim, a mim que não existiria se não existisses em mim?" -- Santo Agostinho, em suas Confissões

terça-feira, dezembro 05, 2006

Maluco beleza

Meu pai entra no quarto afobado, intrigado com o sumiço de seu copo de leite.

- Você jogou fora, minha filha?

- Não. Eu lá vou jogar fora o teu leite, pai!?

- Mas sumiu e eu quero uma explicação.

- Você deve ter bebido ou jogado fora.

- Não, eu não sou maluco!

- Então a maluca sou eu, é isso?

- Olha, eu não vou brigar com você se me disser que jogou fora. Até prefiro que me conte duma vez.

- Mas eu não joguei fora.

- Vou na cozinha contar os copos.

(E ele vai, efetivamente, contar os copos...)

- Tá vendo? O copo está aqui, só que vazio, dentro da pia. Fica tranqüila, não vou brigar com você, tá? Não quero arrumar confusão. Eu sou da paz.

- ...


Lição do dia: maluco é aquele que não convence.

sábado, dezembro 02, 2006

Smiths

"If you're so funny
Then why are you on your own tonight?
And if you're so clever
Then why are you on your own tonight?
If you're so very entertaining
Then why are you on your own tonight ?
If you're so very good-looking
Why do you sleep alone tonight?
I know ...
Cause tonight is just like any other night
That's why you're on your own tonight
With your triumphs and your charms
While they're in each other's arms...
"

sábado, novembro 25, 2006

Sou um animal sentimental (no cio)

Do princípio da realidade dinâmica: há um mês atrás comentava com a Déia, em Londres, as preocupações (profissionais) em relação à minha chegada ao Brasil. Segunda-feira passada, vivi o meu primeiro dia de trabalho na redação de um grande jornal carioca.

Ontem pela manhã, ainda em casa, chorei. Pensei no Lucas, em Amsterdã, nas tantas vezes que ele me pediu colo e quis brincar com o “cacaco” (se referindo a um CD interativo do “Mico Maneco”, da Ana Maria Machado) e eu ocupei o computador com preocupações, mandando e-mails, estabelecendo contatos, pra conseguir um porto seguro quando voltasse para o Brasil.

Choro de susto, por constatar uma dor que pouquíssimas vezes (e agora não me vem um exemplozinho sequer) se materializou na minha alma: arrependimento. Dor do não vivido, parando pra pensar, sempre foi algo estranho à minha natureza. Agora essa... eu, que sempre me repito a existência apenas do presente, da vida aqui, do “mundo bem diante do nariz”, eu, um grande arroto de frases feitas e fáceis, deixei de aproveitar abraços e sorrisos que me apareceram. Tudo por dúvidas que, no tempo certo, se dissiparam. Eu, tão jovem, ainda não aprendi a dar ouvidos de verdade àquele velho moribundo que vez e outra fala comigo, aquele sábio senhor que tantas vezes me aconselhou a colher o presente com as mãos enquanto o porvir espera por seu tempo de maturação.

O Lucas é, certamente, dos exemplos o mais dolorido. Mas eu também ocupei aquele sofá em Paris com minhas incertezas, chorando no colo do Gui. Ele, que acumulou tantas perdas no seu breve caminho de 29 anos, que aos 14 viu a mãe morrer na piscina da própria casa, que aos 20 perdeu o pai pro câncer, ele nunca parecia entender minha gravidade. E eu desdenhava da descompreensão com uma justificativa fácil: “Ele é francês”.

Comecei a sexta-feira, então, me prometendo vida desde já. Nada de planos para o próximo ano, ou para segunda-feira, ou amanhã. Lembrei das palavras da Lu sobre a virgindade dos nossos dias, de cada um deles, e resolvi profanar o último da minha semana com o gozo da fé no agora. Deu certo. Pensei em don Miguel:

“Nossa filosofia, isto é, nosso modo de compreender ou de não compreender o mundo e a vida brota de nosso sentimento com respeito à própria vida (…)

Não são nossas idéias que costumam nos tornar otimistas ou pessimistas, mas sim nosso otimismo ou nosso pessimismo – de origem fisiológica ou talvez patológica, tanto um como o outro – que fazem nossas idéias.

O homem, dizem, é um animal racional. Não sei por que não se disse que é um animal afetivo ou sentimental. Talvez, o que o diferencie dos outros animais seja muito mais o sentimento do que a razão. Vi mais vezes um gato raciocinar do que rir ou chorar. Talvez chore ou ria por dentro, mas por dentro talvez também o caranguejo resolva equações de segundo grau”.

(Miguel de Unamuno, Do sentimento trágico da vida)

Eu, nascida animal sentimental, com as idéias doentiamente afetadas pelo meu otimismo, saí do jornal a uma da manhã, como tem que ser, e dormi feliz com a idéia de desvirginar o dia seguinte, que já havia começado.

quinta-feira, novembro 23, 2006

Santa Helô



Ando encantada com mulheres. Aproveito pra falar da Helô, com quem passei a tarde do último domingo. Comentei, certa hora, a respeito da minha sempre crescente vontade de recolhimento pra gestar meus sonhos, e gestar é uma boa palavra, porque gestar é verbo que deriva na certeza de nascimento, necessitando, pra se fazer carne, apenas de espera. E eu optei por uma espera silenciosa.

A Helô, que concorda comigo, me disse que três dos nossos sete chakras principais se localizam assim, mais ou menos, no peito, na garganta e na cabeça. A energia dos nossos sonhos teria lugar no peito e, para se transformar em concretudes, deveria ser canalizada pra cabeça. O problema é que, antes, nossos sonhos passam pela garganta, encontram a bifurcação da fala, e então, muitas das vezes, assim se dissipam.

Decidido: não cuspo mais meus sonhos.

terça-feira, novembro 21, 2006

Da estrela Clarice e a hora das minhas santas profanas

"Esse eu que é vós pois não agüento ser apenas mim, preciso dos outros para me manter de pé, tão tonto que sou, eu enviesado, enfim que é que se há de fazer senão meditar para cair naquele vazio pleno que só se atinge com a meditação. Meditar não precisa de ter resultados: a meditação pode ter como fim apenas ela mesma. Eu medito sem palavras e sobre o nada. O que me atrapalha a vida é escrever. E - e não esquecer que a estrutura do átomo não é vista mas sabe-se dela. Sei de muita coisa que não vi. E vós também. Não se pode dar uma prova da existência do que é mais verdadeiro, o jeito é acreditar. Acreditar chorando."

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"Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho".

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Mais fragmentos de Clarice, dessa vez de A hora da estrela, que ainda não li todo. Recebi o livro por e-mail ontem, como presente virtual da Déia, que me escreveu:

"Estou assustada, no mais positivo sentido. Fiz download de Clarice naquele site e parece q estou lendo você. Lindo!
Beijos!"

Lindo que a Déia me veja assim. Muitas coisas eu sei de sentir antes de ler em quem sabiamente as escreveu. Não é assim sempre? Porque está dito. O espanto de identificação acontecera antes, com Miguel de Unamuno e Schopenhauer ultimamente, mas tantos outros antes. Tal sentimento não me pesa como vaidade, porque nasce de uma grande humildade. Quanto mais entendo que é tudo uma coisa só, mais muitas são as vozes que falam por minha mesma boca, ou falo por uso de outras bocas e vozes, porque minhas e outras dá no mesmo, inexistem iguais.

E que não me acusem de negar o colorido das diferenças, porque o nosso planeta, de tantas diferentes geometrias e formas de vida, cores e dores, no fim das contas é redondo e azul. E agora me lembro das feiras de ciências na escola, e de uma experiência: um disco de papel, ou papelão, pintado com duas ou três cores diferentes, colocado num suporte mecânico que o fizesse girar, resultava num disco de uma cor outra e única, revelada a partir da mistura, da velocidade. Daí nascem, da visita do homem à lua e da experiência dos tempos da meninice, nascem dois ensinamentos: algumas compreensões somente são possíveis com certas doses de distância e movimento.