Ele é um cara bacana... mais que isso, muito mais, digo bacana só porque me prometi que hoje não vou escrever muito. Então, ele, que é mais que bacana, que é supimpa (pra usar essa que é das favoritas entre minhas gírias idosas ), ele disse que um dia vou ser mãe de uma menina chamada Maria Clara, e eu, que nunca havia pensado num nome de mulher, gostei desse. Com o primeiro namoro, ainda adolescente, vieram planos de casamento, família, filhos, todos aqueles sonhos mais fáceis de desejar (qual é a diferença entre sonho e desejo, assim, no aspecto semântico da vontade de realizar?) na adolescência, quando a possibilidade de concretização não dá medo precisamente porque distante. Pois então, filhos. No singular, na verdade. Apenas um, e macho! Escolhia nomes, Mateus no topo da lista, depois João. Eu e minha mania de santos, de anjos, porque o João bem que podia ser também Gabriel. Engraçado que isso mudou faz pouco tempo... não a mania de santos, ou anjos, não isso propriamente, mas a mania de macho. Vai ver antes não queria uma menina porque eu achava muito difícil lidar comigo mesma, porque na adolescência era mais fácil sonhar, desejar, como queira, mas não era fácil conviver com a minha intensidade, a minha angústia, a minha impulsividade, a minha bunda maior que a de todas as meninas da minha idade, maior que a das mais velhas também. Agora que não sou mais adolescente, que acho mais fácil conviver com os meus dramas e nádegas, curto a idéia de substituir os sagrados santos e anjos por uma bundudinha desse mundo, profana, no sentido sociológico do termo. Maria Clara... Ou só Clara, porque meu pai, que sabe da vida de todos os santos, e santas, ele hoje veio me dizer que Clara de Assis era parceirona de Francisco, primeira seguidora dele, e eu gostei, achei o nome forte, e eu nunca havia reparado direito, ou parado pra escutar, e repetir, Clara, Clara, Clara. Lembrei que sempre quando tenho medo de alguma coisa não dar certo eu penso que preciso ter calma, porque a vida não é tão grave assim, e que se der tudo errado, considerando os conceitos que as pessoas têm do certo e do errado, que se tudo der em nada, considerando o pavor que as pessoas têm do nada, do vazio que se parar pra pensar é bacana porque dá pra preencher de várias formas e nadas, se tudo for um grande eterno impreenchível, e se impreenchível for realmente ruim, então eu me torno alguém menos desse mundo, menos profana, no sentido sociológico do termo, e viro irmã franciscana. Na verdade eu roubei essa idéia da Déia, assim, com rima feia e tudo, mas agora acho que a idéia é minha, idéia que eu relaciono com aquelas palavras da Clarice, a Lispector, Clarice, Clarice, Clarice, Clara, Clara, Clara... aquelas palavras, que “a desistência é uma revelação”, que “solidão é não precisar”. Recolhimento por não precisar, antes de tudo, ou de mais nada, não precisar de tudo, nem de nada.