quinta-feira, julho 20, 2006

Que time é teu?

O amigo canadense me vê online no msn e começa a conversa, às dez da manhã, nove em Toronto, da seguinte maneira:

- you want Men to Go?

Eu solto um "what???????????" e ele esclarece de onde vem a pergunta:

- your MSN name is MeeeeeenGoooooo

A partir de hoje só grito MENGÃO. Just in case...

segunda-feira, julho 17, 2006

Humor nem tão negro assim

― Mãe, caiu outro pedaço de carne na minha sopa...
― Ai, que merda ter filho leproso!

Lembrei da lepra exagerada das piadas infanto-juvenis de outros tempos. A graça vem caricatura da mutilação e, aí, as imagens mentais que se criam acabam neutralizando o nefasto. Pensando bem, é divertido imaginar alguém que larga seus pedaços por aí. E, no fim das contas, é o que todos fazemos: largamos nossos pedaços por aí, pelo caminho.

É isso. Acho que a vida é uma constante mutilação ― e não há doença nisso! A lepra se dá quando a gente fica voltando pra buscar pedaço carcomido, em vez de virar esponja, feito o Bob Esponja, e se reconstituir.

Aliás, isto das esponjas marítimas me intriga: se sempre se reconstituem, elas morrem de quê afinal? De cansaço de viver se reconstituindo, deve ser...

quinta-feira, julho 06, 2006

Sobre ipês desbotados

Já cheguei a subestimar minha imaginação. Julgava-me, sim, dona de um olhar atento para o simples e que, por isso, a vida se arreganhava pra mim, e me contava belas estórias para que eu, então, as passasse adiante com o meu jeito próprio de narrar. Mas não é nada disso. Eu não sinto, prevejo ou compreendo o que quer que seja: invento tudo e materializo verdades com minhas palavras.

Hoje tenho dúvidas a respeito de muito do que vivi. Só o que há são essas palavras duvidosas a materializar inexistências. Com tamanha capacidade de colorir e florear, às vezes acho que vou descobrir um gigantesco nada por detrás das minhas imaginárias telas coloridas e das inventadas pétalas que deixo pelo caminho. Caminho esse que, bem capaz, talvez, igualmente, inexista.

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Certos estados de apatia germinam em belas terras, enquanto que chafurdados no mangue podre restam mil projetos e formas de vida. Falta de efervescência me dá azia; linearidade é algo que me apavora, muitas vezes.

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Por sorte sou mais de uma. Parte de mim só faz merda, enquanto a outra ri dos vexames. Diversão garantida. Poucos se sentiram tão completos, provavelmente.

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- aconteceu alguma coisa?

- minhas certezas me sufocam, só isso.

- ai, meu deus... pessoa enigmática!

- eu tenho vontade de chorar pelas minhas escolhas que julgo certas. não importa. questões existenciais.

- pra mim importa

- ando lendo mto simone de beauvoir...

- não gosto de saber que vc tá triste.

- não é bem triste. sufocada. s-u-f-o-c-a-d-a.

- que seja... qq coisa que te incomode.

- já passou.

- se precisar de qq coisa, por favor me ligue.... eu teria ido aí e te levado pra beber uma cerveja...

- sempre passa... aliás, não sei por que choro se sei que vai passar.

- a gente ficava falando um monte de besteira e vc nem ia pensar em nada!!

- se bem que costuma passar só depois que choro, então é válido chorar

- huahuahuahua

- taí, vou passar a chorar sempre, por precaução...

- surtou...

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Em tempo: fodam-se os jogadores de futebol.

terça-feira, julho 04, 2006

E o canário fez que nem holandês voador...

O dia amanheceu lindo naquele já distante primeiro domingo do inverno (tanta bola - rolada, parada e nas costas – desde então...). Manhã azul pra reforçar a fama do céu de junho e sol quente pra abençoar o Rio de Janeiro. Um dia, canarinho, você se encanta também. Por enquanto eu fico de cá te embalando com palavras...

Foi no domingo bonito feito assim que fiquei dividida. Já havia torcido contra os hermanos e bom que ganhei um empate diplomático. Mas, antes mesmo do começo de Portugal e Holanda, meu coração já doía. Dureza não apoiar o Felipão, ainda mais porque assisti o jogo na praia de Ipanema - aliás, temos fotos juntos lá, sabia? Falta agora eu te levar no Arpoador, onde as pessoas aplaudem o pôr-do-sol. Era lá que eu estava pouco antes do início da partida...

Precisei ser discreta pra ninguém perceber minha torcida, alaranjada feito o sol que se pusera havia pouco. Mas Felipão venceu, a despeito de minhas pragas pouco convincentes. Mal sabia eu que aquela seria uma vitória providencial, melhor dos consolos para as derrotas que se seguiriam. Não só a do Brasil – fique claro! - pois, creia-me, chorei com os hermanos.

Acho engraçado tudo agora. O tal do grito de doelpunt contra o Brasil deixou de acontecer não só devido a despedida da seleção holandesa. No fim das contas, nos disseram (ou nos dissemos?) au revoir. O curioso é que, enquanto nos entristecíamos por aqui, você aproveitava as férias na França.

Hum... Canarinho laranja, não me diga que você se transformou num galo!?!?

quarta-feira, junho 21, 2006

Ao canário laranja

A tua primeira visita ao Brasil da mamãe – e da tia que agora narra a história – durou apenas 30 dias. Aqui te conheci quando você contava três meses de vida. Amor logo de cara, apesar do teu berreiro no nosso encontro. Com toda razão, aliás: mais de dez horas para cruzar o Atlântico, conexão em São Paulo, chegada ao Rio, finalmente. Os outros passageiros cumprimentaram tua mãe depois da aterrissagem em solo tupiniquim. Elogiaram tua calma, teu silêncio, tua paciência madura na viagem gigante demais para um bebê. Sabendo disso, apoiei quando o choro veio, tardio e guerreiro.

Dia seguinte, conheci teu sorriso pra mim. Cheguei a me emocionar, viu? Mas depois descobri o vira-latinha que você era, de riso fácil, pra qualquer um, pra quem quisesse. Pequeno desse jeito e já entendendo tudo de democracia, já sabendo compartilhar o teu melhor.

Você não engatinhava ainda e o teu vovô dos trópicos, também misturado, nascido de ventre italiano fecundado por índio brasileiro, torcedor mais verde-amarelo que azzurro, já caprichava na lavagem cerebral. Era o tempo inteiro: “Gol! Gol! Basil! Basil!”. E num é que deu certo? Dia desses, mais de um ano depois, época de Copa do Mundo e briga pelo hexa, vi pela webcam: a gente fala “Gol! Gol! Basil! Basil!” e você levanta os bracinhos e cai na gargalhada. Teu pai, coitado, se esgoela no “Doelpunt! Doelpunt! Holland! Holland!” e você nem se mexe.

Hoje tem Holanda x Argentina. Deixa eu te contar duma vez: há uma rixa entre brasileiros e os hermanos argentinos. Tua tia aqui tem dessas coisas não, queria mais era ver essa América Latina unida, na luta pra estancar o sangue que jorra das veias abertas e compartilhando também vitórias nessas festanças que o mundo inteiro assiste. Mas, minha miniatura de conquistador, por você, hoje, eu sou laranja. De pintar o rosto e tudo, tirar foto e guardar pra posteridade. Pra assim tentar retribuir, agradecer de alguma forma pela felicidade de te ver virando a casaca com tanta empolgação.

Mas se tiver um Brasil x Holanda, meu amor, eu vou levantar os braços no mesmo instante que você, e assim estaremos juntos. Só espero que não silenciemos juntos após um indesejável grito de “doelpunt”...

sexta-feira, junho 16, 2006

Jornalista junguiana

Não sei o que Jung pensava a respeito de jornalismo, mas eu sei que fiz o teste e deu lá: jornalista. Que medo.

O que Jung diria de tantos outros coleguinhas?
Medo. Muito medo...

ENFP - "Journalist". Uncanny sense of the motivations of others. Life is an exciting drama. 8.1% of total population.

Da dura devoção

Sua santificação não se deu por motivo à toa. Fora os sofrimentos que suportou em vida e além dos seus amores de morte, desde sempre convivera com os avisos do céu. Desagradava-se. Com a missão de carregar o peso das cruzes e das contrariedades do coração até que deu pra acostumar. Mas saber de certeza das coisas antes delas serem acontecidos, e engolir verdade sem nem saborear um tantinho de ilusão, ah, isso era provação demais.

A santa se indignava: o mundo na precisa de tanta milagragem e o Divino teimava em esbanjar poder com profecia e comunicação (ainda mais depois que o coisa-ruim inventou a Internet. Mas isso é uma outra estória...).

Quando começava a se iludir, já estava certa da verdade. O negócio é que ela, de tão santa, desejava sofrer em paz; cultivando esperança miúda de entender mal os recados que o Todo-Poderoso dava pessoalmente em forma de beliscão na alma feminina desanimada.

A santa desconfiava de umas sabotagens do Superior. Não era possível que seus mais bobos afetos fossem, para Ele, reprováveis sempre! Ela até que tentava interceder pelos bondosos homens, mas Ele não perdoava: escapava nem santo, nem anjo! Chegava hora que ela cansava de ouvir Seus conselhos, então insistia, acreditava nas linhas certas dos errados, dava voto de confiança, cria em promessas. Milagrosos tombos... Fosse a santa de barro e quebraria duma vez; era acelerar o andor e acabava a história. Mas a santinha de borracha só caía feito João-Bobo, ia e voltava, assim, eternamente. Já nem distinguia santidades. Quando mesmo se deu a última vez que morrera? Tampouco se lembrava da mais recente vida. Perguntou pra Deus e Ele zangou: “é uma só!”.

Ela fez que não ligou. Sabia que era uma só, mas às vezes gostava de brincar de ser muitas, pra não lembrar que era a mesma e que o destino era um, desde sempre: carregar o peso das cruzes e das contrariedades do coração; levando também dores em seus ombros – doídos antes mesmo que houvesse pesar.

segunda-feira, junho 12, 2006

Segundo Ato: Da liberdade do corpo que dança

Repito, o começo tardio traz uma grande vantagem: maior percepção das mudanças. Como o cego de nascença que, enxergando, termina por ver mais que todo mundo, de tanto que pasma com a normalidade dos outros. Milagre do mesmo? Eu diria.

Eu me vejo diferente e não me refiro às alterações estéticas, mais sutis que as de alma; tampouco às gestuais, apesar da dança imprimir delicadezas. O que difere é a função do corpo.

Vasculhando meus parcos conhecimentos filosóficos, lembrei de Nietzsche, Foucalt e Deleuze e da forma dos três se referirem ao corpo como uma importante chave para compreensão tanto da opressão como da liberdade do indivíduo. Corpo da “grande saúde”, corpo adoecido pela sociedade, corpo da “digestão”, corpo que se atrofia para melhor caber no sistema produtivo, corpo alvo de medicalização, corpo subjugado por tortuosas concepções estéticas...

Peço perdão aos três pensadores por minhas sínteses e também generalizações, mas me arrisco a dizer que as duas funções do corpo mais facilmente identificáveis são a estética e a sexual. Pesa nas minhas ponderações o meu lugar de mulher – e brasileira! –, é inegável. Na minha filosofia de observação do cotidiano contam principalmente estes dois registros, estético e sexual, ambos aprisionadores. Corpo pra ser visto, apreciado se de acordo com os padrões estéticos, valendo o primado do supostamente belo, ainda que nem sempre saudável; corpo para ser provado com os olhos e consumido sexualmente.

Mas eis que se inaugura uma nova lógica, uma poesia diversa, um movimento que re-significa funções e olhares: nasce o corpo que dança. E se o meu corpo dança, a estética se vincula a trabalho, lapidação e conseqüência, não existe como fim em si. Já a sexualidade, agora, pode ganhar novos contornos, tempos e espaços outros – exclusivos e mágicos.

Ai, ai... eu confesso: ando meio pudica. Acho até que de tão desencanada. Não vejo problema em falar de sexo, talvez por isso não capriche nos despudores escritos, nem faça alardes que mais me soariam como clichês de uma rebeldia caduca. Adoro uma besteira bem dita, bem sacada, motivo de riso entre amigos, mas tem subversão sexual e certas exaltações que me cansam (eu tava falando dia desses: às vezes, numa de subverter, nos submetemos ainda mais a certas lógicas. Periga reforçarmos, pela via oposta, conservadorismos que pretendemos demolir).

Inexistem, no que se refere à sexualidade, questões morais ou religiosas que me atormentem, com isso a excitação do proibitivo passa ao largo; tive fantasias e realizei muitas - até que elas perderam a importância frente à realidades muito mais felizes.

História de tempos idos que me vem: o “último absoluto” potencializava o meu encantamento com as reconfigurações corporais do pós-dança. Com ele experimentei um sexo mais balé, mais poético, mais anímico. Por isso o comparei a uma caixa-depósito dos meus sentires acumulados mais refinados. Por isso também disse, certa vez, que gostava de mim com ele, talvez mais que dele propriamente. Narcisistamente... Quando juntos, eu constatei as novas formas, funções e movimentos do meu corpo que, agora, e antes de mais nada, dançava. (Aliás, acabei de me dar conta: mu-dança. Realidade que baila...).

Pudica. Ou talvez não. Vai ver apenas me surgiu uma nova percepção acerca dos lugares e espaços destinados ao espetáculo. Questão é: o suposto recato vem de liberdade e não de repressão. O corpo que dança é livre de forma tal que não se prende à exigências e padrões estéticos despropositados. Tampouco existe apenas para o sexo, assim criando novos paradigmas para a existência do mesmo.

Pra finalizar a prosa em baile, cito as conhecidas palavras de Santo Agostinho: “Ó homem, aprenda a dançar! Senão os anjos no céu não saberão o que fazer contigo!"

domingo, junho 04, 2006

Primeiro Ato: Infantilidade madura do corpo adulto verde

Terça-feira passada, momento mágico: minha primeira apresentação. Minutos antes, coração acelerado, medo de errar, pavor dos tantos olhares ao redor. Mas depois que a luz cai e se inicia a música, o mundo some, como definiu a Si. Resta você, seu corpo e a dança.

Comecei as aulas de jazz e balé moderno aos 22, há dois anos atrás, sem qualquer histórico de envolvimento com dança na infância ou na adolescência. Na época, primeira constatação: aos vinte e poucos anos se é jovem pra quase tudo. Quase, mas não tudo.

Se entrei numa turma de adultos iniciantes? Não mesmo. As meninas contavam cinco, dez, quinze, até vinte anos de dança. Só a Quel se iniciara havia apenas dois e, não por acaso, foi quem mais me incentivou a não desistir nos seis primeiros meses – prova de fogo, segundo ela.

Primeiro, o desconhecimento: quem é aquela desajeitada no espelho? Linguagem outra... En dedans e en dehors. E também demi-pliés e grand pliés. E ainda rond de jambes, à terre e en l’air. Mais: battements, tendus, jetés, développés, fondus. Attitude, croisé, arabesque, piqué, pirouette, chassé, fouetté. Pas de chat e pas de deux. Changements... Muitas, muitas mudanças.

Início de corpo que não responde, mesmo que a cabeça entenda. Aos poucos, você vai se descobrindo, partes desde sempre adormecidas despertam, reagem, se sentem vivas, depois mais fortes e, logo, abusado, o corpo pede: quero dançar! Pronto? Que nada. Porque aí, nessas primeiras respostas do corpo, tornei-me apta a perceber uma infinidade de outros desconhecimentos. Agora, pelo menos, há a mínima capacidade de notar melhor aquilo que não sei.

Por que não desisti? Ora, percebi a tempo que não é sempre que se tem oportunidade dessa de ser criança e achei por bem vivê-la. Na verdade, eu não era velha demais pra começar a dançar. Eu era é criança demais. Numa turma de crianças, são todas igualmente crianças. Ali, no espaço amadurecido, a infância naqueles movimentos era exclusividade minha. Talvez por isso as outras meninas me adotaram, e me incentivaram, e me socorreram. Método Paulo Freire de dança, assim apelidei...

Tratei de aproveitar a sensação de tornar a engatinhar – com a vantagem da consciência pra perceber os progressos e me encantar com cada um deles. O saber, não importa de que natureza, costuma despertar um fascínio guloso: queremos degustá-lo, sorvê-lo, devorá-lo. Mas criança ainda banguela mais olha, brinca e ri. E não se assusta com mistério - mais se maravilha e o respeita. Quando sabemos tanto, e devoramos tudo, às vezes perdemos a potência e o impulso do pasmar...

Outras experiências: presente bem vivido! Com fazer, tentativa e muito erro. Descouberam lamentos pelo passado de infância e adolescência sem balé; inoportunos todos os pensamentos e as dúvidas acerca de palcos futuros. Como eu disse uma vez, a maior parte do caminho é sempre feita de trajeto. Há mais ir que chegar. E, assim, apenas fui, apenas vou...

sexta-feira, junho 02, 2006

Seu Jacy

"Como sempre digo, depois da tempestade vem a ambulância". - por Seu Jacy, o pedreiro genial que está trabalhando na minha casa.

Certos níveis de compreensão eu nunca vou atingir. Só nascendo de novo...

domingo, maio 21, 2006

If

by Rudyard Kipling

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don't deal in lies,
Or, being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build 'em up with wornout tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on";

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man my son!

segunda-feira, maio 15, 2006

Novos ditos de antigas andanças e paragens

Em 2000, boa parte dos israelenses com quem conversei despretensiosamente demonstrava certo respeito por Yasser Arafat; nunca afeto, é verdade. No governo do então primeiro-ministro Ehud Barak, havia um processo de paz, capenga mas relativamente amarrado, e só me lembro de um episódio mais esquisito, justamente quando, em Tel Aviv, resolvi conhecer o memorial de Itzhak Rabin – aquele que apertou a mão do Arafat em 1993, nos Estados Unidos, e foi assassinado, dois anos depois, por um extremista judeu que não queria que Rabin saísse por aí cumprimentando todo mundo.

Minha visita ao memorial se deu em um sábado, o Shabat, e ali, guardando o lugar, havia um judeu, com um quipá na cabeça, lata de coca-cola na mão e palavras hebraicas incompreensíveis berradas pela boca que não se calou, mesmo depois d’eu dizer que não entendia a língua, porque, então, os gritos se pronunciaram em alto e bom inglês. Ele devia ter seus vinte e poucos anos, jovem como aquele menino de 1995 tão contrário a apertos de mão.

Mas não passou disso. Ele só queria berrar com coca-cola seu descontentamento com a homenagem prestada pelos visitantes que não tinham um quipá na cabeça e descompreendiam suas palavras hebraicas.

Na época, todos os judeus israelenses com quem eu conversava despretensiosamente me corrigiam quando eu dizia que a capital de Israel era Tel Aviv. De acordo com minhas aulas de geopolítica, a “comunidade internacional” jamais reconheceu Jerusalém como capital de Israel, e o meu contato com aquelas pessoas me ensinou que a comunidade internacional tampouco convenceu os judeus israelenses de que não era.

Pena eu não ter conversado tanto com árabe-muçulmanos israelenses. Na primeira vez que estive em Jerusalém, a minha entrada na cidade antiga foi pelo portão de Damasco, no quarteirão árabe. Até hoje sou capaz de sentir o aroma dos temperos em tantas bancadas das vielas estreitas, a música em palavras árabes que eu descompreendia, os véus à venda, e as mulheres e seus véus.

Experimentei muitos momentos de solidão, já no Brasil, porque entre as pessoas mais queridas não havia quem conhecesse a perenidade das marcas deixadas por tantos cheiros, cantos, cores e descompreensões...

sábado, maio 13, 2006

Lei Virtuáurea

Me senti prisioneira deste espaço virtual. Preciso de novos ares. Hoje, rompo os grilhões binários de sempre, pra, pelo menos, me repetir em outro lugar.

A digestora morreu. O digerindo fica pra contar histórias. Nasce a metanóica. Sem traumas, sem paranóia.

Lei Virtuáurea

Me senti prisioneira deste espaço virtual. Preciso de novos ares. Hoje, rompo os grilhões binários de sempre, pra, pelo menos, me repetir em outro lugar.

A digestora morreu. O digerindo fica pra contar histórias. Nasce a metanóica. Sem traumas, sem paranóia.

E disse Jesus, mas até parecia que ele falava grego

Já ouvi e li de vários teólogos, mas não custa repetir: as palavras conversão e arrependimento, usadas pelo Jesus que nos chegou em português, vêm de uma mesma expressão no grego: metánoia, que quer dizer algo como uma reformulação constante de pensamento. (Que ninguém me pergunte se Jesus falava grego, por favor).

O mestre tentou sugerir que víssemos o "mundo" não apenas com outros olhos - porque substituir olho por olho pode significar abrir mão de uma cristalização em prol de outra - mas com olhos sempre diferentes. Olhos abertos para o pasmar com a vida, que se movimenta, isso eu diria. No entanto, fechamos os ouvidos para certos válidos ensinamentos. E, claro, também os olhos.

sexta-feira, maio 05, 2006

Cerveja, sete e Sol

A Bela é virginiana, como eu, e tem interesse por astrologia. Na conversa de bar de noite dessas, ela comentou que vez e outra faz mapa astral dos amigos. Ali, na mesa lapiana mesmo, arriscou alguns palpites sobre mim. “Ascendente em aquário, sol na sétima casa. Significa que você se encontra através do outro”.

Cheguei em casa e mandei e-mail informando data, local e hora do meu nascimento, pra Bela tentar o meu mapa. Sem projeções, porque aí não curto. Não por medo ou superstição. Mais mesmo porque não tenho curiosidades a respeito do meu futuro. Aliás, tenho pensado ultimamente que o futuro de qualquer pessoa, enquanto lugar do já realizado, só pode ser enfadonho. Bom é o presente – tempo de travessia! Fora que, concordem ou não, de onde estamos, sempre dá pra ver a margem do futuro. Da margem, a linha do horizonte é muito mais que linha reta. Navegue-se quem puder, sem querer se salvar tanto...

Mas eu falava de Outro. Taí confirmação intrigante: nesse sol na sétima casa sempre acreditei, sem saber que era por causa do sol, do sete, do aquário. Do peixes que entrou provocando qualquer coisa que já não lembro mais o que seja, mas pode ser que eu simplesmente saiba, com nome outro, ou simplesmente sinta, de modo outro. Mas sempre Outro...

Cerveja, sete e Sol

A Bela é virginiana, como eu, e tem interesse por astrologia. Na conversa de bar de noite dessas, ela comentou que vez e outra faz mapa astral dos amigos. Ali, na mesa lapiana mesmo, arriscou alguns palpites sobre mim. “Ascendente em aquário, sol na sétima casa. Significa que você se encontra através do outro”.

Cheguei em casa e mandei e-mail informando data, local e hora do meu nascimento, pra Bela tentar o meu mapa. Sem projeções, porque aí não curto. Não por medo ou superstição. Mais mesmo porque não tenho curiosidades a respeito do meu futuro. Aliás, tenho pensado ultimamente que o futuro de qualquer pessoa, enquanto lugar do já realizado, só pode ser enfadonho. Bom é o presente – tempo de travessia! Fora que, concordem ou não, de onde estamos, sempre dá pra ver a margem do futuro. Da margem, a linha do horizonte é muito mais que linha reta. Navegue-se quem puder, sem querer se salvar tanto...

Mas eu falava de Outro. Taí confirmação intrigante: nesse sol na sétima casa sempre acreditei, sem saber que era por causa do sol, do sete, do aquário. Do peixes que entrou provocando qualquer coisa que já não lembro mais o que seja, mas pode ser que eu simplesmente saiba, com nome outro, ou simplesmente sinta, de modo outro. Mas sempre Outro...

quarta-feira, março 08, 2006

Mal adaptada

Drummond escreveu:

“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida...”


Chico Buarque se identificou:

"Quando nasci, veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim.."


E eu me desesperei:

Quando nasci, um anjo sarado
Cafajeste e sarcástico
Mascarado feito Arlequim
Em vez de falar, mandou recado:
Vai, Gisele! ser derrota até o fim

Pior: eu, errada
Nascida tão tarde
Cheguei atrasada na vida
Fiz prova pra vaga de canhoto
E nem assim fui escolhida

Mal adaptada

Drummond escreveu:

“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida...”


Chico Buarque se identificou:

"Quando nasci, veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim.."


E eu me desesperei:

Quando nasci, um anjo sarado
Cafajeste e sarcástico
Mascarado feito Arlequim
Em vez de falar, mandou recado:
Vai, Gisele! ser derrota até o fim

Pior: eu, errada
Nascida tão tarde
Cheguei atrasada na vida
Fiz prova pra vaga de canhoto
E nem assim fui escolhida

domingo, janeiro 22, 2006

Eu, por mim mesma - Tomo sétimo (e último)

"De todos os santos"

Eis que, então, lhe sobreveio a mensagem divina e ela compreendeu que deveria canonizar suas mágoas e transformá-las em milagres. Foi quando pensou nos homens de sua vida e constatou que eram todos santos. Conforme lhe segredara Deus em sonho, a eles devia sua miraculosa alquimia de transmutar lágrima em caminho.

Num papel, improviso de tábua da lei e de salvação, antecipadamente envelhecido por conhecer o peso de suas cruzes, ela compôs uma oração de graças às atuais, antigas e futuras gerações de seus homens santos.

Começou pelos que, devagar em verdes andores, simbolizavam o riso em sua vida: Santo Antonio – semente plantada e cultivada no seio da esperança por um mundo melhor – e São Lucas Mateus das terras calvinistas, doçura esculpida gente. A ambos ela devotara sua máxima ternura.

Em seguida, lembrou-se daqueles piedosos que sempre acudiam-na em momentos de elevadas aflições, bastando que, para isso, apenas fechasse os olhos; sem necessidade de juntar as mãos em reza ou fazer promessas de amor que ela jamais cumpriria. Então, entoou cânticos ao mais belo dos santos: salve São Marcos da Cachoeira, que a instruiu nos maravilhosos pecados da luxúria.

Assim, por igual motivo de prece atendida, ela também deu vivas a São João dos caroços rebeldes e brotos impossíveis, que fez germinar em seu coração mais esperança no porvir. Santo palavreiro que, com belos escritos e saudáveis vexames, reafirmou a missão de amá-la – incondicional, energética e libertariamente.

Das terras latinas de fé revolucionária, vieram-lhe duas imagens. A San Carlos de Puebla dedicou uma prece, pela crença cega que o distante santo nela depositara e pelos pergaminhos de profecia asteca que dele recebera. Por fim, ela derramou lágrimas bentas, emocionada com as providências de seu santo protetor: San Andrés de Medelín.

Escrevia a lista de seus santos homens santos e, pouco a pouco, deixava de ser a mulher de tormentosos prantos e metamorfoseava-se em virgem de luz, purificada após o flagelo. O amor, enfim, já não a castigava.

Sua última provação se deu no instante em que por ser escrito apenas um nome restava: o daquele que lhe impusera doídas penitências. Se ela sentia-se capaz de escrevê-lo? Duvidou com palavras. No entanto, como se de nada mais valessem, porque já desnecessárias, prevaleceu o impulso de seu misericordioso coração, que fez brotar magicamente no papel, em meio às luzes, com letras douradas, o nome que a havia feito cair endemoniada. Assim reescrito, significou alvíssaras. Boas novas do pequeno Santo Padre de Cuba, infalível em grandes milagres de contrariedade.

Teve pouco tempo para contemplar aquelas letras douradas. Ela já não pertencia a este mundo: virou Santa. Santa de Todos os Santos. Que foi crucificada, morta e esquartejada. Desceu ao barraco dos mortos. E ressuscitou ao sétimo tomo, depois de uma eternidade.