sexta-feira, junho 16, 2006

Jornalista junguiana

Não sei o que Jung pensava a respeito de jornalismo, mas eu sei que fiz o teste e deu lá: jornalista. Que medo.

O que Jung diria de tantos outros coleguinhas?
Medo. Muito medo...

ENFP - "Journalist". Uncanny sense of the motivations of others. Life is an exciting drama. 8.1% of total population.

Da dura devoção

Sua santificação não se deu por motivo à toa. Fora os sofrimentos que suportou em vida e além dos seus amores de morte, desde sempre convivera com os avisos do céu. Desagradava-se. Com a missão de carregar o peso das cruzes e das contrariedades do coração até que deu pra acostumar. Mas saber de certeza das coisas antes delas serem acontecidos, e engolir verdade sem nem saborear um tantinho de ilusão, ah, isso era provação demais.

A santa se indignava: o mundo na precisa de tanta milagragem e o Divino teimava em esbanjar poder com profecia e comunicação (ainda mais depois que o coisa-ruim inventou a Internet. Mas isso é uma outra estória...).

Quando começava a se iludir, já estava certa da verdade. O negócio é que ela, de tão santa, desejava sofrer em paz; cultivando esperança miúda de entender mal os recados que o Todo-Poderoso dava pessoalmente em forma de beliscão na alma feminina desanimada.

A santa desconfiava de umas sabotagens do Superior. Não era possível que seus mais bobos afetos fossem, para Ele, reprováveis sempre! Ela até que tentava interceder pelos bondosos homens, mas Ele não perdoava: escapava nem santo, nem anjo! Chegava hora que ela cansava de ouvir Seus conselhos, então insistia, acreditava nas linhas certas dos errados, dava voto de confiança, cria em promessas. Milagrosos tombos... Fosse a santa de barro e quebraria duma vez; era acelerar o andor e acabava a história. Mas a santinha de borracha só caía feito João-Bobo, ia e voltava, assim, eternamente. Já nem distinguia santidades. Quando mesmo se deu a última vez que morrera? Tampouco se lembrava da mais recente vida. Perguntou pra Deus e Ele zangou: “é uma só!”.

Ela fez que não ligou. Sabia que era uma só, mas às vezes gostava de brincar de ser muitas, pra não lembrar que era a mesma e que o destino era um, desde sempre: carregar o peso das cruzes e das contrariedades do coração; levando também dores em seus ombros – doídos antes mesmo que houvesse pesar.

segunda-feira, junho 12, 2006

Segundo Ato: Da liberdade do corpo que dança

Repito, o começo tardio traz uma grande vantagem: maior percepção das mudanças. Como o cego de nascença que, enxergando, termina por ver mais que todo mundo, de tanto que pasma com a normalidade dos outros. Milagre do mesmo? Eu diria.

Eu me vejo diferente e não me refiro às alterações estéticas, mais sutis que as de alma; tampouco às gestuais, apesar da dança imprimir delicadezas. O que difere é a função do corpo.

Vasculhando meus parcos conhecimentos filosóficos, lembrei de Nietzsche, Foucalt e Deleuze e da forma dos três se referirem ao corpo como uma importante chave para compreensão tanto da opressão como da liberdade do indivíduo. Corpo da “grande saúde”, corpo adoecido pela sociedade, corpo da “digestão”, corpo que se atrofia para melhor caber no sistema produtivo, corpo alvo de medicalização, corpo subjugado por tortuosas concepções estéticas...

Peço perdão aos três pensadores por minhas sínteses e também generalizações, mas me arrisco a dizer que as duas funções do corpo mais facilmente identificáveis são a estética e a sexual. Pesa nas minhas ponderações o meu lugar de mulher – e brasileira! –, é inegável. Na minha filosofia de observação do cotidiano contam principalmente estes dois registros, estético e sexual, ambos aprisionadores. Corpo pra ser visto, apreciado se de acordo com os padrões estéticos, valendo o primado do supostamente belo, ainda que nem sempre saudável; corpo para ser provado com os olhos e consumido sexualmente.

Mas eis que se inaugura uma nova lógica, uma poesia diversa, um movimento que re-significa funções e olhares: nasce o corpo que dança. E se o meu corpo dança, a estética se vincula a trabalho, lapidação e conseqüência, não existe como fim em si. Já a sexualidade, agora, pode ganhar novos contornos, tempos e espaços outros – exclusivos e mágicos.

Ai, ai... eu confesso: ando meio pudica. Acho até que de tão desencanada. Não vejo problema em falar de sexo, talvez por isso não capriche nos despudores escritos, nem faça alardes que mais me soariam como clichês de uma rebeldia caduca. Adoro uma besteira bem dita, bem sacada, motivo de riso entre amigos, mas tem subversão sexual e certas exaltações que me cansam (eu tava falando dia desses: às vezes, numa de subverter, nos submetemos ainda mais a certas lógicas. Periga reforçarmos, pela via oposta, conservadorismos que pretendemos demolir).

Inexistem, no que se refere à sexualidade, questões morais ou religiosas que me atormentem, com isso a excitação do proibitivo passa ao largo; tive fantasias e realizei muitas - até que elas perderam a importância frente à realidades muito mais felizes.

História de tempos idos que me vem: o “último absoluto” potencializava o meu encantamento com as reconfigurações corporais do pós-dança. Com ele experimentei um sexo mais balé, mais poético, mais anímico. Por isso o comparei a uma caixa-depósito dos meus sentires acumulados mais refinados. Por isso também disse, certa vez, que gostava de mim com ele, talvez mais que dele propriamente. Narcisistamente... Quando juntos, eu constatei as novas formas, funções e movimentos do meu corpo que, agora, e antes de mais nada, dançava. (Aliás, acabei de me dar conta: mu-dança. Realidade que baila...).

Pudica. Ou talvez não. Vai ver apenas me surgiu uma nova percepção acerca dos lugares e espaços destinados ao espetáculo. Questão é: o suposto recato vem de liberdade e não de repressão. O corpo que dança é livre de forma tal que não se prende à exigências e padrões estéticos despropositados. Tampouco existe apenas para o sexo, assim criando novos paradigmas para a existência do mesmo.

Pra finalizar a prosa em baile, cito as conhecidas palavras de Santo Agostinho: “Ó homem, aprenda a dançar! Senão os anjos no céu não saberão o que fazer contigo!"

domingo, junho 04, 2006

Primeiro Ato: Infantilidade madura do corpo adulto verde

Terça-feira passada, momento mágico: minha primeira apresentação. Minutos antes, coração acelerado, medo de errar, pavor dos tantos olhares ao redor. Mas depois que a luz cai e se inicia a música, o mundo some, como definiu a Si. Resta você, seu corpo e a dança.

Comecei as aulas de jazz e balé moderno aos 22, há dois anos atrás, sem qualquer histórico de envolvimento com dança na infância ou na adolescência. Na época, primeira constatação: aos vinte e poucos anos se é jovem pra quase tudo. Quase, mas não tudo.

Se entrei numa turma de adultos iniciantes? Não mesmo. As meninas contavam cinco, dez, quinze, até vinte anos de dança. Só a Quel se iniciara havia apenas dois e, não por acaso, foi quem mais me incentivou a não desistir nos seis primeiros meses – prova de fogo, segundo ela.

Primeiro, o desconhecimento: quem é aquela desajeitada no espelho? Linguagem outra... En dedans e en dehors. E também demi-pliés e grand pliés. E ainda rond de jambes, à terre e en l’air. Mais: battements, tendus, jetés, développés, fondus. Attitude, croisé, arabesque, piqué, pirouette, chassé, fouetté. Pas de chat e pas de deux. Changements... Muitas, muitas mudanças.

Início de corpo que não responde, mesmo que a cabeça entenda. Aos poucos, você vai se descobrindo, partes desde sempre adormecidas despertam, reagem, se sentem vivas, depois mais fortes e, logo, abusado, o corpo pede: quero dançar! Pronto? Que nada. Porque aí, nessas primeiras respostas do corpo, tornei-me apta a perceber uma infinidade de outros desconhecimentos. Agora, pelo menos, há a mínima capacidade de notar melhor aquilo que não sei.

Por que não desisti? Ora, percebi a tempo que não é sempre que se tem oportunidade dessa de ser criança e achei por bem vivê-la. Na verdade, eu não era velha demais pra começar a dançar. Eu era é criança demais. Numa turma de crianças, são todas igualmente crianças. Ali, no espaço amadurecido, a infância naqueles movimentos era exclusividade minha. Talvez por isso as outras meninas me adotaram, e me incentivaram, e me socorreram. Método Paulo Freire de dança, assim apelidei...

Tratei de aproveitar a sensação de tornar a engatinhar – com a vantagem da consciência pra perceber os progressos e me encantar com cada um deles. O saber, não importa de que natureza, costuma despertar um fascínio guloso: queremos degustá-lo, sorvê-lo, devorá-lo. Mas criança ainda banguela mais olha, brinca e ri. E não se assusta com mistério - mais se maravilha e o respeita. Quando sabemos tanto, e devoramos tudo, às vezes perdemos a potência e o impulso do pasmar...

Outras experiências: presente bem vivido! Com fazer, tentativa e muito erro. Descouberam lamentos pelo passado de infância e adolescência sem balé; inoportunos todos os pensamentos e as dúvidas acerca de palcos futuros. Como eu disse uma vez, a maior parte do caminho é sempre feita de trajeto. Há mais ir que chegar. E, assim, apenas fui, apenas vou...

sexta-feira, junho 02, 2006

Seu Jacy

"Como sempre digo, depois da tempestade vem a ambulância". - por Seu Jacy, o pedreiro genial que está trabalhando na minha casa.

Certos níveis de compreensão eu nunca vou atingir. Só nascendo de novo...

domingo, maio 21, 2006

If

by Rudyard Kipling

If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too;
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don't deal in lies,
Or, being hated, don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim;
If you can meet with triumph and disaster
And treat those two imposters just the same;
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to broken,
And stoop and build 'em up with wornout tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings
And never breath a word about your loss;
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on";

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with kings - nor lose the common touch;
If neither foes nor loving friends can hurt you;
If all men count with you, but none too much;
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run -
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man my son!

segunda-feira, maio 15, 2006

Novos ditos de antigas andanças e paragens

Em 2000, boa parte dos israelenses com quem conversei despretensiosamente demonstrava certo respeito por Yasser Arafat; nunca afeto, é verdade. No governo do então primeiro-ministro Ehud Barak, havia um processo de paz, capenga mas relativamente amarrado, e só me lembro de um episódio mais esquisito, justamente quando, em Tel Aviv, resolvi conhecer o memorial de Itzhak Rabin – aquele que apertou a mão do Arafat em 1993, nos Estados Unidos, e foi assassinado, dois anos depois, por um extremista judeu que não queria que Rabin saísse por aí cumprimentando todo mundo.

Minha visita ao memorial se deu em um sábado, o Shabat, e ali, guardando o lugar, havia um judeu, com um quipá na cabeça, lata de coca-cola na mão e palavras hebraicas incompreensíveis berradas pela boca que não se calou, mesmo depois d’eu dizer que não entendia a língua, porque, então, os gritos se pronunciaram em alto e bom inglês. Ele devia ter seus vinte e poucos anos, jovem como aquele menino de 1995 tão contrário a apertos de mão.

Mas não passou disso. Ele só queria berrar com coca-cola seu descontentamento com a homenagem prestada pelos visitantes que não tinham um quipá na cabeça e descompreendiam suas palavras hebraicas.

Na época, todos os judeus israelenses com quem eu conversava despretensiosamente me corrigiam quando eu dizia que a capital de Israel era Tel Aviv. De acordo com minhas aulas de geopolítica, a “comunidade internacional” jamais reconheceu Jerusalém como capital de Israel, e o meu contato com aquelas pessoas me ensinou que a comunidade internacional tampouco convenceu os judeus israelenses de que não era.

Pena eu não ter conversado tanto com árabe-muçulmanos israelenses. Na primeira vez que estive em Jerusalém, a minha entrada na cidade antiga foi pelo portão de Damasco, no quarteirão árabe. Até hoje sou capaz de sentir o aroma dos temperos em tantas bancadas das vielas estreitas, a música em palavras árabes que eu descompreendia, os véus à venda, e as mulheres e seus véus.

Experimentei muitos momentos de solidão, já no Brasil, porque entre as pessoas mais queridas não havia quem conhecesse a perenidade das marcas deixadas por tantos cheiros, cantos, cores e descompreensões...

sábado, maio 13, 2006

Lei Virtuáurea

Me senti prisioneira deste espaço virtual. Preciso de novos ares. Hoje, rompo os grilhões binários de sempre, pra, pelo menos, me repetir em outro lugar.

A digestora morreu. O digerindo fica pra contar histórias. Nasce a metanóica. Sem traumas, sem paranóia.