Me senti prisioneira deste espaço virtual. Preciso de novos ares. Hoje, rompo os grilhões binários de sempre, pra, pelo menos, me repetir em outro lugar.
A digestora morreu. O digerindo fica pra contar histórias. Nasce a metanóica. Sem traumas, sem paranóia.
sábado, maio 13, 2006
Lei Virtuáurea
Me senti prisioneira deste espaço virtual. Preciso de novos ares. Hoje, rompo os grilhões binários de sempre, pra, pelo menos, me repetir em outro lugar.
A digestora morreu. O digerindo fica pra contar histórias. Nasce a metanóica. Sem traumas, sem paranóia.
A digestora morreu. O digerindo fica pra contar histórias. Nasce a metanóica. Sem traumas, sem paranóia.
E disse Jesus, mas até parecia que ele falava grego
Já ouvi e li de vários teólogos, mas não custa repetir: as palavras conversão e arrependimento, usadas pelo Jesus que nos chegou em português, vêm de uma mesma expressão no grego: metánoia, que quer dizer algo como uma reformulação constante de pensamento. (Que ninguém me pergunte se Jesus falava grego, por favor).
O mestre tentou sugerir que víssemos o "mundo" não apenas com outros olhos - porque substituir olho por olho pode significar abrir mão de uma cristalização em prol de outra - mas com olhos sempre diferentes. Olhos abertos para o pasmar com a vida, que se movimenta, isso eu diria. No entanto, fechamos os ouvidos para certos válidos ensinamentos. E, claro, também os olhos.
O mestre tentou sugerir que víssemos o "mundo" não apenas com outros olhos - porque substituir olho por olho pode significar abrir mão de uma cristalização em prol de outra - mas com olhos sempre diferentes. Olhos abertos para o pasmar com a vida, que se movimenta, isso eu diria. No entanto, fechamos os ouvidos para certos válidos ensinamentos. E, claro, também os olhos.
sexta-feira, maio 05, 2006
Cerveja, sete e Sol
A Bela é virginiana, como eu, e tem interesse por astrologia. Na conversa de bar de noite dessas, ela comentou que vez e outra faz mapa astral dos amigos. Ali, na mesa lapiana mesmo, arriscou alguns palpites sobre mim. “Ascendente em aquário, sol na sétima casa. Significa que você se encontra através do outro”.
Cheguei em casa e mandei e-mail informando data, local e hora do meu nascimento, pra Bela tentar o meu mapa. Sem projeções, porque aí não curto. Não por medo ou superstição. Mais mesmo porque não tenho curiosidades a respeito do meu futuro. Aliás, tenho pensado ultimamente que o futuro de qualquer pessoa, enquanto lugar do já realizado, só pode ser enfadonho. Bom é o presente – tempo de travessia! Fora que, concordem ou não, de onde estamos, sempre dá pra ver a margem do futuro. Da margem, a linha do horizonte é muito mais que linha reta. Navegue-se quem puder, sem querer se salvar tanto...
Mas eu falava de Outro. Taí confirmação intrigante: nesse sol na sétima casa sempre acreditei, sem saber que era por causa do sol, do sete, do aquário. Do peixes que entrou provocando qualquer coisa que já não lembro mais o que seja, mas pode ser que eu simplesmente saiba, com nome outro, ou simplesmente sinta, de modo outro. Mas sempre Outro...
Cheguei em casa e mandei e-mail informando data, local e hora do meu nascimento, pra Bela tentar o meu mapa. Sem projeções, porque aí não curto. Não por medo ou superstição. Mais mesmo porque não tenho curiosidades a respeito do meu futuro. Aliás, tenho pensado ultimamente que o futuro de qualquer pessoa, enquanto lugar do já realizado, só pode ser enfadonho. Bom é o presente – tempo de travessia! Fora que, concordem ou não, de onde estamos, sempre dá pra ver a margem do futuro. Da margem, a linha do horizonte é muito mais que linha reta. Navegue-se quem puder, sem querer se salvar tanto...
Mas eu falava de Outro. Taí confirmação intrigante: nesse sol na sétima casa sempre acreditei, sem saber que era por causa do sol, do sete, do aquário. Do peixes que entrou provocando qualquer coisa que já não lembro mais o que seja, mas pode ser que eu simplesmente saiba, com nome outro, ou simplesmente sinta, de modo outro. Mas sempre Outro...
Cerveja, sete e Sol
A Bela é virginiana, como eu, e tem interesse por astrologia. Na conversa de bar de noite dessas, ela comentou que vez e outra faz mapa astral dos amigos. Ali, na mesa lapiana mesmo, arriscou alguns palpites sobre mim. “Ascendente em aquário, sol na sétima casa. Significa que você se encontra através do outro”.
Cheguei em casa e mandei e-mail informando data, local e hora do meu nascimento, pra Bela tentar o meu mapa. Sem projeções, porque aí não curto. Não por medo ou superstição. Mais mesmo porque não tenho curiosidades a respeito do meu futuro. Aliás, tenho pensado ultimamente que o futuro de qualquer pessoa, enquanto lugar do já realizado, só pode ser enfadonho. Bom é o presente – tempo de travessia! Fora que, concordem ou não, de onde estamos, sempre dá pra ver a margem do futuro. Da margem, a linha do horizonte é muito mais que linha reta. Navegue-se quem puder, sem querer se salvar tanto...
Mas eu falava de Outro. Taí confirmação intrigante: nesse sol na sétima casa sempre acreditei, sem saber que era por causa do sol, do sete, do aquário. Do peixes que entrou provocando qualquer coisa que já não lembro mais o que seja, mas pode ser que eu simplesmente saiba, com nome outro, ou simplesmente sinta, de modo outro. Mas sempre Outro...
Cheguei em casa e mandei e-mail informando data, local e hora do meu nascimento, pra Bela tentar o meu mapa. Sem projeções, porque aí não curto. Não por medo ou superstição. Mais mesmo porque não tenho curiosidades a respeito do meu futuro. Aliás, tenho pensado ultimamente que o futuro de qualquer pessoa, enquanto lugar do já realizado, só pode ser enfadonho. Bom é o presente – tempo de travessia! Fora que, concordem ou não, de onde estamos, sempre dá pra ver a margem do futuro. Da margem, a linha do horizonte é muito mais que linha reta. Navegue-se quem puder, sem querer se salvar tanto...
Mas eu falava de Outro. Taí confirmação intrigante: nesse sol na sétima casa sempre acreditei, sem saber que era por causa do sol, do sete, do aquário. Do peixes que entrou provocando qualquer coisa que já não lembro mais o que seja, mas pode ser que eu simplesmente saiba, com nome outro, ou simplesmente sinta, de modo outro. Mas sempre Outro...
quarta-feira, março 08, 2006
Mal adaptada
Drummond escreveu:
“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida...”
Chico Buarque se identificou:
"Quando nasci, veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim.."
E eu me desesperei:
Quando nasci, um anjo sarado
Cafajeste e sarcástico
Mascarado feito Arlequim
Em vez de falar, mandou recado:
Vai, Gisele! ser derrota até o fim
Pior: eu, errada
Nascida tão tarde
Cheguei atrasada na vida
Fiz prova pra vaga de canhoto
E nem assim fui escolhida
“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida...”
Chico Buarque se identificou:
"Quando nasci, veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim.."
E eu me desesperei:
Quando nasci, um anjo sarado
Cafajeste e sarcástico
Mascarado feito Arlequim
Em vez de falar, mandou recado:
Vai, Gisele! ser derrota até o fim
Pior: eu, errada
Nascida tão tarde
Cheguei atrasada na vida
Fiz prova pra vaga de canhoto
E nem assim fui escolhida
Mal adaptada
Drummond escreveu:
“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida...”
Chico Buarque se identificou:
"Quando nasci, veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim.."
E eu me desesperei:
Quando nasci, um anjo sarado
Cafajeste e sarcástico
Mascarado feito Arlequim
Em vez de falar, mandou recado:
Vai, Gisele! ser derrota até o fim
Pior: eu, errada
Nascida tão tarde
Cheguei atrasada na vida
Fiz prova pra vaga de canhoto
E nem assim fui escolhida
“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida...”
Chico Buarque se identificou:
"Quando nasci, veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim.."
E eu me desesperei:
Quando nasci, um anjo sarado
Cafajeste e sarcástico
Mascarado feito Arlequim
Em vez de falar, mandou recado:
Vai, Gisele! ser derrota até o fim
Pior: eu, errada
Nascida tão tarde
Cheguei atrasada na vida
Fiz prova pra vaga de canhoto
E nem assim fui escolhida
domingo, janeiro 22, 2006
Eu, por mim mesma - Tomo sétimo (e último)
"De todos os santos"
Eis que, então, lhe sobreveio a mensagem divina e ela compreendeu que deveria canonizar suas mágoas e transformá-las em milagres. Foi quando pensou nos homens de sua vida e constatou que eram todos santos. Conforme lhe segredara Deus em sonho, a eles devia sua miraculosa alquimia de transmutar lágrima em caminho.
Num papel, improviso de tábua da lei e de salvação, antecipadamente envelhecido por conhecer o peso de suas cruzes, ela compôs uma oração de graças às atuais, antigas e futuras gerações de seus homens santos.
Começou pelos que, devagar em verdes andores, simbolizavam o riso em sua vida: Santo Antonio – semente plantada e cultivada no seio da esperança por um mundo melhor – e São Lucas Mateus das terras calvinistas, doçura esculpida gente. A ambos ela devotara sua máxima ternura.
Em seguida, lembrou-se daqueles piedosos que sempre acudiam-na em momentos de elevadas aflições, bastando que, para isso, apenas fechasse os olhos; sem necessidade de juntar as mãos em reza ou fazer promessas de amor que ela jamais cumpriria. Então, entoou cânticos ao mais belo dos santos: salve São Marcos da Cachoeira, que a instruiu nos maravilhosos pecados da luxúria.
Assim, por igual motivo de prece atendida, ela também deu vivas a São João dos caroços rebeldes e brotos impossíveis, que fez germinar em seu coração mais esperança no porvir. Santo palavreiro que, com belos escritos e saudáveis vexames, reafirmou a missão de amá-la – incondicional, energética e libertariamente.
Das terras latinas de fé revolucionária, vieram-lhe duas imagens. A San Carlos de Puebla dedicou uma prece, pela crença cega que o distante santo nela depositara e pelos pergaminhos de profecia asteca que dele recebera. Por fim, ela derramou lágrimas bentas, emocionada com as providências de seu santo protetor: San Andrés de Medelín.
Escrevia a lista de seus santos homens santos e, pouco a pouco, deixava de ser a mulher de tormentosos prantos e metamorfoseava-se em virgem de luz, purificada após o flagelo. O amor, enfim, já não a castigava.
Sua última provação se deu no instante em que por ser escrito apenas um nome restava: o daquele que lhe impusera doídas penitências. Se ela sentia-se capaz de escrevê-lo? Duvidou com palavras. No entanto, como se de nada mais valessem, porque já desnecessárias, prevaleceu o impulso de seu misericordioso coração, que fez brotar magicamente no papel, em meio às luzes, com letras douradas, o nome que a havia feito cair endemoniada. Assim reescrito, significou alvíssaras. Boas novas do pequeno Santo Padre de Cuba, infalível em grandes milagres de contrariedade.
Teve pouco tempo para contemplar aquelas letras douradas. Ela já não pertencia a este mundo: virou Santa. Santa de Todos os Santos. Que foi crucificada, morta e esquartejada. Desceu ao barraco dos mortos. E ressuscitou ao sétimo tomo, depois de uma eternidade.
Eis que, então, lhe sobreveio a mensagem divina e ela compreendeu que deveria canonizar suas mágoas e transformá-las em milagres. Foi quando pensou nos homens de sua vida e constatou que eram todos santos. Conforme lhe segredara Deus em sonho, a eles devia sua miraculosa alquimia de transmutar lágrima em caminho.
Num papel, improviso de tábua da lei e de salvação, antecipadamente envelhecido por conhecer o peso de suas cruzes, ela compôs uma oração de graças às atuais, antigas e futuras gerações de seus homens santos.
Começou pelos que, devagar em verdes andores, simbolizavam o riso em sua vida: Santo Antonio – semente plantada e cultivada no seio da esperança por um mundo melhor – e São Lucas Mateus das terras calvinistas, doçura esculpida gente. A ambos ela devotara sua máxima ternura.
Em seguida, lembrou-se daqueles piedosos que sempre acudiam-na em momentos de elevadas aflições, bastando que, para isso, apenas fechasse os olhos; sem necessidade de juntar as mãos em reza ou fazer promessas de amor que ela jamais cumpriria. Então, entoou cânticos ao mais belo dos santos: salve São Marcos da Cachoeira, que a instruiu nos maravilhosos pecados da luxúria.
Assim, por igual motivo de prece atendida, ela também deu vivas a São João dos caroços rebeldes e brotos impossíveis, que fez germinar em seu coração mais esperança no porvir. Santo palavreiro que, com belos escritos e saudáveis vexames, reafirmou a missão de amá-la – incondicional, energética e libertariamente.
Das terras latinas de fé revolucionária, vieram-lhe duas imagens. A San Carlos de Puebla dedicou uma prece, pela crença cega que o distante santo nela depositara e pelos pergaminhos de profecia asteca que dele recebera. Por fim, ela derramou lágrimas bentas, emocionada com as providências de seu santo protetor: San Andrés de Medelín.
Escrevia a lista de seus santos homens santos e, pouco a pouco, deixava de ser a mulher de tormentosos prantos e metamorfoseava-se em virgem de luz, purificada após o flagelo. O amor, enfim, já não a castigava.
Sua última provação se deu no instante em que por ser escrito apenas um nome restava: o daquele que lhe impusera doídas penitências. Se ela sentia-se capaz de escrevê-lo? Duvidou com palavras. No entanto, como se de nada mais valessem, porque já desnecessárias, prevaleceu o impulso de seu misericordioso coração, que fez brotar magicamente no papel, em meio às luzes, com letras douradas, o nome que a havia feito cair endemoniada. Assim reescrito, significou alvíssaras. Boas novas do pequeno Santo Padre de Cuba, infalível em grandes milagres de contrariedade.
Teve pouco tempo para contemplar aquelas letras douradas. Ela já não pertencia a este mundo: virou Santa. Santa de Todos os Santos. Que foi crucificada, morta e esquartejada. Desceu ao barraco dos mortos. E ressuscitou ao sétimo tomo, depois de uma eternidade.
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