Drummond escreveu:
“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida...”
Chico Buarque se identificou:
"Quando nasci, veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim.."
E eu me desesperei:
Quando nasci, um anjo sarado
Cafajeste e sarcástico
Mascarado feito Arlequim
Em vez de falar, mandou recado:
Vai, Gisele! ser derrota até o fim
Pior: eu, errada
Nascida tão tarde
Cheguei atrasada na vida
Fiz prova pra vaga de canhoto
E nem assim fui escolhida
quarta-feira, março 08, 2006
Mal adaptada
Drummond escreveu:
“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida...”
Chico Buarque se identificou:
"Quando nasci, veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim.."
E eu me desesperei:
Quando nasci, um anjo sarado
Cafajeste e sarcástico
Mascarado feito Arlequim
Em vez de falar, mandou recado:
Vai, Gisele! ser derrota até o fim
Pior: eu, errada
Nascida tão tarde
Cheguei atrasada na vida
Fiz prova pra vaga de canhoto
E nem assim fui escolhida
“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida...”
Chico Buarque se identificou:
"Quando nasci, veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim.."
E eu me desesperei:
Quando nasci, um anjo sarado
Cafajeste e sarcástico
Mascarado feito Arlequim
Em vez de falar, mandou recado:
Vai, Gisele! ser derrota até o fim
Pior: eu, errada
Nascida tão tarde
Cheguei atrasada na vida
Fiz prova pra vaga de canhoto
E nem assim fui escolhida
domingo, janeiro 22, 2006
Eu, por mim mesma - Tomo sétimo (e último)
"De todos os santos"
Eis que, então, lhe sobreveio a mensagem divina e ela compreendeu que deveria canonizar suas mágoas e transformá-las em milagres. Foi quando pensou nos homens de sua vida e constatou que eram todos santos. Conforme lhe segredara Deus em sonho, a eles devia sua miraculosa alquimia de transmutar lágrima em caminho.
Num papel, improviso de tábua da lei e de salvação, antecipadamente envelhecido por conhecer o peso de suas cruzes, ela compôs uma oração de graças às atuais, antigas e futuras gerações de seus homens santos.
Começou pelos que, devagar em verdes andores, simbolizavam o riso em sua vida: Santo Antonio – semente plantada e cultivada no seio da esperança por um mundo melhor – e São Lucas Mateus das terras calvinistas, doçura esculpida gente. A ambos ela devotara sua máxima ternura.
Em seguida, lembrou-se daqueles piedosos que sempre acudiam-na em momentos de elevadas aflições, bastando que, para isso, apenas fechasse os olhos; sem necessidade de juntar as mãos em reza ou fazer promessas de amor que ela jamais cumpriria. Então, entoou cânticos ao mais belo dos santos: salve São Marcos da Cachoeira, que a instruiu nos maravilhosos pecados da luxúria.
Assim, por igual motivo de prece atendida, ela também deu vivas a São João dos caroços rebeldes e brotos impossíveis, que fez germinar em seu coração mais esperança no porvir. Santo palavreiro que, com belos escritos e saudáveis vexames, reafirmou a missão de amá-la – incondicional, energética e libertariamente.
Das terras latinas de fé revolucionária, vieram-lhe duas imagens. A San Carlos de Puebla dedicou uma prece, pela crença cega que o distante santo nela depositara e pelos pergaminhos de profecia asteca que dele recebera. Por fim, ela derramou lágrimas bentas, emocionada com as providências de seu santo protetor: San Andrés de Medelín.
Escrevia a lista de seus santos homens santos e, pouco a pouco, deixava de ser a mulher de tormentosos prantos e metamorfoseava-se em virgem de luz, purificada após o flagelo. O amor, enfim, já não a castigava.
Sua última provação se deu no instante em que por ser escrito apenas um nome restava: o daquele que lhe impusera doídas penitências. Se ela sentia-se capaz de escrevê-lo? Duvidou com palavras. No entanto, como se de nada mais valessem, porque já desnecessárias, prevaleceu o impulso de seu misericordioso coração, que fez brotar magicamente no papel, em meio às luzes, com letras douradas, o nome que a havia feito cair endemoniada. Assim reescrito, significou alvíssaras. Boas novas do pequeno Santo Padre de Cuba, infalível em grandes milagres de contrariedade.
Teve pouco tempo para contemplar aquelas letras douradas. Ela já não pertencia a este mundo: virou Santa. Santa de Todos os Santos. Que foi crucificada, morta e esquartejada. Desceu ao barraco dos mortos. E ressuscitou ao sétimo tomo, depois de uma eternidade.
Eis que, então, lhe sobreveio a mensagem divina e ela compreendeu que deveria canonizar suas mágoas e transformá-las em milagres. Foi quando pensou nos homens de sua vida e constatou que eram todos santos. Conforme lhe segredara Deus em sonho, a eles devia sua miraculosa alquimia de transmutar lágrima em caminho.
Num papel, improviso de tábua da lei e de salvação, antecipadamente envelhecido por conhecer o peso de suas cruzes, ela compôs uma oração de graças às atuais, antigas e futuras gerações de seus homens santos.
Começou pelos que, devagar em verdes andores, simbolizavam o riso em sua vida: Santo Antonio – semente plantada e cultivada no seio da esperança por um mundo melhor – e São Lucas Mateus das terras calvinistas, doçura esculpida gente. A ambos ela devotara sua máxima ternura.
Em seguida, lembrou-se daqueles piedosos que sempre acudiam-na em momentos de elevadas aflições, bastando que, para isso, apenas fechasse os olhos; sem necessidade de juntar as mãos em reza ou fazer promessas de amor que ela jamais cumpriria. Então, entoou cânticos ao mais belo dos santos: salve São Marcos da Cachoeira, que a instruiu nos maravilhosos pecados da luxúria.
Assim, por igual motivo de prece atendida, ela também deu vivas a São João dos caroços rebeldes e brotos impossíveis, que fez germinar em seu coração mais esperança no porvir. Santo palavreiro que, com belos escritos e saudáveis vexames, reafirmou a missão de amá-la – incondicional, energética e libertariamente.
Das terras latinas de fé revolucionária, vieram-lhe duas imagens. A San Carlos de Puebla dedicou uma prece, pela crença cega que o distante santo nela depositara e pelos pergaminhos de profecia asteca que dele recebera. Por fim, ela derramou lágrimas bentas, emocionada com as providências de seu santo protetor: San Andrés de Medelín.
Escrevia a lista de seus santos homens santos e, pouco a pouco, deixava de ser a mulher de tormentosos prantos e metamorfoseava-se em virgem de luz, purificada após o flagelo. O amor, enfim, já não a castigava.
Sua última provação se deu no instante em que por ser escrito apenas um nome restava: o daquele que lhe impusera doídas penitências. Se ela sentia-se capaz de escrevê-lo? Duvidou com palavras. No entanto, como se de nada mais valessem, porque já desnecessárias, prevaleceu o impulso de seu misericordioso coração, que fez brotar magicamente no papel, em meio às luzes, com letras douradas, o nome que a havia feito cair endemoniada. Assim reescrito, significou alvíssaras. Boas novas do pequeno Santo Padre de Cuba, infalível em grandes milagres de contrariedade.
Teve pouco tempo para contemplar aquelas letras douradas. Ela já não pertencia a este mundo: virou Santa. Santa de Todos os Santos. Que foi crucificada, morta e esquartejada. Desceu ao barraco dos mortos. E ressuscitou ao sétimo tomo, depois de uma eternidade.
Eu, por mim mesma - Tomo sétimo (e último)
"De todos os santos"
Eis que, então, lhe sobreveio a mensagem divina e ela compreendeu que deveria canonizar suas mágoas e transformá-las em milagres. Foi quando pensou nos homens de sua vida e constatou que eram todos santos. Conforme lhe segredara Deus em sonho, a eles devia sua miraculosa alquimia de transmutar lágrima em caminho.
Num papel, improviso de tábua da lei e de salvação, antecipadamente envelhecido por conhecer o peso de suas cruzes, ela compôs uma oração de graças às atuais, antigas e futuras gerações de seus homens santos.
Começou pelos que, devagar em verdes andores, simbolizavam o riso em sua vida: Santo Antonio – semente plantada e cultivada no seio da esperança por um mundo melhor – e São Lucas Mateus das terras calvinistas, doçura esculpida gente. A ambos ela devotara sua máxima ternura.
Em seguida, lembrou-se daqueles piedosos que sempre acudiam-na em momentos de elevadas aflições, bastando que, para isso, apenas fechasse os olhos; sem necessidade de juntar as mãos em reza ou fazer promessas de amor que ela jamais cumpriria. Então, entoou cânticos ao mais belo dos santos: salve São Marcos da Cachoeira, que a instruiu nos maravilhosos pecados da luxúria.
Assim, por igual motivo de prece atendida, ela também deu vivas a São João dos caroços rebeldes e brotos impossíveis, que fez germinar em seu coração mais esperança no porvir. Santo palavreiro que, com belos escritos e saudáveis vexames, reafirmou a missão de amá-la – incondicional, energética e libertariamente.
Das terras latinas de fé revolucionária, vieram-lhe duas imagens. A San Carlos de Puebla dedicou uma prece, pela crença cega que o distante santo nela depositara e pelos pergaminhos de profecia asteca que dele recebera. Por fim, ela derramou lágrimas bentas, emocionada com as providências de seu santo protetor: San Andrés de Medelín.
Escrevia a lista de seus santos homens santos e, pouco a pouco, deixava de ser a mulher de tormentosos prantos e metamorfoseava-se em virgem de luz, purificada após o flagelo. O amor, enfim, já não a castigava.
Sua última provação se deu no instante em que por ser escrito apenas um nome restava: o daquele que lhe impusera doídas penitências. Se ela sentia-se capaz de escrevê-lo? Duvidou com palavras. No entanto, como se de nada mais valessem, porque já desnecessárias, prevaleceu o impulso de seu misericordioso coração, que fez brotar magicamente no papel, em meio às luzes, com letras douradas, o nome que a havia feito cair endemoniada. Assim reescrito, significou alvíssaras. Boas novas do pequeno Santo Padre de Cuba, infalível em grandes milagres de contrariedade.
Teve pouco tempo para contemplar aquelas letras douradas. Ela já não pertencia a este mundo: virou Santa. Santa de Todos os Santos. Que foi crucificada, morta e esquartejada. Desceu ao barraco dos mortos. E ressuscitou ao sétimo tomo, depois de uma eternidade.
Eis que, então, lhe sobreveio a mensagem divina e ela compreendeu que deveria canonizar suas mágoas e transformá-las em milagres. Foi quando pensou nos homens de sua vida e constatou que eram todos santos. Conforme lhe segredara Deus em sonho, a eles devia sua miraculosa alquimia de transmutar lágrima em caminho.
Num papel, improviso de tábua da lei e de salvação, antecipadamente envelhecido por conhecer o peso de suas cruzes, ela compôs uma oração de graças às atuais, antigas e futuras gerações de seus homens santos.
Começou pelos que, devagar em verdes andores, simbolizavam o riso em sua vida: Santo Antonio – semente plantada e cultivada no seio da esperança por um mundo melhor – e São Lucas Mateus das terras calvinistas, doçura esculpida gente. A ambos ela devotara sua máxima ternura.
Em seguida, lembrou-se daqueles piedosos que sempre acudiam-na em momentos de elevadas aflições, bastando que, para isso, apenas fechasse os olhos; sem necessidade de juntar as mãos em reza ou fazer promessas de amor que ela jamais cumpriria. Então, entoou cânticos ao mais belo dos santos: salve São Marcos da Cachoeira, que a instruiu nos maravilhosos pecados da luxúria.
Assim, por igual motivo de prece atendida, ela também deu vivas a São João dos caroços rebeldes e brotos impossíveis, que fez germinar em seu coração mais esperança no porvir. Santo palavreiro que, com belos escritos e saudáveis vexames, reafirmou a missão de amá-la – incondicional, energética e libertariamente.
Das terras latinas de fé revolucionária, vieram-lhe duas imagens. A San Carlos de Puebla dedicou uma prece, pela crença cega que o distante santo nela depositara e pelos pergaminhos de profecia asteca que dele recebera. Por fim, ela derramou lágrimas bentas, emocionada com as providências de seu santo protetor: San Andrés de Medelín.
Escrevia a lista de seus santos homens santos e, pouco a pouco, deixava de ser a mulher de tormentosos prantos e metamorfoseava-se em virgem de luz, purificada após o flagelo. O amor, enfim, já não a castigava.
Sua última provação se deu no instante em que por ser escrito apenas um nome restava: o daquele que lhe impusera doídas penitências. Se ela sentia-se capaz de escrevê-lo? Duvidou com palavras. No entanto, como se de nada mais valessem, porque já desnecessárias, prevaleceu o impulso de seu misericordioso coração, que fez brotar magicamente no papel, em meio às luzes, com letras douradas, o nome que a havia feito cair endemoniada. Assim reescrito, significou alvíssaras. Boas novas do pequeno Santo Padre de Cuba, infalível em grandes milagres de contrariedade.
Teve pouco tempo para contemplar aquelas letras douradas. Ela já não pertencia a este mundo: virou Santa. Santa de Todos os Santos. Que foi crucificada, morta e esquartejada. Desceu ao barraco dos mortos. E ressuscitou ao sétimo tomo, depois de uma eternidade.
terça-feira, janeiro 10, 2006
Eu, por mim mesma - Tomo sexto
"Portariando na conversaria"
Uma hora e meia de conversa, depois de quase dois anos. Cheguei ainda atormentada naquele prédio, daquele bairro onde tudo acontece em poucas quadras, mas logo me sobreveio um interlúdio de luz. Eu senti uma paz de morto. Não, não me refiro a um sentimento pesado, fúnebre. É que, pela primeira vez, pensei como velho. Aliás, com tanta juventude, nunca havia me preocupado com o fato de que velhos e jovens pensam diferente demais, simplesmente porque, em essência, é assim que deve ser. Não apenas porque as épocas passam deixando pra trás gostos antigos que, aos poucos, dão lugar às tantas modernidades que também envelhecerão. É que muda o jeito de sonhar.
Como jovem, já sonhei com ter amores, ter vida linda a dois, ter filhos, ter construção constante de mais vida, de mais que a dois. Pulsante, sorridente, problemática, florida, complicada, mas, acima de tudo, vida. Ter. E ali, de repente, me vi apenas feliz. Por tudo o que eu construí um dia. Não mais ansiosa por ter, mas grata pelo tido. Coisa de velho que vai morrer. Que sabe que o tempo de sonhar já anda curto, e por isso mais agradece. Missão cumprida.
Naquela hora e meia, tudo fez sentido. Eu, que nunca entendi por que a gente ama tanto pra acabar, compreendi finalmente que algumas reações de amor, desencadeadas, explodem no infinito, pra salpicar o universo. Ejaculação de um aparente caos que engravida o cosmo e gera beleza. Porque “a beleza salvará o mundo”.
Amor que fecunda a alma, ramifica e vai longe. Esse, pensava, foi pra longe de mim. Doeu um dia. Mas, naquela noite de Natal, com minha cabeça de velho que vai morrer, aliviada constatei que meu amor foi dar em outros lugares e saiu amando por aí.
Ao “autor da frase” dediquei as maiores merdas dos últimos dois anos, porque as fiz com o intuito (agora sei) de experimentar um eu diferente, pra me livrar daquele eu que o amara. Como vivi... Dediquei a ele os maiores porres e o primeiro baseado. O primeiro orgasmo sem amor. A primeira lágrima pela falta de amor, apesar do orgasmo. Dediquei-lhe tantos dos meus escritos (muitos aqui jazem arquivados). E tanto mais... Dediquei-lhe, por fim, o momento em que me enchi de querer provar que eu podia ser diferente, porque afinal eu já não era mais quem fora. Surpresa constatar que hoje sou tão ele. Ele é tão eu. Nós nos confundimos. Entranhou, apesar de passado. Mal-passado? Bem-passado. Agora passado a limpo. Porque tempo reescreve, a gente relê. Fica feliz quem quer, quem sabe como. Porque, sempre digo, mesmo os maus momentos rendem boas histórias.
Durante aquela conversa de portaria, fez muito sentido amar. Não para se ter algo, mas para engravidar o mundo de beleza. Eu senti muito orgulho porque um dia dediquei tanto amor a um cara tão bacana. Simples assim.
Mas por que, afinal, a ligação para o “autor da frase”, quando dei de cara com o “último absoluto” acompanhado na noite de Natal?
As minhas duas histórias de amores contrariados se entrecruzaram aqui e, por isso, logo me veio uma idéia: escrever seis dos sete tomos previstos, ligar para o “autor da frase”, marcar um encontro e mostrar-lhe os escritos. O sétimo tomo, então, versaria sobre esse imaginado reencontro, as impressões do “autor da frase” e a nossa conversa nesse dia presumivelmente inusitado. Mas a vida tratou de fazer graça com minha miudeza e foi bem mais criativa que eu...
Agora sim entendo o texto profético de Guimarães Rosa, que jamais antes me parecera tão pleno de sentido: "A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação - porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada..."
Depois da noite de Natal, ainda veio o Réveillon. Festa no meio da multidão, música, banho de mar com roupa e tudo. Iemanjá abençoou. Eu agradeci porque ainda vivi pra vê-lo mais feliz, mais bonito, mais bêbado e mais dançante que nunca. Eu, tão jovem, dancei – mais feliz, mais bonita, mais bêbada, mais muito que meu antes com ele. Eu, tão velha moribunda, pensei que, hoje, talvez tivesse medo de estragar esse ele tão melhor que aquele nós.
Daqui a dois dias, faz dois anos que tudo terminou. Daqui a dois dias mais dois, ele completa dois anos mais do que tinha quando tudo terminou. Natal, Réveillon, aniversário de fim, anos de vida. Muitos motivos para homenagens e recomeços. Se amigos? Não digo “apenas” porque é muito. Porque é muito bonito. Porque, pela primeira vez, penso que tenho um motivo para morrer em paz.
Uma hora e meia de conversa, depois de quase dois anos. Cheguei ainda atormentada naquele prédio, daquele bairro onde tudo acontece em poucas quadras, mas logo me sobreveio um interlúdio de luz. Eu senti uma paz de morto. Não, não me refiro a um sentimento pesado, fúnebre. É que, pela primeira vez, pensei como velho. Aliás, com tanta juventude, nunca havia me preocupado com o fato de que velhos e jovens pensam diferente demais, simplesmente porque, em essência, é assim que deve ser. Não apenas porque as épocas passam deixando pra trás gostos antigos que, aos poucos, dão lugar às tantas modernidades que também envelhecerão. É que muda o jeito de sonhar.
Como jovem, já sonhei com ter amores, ter vida linda a dois, ter filhos, ter construção constante de mais vida, de mais que a dois. Pulsante, sorridente, problemática, florida, complicada, mas, acima de tudo, vida. Ter. E ali, de repente, me vi apenas feliz. Por tudo o que eu construí um dia. Não mais ansiosa por ter, mas grata pelo tido. Coisa de velho que vai morrer. Que sabe que o tempo de sonhar já anda curto, e por isso mais agradece. Missão cumprida.
Naquela hora e meia, tudo fez sentido. Eu, que nunca entendi por que a gente ama tanto pra acabar, compreendi finalmente que algumas reações de amor, desencadeadas, explodem no infinito, pra salpicar o universo. Ejaculação de um aparente caos que engravida o cosmo e gera beleza. Porque “a beleza salvará o mundo”.
Amor que fecunda a alma, ramifica e vai longe. Esse, pensava, foi pra longe de mim. Doeu um dia. Mas, naquela noite de Natal, com minha cabeça de velho que vai morrer, aliviada constatei que meu amor foi dar em outros lugares e saiu amando por aí.
Ao “autor da frase” dediquei as maiores merdas dos últimos dois anos, porque as fiz com o intuito (agora sei) de experimentar um eu diferente, pra me livrar daquele eu que o amara. Como vivi... Dediquei a ele os maiores porres e o primeiro baseado. O primeiro orgasmo sem amor. A primeira lágrima pela falta de amor, apesar do orgasmo. Dediquei-lhe tantos dos meus escritos (muitos aqui jazem arquivados). E tanto mais... Dediquei-lhe, por fim, o momento em que me enchi de querer provar que eu podia ser diferente, porque afinal eu já não era mais quem fora. Surpresa constatar que hoje sou tão ele. Ele é tão eu. Nós nos confundimos. Entranhou, apesar de passado. Mal-passado? Bem-passado. Agora passado a limpo. Porque tempo reescreve, a gente relê. Fica feliz quem quer, quem sabe como. Porque, sempre digo, mesmo os maus momentos rendem boas histórias.
Durante aquela conversa de portaria, fez muito sentido amar. Não para se ter algo, mas para engravidar o mundo de beleza. Eu senti muito orgulho porque um dia dediquei tanto amor a um cara tão bacana. Simples assim.
Mas por que, afinal, a ligação para o “autor da frase”, quando dei de cara com o “último absoluto” acompanhado na noite de Natal?
As minhas duas histórias de amores contrariados se entrecruzaram aqui e, por isso, logo me veio uma idéia: escrever seis dos sete tomos previstos, ligar para o “autor da frase”, marcar um encontro e mostrar-lhe os escritos. O sétimo tomo, então, versaria sobre esse imaginado reencontro, as impressões do “autor da frase” e a nossa conversa nesse dia presumivelmente inusitado. Mas a vida tratou de fazer graça com minha miudeza e foi bem mais criativa que eu...
Agora sim entendo o texto profético de Guimarães Rosa, que jamais antes me parecera tão pleno de sentido: "A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação - porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada..."
Depois da noite de Natal, ainda veio o Réveillon. Festa no meio da multidão, música, banho de mar com roupa e tudo. Iemanjá abençoou. Eu agradeci porque ainda vivi pra vê-lo mais feliz, mais bonito, mais bêbado e mais dançante que nunca. Eu, tão jovem, dancei – mais feliz, mais bonita, mais bêbada, mais muito que meu antes com ele. Eu, tão velha moribunda, pensei que, hoje, talvez tivesse medo de estragar esse ele tão melhor que aquele nós.
Daqui a dois dias, faz dois anos que tudo terminou. Daqui a dois dias mais dois, ele completa dois anos mais do que tinha quando tudo terminou. Natal, Réveillon, aniversário de fim, anos de vida. Muitos motivos para homenagens e recomeços. Se amigos? Não digo “apenas” porque é muito. Porque é muito bonito. Porque, pela primeira vez, penso que tenho um motivo para morrer em paz.
Eu, por mim mesma - Tomo sexto
"Portariando na conversaria"
Uma hora e meia de conversa, depois de quase dois anos. Cheguei ainda atormentada naquele prédio, daquele bairro onde tudo acontece em poucas quadras, mas logo me sobreveio um interlúdio de luz. Eu senti uma paz de morto. Não, não me refiro a um sentimento pesado, fúnebre. É que, pela primeira vez, pensei como velho. Aliás, com tanta juventude, nunca havia me preocupado com o fato de que velhos e jovens pensam diferente demais, simplesmente porque, em essência, é assim que deve ser. Não apenas porque as épocas passam deixando pra trás gostos antigos que, aos poucos, dão lugar às tantas modernidades que também envelhecerão. É que muda o jeito de sonhar.
Como jovem, já sonhei com ter amores, ter vida linda a dois, ter filhos, ter construção constante de mais vida, de mais que a dois. Pulsante, sorridente, problemática, florida, complicada, mas, acima de tudo, vida. Ter. E ali, de repente, me vi apenas feliz. Por tudo o que eu construí um dia. Não mais ansiosa por ter, mas grata pelo tido. Coisa de velho que vai morrer. Que sabe que o tempo de sonhar já anda curto, e por isso mais agradece. Missão cumprida.
Naquela hora e meia, tudo fez sentido. Eu, que nunca entendi por que a gente ama tanto pra acabar, compreendi finalmente que algumas reações de amor, desencadeadas, explodem no infinito, pra salpicar o universo. Ejaculação de um aparente caos que engravida o cosmo e gera beleza. Porque “a beleza salvará o mundo”.
Amor que fecunda a alma, ramifica e vai longe. Esse, pensava, foi pra longe de mim. Doeu um dia. Mas, naquela noite de Natal, com minha cabeça de velho que vai morrer, aliviada constatei que meu amor foi dar em outros lugares e saiu amando por aí.
Ao “autor da frase” dediquei as maiores merdas dos últimos dois anos, porque as fiz com o intuito (agora sei) de experimentar um eu diferente, pra me livrar daquele eu que o amara. Como vivi... Dediquei a ele os maiores porres e o primeiro baseado. O primeiro orgasmo sem amor. A primeira lágrima pela falta de amor, apesar do orgasmo. Dediquei-lhe tantos dos meus escritos (muitos aqui jazem arquivados). E tanto mais... Dediquei-lhe, por fim, o momento em que me enchi de querer provar que eu podia ser diferente, porque afinal eu já não era mais quem fora. Surpresa constatar que hoje sou tão ele. Ele é tão eu. Nós nos confundimos. Entranhou, apesar de passado. Mal-passado? Bem-passado. Agora passado a limpo. Porque tempo reescreve, a gente relê. Fica feliz quem quer, quem sabe como. Porque, sempre digo, mesmo os maus momentos rendem boas histórias.
Durante aquela conversa de portaria, fez muito sentido amar. Não para se ter algo, mas para engravidar o mundo de beleza. Eu senti muito orgulho porque um dia dediquei tanto amor a um cara tão bacana. Simples assim.
Mas por que, afinal, a ligação para o “autor da frase”, quando dei de cara com o “último absoluto” acompanhado na noite de Natal?
As minhas duas histórias de amores contrariados se entrecruzaram aqui e, por isso, logo me veio uma idéia: escrever seis dos sete tomos previstos, ligar para o “autor da frase”, marcar um encontro e mostrar-lhe os escritos. O sétimo tomo, então, versaria sobre esse imaginado reencontro, as impressões do “autor da frase” e a nossa conversa nesse dia presumivelmente inusitado. Mas a vida tratou de fazer graça com minha miudeza e foi bem mais criativa que eu...
Agora sim entendo o texto profético de Guimarães Rosa, que jamais antes me parecera tão pleno de sentido: "A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação - porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada..."
Depois da noite de Natal, ainda veio o Réveillon. Festa no meio da multidão, música, banho de mar com roupa e tudo. Iemanjá abençoou. Eu agradeci porque ainda vivi pra vê-lo mais feliz, mais bonito, mais bêbado e mais dançante que nunca. Eu, tão jovem, dancei – mais feliz, mais bonita, mais bêbada, mais muito que meu antes com ele. Eu, tão velha moribunda, pensei que, hoje, talvez tivesse medo de estragar esse ele tão melhor que aquele nós.
Daqui a dois dias, faz dois anos que tudo terminou. Daqui a dois dias mais dois, ele completa dois anos mais do que tinha quando tudo terminou. Natal, Réveillon, aniversário de fim, anos de vida. Muitos motivos para homenagens e recomeços. Se amigos? Não digo “apenas” porque é muito. Porque é muito bonito. Porque, pela primeira vez, penso que tenho um motivo para morrer em paz.
Uma hora e meia de conversa, depois de quase dois anos. Cheguei ainda atormentada naquele prédio, daquele bairro onde tudo acontece em poucas quadras, mas logo me sobreveio um interlúdio de luz. Eu senti uma paz de morto. Não, não me refiro a um sentimento pesado, fúnebre. É que, pela primeira vez, pensei como velho. Aliás, com tanta juventude, nunca havia me preocupado com o fato de que velhos e jovens pensam diferente demais, simplesmente porque, em essência, é assim que deve ser. Não apenas porque as épocas passam deixando pra trás gostos antigos que, aos poucos, dão lugar às tantas modernidades que também envelhecerão. É que muda o jeito de sonhar.
Como jovem, já sonhei com ter amores, ter vida linda a dois, ter filhos, ter construção constante de mais vida, de mais que a dois. Pulsante, sorridente, problemática, florida, complicada, mas, acima de tudo, vida. Ter. E ali, de repente, me vi apenas feliz. Por tudo o que eu construí um dia. Não mais ansiosa por ter, mas grata pelo tido. Coisa de velho que vai morrer. Que sabe que o tempo de sonhar já anda curto, e por isso mais agradece. Missão cumprida.
Naquela hora e meia, tudo fez sentido. Eu, que nunca entendi por que a gente ama tanto pra acabar, compreendi finalmente que algumas reações de amor, desencadeadas, explodem no infinito, pra salpicar o universo. Ejaculação de um aparente caos que engravida o cosmo e gera beleza. Porque “a beleza salvará o mundo”.
Amor que fecunda a alma, ramifica e vai longe. Esse, pensava, foi pra longe de mim. Doeu um dia. Mas, naquela noite de Natal, com minha cabeça de velho que vai morrer, aliviada constatei que meu amor foi dar em outros lugares e saiu amando por aí.
Ao “autor da frase” dediquei as maiores merdas dos últimos dois anos, porque as fiz com o intuito (agora sei) de experimentar um eu diferente, pra me livrar daquele eu que o amara. Como vivi... Dediquei a ele os maiores porres e o primeiro baseado. O primeiro orgasmo sem amor. A primeira lágrima pela falta de amor, apesar do orgasmo. Dediquei-lhe tantos dos meus escritos (muitos aqui jazem arquivados). E tanto mais... Dediquei-lhe, por fim, o momento em que me enchi de querer provar que eu podia ser diferente, porque afinal eu já não era mais quem fora. Surpresa constatar que hoje sou tão ele. Ele é tão eu. Nós nos confundimos. Entranhou, apesar de passado. Mal-passado? Bem-passado. Agora passado a limpo. Porque tempo reescreve, a gente relê. Fica feliz quem quer, quem sabe como. Porque, sempre digo, mesmo os maus momentos rendem boas histórias.
Durante aquela conversa de portaria, fez muito sentido amar. Não para se ter algo, mas para engravidar o mundo de beleza. Eu senti muito orgulho porque um dia dediquei tanto amor a um cara tão bacana. Simples assim.
Mas por que, afinal, a ligação para o “autor da frase”, quando dei de cara com o “último absoluto” acompanhado na noite de Natal?
As minhas duas histórias de amores contrariados se entrecruzaram aqui e, por isso, logo me veio uma idéia: escrever seis dos sete tomos previstos, ligar para o “autor da frase”, marcar um encontro e mostrar-lhe os escritos. O sétimo tomo, então, versaria sobre esse imaginado reencontro, as impressões do “autor da frase” e a nossa conversa nesse dia presumivelmente inusitado. Mas a vida tratou de fazer graça com minha miudeza e foi bem mais criativa que eu...
Agora sim entendo o texto profético de Guimarães Rosa, que jamais antes me parecera tão pleno de sentido: "A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação - porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada..."
Depois da noite de Natal, ainda veio o Réveillon. Festa no meio da multidão, música, banho de mar com roupa e tudo. Iemanjá abençoou. Eu agradeci porque ainda vivi pra vê-lo mais feliz, mais bonito, mais bêbado e mais dançante que nunca. Eu, tão jovem, dancei – mais feliz, mais bonita, mais bêbada, mais muito que meu antes com ele. Eu, tão velha moribunda, pensei que, hoje, talvez tivesse medo de estragar esse ele tão melhor que aquele nós.
Daqui a dois dias, faz dois anos que tudo terminou. Daqui a dois dias mais dois, ele completa dois anos mais do que tinha quando tudo terminou. Natal, Réveillon, aniversário de fim, anos de vida. Muitos motivos para homenagens e recomeços. Se amigos? Não digo “apenas” porque é muito. Porque é muito bonito. Porque, pela primeira vez, penso que tenho um motivo para morrer em paz.
quinta-feira, dezembro 29, 2005
Eu, por mim mesma - Tomo quinto, parte dois
"Passada a limpo em pouca quadras"
música: Goodnight Goodnight, do Hot Hot Heat
“So goodnight, goodnight.
You're embarassing me,
you're embarassing you.
So goodnight, goodnight.
Walk away from the door,
walk away from my life.”
Meu amigo retorna, senta e não faz comentários. O “último absoluto” vem logo em seguida, com a “companhia”. Passam por nós, ambos cumprimentam minha amiga, que segue com seu workshop de caixinhas, pois, ali, ela é a mestra. Ele, antes de ir para a sua mesa, mostra que é mestre na arte de pronunciar o maior número de frases desajeitadas seqüenciais no menor tempo possível.
Quando ele vira as costas, deixa um silêncio que, apesar de perturbador, não me dissuade da firme resolução de não quebrá-lo. Por fim, alguém faz isso por mim e eu, então, me sinto livre pra perguntar se o meu amigo acha que os dois estão juntos. Meu amigo, que outrora negara essa possibilidade com veemência, agora balança a cabeça afirmativamente.
Sorte que eu ainda tenho caixas para montar com as micas dobradas, porque, do contrário, não saberia para onde olhar, nem o que fazer com as mãos. Mas tanta arte-terapia não é suficiente para afastar os pensamentos todos que me vêm em velocidade esquizofrênica. Efeitos desta noite de Natal cheia de coincidências – ou milagres, ou sincronicidades. Sim, porque este bar é dos meus favoritos, mas nunca é aqui que tomo a cerveja dos domingos. Tampouco vivo a carregar uma sacola de lembranças e um coração apertado nas minhas noites natalinas – dominicais e chuvosas ou não.
O casal anuncia que precisa ir embora em 10 minutos. A amiga que deveria receber a sacola, a esta altura, já avisou que não vem. Imediatamente, tento falar, mais uma vez, com a amiga que já não ganhará DVDs piratas do Chico. Sem sucesso.
Eu, então, pego meu celular, me levanto, saio do bar e ligo para o mesmo número que liguei, pela primeira vez em quase dois anos, há poucos dias atrás. Diferentemente de antes, agora obtenho como resposta o alô tão familiar. É ele, meu ex-namorado. O “autor da frase célebre”, o meu “último relacionamento duradouro que deixou de durar”. O homem que mais amei nessa minha vida, a qual ainda há de preencher-se de tantos anos e amores.
As palavras trocadas são, mais que cordiais, engraçadas, descontraídas. Ele está em sua casa, distante dali apenas duas quadras, onde acontece uma confraternização com os amigos que tão bem conheço de outras confraternizações. Apesar do papel de anfitrião da noite, ele diz que se encontrará comigo em 40 minutos e levará alguns de seus convidados que não vejo há dois anos.
Volto para a mesa, o casal pergunta com quem eu falava. Eu respondo e, pela segunda vez na noite, recebo olhares incrédulos. Peço que esperem até que ele chegue, mas isso não é mesmo possível. Da minha mente, incapaz de assimilar os tantos pensamentos esquizofrênicos, brota uma idéia infeliz que dribla facilmente minha autocensura fragilizada e conta com os favores da minha impulsividade.
Caminho até o outro casal, composto pelo “último absoluto” e sua companhia, aviso que os que me acompanham partirão em poucos minutos e proponho, como espero outras pessoas, que eles se mudem para a minha mesa, pra que os lugares sejam marcados e os amigos que aguardo não tenham que enfrentar a fila para entrar. Ambos fazem cara de pinheiro seco e, como para o meu convite descabido parece não existir resposta sensata, eles aceitam.
Vou ao banheiro, me olho no espelho e tento calcular o tamanho do estrago causado pela dormência do meu senso de ridículo. Nessa de me olhar no espelho, vejo que meu dente da frente está verde, sujo de salsa do caldinho de feijão que tomei, e meu cabelo continua brilhando, com resquícios da purpurina que uma Drag Queen jogou em mim na festa de sexta-feira. Concluo, então, que o vexame foi maior do que eu imaginava.
É um absurdo permanecer assim. Volto à minha mesa e decido ir-me com o casal de amigos, para me encontrar com os demais em qualquer lugar que não este. Despeço-me do outro casal e, com um sorrisinho amarelo (não mais verde de salsa), comento que minha proposta foi uma idéia de jerico, afinal eles é que perderiam a mesa. Os dois pinheiros secos concordam – aliviados, provavelmente.
Com a mudança de planos e horários, meu destino é a casa do ex. Apesar das tantas pessoas queridas que celebram o Natal no apartamento dele, não subo para vê-las, porque não pretendo demorar. O abraço é forte, como tem que ser. A primeira coisa que digo é que venho em busca de um depoimento, já que estou escrevendo um livro cujo título é "Alta Fidelidade” *. Ele dá uma gargalhada e confessa que, neste Natal, também sentiu vontade de buscar depoimentos assim, inclusive o meu.
A conversa de portaria dura uma hora e meia. Do tanto que falamos, sobra agora o que contar...
Quando, por fim, nos despedimos, o relógio me mostra que falta pouco para uma da manhã. Ligo para a minha amiga que deveria ter recebido a sacola e, como ela trabalha no mesmo lugar que o “último absoluto” e a “companhia”, pergunto se o que vi horas antes, vi de fato. Ela confirma que ouviu rumores há alguns dias.
O último telefonema da noite, transformada em moça madrugada, é para minha amiga que não mais ganhará DVDs do Chico. Ela também mora por perto, a algumas quadras, e é lá que descansarei até o Natal passar de vez.
Não dormimos até que, com Chico Buarque tocando ao fundo, eu a coloque à par dos detalhes da minha crônica natalina. Talvez pela forma como conto e como vejo tudo agora, ela ri em diversos momentos. Certamente, os acontecimentos de há pouco estão longe de constituírem uma tragédia. A amiga sabiamente conclui que o destino, neste Natal, me presenteou com concisão geográfica. Minha vida passada a limpo em pouca quadras...
Já deitada na cama, insone mas tranqüila, certa de que o dia qualquer hora amanhece, penso que, mais que uma dor pra chorar, tenho uma história pra escrever.
E a história do “último absoluto” acaba assim, da maneira mais consoladora pra quem amou: sem mais o que dizer.
**************
*em menção ao filme de mesmo nome, em que o personagem principal, vivendo uma separação, vai atrás de cinco ex-namoradas para descobrir algo sobre si próprio.
música: Goodnight Goodnight, do Hot Hot Heat
“So goodnight, goodnight.
You're embarassing me,
you're embarassing you.
So goodnight, goodnight.
Walk away from the door,
walk away from my life.”
Meu amigo retorna, senta e não faz comentários. O “último absoluto” vem logo em seguida, com a “companhia”. Passam por nós, ambos cumprimentam minha amiga, que segue com seu workshop de caixinhas, pois, ali, ela é a mestra. Ele, antes de ir para a sua mesa, mostra que é mestre na arte de pronunciar o maior número de frases desajeitadas seqüenciais no menor tempo possível.
Quando ele vira as costas, deixa um silêncio que, apesar de perturbador, não me dissuade da firme resolução de não quebrá-lo. Por fim, alguém faz isso por mim e eu, então, me sinto livre pra perguntar se o meu amigo acha que os dois estão juntos. Meu amigo, que outrora negara essa possibilidade com veemência, agora balança a cabeça afirmativamente.
Sorte que eu ainda tenho caixas para montar com as micas dobradas, porque, do contrário, não saberia para onde olhar, nem o que fazer com as mãos. Mas tanta arte-terapia não é suficiente para afastar os pensamentos todos que me vêm em velocidade esquizofrênica. Efeitos desta noite de Natal cheia de coincidências – ou milagres, ou sincronicidades. Sim, porque este bar é dos meus favoritos, mas nunca é aqui que tomo a cerveja dos domingos. Tampouco vivo a carregar uma sacola de lembranças e um coração apertado nas minhas noites natalinas – dominicais e chuvosas ou não.
O casal anuncia que precisa ir embora em 10 minutos. A amiga que deveria receber a sacola, a esta altura, já avisou que não vem. Imediatamente, tento falar, mais uma vez, com a amiga que já não ganhará DVDs piratas do Chico. Sem sucesso.
Eu, então, pego meu celular, me levanto, saio do bar e ligo para o mesmo número que liguei, pela primeira vez em quase dois anos, há poucos dias atrás. Diferentemente de antes, agora obtenho como resposta o alô tão familiar. É ele, meu ex-namorado. O “autor da frase célebre”, o meu “último relacionamento duradouro que deixou de durar”. O homem que mais amei nessa minha vida, a qual ainda há de preencher-se de tantos anos e amores.
As palavras trocadas são, mais que cordiais, engraçadas, descontraídas. Ele está em sua casa, distante dali apenas duas quadras, onde acontece uma confraternização com os amigos que tão bem conheço de outras confraternizações. Apesar do papel de anfitrião da noite, ele diz que se encontrará comigo em 40 minutos e levará alguns de seus convidados que não vejo há dois anos.
Volto para a mesa, o casal pergunta com quem eu falava. Eu respondo e, pela segunda vez na noite, recebo olhares incrédulos. Peço que esperem até que ele chegue, mas isso não é mesmo possível. Da minha mente, incapaz de assimilar os tantos pensamentos esquizofrênicos, brota uma idéia infeliz que dribla facilmente minha autocensura fragilizada e conta com os favores da minha impulsividade.
Caminho até o outro casal, composto pelo “último absoluto” e sua companhia, aviso que os que me acompanham partirão em poucos minutos e proponho, como espero outras pessoas, que eles se mudem para a minha mesa, pra que os lugares sejam marcados e os amigos que aguardo não tenham que enfrentar a fila para entrar. Ambos fazem cara de pinheiro seco e, como para o meu convite descabido parece não existir resposta sensata, eles aceitam.
Vou ao banheiro, me olho no espelho e tento calcular o tamanho do estrago causado pela dormência do meu senso de ridículo. Nessa de me olhar no espelho, vejo que meu dente da frente está verde, sujo de salsa do caldinho de feijão que tomei, e meu cabelo continua brilhando, com resquícios da purpurina que uma Drag Queen jogou em mim na festa de sexta-feira. Concluo, então, que o vexame foi maior do que eu imaginava.
É um absurdo permanecer assim. Volto à minha mesa e decido ir-me com o casal de amigos, para me encontrar com os demais em qualquer lugar que não este. Despeço-me do outro casal e, com um sorrisinho amarelo (não mais verde de salsa), comento que minha proposta foi uma idéia de jerico, afinal eles é que perderiam a mesa. Os dois pinheiros secos concordam – aliviados, provavelmente.
Com a mudança de planos e horários, meu destino é a casa do ex. Apesar das tantas pessoas queridas que celebram o Natal no apartamento dele, não subo para vê-las, porque não pretendo demorar. O abraço é forte, como tem que ser. A primeira coisa que digo é que venho em busca de um depoimento, já que estou escrevendo um livro cujo título é "Alta Fidelidade” *. Ele dá uma gargalhada e confessa que, neste Natal, também sentiu vontade de buscar depoimentos assim, inclusive o meu.
A conversa de portaria dura uma hora e meia. Do tanto que falamos, sobra agora o que contar...
Quando, por fim, nos despedimos, o relógio me mostra que falta pouco para uma da manhã. Ligo para a minha amiga que deveria ter recebido a sacola e, como ela trabalha no mesmo lugar que o “último absoluto” e a “companhia”, pergunto se o que vi horas antes, vi de fato. Ela confirma que ouviu rumores há alguns dias.
O último telefonema da noite, transformada em moça madrugada, é para minha amiga que não mais ganhará DVDs do Chico. Ela também mora por perto, a algumas quadras, e é lá que descansarei até o Natal passar de vez.
Não dormimos até que, com Chico Buarque tocando ao fundo, eu a coloque à par dos detalhes da minha crônica natalina. Talvez pela forma como conto e como vejo tudo agora, ela ri em diversos momentos. Certamente, os acontecimentos de há pouco estão longe de constituírem uma tragédia. A amiga sabiamente conclui que o destino, neste Natal, me presenteou com concisão geográfica. Minha vida passada a limpo em pouca quadras...
Já deitada na cama, insone mas tranqüila, certa de que o dia qualquer hora amanhece, penso que, mais que uma dor pra chorar, tenho uma história pra escrever.
E a história do “último absoluto” acaba assim, da maneira mais consoladora pra quem amou: sem mais o que dizer.
**************
*em menção ao filme de mesmo nome, em que o personagem principal, vivendo uma separação, vai atrás de cinco ex-namoradas para descobrir algo sobre si próprio.
Eu, por mim mesma - Tomo quinto, parte dois
"Passada a limpo em pouca quadras"
música: Goodnight Goodnight, do Hot Hot Heat
“So goodnight, goodnight.
You're embarassing me,
you're embarassing you.
So goodnight, goodnight.
Walk away from the door,
walk away from my life.”
Meu amigo retorna, senta e não faz comentários. O “último absoluto” vem logo em seguida, com a “companhia”. Passam por nós, ambos cumprimentam minha amiga, que segue com seu workshop de caixinhas, pois, ali, ela é a mestra. Ele, antes de ir para a sua mesa, mostra que é mestre na arte de pronunciar o maior número de frases desajeitadas seqüenciais no menor tempo possível.
Quando ele vira as costas, deixa um silêncio que, apesar de perturbador, não me dissuade da firme resolução de não quebrá-lo. Por fim, alguém faz isso por mim e eu, então, me sinto livre pra perguntar se o meu amigo acha que os dois estão juntos. Meu amigo, que outrora negara essa possibilidade com veemência, agora balança a cabeça afirmativamente.
Sorte que eu ainda tenho caixas para montar com as micas dobradas, porque, do contrário, não saberia para onde olhar, nem o que fazer com as mãos. Mas tanta arte-terapia não é suficiente para afastar os pensamentos todos que me vêm em velocidade esquizofrênica. Efeitos desta noite de Natal cheia de coincidências – ou milagres, ou sincronicidades. Sim, porque este bar é dos meus favoritos, mas nunca é aqui que tomo a cerveja dos domingos. Tampouco vivo a carregar uma sacola de lembranças e um coração apertado nas minhas noites natalinas – dominicais e chuvosas ou não.
O casal anuncia que precisa ir embora em 10 minutos. A amiga que deveria receber a sacola, a esta altura, já avisou que não vem. Imediatamente, tento falar, mais uma vez, com a amiga que já não ganhará DVDs piratas do Chico. Sem sucesso.
Eu, então, pego meu celular, me levanto, saio do bar e ligo para o mesmo número que liguei, pela primeira vez em quase dois anos, há poucos dias atrás. Diferentemente de antes, agora obtenho como resposta o alô tão familiar. É ele, meu ex-namorado. O “autor da frase célebre”, o meu “último relacionamento duradouro que deixou de durar”. O homem que mais amei nessa minha vida, a qual ainda há de preencher-se de tantos anos e amores.
As palavras trocadas são, mais que cordiais, engraçadas, descontraídas. Ele está em sua casa, distante dali apenas duas quadras, onde acontece uma confraternização com os amigos que tão bem conheço de outras confraternizações. Apesar do papel de anfitrião da noite, ele diz que se encontrará comigo em 40 minutos e levará alguns de seus convidados que não vejo há dois anos.
Volto para a mesa, o casal pergunta com quem eu falava. Eu respondo e, pela segunda vez na noite, recebo olhares incrédulos. Peço que esperem até que ele chegue, mas isso não é mesmo possível. Da minha mente, incapaz de assimilar os tantos pensamentos esquizofrênicos, brota uma idéia infeliz que dribla facilmente minha autocensura fragilizada e conta com os favores da minha impulsividade.
Caminho até o outro casal, composto pelo “último absoluto” e sua companhia, aviso que os que me acompanham partirão em poucos minutos e proponho, como espero outras pessoas, que eles se mudem para a minha mesa, pra que os lugares sejam marcados e os amigos que aguardo não tenham que enfrentar a fila para entrar. Ambos fazem cara de pinheiro seco e, como para o meu convite descabido parece não existir resposta sensata, eles aceitam.
Vou ao banheiro, me olho no espelho e tento calcular o tamanho do estrago causado pela dormência do meu senso de ridículo. Nessa de me olhar no espelho, vejo que meu dente da frente está verde, sujo de salsa do caldinho de feijão que tomei, e meu cabelo continua brilhando, com resquícios da purpurina que uma Drag Queen jogou em mim na festa de sexta-feira. Concluo, então, que o vexame foi maior do que eu imaginava.
É um absurdo permanecer assim. Volto à minha mesa e decido ir-me com o casal de amigos, para me encontrar com os demais em qualquer lugar que não este. Despeço-me do outro casal e, com um sorrisinho amarelo (não mais verde de salsa), comento que minha proposta foi uma idéia de jerico, afinal eles é que perderiam a mesa. Os dois pinheiros secos concordam – aliviados, provavelmente.
Com a mudança de planos e horários, meu destino é a casa do ex. Apesar das tantas pessoas queridas que celebram o Natal no apartamento dele, não subo para vê-las, porque não pretendo demorar. O abraço é forte, como tem que ser. A primeira coisa que digo é que venho em busca de um depoimento, já que estou escrevendo um livro cujo título é "Alta Fidelidade” *. Ele dá uma gargalhada e confessa que, neste Natal, também sentiu vontade de buscar depoimentos assim, inclusive o meu.
A conversa de portaria dura uma hora e meia. Do tanto que falamos, sobra agora o que contar...
Quando, por fim, nos despedimos, o relógio me mostra que falta pouco para uma da manhã. Ligo para a minha amiga que deveria ter recebido a sacola e, como ela trabalha no mesmo lugar que o “último absoluto” e a “companhia”, pergunto se o que vi horas antes, vi de fato. Ela confirma que ouviu rumores há alguns dias.
O último telefonema da noite, transformada em moça madrugada, é para minha amiga que não mais ganhará DVDs do Chico. Ela também mora por perto, a algumas quadras, e é lá que descansarei até o Natal passar de vez.
Não dormimos até que, com Chico Buarque tocando ao fundo, eu a coloque à par dos detalhes da minha crônica natalina. Talvez pela forma como conto e como vejo tudo agora, ela ri em diversos momentos. Certamente, os acontecimentos de há pouco estão longe de constituírem uma tragédia. A amiga sabiamente conclui que o destino, neste Natal, me presenteou com concisão geográfica. Minha vida passada a limpo em pouca quadras...
Já deitada na cama, insone mas tranqüila, certa de que o dia qualquer hora amanhece, penso que, mais que uma dor pra chorar, tenho uma história pra escrever.
E a história do “último absoluto” acaba assim, da maneira mais consoladora pra quem amou: sem mais o que dizer.
**************
*em menção ao filme de mesmo nome, em que o personagem principal, vivendo uma separação, vai atrás de cinco ex-namoradas para descobrir algo sobre si próprio.
música: Goodnight Goodnight, do Hot Hot Heat
“So goodnight, goodnight.
You're embarassing me,
you're embarassing you.
So goodnight, goodnight.
Walk away from the door,
walk away from my life.”
Meu amigo retorna, senta e não faz comentários. O “último absoluto” vem logo em seguida, com a “companhia”. Passam por nós, ambos cumprimentam minha amiga, que segue com seu workshop de caixinhas, pois, ali, ela é a mestra. Ele, antes de ir para a sua mesa, mostra que é mestre na arte de pronunciar o maior número de frases desajeitadas seqüenciais no menor tempo possível.
Quando ele vira as costas, deixa um silêncio que, apesar de perturbador, não me dissuade da firme resolução de não quebrá-lo. Por fim, alguém faz isso por mim e eu, então, me sinto livre pra perguntar se o meu amigo acha que os dois estão juntos. Meu amigo, que outrora negara essa possibilidade com veemência, agora balança a cabeça afirmativamente.
Sorte que eu ainda tenho caixas para montar com as micas dobradas, porque, do contrário, não saberia para onde olhar, nem o que fazer com as mãos. Mas tanta arte-terapia não é suficiente para afastar os pensamentos todos que me vêm em velocidade esquizofrênica. Efeitos desta noite de Natal cheia de coincidências – ou milagres, ou sincronicidades. Sim, porque este bar é dos meus favoritos, mas nunca é aqui que tomo a cerveja dos domingos. Tampouco vivo a carregar uma sacola de lembranças e um coração apertado nas minhas noites natalinas – dominicais e chuvosas ou não.
O casal anuncia que precisa ir embora em 10 minutos. A amiga que deveria receber a sacola, a esta altura, já avisou que não vem. Imediatamente, tento falar, mais uma vez, com a amiga que já não ganhará DVDs piratas do Chico. Sem sucesso.
Eu, então, pego meu celular, me levanto, saio do bar e ligo para o mesmo número que liguei, pela primeira vez em quase dois anos, há poucos dias atrás. Diferentemente de antes, agora obtenho como resposta o alô tão familiar. É ele, meu ex-namorado. O “autor da frase célebre”, o meu “último relacionamento duradouro que deixou de durar”. O homem que mais amei nessa minha vida, a qual ainda há de preencher-se de tantos anos e amores.
As palavras trocadas são, mais que cordiais, engraçadas, descontraídas. Ele está em sua casa, distante dali apenas duas quadras, onde acontece uma confraternização com os amigos que tão bem conheço de outras confraternizações. Apesar do papel de anfitrião da noite, ele diz que se encontrará comigo em 40 minutos e levará alguns de seus convidados que não vejo há dois anos.
Volto para a mesa, o casal pergunta com quem eu falava. Eu respondo e, pela segunda vez na noite, recebo olhares incrédulos. Peço que esperem até que ele chegue, mas isso não é mesmo possível. Da minha mente, incapaz de assimilar os tantos pensamentos esquizofrênicos, brota uma idéia infeliz que dribla facilmente minha autocensura fragilizada e conta com os favores da minha impulsividade.
Caminho até o outro casal, composto pelo “último absoluto” e sua companhia, aviso que os que me acompanham partirão em poucos minutos e proponho, como espero outras pessoas, que eles se mudem para a minha mesa, pra que os lugares sejam marcados e os amigos que aguardo não tenham que enfrentar a fila para entrar. Ambos fazem cara de pinheiro seco e, como para o meu convite descabido parece não existir resposta sensata, eles aceitam.
Vou ao banheiro, me olho no espelho e tento calcular o tamanho do estrago causado pela dormência do meu senso de ridículo. Nessa de me olhar no espelho, vejo que meu dente da frente está verde, sujo de salsa do caldinho de feijão que tomei, e meu cabelo continua brilhando, com resquícios da purpurina que uma Drag Queen jogou em mim na festa de sexta-feira. Concluo, então, que o vexame foi maior do que eu imaginava.
É um absurdo permanecer assim. Volto à minha mesa e decido ir-me com o casal de amigos, para me encontrar com os demais em qualquer lugar que não este. Despeço-me do outro casal e, com um sorrisinho amarelo (não mais verde de salsa), comento que minha proposta foi uma idéia de jerico, afinal eles é que perderiam a mesa. Os dois pinheiros secos concordam – aliviados, provavelmente.
Com a mudança de planos e horários, meu destino é a casa do ex. Apesar das tantas pessoas queridas que celebram o Natal no apartamento dele, não subo para vê-las, porque não pretendo demorar. O abraço é forte, como tem que ser. A primeira coisa que digo é que venho em busca de um depoimento, já que estou escrevendo um livro cujo título é "Alta Fidelidade” *. Ele dá uma gargalhada e confessa que, neste Natal, também sentiu vontade de buscar depoimentos assim, inclusive o meu.
A conversa de portaria dura uma hora e meia. Do tanto que falamos, sobra agora o que contar...
Quando, por fim, nos despedimos, o relógio me mostra que falta pouco para uma da manhã. Ligo para a minha amiga que deveria ter recebido a sacola e, como ela trabalha no mesmo lugar que o “último absoluto” e a “companhia”, pergunto se o que vi horas antes, vi de fato. Ela confirma que ouviu rumores há alguns dias.
O último telefonema da noite, transformada em moça madrugada, é para minha amiga que não mais ganhará DVDs do Chico. Ela também mora por perto, a algumas quadras, e é lá que descansarei até o Natal passar de vez.
Não dormimos até que, com Chico Buarque tocando ao fundo, eu a coloque à par dos detalhes da minha crônica natalina. Talvez pela forma como conto e como vejo tudo agora, ela ri em diversos momentos. Certamente, os acontecimentos de há pouco estão longe de constituírem uma tragédia. A amiga sabiamente conclui que o destino, neste Natal, me presenteou com concisão geográfica. Minha vida passada a limpo em pouca quadras...
Já deitada na cama, insone mas tranqüila, certa de que o dia qualquer hora amanhece, penso que, mais que uma dor pra chorar, tenho uma história pra escrever.
E a história do “último absoluto” acaba assim, da maneira mais consoladora pra quem amou: sem mais o que dizer.
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*em menção ao filme de mesmo nome, em que o personagem principal, vivendo uma separação, vai atrás de cinco ex-namoradas para descobrir algo sobre si próprio.
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