"Portariando na conversaria"
Uma hora e meia de conversa, depois de quase dois anos. Cheguei ainda atormentada naquele prédio, daquele bairro onde tudo acontece em poucas quadras, mas logo me sobreveio um interlúdio de luz. Eu senti uma paz de morto. Não, não me refiro a um sentimento pesado, fúnebre. É que, pela primeira vez, pensei como velho. Aliás, com tanta juventude, nunca havia me preocupado com o fato de que velhos e jovens pensam diferente demais, simplesmente porque, em essência, é assim que deve ser. Não apenas porque as épocas passam deixando pra trás gostos antigos que, aos poucos, dão lugar às tantas modernidades que também envelhecerão. É que muda o jeito de sonhar.
Como jovem, já sonhei com ter amores, ter vida linda a dois, ter filhos, ter construção constante de mais vida, de mais que a dois. Pulsante, sorridente, problemática, florida, complicada, mas, acima de tudo, vida. Ter. E ali, de repente, me vi apenas feliz. Por tudo o que eu construí um dia. Não mais ansiosa por ter, mas grata pelo tido. Coisa de velho que vai morrer. Que sabe que o tempo de sonhar já anda curto, e por isso mais agradece. Missão cumprida.
Naquela hora e meia, tudo fez sentido. Eu, que nunca entendi por que a gente ama tanto pra acabar, compreendi finalmente que algumas reações de amor, desencadeadas, explodem no infinito, pra salpicar o universo. Ejaculação de um aparente caos que engravida o cosmo e gera beleza. Porque “a beleza salvará o mundo”.
Amor que fecunda a alma, ramifica e vai longe. Esse, pensava, foi pra longe de mim. Doeu um dia. Mas, naquela noite de Natal, com minha cabeça de velho que vai morrer, aliviada constatei que meu amor foi dar em outros lugares e saiu amando por aí.
Ao “autor da frase” dediquei as maiores merdas dos últimos dois anos, porque as fiz com o intuito (agora sei) de experimentar um eu diferente, pra me livrar daquele eu que o amara. Como vivi... Dediquei a ele os maiores porres e o primeiro baseado. O primeiro orgasmo sem amor. A primeira lágrima pela falta de amor, apesar do orgasmo. Dediquei-lhe tantos dos meus escritos (muitos aqui jazem arquivados). E tanto mais... Dediquei-lhe, por fim, o momento em que me enchi de querer provar que eu podia ser diferente, porque afinal eu já não era mais quem fora. Surpresa constatar que hoje sou tão ele. Ele é tão eu. Nós nos confundimos. Entranhou, apesar de passado. Mal-passado? Bem-passado. Agora passado a limpo. Porque tempo reescreve, a gente relê. Fica feliz quem quer, quem sabe como. Porque, sempre digo, mesmo os maus momentos rendem boas histórias.
Durante aquela conversa de portaria, fez muito sentido amar. Não para se ter algo, mas para engravidar o mundo de beleza. Eu senti muito orgulho porque um dia dediquei tanto amor a um cara tão bacana. Simples assim.
Mas por que, afinal, a ligação para o “autor da frase”, quando dei de cara com o “último absoluto” acompanhado na noite de Natal?
As minhas duas histórias de amores contrariados se entrecruzaram aqui e, por isso, logo me veio uma idéia: escrever seis dos sete tomos previstos, ligar para o “autor da frase”, marcar um encontro e mostrar-lhe os escritos. O sétimo tomo, então, versaria sobre esse imaginado reencontro, as impressões do “autor da frase” e a nossa conversa nesse dia presumivelmente inusitado. Mas a vida tratou de fazer graça com minha miudeza e foi bem mais criativa que eu...
Agora sim entendo o texto profético de Guimarães Rosa, que jamais antes me parecera tão pleno de sentido: "A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação - porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada..."
Depois da noite de Natal, ainda veio o Réveillon. Festa no meio da multidão, música, banho de mar com roupa e tudo. Iemanjá abençoou. Eu agradeci porque ainda vivi pra vê-lo mais feliz, mais bonito, mais bêbado e mais dançante que nunca. Eu, tão jovem, dancei – mais feliz, mais bonita, mais bêbada, mais muito que meu antes com ele. Eu, tão velha moribunda, pensei que, hoje, talvez tivesse medo de estragar esse ele tão melhor que aquele nós.
Daqui a dois dias, faz dois anos que tudo terminou. Daqui a dois dias mais dois, ele completa dois anos mais do que tinha quando tudo terminou. Natal, Réveillon, aniversário de fim, anos de vida. Muitos motivos para homenagens e recomeços. Se amigos? Não digo “apenas” porque é muito. Porque é muito bonito. Porque, pela primeira vez, penso que tenho um motivo para morrer em paz.
terça-feira, janeiro 10, 2006
Eu, por mim mesma - Tomo sexto
"Portariando na conversaria"
Uma hora e meia de conversa, depois de quase dois anos. Cheguei ainda atormentada naquele prédio, daquele bairro onde tudo acontece em poucas quadras, mas logo me sobreveio um interlúdio de luz. Eu senti uma paz de morto. Não, não me refiro a um sentimento pesado, fúnebre. É que, pela primeira vez, pensei como velho. Aliás, com tanta juventude, nunca havia me preocupado com o fato de que velhos e jovens pensam diferente demais, simplesmente porque, em essência, é assim que deve ser. Não apenas porque as épocas passam deixando pra trás gostos antigos que, aos poucos, dão lugar às tantas modernidades que também envelhecerão. É que muda o jeito de sonhar.
Como jovem, já sonhei com ter amores, ter vida linda a dois, ter filhos, ter construção constante de mais vida, de mais que a dois. Pulsante, sorridente, problemática, florida, complicada, mas, acima de tudo, vida. Ter. E ali, de repente, me vi apenas feliz. Por tudo o que eu construí um dia. Não mais ansiosa por ter, mas grata pelo tido. Coisa de velho que vai morrer. Que sabe que o tempo de sonhar já anda curto, e por isso mais agradece. Missão cumprida.
Naquela hora e meia, tudo fez sentido. Eu, que nunca entendi por que a gente ama tanto pra acabar, compreendi finalmente que algumas reações de amor, desencadeadas, explodem no infinito, pra salpicar o universo. Ejaculação de um aparente caos que engravida o cosmo e gera beleza. Porque “a beleza salvará o mundo”.
Amor que fecunda a alma, ramifica e vai longe. Esse, pensava, foi pra longe de mim. Doeu um dia. Mas, naquela noite de Natal, com minha cabeça de velho que vai morrer, aliviada constatei que meu amor foi dar em outros lugares e saiu amando por aí.
Ao “autor da frase” dediquei as maiores merdas dos últimos dois anos, porque as fiz com o intuito (agora sei) de experimentar um eu diferente, pra me livrar daquele eu que o amara. Como vivi... Dediquei a ele os maiores porres e o primeiro baseado. O primeiro orgasmo sem amor. A primeira lágrima pela falta de amor, apesar do orgasmo. Dediquei-lhe tantos dos meus escritos (muitos aqui jazem arquivados). E tanto mais... Dediquei-lhe, por fim, o momento em que me enchi de querer provar que eu podia ser diferente, porque afinal eu já não era mais quem fora. Surpresa constatar que hoje sou tão ele. Ele é tão eu. Nós nos confundimos. Entranhou, apesar de passado. Mal-passado? Bem-passado. Agora passado a limpo. Porque tempo reescreve, a gente relê. Fica feliz quem quer, quem sabe como. Porque, sempre digo, mesmo os maus momentos rendem boas histórias.
Durante aquela conversa de portaria, fez muito sentido amar. Não para se ter algo, mas para engravidar o mundo de beleza. Eu senti muito orgulho porque um dia dediquei tanto amor a um cara tão bacana. Simples assim.
Mas por que, afinal, a ligação para o “autor da frase”, quando dei de cara com o “último absoluto” acompanhado na noite de Natal?
As minhas duas histórias de amores contrariados se entrecruzaram aqui e, por isso, logo me veio uma idéia: escrever seis dos sete tomos previstos, ligar para o “autor da frase”, marcar um encontro e mostrar-lhe os escritos. O sétimo tomo, então, versaria sobre esse imaginado reencontro, as impressões do “autor da frase” e a nossa conversa nesse dia presumivelmente inusitado. Mas a vida tratou de fazer graça com minha miudeza e foi bem mais criativa que eu...
Agora sim entendo o texto profético de Guimarães Rosa, que jamais antes me parecera tão pleno de sentido: "A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação - porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada..."
Depois da noite de Natal, ainda veio o Réveillon. Festa no meio da multidão, música, banho de mar com roupa e tudo. Iemanjá abençoou. Eu agradeci porque ainda vivi pra vê-lo mais feliz, mais bonito, mais bêbado e mais dançante que nunca. Eu, tão jovem, dancei – mais feliz, mais bonita, mais bêbada, mais muito que meu antes com ele. Eu, tão velha moribunda, pensei que, hoje, talvez tivesse medo de estragar esse ele tão melhor que aquele nós.
Daqui a dois dias, faz dois anos que tudo terminou. Daqui a dois dias mais dois, ele completa dois anos mais do que tinha quando tudo terminou. Natal, Réveillon, aniversário de fim, anos de vida. Muitos motivos para homenagens e recomeços. Se amigos? Não digo “apenas” porque é muito. Porque é muito bonito. Porque, pela primeira vez, penso que tenho um motivo para morrer em paz.
Uma hora e meia de conversa, depois de quase dois anos. Cheguei ainda atormentada naquele prédio, daquele bairro onde tudo acontece em poucas quadras, mas logo me sobreveio um interlúdio de luz. Eu senti uma paz de morto. Não, não me refiro a um sentimento pesado, fúnebre. É que, pela primeira vez, pensei como velho. Aliás, com tanta juventude, nunca havia me preocupado com o fato de que velhos e jovens pensam diferente demais, simplesmente porque, em essência, é assim que deve ser. Não apenas porque as épocas passam deixando pra trás gostos antigos que, aos poucos, dão lugar às tantas modernidades que também envelhecerão. É que muda o jeito de sonhar.
Como jovem, já sonhei com ter amores, ter vida linda a dois, ter filhos, ter construção constante de mais vida, de mais que a dois. Pulsante, sorridente, problemática, florida, complicada, mas, acima de tudo, vida. Ter. E ali, de repente, me vi apenas feliz. Por tudo o que eu construí um dia. Não mais ansiosa por ter, mas grata pelo tido. Coisa de velho que vai morrer. Que sabe que o tempo de sonhar já anda curto, e por isso mais agradece. Missão cumprida.
Naquela hora e meia, tudo fez sentido. Eu, que nunca entendi por que a gente ama tanto pra acabar, compreendi finalmente que algumas reações de amor, desencadeadas, explodem no infinito, pra salpicar o universo. Ejaculação de um aparente caos que engravida o cosmo e gera beleza. Porque “a beleza salvará o mundo”.
Amor que fecunda a alma, ramifica e vai longe. Esse, pensava, foi pra longe de mim. Doeu um dia. Mas, naquela noite de Natal, com minha cabeça de velho que vai morrer, aliviada constatei que meu amor foi dar em outros lugares e saiu amando por aí.
Ao “autor da frase” dediquei as maiores merdas dos últimos dois anos, porque as fiz com o intuito (agora sei) de experimentar um eu diferente, pra me livrar daquele eu que o amara. Como vivi... Dediquei a ele os maiores porres e o primeiro baseado. O primeiro orgasmo sem amor. A primeira lágrima pela falta de amor, apesar do orgasmo. Dediquei-lhe tantos dos meus escritos (muitos aqui jazem arquivados). E tanto mais... Dediquei-lhe, por fim, o momento em que me enchi de querer provar que eu podia ser diferente, porque afinal eu já não era mais quem fora. Surpresa constatar que hoje sou tão ele. Ele é tão eu. Nós nos confundimos. Entranhou, apesar de passado. Mal-passado? Bem-passado. Agora passado a limpo. Porque tempo reescreve, a gente relê. Fica feliz quem quer, quem sabe como. Porque, sempre digo, mesmo os maus momentos rendem boas histórias.
Durante aquela conversa de portaria, fez muito sentido amar. Não para se ter algo, mas para engravidar o mundo de beleza. Eu senti muito orgulho porque um dia dediquei tanto amor a um cara tão bacana. Simples assim.
Mas por que, afinal, a ligação para o “autor da frase”, quando dei de cara com o “último absoluto” acompanhado na noite de Natal?
As minhas duas histórias de amores contrariados se entrecruzaram aqui e, por isso, logo me veio uma idéia: escrever seis dos sete tomos previstos, ligar para o “autor da frase”, marcar um encontro e mostrar-lhe os escritos. O sétimo tomo, então, versaria sobre esse imaginado reencontro, as impressões do “autor da frase” e a nossa conversa nesse dia presumivelmente inusitado. Mas a vida tratou de fazer graça com minha miudeza e foi bem mais criativa que eu...
Agora sim entendo o texto profético de Guimarães Rosa, que jamais antes me parecera tão pleno de sentido: "A vida inventa! A gente principia as coisas, no não saber por que, e desde aí perde o poder de continuação - porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada..."
Depois da noite de Natal, ainda veio o Réveillon. Festa no meio da multidão, música, banho de mar com roupa e tudo. Iemanjá abençoou. Eu agradeci porque ainda vivi pra vê-lo mais feliz, mais bonito, mais bêbado e mais dançante que nunca. Eu, tão jovem, dancei – mais feliz, mais bonita, mais bêbada, mais muito que meu antes com ele. Eu, tão velha moribunda, pensei que, hoje, talvez tivesse medo de estragar esse ele tão melhor que aquele nós.
Daqui a dois dias, faz dois anos que tudo terminou. Daqui a dois dias mais dois, ele completa dois anos mais do que tinha quando tudo terminou. Natal, Réveillon, aniversário de fim, anos de vida. Muitos motivos para homenagens e recomeços. Se amigos? Não digo “apenas” porque é muito. Porque é muito bonito. Porque, pela primeira vez, penso que tenho um motivo para morrer em paz.
quinta-feira, dezembro 29, 2005
Eu, por mim mesma - Tomo quinto, parte dois
"Passada a limpo em pouca quadras"
música: Goodnight Goodnight, do Hot Hot Heat
“So goodnight, goodnight.
You're embarassing me,
you're embarassing you.
So goodnight, goodnight.
Walk away from the door,
walk away from my life.”
Meu amigo retorna, senta e não faz comentários. O “último absoluto” vem logo em seguida, com a “companhia”. Passam por nós, ambos cumprimentam minha amiga, que segue com seu workshop de caixinhas, pois, ali, ela é a mestra. Ele, antes de ir para a sua mesa, mostra que é mestre na arte de pronunciar o maior número de frases desajeitadas seqüenciais no menor tempo possível.
Quando ele vira as costas, deixa um silêncio que, apesar de perturbador, não me dissuade da firme resolução de não quebrá-lo. Por fim, alguém faz isso por mim e eu, então, me sinto livre pra perguntar se o meu amigo acha que os dois estão juntos. Meu amigo, que outrora negara essa possibilidade com veemência, agora balança a cabeça afirmativamente.
Sorte que eu ainda tenho caixas para montar com as micas dobradas, porque, do contrário, não saberia para onde olhar, nem o que fazer com as mãos. Mas tanta arte-terapia não é suficiente para afastar os pensamentos todos que me vêm em velocidade esquizofrênica. Efeitos desta noite de Natal cheia de coincidências – ou milagres, ou sincronicidades. Sim, porque este bar é dos meus favoritos, mas nunca é aqui que tomo a cerveja dos domingos. Tampouco vivo a carregar uma sacola de lembranças e um coração apertado nas minhas noites natalinas – dominicais e chuvosas ou não.
O casal anuncia que precisa ir embora em 10 minutos. A amiga que deveria receber a sacola, a esta altura, já avisou que não vem. Imediatamente, tento falar, mais uma vez, com a amiga que já não ganhará DVDs piratas do Chico. Sem sucesso.
Eu, então, pego meu celular, me levanto, saio do bar e ligo para o mesmo número que liguei, pela primeira vez em quase dois anos, há poucos dias atrás. Diferentemente de antes, agora obtenho como resposta o alô tão familiar. É ele, meu ex-namorado. O “autor da frase célebre”, o meu “último relacionamento duradouro que deixou de durar”. O homem que mais amei nessa minha vida, a qual ainda há de preencher-se de tantos anos e amores.
As palavras trocadas são, mais que cordiais, engraçadas, descontraídas. Ele está em sua casa, distante dali apenas duas quadras, onde acontece uma confraternização com os amigos que tão bem conheço de outras confraternizações. Apesar do papel de anfitrião da noite, ele diz que se encontrará comigo em 40 minutos e levará alguns de seus convidados que não vejo há dois anos.
Volto para a mesa, o casal pergunta com quem eu falava. Eu respondo e, pela segunda vez na noite, recebo olhares incrédulos. Peço que esperem até que ele chegue, mas isso não é mesmo possível. Da minha mente, incapaz de assimilar os tantos pensamentos esquizofrênicos, brota uma idéia infeliz que dribla facilmente minha autocensura fragilizada e conta com os favores da minha impulsividade.
Caminho até o outro casal, composto pelo “último absoluto” e sua companhia, aviso que os que me acompanham partirão em poucos minutos e proponho, como espero outras pessoas, que eles se mudem para a minha mesa, pra que os lugares sejam marcados e os amigos que aguardo não tenham que enfrentar a fila para entrar. Ambos fazem cara de pinheiro seco e, como para o meu convite descabido parece não existir resposta sensata, eles aceitam.
Vou ao banheiro, me olho no espelho e tento calcular o tamanho do estrago causado pela dormência do meu senso de ridículo. Nessa de me olhar no espelho, vejo que meu dente da frente está verde, sujo de salsa do caldinho de feijão que tomei, e meu cabelo continua brilhando, com resquícios da purpurina que uma Drag Queen jogou em mim na festa de sexta-feira. Concluo, então, que o vexame foi maior do que eu imaginava.
É um absurdo permanecer assim. Volto à minha mesa e decido ir-me com o casal de amigos, para me encontrar com os demais em qualquer lugar que não este. Despeço-me do outro casal e, com um sorrisinho amarelo (não mais verde de salsa), comento que minha proposta foi uma idéia de jerico, afinal eles é que perderiam a mesa. Os dois pinheiros secos concordam – aliviados, provavelmente.
Com a mudança de planos e horários, meu destino é a casa do ex. Apesar das tantas pessoas queridas que celebram o Natal no apartamento dele, não subo para vê-las, porque não pretendo demorar. O abraço é forte, como tem que ser. A primeira coisa que digo é que venho em busca de um depoimento, já que estou escrevendo um livro cujo título é "Alta Fidelidade” *. Ele dá uma gargalhada e confessa que, neste Natal, também sentiu vontade de buscar depoimentos assim, inclusive o meu.
A conversa de portaria dura uma hora e meia. Do tanto que falamos, sobra agora o que contar...
Quando, por fim, nos despedimos, o relógio me mostra que falta pouco para uma da manhã. Ligo para a minha amiga que deveria ter recebido a sacola e, como ela trabalha no mesmo lugar que o “último absoluto” e a “companhia”, pergunto se o que vi horas antes, vi de fato. Ela confirma que ouviu rumores há alguns dias.
O último telefonema da noite, transformada em moça madrugada, é para minha amiga que não mais ganhará DVDs do Chico. Ela também mora por perto, a algumas quadras, e é lá que descansarei até o Natal passar de vez.
Não dormimos até que, com Chico Buarque tocando ao fundo, eu a coloque à par dos detalhes da minha crônica natalina. Talvez pela forma como conto e como vejo tudo agora, ela ri em diversos momentos. Certamente, os acontecimentos de há pouco estão longe de constituírem uma tragédia. A amiga sabiamente conclui que o destino, neste Natal, me presenteou com concisão geográfica. Minha vida passada a limpo em pouca quadras...
Já deitada na cama, insone mas tranqüila, certa de que o dia qualquer hora amanhece, penso que, mais que uma dor pra chorar, tenho uma história pra escrever.
E a história do “último absoluto” acaba assim, da maneira mais consoladora pra quem amou: sem mais o que dizer.
**************
*em menção ao filme de mesmo nome, em que o personagem principal, vivendo uma separação, vai atrás de cinco ex-namoradas para descobrir algo sobre si próprio.
música: Goodnight Goodnight, do Hot Hot Heat
“So goodnight, goodnight.
You're embarassing me,
you're embarassing you.
So goodnight, goodnight.
Walk away from the door,
walk away from my life.”
Meu amigo retorna, senta e não faz comentários. O “último absoluto” vem logo em seguida, com a “companhia”. Passam por nós, ambos cumprimentam minha amiga, que segue com seu workshop de caixinhas, pois, ali, ela é a mestra. Ele, antes de ir para a sua mesa, mostra que é mestre na arte de pronunciar o maior número de frases desajeitadas seqüenciais no menor tempo possível.
Quando ele vira as costas, deixa um silêncio que, apesar de perturbador, não me dissuade da firme resolução de não quebrá-lo. Por fim, alguém faz isso por mim e eu, então, me sinto livre pra perguntar se o meu amigo acha que os dois estão juntos. Meu amigo, que outrora negara essa possibilidade com veemência, agora balança a cabeça afirmativamente.
Sorte que eu ainda tenho caixas para montar com as micas dobradas, porque, do contrário, não saberia para onde olhar, nem o que fazer com as mãos. Mas tanta arte-terapia não é suficiente para afastar os pensamentos todos que me vêm em velocidade esquizofrênica. Efeitos desta noite de Natal cheia de coincidências – ou milagres, ou sincronicidades. Sim, porque este bar é dos meus favoritos, mas nunca é aqui que tomo a cerveja dos domingos. Tampouco vivo a carregar uma sacola de lembranças e um coração apertado nas minhas noites natalinas – dominicais e chuvosas ou não.
O casal anuncia que precisa ir embora em 10 minutos. A amiga que deveria receber a sacola, a esta altura, já avisou que não vem. Imediatamente, tento falar, mais uma vez, com a amiga que já não ganhará DVDs piratas do Chico. Sem sucesso.
Eu, então, pego meu celular, me levanto, saio do bar e ligo para o mesmo número que liguei, pela primeira vez em quase dois anos, há poucos dias atrás. Diferentemente de antes, agora obtenho como resposta o alô tão familiar. É ele, meu ex-namorado. O “autor da frase célebre”, o meu “último relacionamento duradouro que deixou de durar”. O homem que mais amei nessa minha vida, a qual ainda há de preencher-se de tantos anos e amores.
As palavras trocadas são, mais que cordiais, engraçadas, descontraídas. Ele está em sua casa, distante dali apenas duas quadras, onde acontece uma confraternização com os amigos que tão bem conheço de outras confraternizações. Apesar do papel de anfitrião da noite, ele diz que se encontrará comigo em 40 minutos e levará alguns de seus convidados que não vejo há dois anos.
Volto para a mesa, o casal pergunta com quem eu falava. Eu respondo e, pela segunda vez na noite, recebo olhares incrédulos. Peço que esperem até que ele chegue, mas isso não é mesmo possível. Da minha mente, incapaz de assimilar os tantos pensamentos esquizofrênicos, brota uma idéia infeliz que dribla facilmente minha autocensura fragilizada e conta com os favores da minha impulsividade.
Caminho até o outro casal, composto pelo “último absoluto” e sua companhia, aviso que os que me acompanham partirão em poucos minutos e proponho, como espero outras pessoas, que eles se mudem para a minha mesa, pra que os lugares sejam marcados e os amigos que aguardo não tenham que enfrentar a fila para entrar. Ambos fazem cara de pinheiro seco e, como para o meu convite descabido parece não existir resposta sensata, eles aceitam.
Vou ao banheiro, me olho no espelho e tento calcular o tamanho do estrago causado pela dormência do meu senso de ridículo. Nessa de me olhar no espelho, vejo que meu dente da frente está verde, sujo de salsa do caldinho de feijão que tomei, e meu cabelo continua brilhando, com resquícios da purpurina que uma Drag Queen jogou em mim na festa de sexta-feira. Concluo, então, que o vexame foi maior do que eu imaginava.
É um absurdo permanecer assim. Volto à minha mesa e decido ir-me com o casal de amigos, para me encontrar com os demais em qualquer lugar que não este. Despeço-me do outro casal e, com um sorrisinho amarelo (não mais verde de salsa), comento que minha proposta foi uma idéia de jerico, afinal eles é que perderiam a mesa. Os dois pinheiros secos concordam – aliviados, provavelmente.
Com a mudança de planos e horários, meu destino é a casa do ex. Apesar das tantas pessoas queridas que celebram o Natal no apartamento dele, não subo para vê-las, porque não pretendo demorar. O abraço é forte, como tem que ser. A primeira coisa que digo é que venho em busca de um depoimento, já que estou escrevendo um livro cujo título é "Alta Fidelidade” *. Ele dá uma gargalhada e confessa que, neste Natal, também sentiu vontade de buscar depoimentos assim, inclusive o meu.
A conversa de portaria dura uma hora e meia. Do tanto que falamos, sobra agora o que contar...
Quando, por fim, nos despedimos, o relógio me mostra que falta pouco para uma da manhã. Ligo para a minha amiga que deveria ter recebido a sacola e, como ela trabalha no mesmo lugar que o “último absoluto” e a “companhia”, pergunto se o que vi horas antes, vi de fato. Ela confirma que ouviu rumores há alguns dias.
O último telefonema da noite, transformada em moça madrugada, é para minha amiga que não mais ganhará DVDs do Chico. Ela também mora por perto, a algumas quadras, e é lá que descansarei até o Natal passar de vez.
Não dormimos até que, com Chico Buarque tocando ao fundo, eu a coloque à par dos detalhes da minha crônica natalina. Talvez pela forma como conto e como vejo tudo agora, ela ri em diversos momentos. Certamente, os acontecimentos de há pouco estão longe de constituírem uma tragédia. A amiga sabiamente conclui que o destino, neste Natal, me presenteou com concisão geográfica. Minha vida passada a limpo em pouca quadras...
Já deitada na cama, insone mas tranqüila, certa de que o dia qualquer hora amanhece, penso que, mais que uma dor pra chorar, tenho uma história pra escrever.
E a história do “último absoluto” acaba assim, da maneira mais consoladora pra quem amou: sem mais o que dizer.
**************
*em menção ao filme de mesmo nome, em que o personagem principal, vivendo uma separação, vai atrás de cinco ex-namoradas para descobrir algo sobre si próprio.
Eu, por mim mesma - Tomo quinto, parte dois
"Passada a limpo em pouca quadras"
música: Goodnight Goodnight, do Hot Hot Heat
“So goodnight, goodnight.
You're embarassing me,
you're embarassing you.
So goodnight, goodnight.
Walk away from the door,
walk away from my life.”
Meu amigo retorna, senta e não faz comentários. O “último absoluto” vem logo em seguida, com a “companhia”. Passam por nós, ambos cumprimentam minha amiga, que segue com seu workshop de caixinhas, pois, ali, ela é a mestra. Ele, antes de ir para a sua mesa, mostra que é mestre na arte de pronunciar o maior número de frases desajeitadas seqüenciais no menor tempo possível.
Quando ele vira as costas, deixa um silêncio que, apesar de perturbador, não me dissuade da firme resolução de não quebrá-lo. Por fim, alguém faz isso por mim e eu, então, me sinto livre pra perguntar se o meu amigo acha que os dois estão juntos. Meu amigo, que outrora negara essa possibilidade com veemência, agora balança a cabeça afirmativamente.
Sorte que eu ainda tenho caixas para montar com as micas dobradas, porque, do contrário, não saberia para onde olhar, nem o que fazer com as mãos. Mas tanta arte-terapia não é suficiente para afastar os pensamentos todos que me vêm em velocidade esquizofrênica. Efeitos desta noite de Natal cheia de coincidências – ou milagres, ou sincronicidades. Sim, porque este bar é dos meus favoritos, mas nunca é aqui que tomo a cerveja dos domingos. Tampouco vivo a carregar uma sacola de lembranças e um coração apertado nas minhas noites natalinas – dominicais e chuvosas ou não.
O casal anuncia que precisa ir embora em 10 minutos. A amiga que deveria receber a sacola, a esta altura, já avisou que não vem. Imediatamente, tento falar, mais uma vez, com a amiga que já não ganhará DVDs piratas do Chico. Sem sucesso.
Eu, então, pego meu celular, me levanto, saio do bar e ligo para o mesmo número que liguei, pela primeira vez em quase dois anos, há poucos dias atrás. Diferentemente de antes, agora obtenho como resposta o alô tão familiar. É ele, meu ex-namorado. O “autor da frase célebre”, o meu “último relacionamento duradouro que deixou de durar”. O homem que mais amei nessa minha vida, a qual ainda há de preencher-se de tantos anos e amores.
As palavras trocadas são, mais que cordiais, engraçadas, descontraídas. Ele está em sua casa, distante dali apenas duas quadras, onde acontece uma confraternização com os amigos que tão bem conheço de outras confraternizações. Apesar do papel de anfitrião da noite, ele diz que se encontrará comigo em 40 minutos e levará alguns de seus convidados que não vejo há dois anos.
Volto para a mesa, o casal pergunta com quem eu falava. Eu respondo e, pela segunda vez na noite, recebo olhares incrédulos. Peço que esperem até que ele chegue, mas isso não é mesmo possível. Da minha mente, incapaz de assimilar os tantos pensamentos esquizofrênicos, brota uma idéia infeliz que dribla facilmente minha autocensura fragilizada e conta com os favores da minha impulsividade.
Caminho até o outro casal, composto pelo “último absoluto” e sua companhia, aviso que os que me acompanham partirão em poucos minutos e proponho, como espero outras pessoas, que eles se mudem para a minha mesa, pra que os lugares sejam marcados e os amigos que aguardo não tenham que enfrentar a fila para entrar. Ambos fazem cara de pinheiro seco e, como para o meu convite descabido parece não existir resposta sensata, eles aceitam.
Vou ao banheiro, me olho no espelho e tento calcular o tamanho do estrago causado pela dormência do meu senso de ridículo. Nessa de me olhar no espelho, vejo que meu dente da frente está verde, sujo de salsa do caldinho de feijão que tomei, e meu cabelo continua brilhando, com resquícios da purpurina que uma Drag Queen jogou em mim na festa de sexta-feira. Concluo, então, que o vexame foi maior do que eu imaginava.
É um absurdo permanecer assim. Volto à minha mesa e decido ir-me com o casal de amigos, para me encontrar com os demais em qualquer lugar que não este. Despeço-me do outro casal e, com um sorrisinho amarelo (não mais verde de salsa), comento que minha proposta foi uma idéia de jerico, afinal eles é que perderiam a mesa. Os dois pinheiros secos concordam – aliviados, provavelmente.
Com a mudança de planos e horários, meu destino é a casa do ex. Apesar das tantas pessoas queridas que celebram o Natal no apartamento dele, não subo para vê-las, porque não pretendo demorar. O abraço é forte, como tem que ser. A primeira coisa que digo é que venho em busca de um depoimento, já que estou escrevendo um livro cujo título é "Alta Fidelidade” *. Ele dá uma gargalhada e confessa que, neste Natal, também sentiu vontade de buscar depoimentos assim, inclusive o meu.
A conversa de portaria dura uma hora e meia. Do tanto que falamos, sobra agora o que contar...
Quando, por fim, nos despedimos, o relógio me mostra que falta pouco para uma da manhã. Ligo para a minha amiga que deveria ter recebido a sacola e, como ela trabalha no mesmo lugar que o “último absoluto” e a “companhia”, pergunto se o que vi horas antes, vi de fato. Ela confirma que ouviu rumores há alguns dias.
O último telefonema da noite, transformada em moça madrugada, é para minha amiga que não mais ganhará DVDs do Chico. Ela também mora por perto, a algumas quadras, e é lá que descansarei até o Natal passar de vez.
Não dormimos até que, com Chico Buarque tocando ao fundo, eu a coloque à par dos detalhes da minha crônica natalina. Talvez pela forma como conto e como vejo tudo agora, ela ri em diversos momentos. Certamente, os acontecimentos de há pouco estão longe de constituírem uma tragédia. A amiga sabiamente conclui que o destino, neste Natal, me presenteou com concisão geográfica. Minha vida passada a limpo em pouca quadras...
Já deitada na cama, insone mas tranqüila, certa de que o dia qualquer hora amanhece, penso que, mais que uma dor pra chorar, tenho uma história pra escrever.
E a história do “último absoluto” acaba assim, da maneira mais consoladora pra quem amou: sem mais o que dizer.
**************
*em menção ao filme de mesmo nome, em que o personagem principal, vivendo uma separação, vai atrás de cinco ex-namoradas para descobrir algo sobre si próprio.
música: Goodnight Goodnight, do Hot Hot Heat
“So goodnight, goodnight.
You're embarassing me,
you're embarassing you.
So goodnight, goodnight.
Walk away from the door,
walk away from my life.”
Meu amigo retorna, senta e não faz comentários. O “último absoluto” vem logo em seguida, com a “companhia”. Passam por nós, ambos cumprimentam minha amiga, que segue com seu workshop de caixinhas, pois, ali, ela é a mestra. Ele, antes de ir para a sua mesa, mostra que é mestre na arte de pronunciar o maior número de frases desajeitadas seqüenciais no menor tempo possível.
Quando ele vira as costas, deixa um silêncio que, apesar de perturbador, não me dissuade da firme resolução de não quebrá-lo. Por fim, alguém faz isso por mim e eu, então, me sinto livre pra perguntar se o meu amigo acha que os dois estão juntos. Meu amigo, que outrora negara essa possibilidade com veemência, agora balança a cabeça afirmativamente.
Sorte que eu ainda tenho caixas para montar com as micas dobradas, porque, do contrário, não saberia para onde olhar, nem o que fazer com as mãos. Mas tanta arte-terapia não é suficiente para afastar os pensamentos todos que me vêm em velocidade esquizofrênica. Efeitos desta noite de Natal cheia de coincidências – ou milagres, ou sincronicidades. Sim, porque este bar é dos meus favoritos, mas nunca é aqui que tomo a cerveja dos domingos. Tampouco vivo a carregar uma sacola de lembranças e um coração apertado nas minhas noites natalinas – dominicais e chuvosas ou não.
O casal anuncia que precisa ir embora em 10 minutos. A amiga que deveria receber a sacola, a esta altura, já avisou que não vem. Imediatamente, tento falar, mais uma vez, com a amiga que já não ganhará DVDs piratas do Chico. Sem sucesso.
Eu, então, pego meu celular, me levanto, saio do bar e ligo para o mesmo número que liguei, pela primeira vez em quase dois anos, há poucos dias atrás. Diferentemente de antes, agora obtenho como resposta o alô tão familiar. É ele, meu ex-namorado. O “autor da frase célebre”, o meu “último relacionamento duradouro que deixou de durar”. O homem que mais amei nessa minha vida, a qual ainda há de preencher-se de tantos anos e amores.
As palavras trocadas são, mais que cordiais, engraçadas, descontraídas. Ele está em sua casa, distante dali apenas duas quadras, onde acontece uma confraternização com os amigos que tão bem conheço de outras confraternizações. Apesar do papel de anfitrião da noite, ele diz que se encontrará comigo em 40 minutos e levará alguns de seus convidados que não vejo há dois anos.
Volto para a mesa, o casal pergunta com quem eu falava. Eu respondo e, pela segunda vez na noite, recebo olhares incrédulos. Peço que esperem até que ele chegue, mas isso não é mesmo possível. Da minha mente, incapaz de assimilar os tantos pensamentos esquizofrênicos, brota uma idéia infeliz que dribla facilmente minha autocensura fragilizada e conta com os favores da minha impulsividade.
Caminho até o outro casal, composto pelo “último absoluto” e sua companhia, aviso que os que me acompanham partirão em poucos minutos e proponho, como espero outras pessoas, que eles se mudem para a minha mesa, pra que os lugares sejam marcados e os amigos que aguardo não tenham que enfrentar a fila para entrar. Ambos fazem cara de pinheiro seco e, como para o meu convite descabido parece não existir resposta sensata, eles aceitam.
Vou ao banheiro, me olho no espelho e tento calcular o tamanho do estrago causado pela dormência do meu senso de ridículo. Nessa de me olhar no espelho, vejo que meu dente da frente está verde, sujo de salsa do caldinho de feijão que tomei, e meu cabelo continua brilhando, com resquícios da purpurina que uma Drag Queen jogou em mim na festa de sexta-feira. Concluo, então, que o vexame foi maior do que eu imaginava.
É um absurdo permanecer assim. Volto à minha mesa e decido ir-me com o casal de amigos, para me encontrar com os demais em qualquer lugar que não este. Despeço-me do outro casal e, com um sorrisinho amarelo (não mais verde de salsa), comento que minha proposta foi uma idéia de jerico, afinal eles é que perderiam a mesa. Os dois pinheiros secos concordam – aliviados, provavelmente.
Com a mudança de planos e horários, meu destino é a casa do ex. Apesar das tantas pessoas queridas que celebram o Natal no apartamento dele, não subo para vê-las, porque não pretendo demorar. O abraço é forte, como tem que ser. A primeira coisa que digo é que venho em busca de um depoimento, já que estou escrevendo um livro cujo título é "Alta Fidelidade” *. Ele dá uma gargalhada e confessa que, neste Natal, também sentiu vontade de buscar depoimentos assim, inclusive o meu.
A conversa de portaria dura uma hora e meia. Do tanto que falamos, sobra agora o que contar...
Quando, por fim, nos despedimos, o relógio me mostra que falta pouco para uma da manhã. Ligo para a minha amiga que deveria ter recebido a sacola e, como ela trabalha no mesmo lugar que o “último absoluto” e a “companhia”, pergunto se o que vi horas antes, vi de fato. Ela confirma que ouviu rumores há alguns dias.
O último telefonema da noite, transformada em moça madrugada, é para minha amiga que não mais ganhará DVDs do Chico. Ela também mora por perto, a algumas quadras, e é lá que descansarei até o Natal passar de vez.
Não dormimos até que, com Chico Buarque tocando ao fundo, eu a coloque à par dos detalhes da minha crônica natalina. Talvez pela forma como conto e como vejo tudo agora, ela ri em diversos momentos. Certamente, os acontecimentos de há pouco estão longe de constituírem uma tragédia. A amiga sabiamente conclui que o destino, neste Natal, me presenteou com concisão geográfica. Minha vida passada a limpo em pouca quadras...
Já deitada na cama, insone mas tranqüila, certa de que o dia qualquer hora amanhece, penso que, mais que uma dor pra chorar, tenho uma história pra escrever.
E a história do “último absoluto” acaba assim, da maneira mais consoladora pra quem amou: sem mais o que dizer.
**************
*em menção ao filme de mesmo nome, em que o personagem principal, vivendo uma separação, vai atrás de cinco ex-namoradas para descobrir algo sobre si próprio.
terça-feira, dezembro 27, 2005
Eu, por mim mesma - Tomo quinto
"História que não pára de acontecer"
música: Jingle Jangle, do Hot Hot Heat
“another day, another night, another year
another smile, another lie, another tear
its bad enough this is all I've got
I never thought I'd end up here”
No meu caminho para a Igreja, onde haverá uma celebração de Natal, um desabafo me escapole em forma de oração: “Eu queria aprender a amar sem me perder de mim”.
Carrego um coração apertado e uma sacola que aperto entre os dedos, a qual deverá ser entregue à amiga que trabalha com o “último absoluto”. Ali dentro, objetos a serem devolvidos, porque não suporto mais escancarar lembranças todas as vezes que abro meu armário.
Há dois dias, como combinado, foram deixados com ela meus DVDs – entre os quais, o box do Chico Buarque. Pedi que ele os copiasse para outra amiga, com quem, por acaso, também me encontrarei em algumas horas. Ele não chegou a copiar, o que não chega a ser surpresa. O não-cumprimento sempre foi o destino de suas promessas.
Na igreja, tudo é tão bonito, a música, as luzes, que me dá paz. Lembro-me de Dostoiévski: “A beleza salvará o mundo”...
Ao término, vou para o bar onde, daqui a pouco, encontrarei a amiga que deverá receber a sacola. Um casal, meu amigo dos tempos de colégio e minha amiga de faculdade, me acompanha sem intenção de demora. Eles se conheceram por minha causa, começaram a namorar e, logo depois, meu amigo dos tempos de colégio me apresentou para o “último absoluto”.
Ligo para a amiga que já não ganhará DVDs piratas do Chico. Ela avisa que está em outro lugar, com um outro pessoal, mas que aparece mais tarde.
Na mesa, o casal e eu nos divertimos entre conversas, arranjos para a festa do Reveillon, chopes e caixas. Sim, porque estamos concentrados na fabricação de pequenas caixas feitas daqueles cartõezinhos publicitários dobrados – os que chamam de “mica”. A sacola permanece do meu lado, ali no chão. Meu coração torna a ficar apertado e não consigo deixar de voltar os meus olhos para a rua, para a porta do bar. Então, entre uma dobradura e outra, numa dessas insistentes espiadas, eu o vejo na fila, esperando para entrar.
Continuo o meu trabalho de construção de caixas até que, finalmente, anuncio sua chegada aos amigos da mesa, que riem imaginando se tratar de uma piada e que mal se convencem depois de constatarem que não. Sem pensar, por já não conseguir, passo a mão na sacola e vou até lá.
Ele está usando a mesma camisa da nossa primeira noite juntos. A mesma que vesti depois de ter estado despida, quando me vi cansada e feliz, no apartamento da amiga que, nesta noite de Natal, deveria receber a sacola que, agora, entregarei pessoalmente a quem por direito pertence.
Ele não está sozinho. Literalmente pula de susto quando me vê. Eu o cumprimento com dois beijos no rosto e entrego a sacola. “Que bom que não preciso mais carregar isto”, digo. Visivelmente desconcertado, me apresenta a sua companhia - que, por sinal, já conheço, mas ele não parece estar em condições de se lembrar disso. Assim como minha amiga, a “companhia” também trabalha com ele. Eu a conheci na última vez que nós dois nos encontramos, tão casualmente quanto agora, bem perto deste mesmo bar, quando tudo era mais recente do que ainda é. Naquele vinte e cinco de novembro -há exatamente um mês! - ele estava com um grupo de amigos do trabalho, do qual ela, a companhia, fazia parte; simplesmente, supostamente. Até aqui, tampouco vejo o que contrarie essa verdade, apesar do desconcerto dele, de suas palavras desencontradas, como as minhas. Apesar do bar a dois nesta noite chuvosa de Natal.
Tudo isso acontece em menos de dois minutos, eu acho. Afinal, minha noção de tempo, agora distorcida, faz com que tudo me venha como flashes: imagens, vozes, meus próprios gestos. Volto para a mesa e o deixo na fila após ter lhe dado um bom motivo (maior que a fila) para ir embora imediatamente. Meu amigo dos tempos de colégio, também amigo dele, se levanta e vai até lá.
Retomo minha tarefa de dobrar cartões para continuar a construir caixas, sem deixar de pensar que, segundo a minha mais recente teoria sobre amores contrariados, ele é a maior caixa que criei.
Continua no próximo post
****
Personagens presentes, por ordem de aparição:
Eu, por mim mesma;
Um casal: ele, meu amigo dos tempos de colégio. Ela, amiga de faculdade;
O "último absoluto";
A amiga de trabalho do "último absoluto".
Personagens citados:
Minha amiga que também trabalha com o "último absoluto", quem deveria ter recebido a sacola. Amiga minha, não dele;
Minha amiga que não mais ganhará DVDs piratas de presente.
música: Jingle Jangle, do Hot Hot Heat
“another day, another night, another year
another smile, another lie, another tear
its bad enough this is all I've got
I never thought I'd end up here”
No meu caminho para a Igreja, onde haverá uma celebração de Natal, um desabafo me escapole em forma de oração: “Eu queria aprender a amar sem me perder de mim”.
Carrego um coração apertado e uma sacola que aperto entre os dedos, a qual deverá ser entregue à amiga que trabalha com o “último absoluto”. Ali dentro, objetos a serem devolvidos, porque não suporto mais escancarar lembranças todas as vezes que abro meu armário.
Há dois dias, como combinado, foram deixados com ela meus DVDs – entre os quais, o box do Chico Buarque. Pedi que ele os copiasse para outra amiga, com quem, por acaso, também me encontrarei em algumas horas. Ele não chegou a copiar, o que não chega a ser surpresa. O não-cumprimento sempre foi o destino de suas promessas.
Na igreja, tudo é tão bonito, a música, as luzes, que me dá paz. Lembro-me de Dostoiévski: “A beleza salvará o mundo”...
Ao término, vou para o bar onde, daqui a pouco, encontrarei a amiga que deverá receber a sacola. Um casal, meu amigo dos tempos de colégio e minha amiga de faculdade, me acompanha sem intenção de demora. Eles se conheceram por minha causa, começaram a namorar e, logo depois, meu amigo dos tempos de colégio me apresentou para o “último absoluto”.
Ligo para a amiga que já não ganhará DVDs piratas do Chico. Ela avisa que está em outro lugar, com um outro pessoal, mas que aparece mais tarde.
Na mesa, o casal e eu nos divertimos entre conversas, arranjos para a festa do Reveillon, chopes e caixas. Sim, porque estamos concentrados na fabricação de pequenas caixas feitas daqueles cartõezinhos publicitários dobrados – os que chamam de “mica”. A sacola permanece do meu lado, ali no chão. Meu coração torna a ficar apertado e não consigo deixar de voltar os meus olhos para a rua, para a porta do bar. Então, entre uma dobradura e outra, numa dessas insistentes espiadas, eu o vejo na fila, esperando para entrar.
Continuo o meu trabalho de construção de caixas até que, finalmente, anuncio sua chegada aos amigos da mesa, que riem imaginando se tratar de uma piada e que mal se convencem depois de constatarem que não. Sem pensar, por já não conseguir, passo a mão na sacola e vou até lá.
Ele está usando a mesma camisa da nossa primeira noite juntos. A mesma que vesti depois de ter estado despida, quando me vi cansada e feliz, no apartamento da amiga que, nesta noite de Natal, deveria receber a sacola que, agora, entregarei pessoalmente a quem por direito pertence.
Ele não está sozinho. Literalmente pula de susto quando me vê. Eu o cumprimento com dois beijos no rosto e entrego a sacola. “Que bom que não preciso mais carregar isto”, digo. Visivelmente desconcertado, me apresenta a sua companhia - que, por sinal, já conheço, mas ele não parece estar em condições de se lembrar disso. Assim como minha amiga, a “companhia” também trabalha com ele. Eu a conheci na última vez que nós dois nos encontramos, tão casualmente quanto agora, bem perto deste mesmo bar, quando tudo era mais recente do que ainda é. Naquele vinte e cinco de novembro -há exatamente um mês! - ele estava com um grupo de amigos do trabalho, do qual ela, a companhia, fazia parte; simplesmente, supostamente. Até aqui, tampouco vejo o que contrarie essa verdade, apesar do desconcerto dele, de suas palavras desencontradas, como as minhas. Apesar do bar a dois nesta noite chuvosa de Natal.
Tudo isso acontece em menos de dois minutos, eu acho. Afinal, minha noção de tempo, agora distorcida, faz com que tudo me venha como flashes: imagens, vozes, meus próprios gestos. Volto para a mesa e o deixo na fila após ter lhe dado um bom motivo (maior que a fila) para ir embora imediatamente. Meu amigo dos tempos de colégio, também amigo dele, se levanta e vai até lá.
Retomo minha tarefa de dobrar cartões para continuar a construir caixas, sem deixar de pensar que, segundo a minha mais recente teoria sobre amores contrariados, ele é a maior caixa que criei.
Continua no próximo post
****
Personagens presentes, por ordem de aparição:
Eu, por mim mesma;
Um casal: ele, meu amigo dos tempos de colégio. Ela, amiga de faculdade;
O "último absoluto";
A amiga de trabalho do "último absoluto".
Personagens citados:
Minha amiga que também trabalha com o "último absoluto", quem deveria ter recebido a sacola. Amiga minha, não dele;
Minha amiga que não mais ganhará DVDs piratas de presente.
Eu, por mim mesma - Tomo quinto
"História que não pára de acontecer"
música: Jingle Jangle, do Hot Hot Heat
“another day, another night, another year
another smile, another lie, another tear
its bad enough this is all I've got
I never thought I'd end up here”
No meu caminho para a Igreja, onde haverá uma celebração de Natal, um desabafo me escapole em forma de oração: “Eu queria aprender a amar sem me perder de mim”.
Carrego um coração apertado e uma sacola que aperto entre os dedos, a qual deverá ser entregue à amiga que trabalha com o “último absoluto”. Ali dentro, objetos a serem devolvidos, porque não suporto mais escancarar lembranças todas as vezes que abro meu armário.
Há dois dias, como combinado, foram deixados com ela meus DVDs – entre os quais, o box do Chico Buarque. Pedi que ele os copiasse para outra amiga, com quem, por acaso, também me encontrarei em algumas horas. Ele não chegou a copiar, o que não chega a ser surpresa. O não-cumprimento sempre foi o destino de suas promessas.
Na igreja, tudo é tão bonito, a música, as luzes, que me dá paz. Lembro-me de Dostoiévski: “A beleza salvará o mundo”...
Ao término, vou para o bar onde, daqui a pouco, encontrarei a amiga que deverá receber a sacola. Um casal, meu amigo dos tempos de colégio e minha amiga de faculdade, me acompanha sem intenção de demora. Eles se conheceram por minha causa, começaram a namorar e, logo depois, meu amigo dos tempos de colégio me apresentou para o “último absoluto”.
Ligo para a amiga que já não ganhará DVDs piratas do Chico. Ela avisa que está em outro lugar, com um outro pessoal, mas que aparece mais tarde.
Na mesa, o casal e eu nos divertimos entre conversas, arranjos para a festa do Reveillon, chopes e caixas. Sim, porque estamos concentrados na fabricação de pequenas caixas feitas daqueles cartõezinhos publicitários dobrados – os que chamam de “mica”. A sacola permanece do meu lado, ali no chão. Meu coração torna a ficar apertado e não consigo deixar de voltar os meus olhos para a rua, para a porta do bar. Então, entre uma dobradura e outra, numa dessas insistentes espiadas, eu o vejo na fila, esperando para entrar.
Continuo o meu trabalho de construção de caixas até que, finalmente, anuncio sua chegada aos amigos da mesa, que riem imaginando se tratar de uma piada e que mal se convencem depois de constatarem que não. Sem pensar, por já não conseguir, passo a mão na sacola e vou até lá.
Ele está usando a mesma camisa da nossa primeira noite juntos. A mesma que vesti depois de ter estado despida, quando me vi cansada e feliz, no apartamento da amiga que, nesta noite de Natal, deveria receber a sacola que, agora, entregarei pessoalmente a quem por direito pertence.
Ele não está sozinho. Literalmente pula de susto quando me vê. Eu o cumprimento com dois beijos no rosto e entrego a sacola. “Que bom que não preciso mais carregar isto”, digo. Visivelmente desconcertado, me apresenta a sua companhia - que, por sinal, já conheço, mas ele não parece estar em condições de se lembrar disso. Assim como minha amiga, a “companhia” também trabalha com ele. Eu a conheci na última vez que nós dois nos encontramos, tão casualmente quanto agora, bem perto deste mesmo bar, quando tudo era mais recente do que ainda é. Naquele vinte e cinco de novembro -há exatamente um mês! - ele estava com um grupo de amigos do trabalho, do qual ela, a companhia, fazia parte; simplesmente, supostamente. Até aqui, tampouco vejo o que contrarie essa verdade, apesar do desconcerto dele, de suas palavras desencontradas, como as minhas. Apesar do bar a dois nesta noite chuvosa de Natal.
Tudo isso acontece em menos de dois minutos, eu acho. Afinal, minha noção de tempo, agora distorcida, faz com que tudo me venha como flashes: imagens, vozes, meus próprios gestos. Volto para a mesa e o deixo na fila após ter lhe dado um bom motivo (maior que a fila) para ir embora imediatamente. Meu amigo dos tempos de colégio, também amigo dele, se levanta e vai até lá.
Retomo minha tarefa de dobrar cartões para continuar a construir caixas, sem deixar de pensar que, segundo a minha mais recente teoria sobre amores contrariados, ele é a maior caixa que criei.
Continua no próximo post
****
Personagens presentes, por ordem de aparição:
Eu, por mim mesma;
Um casal: ele, meu amigo dos tempos de colégio. Ela, amiga de faculdade;
O "último absoluto";
A amiga de trabalho do "último absoluto".
Personagens citados:
Minha amiga que também trabalha com o "último absoluto", quem deveria ter recebido a sacola. Amiga minha, não dele;
Minha amiga que não mais ganhará DVDs piratas de presente.
música: Jingle Jangle, do Hot Hot Heat
“another day, another night, another year
another smile, another lie, another tear
its bad enough this is all I've got
I never thought I'd end up here”
No meu caminho para a Igreja, onde haverá uma celebração de Natal, um desabafo me escapole em forma de oração: “Eu queria aprender a amar sem me perder de mim”.
Carrego um coração apertado e uma sacola que aperto entre os dedos, a qual deverá ser entregue à amiga que trabalha com o “último absoluto”. Ali dentro, objetos a serem devolvidos, porque não suporto mais escancarar lembranças todas as vezes que abro meu armário.
Há dois dias, como combinado, foram deixados com ela meus DVDs – entre os quais, o box do Chico Buarque. Pedi que ele os copiasse para outra amiga, com quem, por acaso, também me encontrarei em algumas horas. Ele não chegou a copiar, o que não chega a ser surpresa. O não-cumprimento sempre foi o destino de suas promessas.
Na igreja, tudo é tão bonito, a música, as luzes, que me dá paz. Lembro-me de Dostoiévski: “A beleza salvará o mundo”...
Ao término, vou para o bar onde, daqui a pouco, encontrarei a amiga que deverá receber a sacola. Um casal, meu amigo dos tempos de colégio e minha amiga de faculdade, me acompanha sem intenção de demora. Eles se conheceram por minha causa, começaram a namorar e, logo depois, meu amigo dos tempos de colégio me apresentou para o “último absoluto”.
Ligo para a amiga que já não ganhará DVDs piratas do Chico. Ela avisa que está em outro lugar, com um outro pessoal, mas que aparece mais tarde.
Na mesa, o casal e eu nos divertimos entre conversas, arranjos para a festa do Reveillon, chopes e caixas. Sim, porque estamos concentrados na fabricação de pequenas caixas feitas daqueles cartõezinhos publicitários dobrados – os que chamam de “mica”. A sacola permanece do meu lado, ali no chão. Meu coração torna a ficar apertado e não consigo deixar de voltar os meus olhos para a rua, para a porta do bar. Então, entre uma dobradura e outra, numa dessas insistentes espiadas, eu o vejo na fila, esperando para entrar.
Continuo o meu trabalho de construção de caixas até que, finalmente, anuncio sua chegada aos amigos da mesa, que riem imaginando se tratar de uma piada e que mal se convencem depois de constatarem que não. Sem pensar, por já não conseguir, passo a mão na sacola e vou até lá.
Ele está usando a mesma camisa da nossa primeira noite juntos. A mesma que vesti depois de ter estado despida, quando me vi cansada e feliz, no apartamento da amiga que, nesta noite de Natal, deveria receber a sacola que, agora, entregarei pessoalmente a quem por direito pertence.
Ele não está sozinho. Literalmente pula de susto quando me vê. Eu o cumprimento com dois beijos no rosto e entrego a sacola. “Que bom que não preciso mais carregar isto”, digo. Visivelmente desconcertado, me apresenta a sua companhia - que, por sinal, já conheço, mas ele não parece estar em condições de se lembrar disso. Assim como minha amiga, a “companhia” também trabalha com ele. Eu a conheci na última vez que nós dois nos encontramos, tão casualmente quanto agora, bem perto deste mesmo bar, quando tudo era mais recente do que ainda é. Naquele vinte e cinco de novembro -há exatamente um mês! - ele estava com um grupo de amigos do trabalho, do qual ela, a companhia, fazia parte; simplesmente, supostamente. Até aqui, tampouco vejo o que contrarie essa verdade, apesar do desconcerto dele, de suas palavras desencontradas, como as minhas. Apesar do bar a dois nesta noite chuvosa de Natal.
Tudo isso acontece em menos de dois minutos, eu acho. Afinal, minha noção de tempo, agora distorcida, faz com que tudo me venha como flashes: imagens, vozes, meus próprios gestos. Volto para a mesa e o deixo na fila após ter lhe dado um bom motivo (maior que a fila) para ir embora imediatamente. Meu amigo dos tempos de colégio, também amigo dele, se levanta e vai até lá.
Retomo minha tarefa de dobrar cartões para continuar a construir caixas, sem deixar de pensar que, segundo a minha mais recente teoria sobre amores contrariados, ele é a maior caixa que criei.
Continua no próximo post
****
Personagens presentes, por ordem de aparição:
Eu, por mim mesma;
Um casal: ele, meu amigo dos tempos de colégio. Ela, amiga de faculdade;
O "último absoluto";
A amiga de trabalho do "último absoluto".
Personagens citados:
Minha amiga que também trabalha com o "último absoluto", quem deveria ter recebido a sacola. Amiga minha, não dele;
Minha amiga que não mais ganhará DVDs piratas de presente.
domingo, dezembro 25, 2005
Interlúdio
Carta amiga na véspera de Natal
Suas influências sobre mim se tornam cada vez mais evidentes. E eu detesto admitir, porque sempre detestei ter que te dar razão.
Ontem, no almoço na casa da Mari, tinha uma rodinha de violão. E eu, hoje, odeio rodinhas de violão. Um cara muito bacana que acabara de conhecer virou meu melhor amigo por conta dessa identificação imediata: nós dois estávamos odiando a rodinha de violão. Quando aquele coro de desafinos entoou Oceano, tive calafrios. E me lembrei de você.
À noite, fui naquela festa que combinamos, da qual você desistiu em cima da hora. Ainda fez questão de dizer que sou uma grande furona e que, portanto, eu não tinha direito a reclamações. Por essas e mais tantas te acho irritante.
Azar. Eu, se fosse você, lamentaria por perder a oportunidade de me ver berrando a letra de Bandages, do Hot Hot Heat.
Teve uma hora lá que um gringo perguntou se eu falava inglês e, com a resposta afirmativa, ficou berrando frases de contentamento por ter encontrado quem o compreendesse ali, no barulho daquela festa bêbada, esquisita e feliz.
O cara era interessante. Altão, estilo na medida, sem ser over. Eu já havia reparado, no meio de tanta gente, ele dançando sozinho. Mas você sabe do meu preconceito com gringos, né? Não é por nada, sem xenofobia, já te expliquei: odeio esse imaginário masculino internacional com relação à mulher brasileira. Odeio servir de personificação do pitoresco.
Ficamos conversando a noite inteira. Em vários momentos, pensei em uma de suas insistentes advertências: meu preconceito ainda me impediria de conhecer muita gente interessante. Mais uma vez, eu lembrei de você.
Ele tem 30 anos e estudou filosofia. Disse que eu era inteligente e tinha um ar esnobe. Você sabe que, nesses papos desconhecidos, eu sempre poso de intelectual e blasé. Pelo visto, colou. Hoje, me sinto uma farsa com padrão internacional. E, mais do que nunca, lembro de você.
Feliz Natal, amiga! Amo-te!
Suas influências sobre mim se tornam cada vez mais evidentes. E eu detesto admitir, porque sempre detestei ter que te dar razão.
Ontem, no almoço na casa da Mari, tinha uma rodinha de violão. E eu, hoje, odeio rodinhas de violão. Um cara muito bacana que acabara de conhecer virou meu melhor amigo por conta dessa identificação imediata: nós dois estávamos odiando a rodinha de violão. Quando aquele coro de desafinos entoou Oceano, tive calafrios. E me lembrei de você.
À noite, fui naquela festa que combinamos, da qual você desistiu em cima da hora. Ainda fez questão de dizer que sou uma grande furona e que, portanto, eu não tinha direito a reclamações. Por essas e mais tantas te acho irritante.
Azar. Eu, se fosse você, lamentaria por perder a oportunidade de me ver berrando a letra de Bandages, do Hot Hot Heat.
Teve uma hora lá que um gringo perguntou se eu falava inglês e, com a resposta afirmativa, ficou berrando frases de contentamento por ter encontrado quem o compreendesse ali, no barulho daquela festa bêbada, esquisita e feliz.
O cara era interessante. Altão, estilo na medida, sem ser over. Eu já havia reparado, no meio de tanta gente, ele dançando sozinho. Mas você sabe do meu preconceito com gringos, né? Não é por nada, sem xenofobia, já te expliquei: odeio esse imaginário masculino internacional com relação à mulher brasileira. Odeio servir de personificação do pitoresco.
Ficamos conversando a noite inteira. Em vários momentos, pensei em uma de suas insistentes advertências: meu preconceito ainda me impediria de conhecer muita gente interessante. Mais uma vez, eu lembrei de você.
Ele tem 30 anos e estudou filosofia. Disse que eu era inteligente e tinha um ar esnobe. Você sabe que, nesses papos desconhecidos, eu sempre poso de intelectual e blasé. Pelo visto, colou. Hoje, me sinto uma farsa com padrão internacional. E, mais do que nunca, lembro de você.
Feliz Natal, amiga! Amo-te!
Interlúdio
Carta amiga na véspera de Natal
Suas influências sobre mim se tornam cada vez mais evidentes. E eu detesto admitir, porque sempre detestei ter que te dar razão.
Ontem, no almoço na casa da Mari, tinha uma rodinha de violão. E eu, hoje, odeio rodinhas de violão. Um cara muito bacana que acabara de conhecer virou meu melhor amigo por conta dessa identificação imediata: nós dois estávamos odiando a rodinha de violão. Quando aquele coro de desafinos entoou Oceano, tive calafrios. E me lembrei de você.
À noite, fui naquela festa que combinamos, da qual você desistiu em cima da hora. Ainda fez questão de dizer que sou uma grande furona e que, portanto, eu não tinha direito a reclamações. Por essas e mais tantas te acho irritante.
Azar. Eu, se fosse você, lamentaria por perder a oportunidade de me ver berrando a letra de Bandages, do Hot Hot Heat.
Teve uma hora lá que um gringo perguntou se eu falava inglês e, com a resposta afirmativa, ficou berrando frases de contentamento por ter encontrado quem o compreendesse ali, no barulho daquela festa bêbada, esquisita e feliz.
O cara era interessante. Altão, estilo na medida, sem ser over. Eu já havia reparado, no meio de tanta gente, ele dançando sozinho. Mas você sabe do meu preconceito com gringos, né? Não é por nada, sem xenofobia, já te expliquei: odeio esse imaginário masculino internacional com relação à mulher brasileira. Odeio servir de personificação do pitoresco.
Ficamos conversando a noite inteira. Em vários momentos, pensei em uma de suas insistentes advertências: meu preconceito ainda me impediria de conhecer muita gente interessante. Mais uma vez, eu lembrei de você.
Ele tem 30 anos e estudou filosofia. Disse que eu era inteligente e tinha um ar esnobe. Você sabe que, nesses papos desconhecidos, eu sempre poso de intelectual e blasé. Pelo visto, colou. Hoje, me sinto uma farsa com padrão internacional. E, mais do que nunca, lembro de você.
Feliz Natal, amiga! Amo-te!
Suas influências sobre mim se tornam cada vez mais evidentes. E eu detesto admitir, porque sempre detestei ter que te dar razão.
Ontem, no almoço na casa da Mari, tinha uma rodinha de violão. E eu, hoje, odeio rodinhas de violão. Um cara muito bacana que acabara de conhecer virou meu melhor amigo por conta dessa identificação imediata: nós dois estávamos odiando a rodinha de violão. Quando aquele coro de desafinos entoou Oceano, tive calafrios. E me lembrei de você.
À noite, fui naquela festa que combinamos, da qual você desistiu em cima da hora. Ainda fez questão de dizer que sou uma grande furona e que, portanto, eu não tinha direito a reclamações. Por essas e mais tantas te acho irritante.
Azar. Eu, se fosse você, lamentaria por perder a oportunidade de me ver berrando a letra de Bandages, do Hot Hot Heat.
Teve uma hora lá que um gringo perguntou se eu falava inglês e, com a resposta afirmativa, ficou berrando frases de contentamento por ter encontrado quem o compreendesse ali, no barulho daquela festa bêbada, esquisita e feliz.
O cara era interessante. Altão, estilo na medida, sem ser over. Eu já havia reparado, no meio de tanta gente, ele dançando sozinho. Mas você sabe do meu preconceito com gringos, né? Não é por nada, sem xenofobia, já te expliquei: odeio esse imaginário masculino internacional com relação à mulher brasileira. Odeio servir de personificação do pitoresco.
Ficamos conversando a noite inteira. Em vários momentos, pensei em uma de suas insistentes advertências: meu preconceito ainda me impediria de conhecer muita gente interessante. Mais uma vez, eu lembrei de você.
Ele tem 30 anos e estudou filosofia. Disse que eu era inteligente e tinha um ar esnobe. Você sabe que, nesses papos desconhecidos, eu sempre poso de intelectual e blasé. Pelo visto, colou. Hoje, me sinto uma farsa com padrão internacional. E, mais do que nunca, lembro de você.
Feliz Natal, amiga! Amo-te!
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