"História que não pára de acontecer"
música: Jingle Jangle, do Hot Hot Heat
“another day, another night, another year
another smile, another lie, another tear
its bad enough this is all I've got
I never thought I'd end up here”
No meu caminho para a Igreja, onde haverá uma celebração de Natal, um desabafo me escapole em forma de oração: “Eu queria aprender a amar sem me perder de mim”.
Carrego um coração apertado e uma sacola que aperto entre os dedos, a qual deverá ser entregue à amiga que trabalha com o “último absoluto”. Ali dentro, objetos a serem devolvidos, porque não suporto mais escancarar lembranças todas as vezes que abro meu armário.
Há dois dias, como combinado, foram deixados com ela meus DVDs – entre os quais, o box do Chico Buarque. Pedi que ele os copiasse para outra amiga, com quem, por acaso, também me encontrarei em algumas horas. Ele não chegou a copiar, o que não chega a ser surpresa. O não-cumprimento sempre foi o destino de suas promessas.
Na igreja, tudo é tão bonito, a música, as luzes, que me dá paz. Lembro-me de Dostoiévski: “A beleza salvará o mundo”...
Ao término, vou para o bar onde, daqui a pouco, encontrarei a amiga que deverá receber a sacola. Um casal, meu amigo dos tempos de colégio e minha amiga de faculdade, me acompanha sem intenção de demora. Eles se conheceram por minha causa, começaram a namorar e, logo depois, meu amigo dos tempos de colégio me apresentou para o “último absoluto”.
Ligo para a amiga que já não ganhará DVDs piratas do Chico. Ela avisa que está em outro lugar, com um outro pessoal, mas que aparece mais tarde.
Na mesa, o casal e eu nos divertimos entre conversas, arranjos para a festa do Reveillon, chopes e caixas. Sim, porque estamos concentrados na fabricação de pequenas caixas feitas daqueles cartõezinhos publicitários dobrados – os que chamam de “mica”. A sacola permanece do meu lado, ali no chão. Meu coração torna a ficar apertado e não consigo deixar de voltar os meus olhos para a rua, para a porta do bar. Então, entre uma dobradura e outra, numa dessas insistentes espiadas, eu o vejo na fila, esperando para entrar.
Continuo o meu trabalho de construção de caixas até que, finalmente, anuncio sua chegada aos amigos da mesa, que riem imaginando se tratar de uma piada e que mal se convencem depois de constatarem que não. Sem pensar, por já não conseguir, passo a mão na sacola e vou até lá.
Ele está usando a mesma camisa da nossa primeira noite juntos. A mesma que vesti depois de ter estado despida, quando me vi cansada e feliz, no apartamento da amiga que, nesta noite de Natal, deveria receber a sacola que, agora, entregarei pessoalmente a quem por direito pertence.
Ele não está sozinho. Literalmente pula de susto quando me vê. Eu o cumprimento com dois beijos no rosto e entrego a sacola. “Que bom que não preciso mais carregar isto”, digo. Visivelmente desconcertado, me apresenta a sua companhia - que, por sinal, já conheço, mas ele não parece estar em condições de se lembrar disso. Assim como minha amiga, a “companhia” também trabalha com ele. Eu a conheci na última vez que nós dois nos encontramos, tão casualmente quanto agora, bem perto deste mesmo bar, quando tudo era mais recente do que ainda é. Naquele vinte e cinco de novembro -há exatamente um mês! - ele estava com um grupo de amigos do trabalho, do qual ela, a companhia, fazia parte; simplesmente, supostamente. Até aqui, tampouco vejo o que contrarie essa verdade, apesar do desconcerto dele, de suas palavras desencontradas, como as minhas. Apesar do bar a dois nesta noite chuvosa de Natal.
Tudo isso acontece em menos de dois minutos, eu acho. Afinal, minha noção de tempo, agora distorcida, faz com que tudo me venha como flashes: imagens, vozes, meus próprios gestos. Volto para a mesa e o deixo na fila após ter lhe dado um bom motivo (maior que a fila) para ir embora imediatamente. Meu amigo dos tempos de colégio, também amigo dele, se levanta e vai até lá.
Retomo minha tarefa de dobrar cartões para continuar a construir caixas, sem deixar de pensar que, segundo a minha mais recente teoria sobre amores contrariados, ele é a maior caixa que criei.
Continua no próximo post
****
Personagens presentes, por ordem de aparição:
Eu, por mim mesma;
Um casal: ele, meu amigo dos tempos de colégio. Ela, amiga de faculdade;
O "último absoluto";
A amiga de trabalho do "último absoluto".
Personagens citados:
Minha amiga que também trabalha com o "último absoluto", quem deveria ter recebido a sacola. Amiga minha, não dele;
Minha amiga que não mais ganhará DVDs piratas de presente.
terça-feira, dezembro 27, 2005
Eu, por mim mesma - Tomo quinto
"História que não pára de acontecer"
música: Jingle Jangle, do Hot Hot Heat
“another day, another night, another year
another smile, another lie, another tear
its bad enough this is all I've got
I never thought I'd end up here”
No meu caminho para a Igreja, onde haverá uma celebração de Natal, um desabafo me escapole em forma de oração: “Eu queria aprender a amar sem me perder de mim”.
Carrego um coração apertado e uma sacola que aperto entre os dedos, a qual deverá ser entregue à amiga que trabalha com o “último absoluto”. Ali dentro, objetos a serem devolvidos, porque não suporto mais escancarar lembranças todas as vezes que abro meu armário.
Há dois dias, como combinado, foram deixados com ela meus DVDs – entre os quais, o box do Chico Buarque. Pedi que ele os copiasse para outra amiga, com quem, por acaso, também me encontrarei em algumas horas. Ele não chegou a copiar, o que não chega a ser surpresa. O não-cumprimento sempre foi o destino de suas promessas.
Na igreja, tudo é tão bonito, a música, as luzes, que me dá paz. Lembro-me de Dostoiévski: “A beleza salvará o mundo”...
Ao término, vou para o bar onde, daqui a pouco, encontrarei a amiga que deverá receber a sacola. Um casal, meu amigo dos tempos de colégio e minha amiga de faculdade, me acompanha sem intenção de demora. Eles se conheceram por minha causa, começaram a namorar e, logo depois, meu amigo dos tempos de colégio me apresentou para o “último absoluto”.
Ligo para a amiga que já não ganhará DVDs piratas do Chico. Ela avisa que está em outro lugar, com um outro pessoal, mas que aparece mais tarde.
Na mesa, o casal e eu nos divertimos entre conversas, arranjos para a festa do Reveillon, chopes e caixas. Sim, porque estamos concentrados na fabricação de pequenas caixas feitas daqueles cartõezinhos publicitários dobrados – os que chamam de “mica”. A sacola permanece do meu lado, ali no chão. Meu coração torna a ficar apertado e não consigo deixar de voltar os meus olhos para a rua, para a porta do bar. Então, entre uma dobradura e outra, numa dessas insistentes espiadas, eu o vejo na fila, esperando para entrar.
Continuo o meu trabalho de construção de caixas até que, finalmente, anuncio sua chegada aos amigos da mesa, que riem imaginando se tratar de uma piada e que mal se convencem depois de constatarem que não. Sem pensar, por já não conseguir, passo a mão na sacola e vou até lá.
Ele está usando a mesma camisa da nossa primeira noite juntos. A mesma que vesti depois de ter estado despida, quando me vi cansada e feliz, no apartamento da amiga que, nesta noite de Natal, deveria receber a sacola que, agora, entregarei pessoalmente a quem por direito pertence.
Ele não está sozinho. Literalmente pula de susto quando me vê. Eu o cumprimento com dois beijos no rosto e entrego a sacola. “Que bom que não preciso mais carregar isto”, digo. Visivelmente desconcertado, me apresenta a sua companhia - que, por sinal, já conheço, mas ele não parece estar em condições de se lembrar disso. Assim como minha amiga, a “companhia” também trabalha com ele. Eu a conheci na última vez que nós dois nos encontramos, tão casualmente quanto agora, bem perto deste mesmo bar, quando tudo era mais recente do que ainda é. Naquele vinte e cinco de novembro -há exatamente um mês! - ele estava com um grupo de amigos do trabalho, do qual ela, a companhia, fazia parte; simplesmente, supostamente. Até aqui, tampouco vejo o que contrarie essa verdade, apesar do desconcerto dele, de suas palavras desencontradas, como as minhas. Apesar do bar a dois nesta noite chuvosa de Natal.
Tudo isso acontece em menos de dois minutos, eu acho. Afinal, minha noção de tempo, agora distorcida, faz com que tudo me venha como flashes: imagens, vozes, meus próprios gestos. Volto para a mesa e o deixo na fila após ter lhe dado um bom motivo (maior que a fila) para ir embora imediatamente. Meu amigo dos tempos de colégio, também amigo dele, se levanta e vai até lá.
Retomo minha tarefa de dobrar cartões para continuar a construir caixas, sem deixar de pensar que, segundo a minha mais recente teoria sobre amores contrariados, ele é a maior caixa que criei.
Continua no próximo post
****
Personagens presentes, por ordem de aparição:
Eu, por mim mesma;
Um casal: ele, meu amigo dos tempos de colégio. Ela, amiga de faculdade;
O "último absoluto";
A amiga de trabalho do "último absoluto".
Personagens citados:
Minha amiga que também trabalha com o "último absoluto", quem deveria ter recebido a sacola. Amiga minha, não dele;
Minha amiga que não mais ganhará DVDs piratas de presente.
música: Jingle Jangle, do Hot Hot Heat
“another day, another night, another year
another smile, another lie, another tear
its bad enough this is all I've got
I never thought I'd end up here”
No meu caminho para a Igreja, onde haverá uma celebração de Natal, um desabafo me escapole em forma de oração: “Eu queria aprender a amar sem me perder de mim”.
Carrego um coração apertado e uma sacola que aperto entre os dedos, a qual deverá ser entregue à amiga que trabalha com o “último absoluto”. Ali dentro, objetos a serem devolvidos, porque não suporto mais escancarar lembranças todas as vezes que abro meu armário.
Há dois dias, como combinado, foram deixados com ela meus DVDs – entre os quais, o box do Chico Buarque. Pedi que ele os copiasse para outra amiga, com quem, por acaso, também me encontrarei em algumas horas. Ele não chegou a copiar, o que não chega a ser surpresa. O não-cumprimento sempre foi o destino de suas promessas.
Na igreja, tudo é tão bonito, a música, as luzes, que me dá paz. Lembro-me de Dostoiévski: “A beleza salvará o mundo”...
Ao término, vou para o bar onde, daqui a pouco, encontrarei a amiga que deverá receber a sacola. Um casal, meu amigo dos tempos de colégio e minha amiga de faculdade, me acompanha sem intenção de demora. Eles se conheceram por minha causa, começaram a namorar e, logo depois, meu amigo dos tempos de colégio me apresentou para o “último absoluto”.
Ligo para a amiga que já não ganhará DVDs piratas do Chico. Ela avisa que está em outro lugar, com um outro pessoal, mas que aparece mais tarde.
Na mesa, o casal e eu nos divertimos entre conversas, arranjos para a festa do Reveillon, chopes e caixas. Sim, porque estamos concentrados na fabricação de pequenas caixas feitas daqueles cartõezinhos publicitários dobrados – os que chamam de “mica”. A sacola permanece do meu lado, ali no chão. Meu coração torna a ficar apertado e não consigo deixar de voltar os meus olhos para a rua, para a porta do bar. Então, entre uma dobradura e outra, numa dessas insistentes espiadas, eu o vejo na fila, esperando para entrar.
Continuo o meu trabalho de construção de caixas até que, finalmente, anuncio sua chegada aos amigos da mesa, que riem imaginando se tratar de uma piada e que mal se convencem depois de constatarem que não. Sem pensar, por já não conseguir, passo a mão na sacola e vou até lá.
Ele está usando a mesma camisa da nossa primeira noite juntos. A mesma que vesti depois de ter estado despida, quando me vi cansada e feliz, no apartamento da amiga que, nesta noite de Natal, deveria receber a sacola que, agora, entregarei pessoalmente a quem por direito pertence.
Ele não está sozinho. Literalmente pula de susto quando me vê. Eu o cumprimento com dois beijos no rosto e entrego a sacola. “Que bom que não preciso mais carregar isto”, digo. Visivelmente desconcertado, me apresenta a sua companhia - que, por sinal, já conheço, mas ele não parece estar em condições de se lembrar disso. Assim como minha amiga, a “companhia” também trabalha com ele. Eu a conheci na última vez que nós dois nos encontramos, tão casualmente quanto agora, bem perto deste mesmo bar, quando tudo era mais recente do que ainda é. Naquele vinte e cinco de novembro -há exatamente um mês! - ele estava com um grupo de amigos do trabalho, do qual ela, a companhia, fazia parte; simplesmente, supostamente. Até aqui, tampouco vejo o que contrarie essa verdade, apesar do desconcerto dele, de suas palavras desencontradas, como as minhas. Apesar do bar a dois nesta noite chuvosa de Natal.
Tudo isso acontece em menos de dois minutos, eu acho. Afinal, minha noção de tempo, agora distorcida, faz com que tudo me venha como flashes: imagens, vozes, meus próprios gestos. Volto para a mesa e o deixo na fila após ter lhe dado um bom motivo (maior que a fila) para ir embora imediatamente. Meu amigo dos tempos de colégio, também amigo dele, se levanta e vai até lá.
Retomo minha tarefa de dobrar cartões para continuar a construir caixas, sem deixar de pensar que, segundo a minha mais recente teoria sobre amores contrariados, ele é a maior caixa que criei.
Continua no próximo post
****
Personagens presentes, por ordem de aparição:
Eu, por mim mesma;
Um casal: ele, meu amigo dos tempos de colégio. Ela, amiga de faculdade;
O "último absoluto";
A amiga de trabalho do "último absoluto".
Personagens citados:
Minha amiga que também trabalha com o "último absoluto", quem deveria ter recebido a sacola. Amiga minha, não dele;
Minha amiga que não mais ganhará DVDs piratas de presente.
domingo, dezembro 25, 2005
Interlúdio
Carta amiga na véspera de Natal
Suas influências sobre mim se tornam cada vez mais evidentes. E eu detesto admitir, porque sempre detestei ter que te dar razão.
Ontem, no almoço na casa da Mari, tinha uma rodinha de violão. E eu, hoje, odeio rodinhas de violão. Um cara muito bacana que acabara de conhecer virou meu melhor amigo por conta dessa identificação imediata: nós dois estávamos odiando a rodinha de violão. Quando aquele coro de desafinos entoou Oceano, tive calafrios. E me lembrei de você.
À noite, fui naquela festa que combinamos, da qual você desistiu em cima da hora. Ainda fez questão de dizer que sou uma grande furona e que, portanto, eu não tinha direito a reclamações. Por essas e mais tantas te acho irritante.
Azar. Eu, se fosse você, lamentaria por perder a oportunidade de me ver berrando a letra de Bandages, do Hot Hot Heat.
Teve uma hora lá que um gringo perguntou se eu falava inglês e, com a resposta afirmativa, ficou berrando frases de contentamento por ter encontrado quem o compreendesse ali, no barulho daquela festa bêbada, esquisita e feliz.
O cara era interessante. Altão, estilo na medida, sem ser over. Eu já havia reparado, no meio de tanta gente, ele dançando sozinho. Mas você sabe do meu preconceito com gringos, né? Não é por nada, sem xenofobia, já te expliquei: odeio esse imaginário masculino internacional com relação à mulher brasileira. Odeio servir de personificação do pitoresco.
Ficamos conversando a noite inteira. Em vários momentos, pensei em uma de suas insistentes advertências: meu preconceito ainda me impediria de conhecer muita gente interessante. Mais uma vez, eu lembrei de você.
Ele tem 30 anos e estudou filosofia. Disse que eu era inteligente e tinha um ar esnobe. Você sabe que, nesses papos desconhecidos, eu sempre poso de intelectual e blasé. Pelo visto, colou. Hoje, me sinto uma farsa com padrão internacional. E, mais do que nunca, lembro de você.
Feliz Natal, amiga! Amo-te!
Suas influências sobre mim se tornam cada vez mais evidentes. E eu detesto admitir, porque sempre detestei ter que te dar razão.
Ontem, no almoço na casa da Mari, tinha uma rodinha de violão. E eu, hoje, odeio rodinhas de violão. Um cara muito bacana que acabara de conhecer virou meu melhor amigo por conta dessa identificação imediata: nós dois estávamos odiando a rodinha de violão. Quando aquele coro de desafinos entoou Oceano, tive calafrios. E me lembrei de você.
À noite, fui naquela festa que combinamos, da qual você desistiu em cima da hora. Ainda fez questão de dizer que sou uma grande furona e que, portanto, eu não tinha direito a reclamações. Por essas e mais tantas te acho irritante.
Azar. Eu, se fosse você, lamentaria por perder a oportunidade de me ver berrando a letra de Bandages, do Hot Hot Heat.
Teve uma hora lá que um gringo perguntou se eu falava inglês e, com a resposta afirmativa, ficou berrando frases de contentamento por ter encontrado quem o compreendesse ali, no barulho daquela festa bêbada, esquisita e feliz.
O cara era interessante. Altão, estilo na medida, sem ser over. Eu já havia reparado, no meio de tanta gente, ele dançando sozinho. Mas você sabe do meu preconceito com gringos, né? Não é por nada, sem xenofobia, já te expliquei: odeio esse imaginário masculino internacional com relação à mulher brasileira. Odeio servir de personificação do pitoresco.
Ficamos conversando a noite inteira. Em vários momentos, pensei em uma de suas insistentes advertências: meu preconceito ainda me impediria de conhecer muita gente interessante. Mais uma vez, eu lembrei de você.
Ele tem 30 anos e estudou filosofia. Disse que eu era inteligente e tinha um ar esnobe. Você sabe que, nesses papos desconhecidos, eu sempre poso de intelectual e blasé. Pelo visto, colou. Hoje, me sinto uma farsa com padrão internacional. E, mais do que nunca, lembro de você.
Feliz Natal, amiga! Amo-te!
Interlúdio
Carta amiga na véspera de Natal
Suas influências sobre mim se tornam cada vez mais evidentes. E eu detesto admitir, porque sempre detestei ter que te dar razão.
Ontem, no almoço na casa da Mari, tinha uma rodinha de violão. E eu, hoje, odeio rodinhas de violão. Um cara muito bacana que acabara de conhecer virou meu melhor amigo por conta dessa identificação imediata: nós dois estávamos odiando a rodinha de violão. Quando aquele coro de desafinos entoou Oceano, tive calafrios. E me lembrei de você.
À noite, fui naquela festa que combinamos, da qual você desistiu em cima da hora. Ainda fez questão de dizer que sou uma grande furona e que, portanto, eu não tinha direito a reclamações. Por essas e mais tantas te acho irritante.
Azar. Eu, se fosse você, lamentaria por perder a oportunidade de me ver berrando a letra de Bandages, do Hot Hot Heat.
Teve uma hora lá que um gringo perguntou se eu falava inglês e, com a resposta afirmativa, ficou berrando frases de contentamento por ter encontrado quem o compreendesse ali, no barulho daquela festa bêbada, esquisita e feliz.
O cara era interessante. Altão, estilo na medida, sem ser over. Eu já havia reparado, no meio de tanta gente, ele dançando sozinho. Mas você sabe do meu preconceito com gringos, né? Não é por nada, sem xenofobia, já te expliquei: odeio esse imaginário masculino internacional com relação à mulher brasileira. Odeio servir de personificação do pitoresco.
Ficamos conversando a noite inteira. Em vários momentos, pensei em uma de suas insistentes advertências: meu preconceito ainda me impediria de conhecer muita gente interessante. Mais uma vez, eu lembrei de você.
Ele tem 30 anos e estudou filosofia. Disse que eu era inteligente e tinha um ar esnobe. Você sabe que, nesses papos desconhecidos, eu sempre poso de intelectual e blasé. Pelo visto, colou. Hoje, me sinto uma farsa com padrão internacional. E, mais do que nunca, lembro de você.
Feliz Natal, amiga! Amo-te!
Suas influências sobre mim se tornam cada vez mais evidentes. E eu detesto admitir, porque sempre detestei ter que te dar razão.
Ontem, no almoço na casa da Mari, tinha uma rodinha de violão. E eu, hoje, odeio rodinhas de violão. Um cara muito bacana que acabara de conhecer virou meu melhor amigo por conta dessa identificação imediata: nós dois estávamos odiando a rodinha de violão. Quando aquele coro de desafinos entoou Oceano, tive calafrios. E me lembrei de você.
À noite, fui naquela festa que combinamos, da qual você desistiu em cima da hora. Ainda fez questão de dizer que sou uma grande furona e que, portanto, eu não tinha direito a reclamações. Por essas e mais tantas te acho irritante.
Azar. Eu, se fosse você, lamentaria por perder a oportunidade de me ver berrando a letra de Bandages, do Hot Hot Heat.
Teve uma hora lá que um gringo perguntou se eu falava inglês e, com a resposta afirmativa, ficou berrando frases de contentamento por ter encontrado quem o compreendesse ali, no barulho daquela festa bêbada, esquisita e feliz.
O cara era interessante. Altão, estilo na medida, sem ser over. Eu já havia reparado, no meio de tanta gente, ele dançando sozinho. Mas você sabe do meu preconceito com gringos, né? Não é por nada, sem xenofobia, já te expliquei: odeio esse imaginário masculino internacional com relação à mulher brasileira. Odeio servir de personificação do pitoresco.
Ficamos conversando a noite inteira. Em vários momentos, pensei em uma de suas insistentes advertências: meu preconceito ainda me impediria de conhecer muita gente interessante. Mais uma vez, eu lembrei de você.
Ele tem 30 anos e estudou filosofia. Disse que eu era inteligente e tinha um ar esnobe. Você sabe que, nesses papos desconhecidos, eu sempre poso de intelectual e blasé. Pelo visto, colou. Hoje, me sinto uma farsa com padrão internacional. E, mais do que nunca, lembro de você.
Feliz Natal, amiga! Amo-te!
quinta-feira, dezembro 22, 2005
Eu, por mim mesma - Tomo quarto
"No torpor do meu delírio torpe"
No recesso de tudo, durante os já falados quinze dias, li dois livros, ambos por indicações queridas. O primeiro, “A casa das belas adormecidas”, do Yasunari Kawabata, surgiu na conversa de mesa antes do cinema. Foi o que inspirou o Gabriel García Márquez em “Memoria de mis putas tristes”, o qual li no início do ano.
Dê discorreu poucos minutos sobre a obra. Suficiente para eu passar na livraria, depois da sessão de "Broken Flowers", e comprar um exemplar. Pedi que ela escrevesse uma dedicatória. “Por uma juventude menos ordinária; para uma velhice plena de alegrias, risos, acasos e lindas recordações. Que todos os nossos encontros e desencontros sejam como esse”. Palavras que ganhei.
O segundo foi indicação da Lili, que viu semelhanças entre meu jeito de escrever e o estilo da autora. O sugestivo título é "Ao homem que não me quis". Guardo a inspiração para os próximos tomos.
*****
O velho Eguchi, personagem experienciador, ao dormir com virgens dopadas, impedido de penetrá-las, faz de seus corpos catalisadores de lembranças. A vida é um amontoado de saudades. Em estado adiantado, tudo se acumula até doer...
Ora cheiros, ora toques; por vezes gosto, algumas rememoradas imagens. Ao som de ondas e rochas despudoradas que se esfregam naturalmente. O velho Eguchi, em suas experiências dos sentidos – propiciadas por aromas, cores, texturas, suspiros e sabores de suas belas adormecidas – , radicaliza a minha experiência de criação de caixas.
Elas, as belas, existem para que Eguchi viva suas melhores lembranças, seus acúmulos de fim de vida. As belas não precisam estar despertas para despertarem saudades esquecidas. Melhor até que não. Com as minhas caixas pesadas, amores são devaneios de embriaguez que dura até passar.
Com a leitura, roguei pela existência de quem me desvelasse; um corpo adormecido, no torpor do meu delírio torpe, que me lembrasse do muito amor que tenho, que esbanjo, e que só dou pra quem não pede. Que acumulo até explodir com juros, em juras.
Esconjuro. Juraria pelo sagrado para não precisar depender do pressuposto cruel de ser amada. Existindo quem me ame, me envaideço. Na ausência de quem me sinta, minha ira é dádiva.
A caixa, o depósito de meu sentir pesado, quem quer que seja, melhor que reste entorpecido, para não julgar as irrealidades dos meus ideais dopados.
No recesso de tudo, durante os já falados quinze dias, li dois livros, ambos por indicações queridas. O primeiro, “A casa das belas adormecidas”, do Yasunari Kawabata, surgiu na conversa de mesa antes do cinema. Foi o que inspirou o Gabriel García Márquez em “Memoria de mis putas tristes”, o qual li no início do ano.
Dê discorreu poucos minutos sobre a obra. Suficiente para eu passar na livraria, depois da sessão de "Broken Flowers", e comprar um exemplar. Pedi que ela escrevesse uma dedicatória. “Por uma juventude menos ordinária; para uma velhice plena de alegrias, risos, acasos e lindas recordações. Que todos os nossos encontros e desencontros sejam como esse”. Palavras que ganhei.
O segundo foi indicação da Lili, que viu semelhanças entre meu jeito de escrever e o estilo da autora. O sugestivo título é "Ao homem que não me quis". Guardo a inspiração para os próximos tomos.
*****
O velho Eguchi, personagem experienciador, ao dormir com virgens dopadas, impedido de penetrá-las, faz de seus corpos catalisadores de lembranças. A vida é um amontoado de saudades. Em estado adiantado, tudo se acumula até doer...
Ora cheiros, ora toques; por vezes gosto, algumas rememoradas imagens. Ao som de ondas e rochas despudoradas que se esfregam naturalmente. O velho Eguchi, em suas experiências dos sentidos – propiciadas por aromas, cores, texturas, suspiros e sabores de suas belas adormecidas – , radicaliza a minha experiência de criação de caixas.
Elas, as belas, existem para que Eguchi viva suas melhores lembranças, seus acúmulos de fim de vida. As belas não precisam estar despertas para despertarem saudades esquecidas. Melhor até que não. Com as minhas caixas pesadas, amores são devaneios de embriaguez que dura até passar.
Com a leitura, roguei pela existência de quem me desvelasse; um corpo adormecido, no torpor do meu delírio torpe, que me lembrasse do muito amor que tenho, que esbanjo, e que só dou pra quem não pede. Que acumulo até explodir com juros, em juras.
Esconjuro. Juraria pelo sagrado para não precisar depender do pressuposto cruel de ser amada. Existindo quem me ame, me envaideço. Na ausência de quem me sinta, minha ira é dádiva.
A caixa, o depósito de meu sentir pesado, quem quer que seja, melhor que reste entorpecido, para não julgar as irrealidades dos meus ideais dopados.
Eu, por mim mesma - Tomo quarto
"No torpor do meu delírio torpe"
No recesso de tudo, durante os já falados quinze dias, li dois livros, ambos por indicações queridas. O primeiro, “A casa das belas adormecidas”, do Yasunari Kawabata, surgiu na conversa de mesa antes do cinema. Foi o que inspirou o Gabriel García Márquez em “Memoria de mis putas tristes”, o qual li no início do ano.
Dê discorreu poucos minutos sobre a obra. Suficiente para eu passar na livraria, depois da sessão de "Broken Flowers", e comprar um exemplar. Pedi que ela escrevesse uma dedicatória. “Por uma juventude menos ordinária; para uma velhice plena de alegrias, risos, acasos e lindas recordações. Que todos os nossos encontros e desencontros sejam como esse”. Palavras que ganhei.
O segundo foi indicação da Lili, que viu semelhanças entre meu jeito de escrever e o estilo da autora. O sugestivo título é "Ao homem que não me quis". Guardo a inspiração para os próximos tomos.
*****
O velho Eguchi, personagem experienciador, ao dormir com virgens dopadas, impedido de penetrá-las, faz de seus corpos catalisadores de lembranças. A vida é um amontoado de saudades. Em estado adiantado, tudo se acumula até doer...
Ora cheiros, ora toques; por vezes gosto, algumas rememoradas imagens. Ao som de ondas e rochas despudoradas que se esfregam naturalmente. O velho Eguchi, em suas experiências dos sentidos – propiciadas por aromas, cores, texturas, suspiros e sabores de suas belas adormecidas – , radicaliza a minha experiência de criação de caixas.
Elas, as belas, existem para que Eguchi viva suas melhores lembranças, seus acúmulos de fim de vida. As belas não precisam estar despertas para despertarem saudades esquecidas. Melhor até que não. Com as minhas caixas pesadas, amores são devaneios de embriaguez que dura até passar.
Com a leitura, roguei pela existência de quem me desvelasse; um corpo adormecido, no torpor do meu delírio torpe, que me lembrasse do muito amor que tenho, que esbanjo, e que só dou pra quem não pede. Que acumulo até explodir com juros, em juras.
Esconjuro. Juraria pelo sagrado para não precisar depender do pressuposto cruel de ser amada. Existindo quem me ame, me envaideço. Na ausência de quem me sinta, minha ira é dádiva.
A caixa, o depósito de meu sentir pesado, quem quer que seja, melhor que reste entorpecido, para não julgar as irrealidades dos meus ideais dopados.
No recesso de tudo, durante os já falados quinze dias, li dois livros, ambos por indicações queridas. O primeiro, “A casa das belas adormecidas”, do Yasunari Kawabata, surgiu na conversa de mesa antes do cinema. Foi o que inspirou o Gabriel García Márquez em “Memoria de mis putas tristes”, o qual li no início do ano.
Dê discorreu poucos minutos sobre a obra. Suficiente para eu passar na livraria, depois da sessão de "Broken Flowers", e comprar um exemplar. Pedi que ela escrevesse uma dedicatória. “Por uma juventude menos ordinária; para uma velhice plena de alegrias, risos, acasos e lindas recordações. Que todos os nossos encontros e desencontros sejam como esse”. Palavras que ganhei.
O segundo foi indicação da Lili, que viu semelhanças entre meu jeito de escrever e o estilo da autora. O sugestivo título é "Ao homem que não me quis". Guardo a inspiração para os próximos tomos.
*****
O velho Eguchi, personagem experienciador, ao dormir com virgens dopadas, impedido de penetrá-las, faz de seus corpos catalisadores de lembranças. A vida é um amontoado de saudades. Em estado adiantado, tudo se acumula até doer...
Ora cheiros, ora toques; por vezes gosto, algumas rememoradas imagens. Ao som de ondas e rochas despudoradas que se esfregam naturalmente. O velho Eguchi, em suas experiências dos sentidos – propiciadas por aromas, cores, texturas, suspiros e sabores de suas belas adormecidas – , radicaliza a minha experiência de criação de caixas.
Elas, as belas, existem para que Eguchi viva suas melhores lembranças, seus acúmulos de fim de vida. As belas não precisam estar despertas para despertarem saudades esquecidas. Melhor até que não. Com as minhas caixas pesadas, amores são devaneios de embriaguez que dura até passar.
Com a leitura, roguei pela existência de quem me desvelasse; um corpo adormecido, no torpor do meu delírio torpe, que me lembrasse do muito amor que tenho, que esbanjo, e que só dou pra quem não pede. Que acumulo até explodir com juros, em juras.
Esconjuro. Juraria pelo sagrado para não precisar depender do pressuposto cruel de ser amada. Existindo quem me ame, me envaideço. Na ausência de quem me sinta, minha ira é dádiva.
A caixa, o depósito de meu sentir pesado, quem quer que seja, melhor que reste entorpecido, para não julgar as irrealidades dos meus ideais dopados.
sábado, dezembro 17, 2005
Eu, por mim mesma - Tomo terceiro
"Haja caixa pra tanto espetáculo"
Poucas vezes me vi amando. Já tentei inventar mil amores, mas sou exigente demais na hora de me iludir. A fantasia da cabeça voa até se esbarrar na coerência do meu sentir.
O “autor da frase” (último relacionamento duradouro que deixou de durar) tinha a cara de sonhos há muito gestados. “Nunca te vi e sempre te amei”. E eu achava que isso era uma doença a ser curada.
Hoje, penso que meus raros amores me serviram de caixas. Por conta da raridade dos meus amores, acumulo peças até encontrar uma caixa que eu julgue capaz de receber toda a minha capacidade de doar. Eu acumulo tanto pra dar muito depois. É por isso que não funciona. As poucas pessoas que amei foram as caixas escolhidas para entulhar de minhas sensações guardadas. Deve mesmo pesar.
Tudo fermenta dentro de mim, até o momento de oferecer. Eu mesma me deleito com aroma e sabor do que está há tempos engarrafado. Como aprovo tudo, é óbvio que recuso a desfeita de não ser de(gustada). Minha vaidade capital é pecado...
O “último absoluto” foi a melhor caixa que encontrei. Certa de que precisava me desvencilhar dos meus modelos, mantive a idéia fixa de me surpreender. E aconteceu. Sem pensar em nada, nesses esbarrões do acaso, encontrei nele o depósito para o que eu imaginava ser o melhor de mim.
Uma vez eu lhe disse que não sabia se gostava de estar com ele, ou se gostava de mim mesma quando ao seu lado. Palavras que exemplificam minha maneira egocêntrica de amar.
A caixa, pra completar, era espelhada. Nela, eu amava contemplar minha cara de amante. Tantas pessoas passam por mim sem que eu as ame que quando acontece é festa, palco, filme, aplauso. Um pouco circo também. Nessas horas, corda-bamba e nariz de palhaço é comigo mesmo.
Haja caixa pra tanto espetáculo...
Poucas vezes me vi amando. Já tentei inventar mil amores, mas sou exigente demais na hora de me iludir. A fantasia da cabeça voa até se esbarrar na coerência do meu sentir.
O “autor da frase” (último relacionamento duradouro que deixou de durar) tinha a cara de sonhos há muito gestados. “Nunca te vi e sempre te amei”. E eu achava que isso era uma doença a ser curada.
Hoje, penso que meus raros amores me serviram de caixas. Por conta da raridade dos meus amores, acumulo peças até encontrar uma caixa que eu julgue capaz de receber toda a minha capacidade de doar. Eu acumulo tanto pra dar muito depois. É por isso que não funciona. As poucas pessoas que amei foram as caixas escolhidas para entulhar de minhas sensações guardadas. Deve mesmo pesar.
Tudo fermenta dentro de mim, até o momento de oferecer. Eu mesma me deleito com aroma e sabor do que está há tempos engarrafado. Como aprovo tudo, é óbvio que recuso a desfeita de não ser de(gustada). Minha vaidade capital é pecado...
O “último absoluto” foi a melhor caixa que encontrei. Certa de que precisava me desvencilhar dos meus modelos, mantive a idéia fixa de me surpreender. E aconteceu. Sem pensar em nada, nesses esbarrões do acaso, encontrei nele o depósito para o que eu imaginava ser o melhor de mim.
Uma vez eu lhe disse que não sabia se gostava de estar com ele, ou se gostava de mim mesma quando ao seu lado. Palavras que exemplificam minha maneira egocêntrica de amar.
A caixa, pra completar, era espelhada. Nela, eu amava contemplar minha cara de amante. Tantas pessoas passam por mim sem que eu as ame que quando acontece é festa, palco, filme, aplauso. Um pouco circo também. Nessas horas, corda-bamba e nariz de palhaço é comigo mesmo.
Haja caixa pra tanto espetáculo...
Eu, por mim mesma - Tomo terceiro
"Haja caixa pra tanto espetáculo"
Poucas vezes me vi amando. Já tentei inventar mil amores, mas sou exigente demais na hora de me iludir. A fantasia da cabeça voa até se esbarrar na coerência do meu sentir.
O “autor da frase” (último relacionamento duradouro que deixou de durar) tinha a cara de sonhos há muito gestados. “Nunca te vi e sempre te amei”. E eu achava que isso era uma doença a ser curada.
Hoje, penso que meus raros amores me serviram de caixas. Por conta da raridade dos meus amores, acumulo peças até encontrar uma caixa que eu julgue capaz de receber toda a minha capacidade de doar. Eu acumulo tanto pra dar muito depois. É por isso que não funciona. As poucas pessoas que amei foram as caixas escolhidas para entulhar de minhas sensações guardadas. Deve mesmo pesar.
Tudo fermenta dentro de mim, até o momento de oferecer. Eu mesma me deleito com aroma e sabor do que está há tempos engarrafado. Como aprovo tudo, é óbvio que recuso a desfeita de não ser de(gustada). Minha vaidade capital é pecado...
O “último absoluto” foi a melhor caixa que encontrei. Certa de que precisava me desvencilhar dos meus modelos, mantive a idéia fixa de me surpreender. E aconteceu. Sem pensar em nada, nesses esbarrões do acaso, encontrei nele o depósito para o que eu imaginava ser o melhor de mim.
Uma vez eu lhe disse que não sabia se gostava de estar com ele, ou se gostava de mim mesma quando ao seu lado. Palavras que exemplificam minha maneira egocêntrica de amar.
A caixa, pra completar, era espelhada. Nela, eu amava contemplar minha cara de amante. Tantas pessoas passam por mim sem que eu as ame que quando acontece é festa, palco, filme, aplauso. Um pouco circo também. Nessas horas, corda-bamba e nariz de palhaço é comigo mesmo.
Haja caixa pra tanto espetáculo...
Poucas vezes me vi amando. Já tentei inventar mil amores, mas sou exigente demais na hora de me iludir. A fantasia da cabeça voa até se esbarrar na coerência do meu sentir.
O “autor da frase” (último relacionamento duradouro que deixou de durar) tinha a cara de sonhos há muito gestados. “Nunca te vi e sempre te amei”. E eu achava que isso era uma doença a ser curada.
Hoje, penso que meus raros amores me serviram de caixas. Por conta da raridade dos meus amores, acumulo peças até encontrar uma caixa que eu julgue capaz de receber toda a minha capacidade de doar. Eu acumulo tanto pra dar muito depois. É por isso que não funciona. As poucas pessoas que amei foram as caixas escolhidas para entulhar de minhas sensações guardadas. Deve mesmo pesar.
Tudo fermenta dentro de mim, até o momento de oferecer. Eu mesma me deleito com aroma e sabor do que está há tempos engarrafado. Como aprovo tudo, é óbvio que recuso a desfeita de não ser de(gustada). Minha vaidade capital é pecado...
O “último absoluto” foi a melhor caixa que encontrei. Certa de que precisava me desvencilhar dos meus modelos, mantive a idéia fixa de me surpreender. E aconteceu. Sem pensar em nada, nesses esbarrões do acaso, encontrei nele o depósito para o que eu imaginava ser o melhor de mim.
Uma vez eu lhe disse que não sabia se gostava de estar com ele, ou se gostava de mim mesma quando ao seu lado. Palavras que exemplificam minha maneira egocêntrica de amar.
A caixa, pra completar, era espelhada. Nela, eu amava contemplar minha cara de amante. Tantas pessoas passam por mim sem que eu as ame que quando acontece é festa, palco, filme, aplauso. Um pouco circo também. Nessas horas, corda-bamba e nariz de palhaço é comigo mesmo.
Haja caixa pra tanto espetáculo...
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