domingo, dezembro 25, 2005

Interlúdio

Carta amiga na véspera de Natal

Suas influências sobre mim se tornam cada vez mais evidentes. E eu detesto admitir, porque sempre detestei ter que te dar razão.

Ontem, no almoço na casa da Mari, tinha uma rodinha de violão. E eu, hoje, odeio rodinhas de violão. Um cara muito bacana que acabara de conhecer virou meu melhor amigo por conta dessa identificação imediata: nós dois estávamos odiando a rodinha de violão. Quando aquele coro de desafinos entoou Oceano, tive calafrios. E me lembrei de você.

À noite, fui naquela festa que combinamos, da qual você desistiu em cima da hora. Ainda fez questão de dizer que sou uma grande furona e que, portanto, eu não tinha direito a reclamações. Por essas e mais tantas te acho irritante.

Azar. Eu, se fosse você, lamentaria por perder a oportunidade de me ver berrando a letra de Bandages, do Hot Hot Heat.

Teve uma hora lá que um gringo perguntou se eu falava inglês e, com a resposta afirmativa, ficou berrando frases de contentamento por ter encontrado quem o compreendesse ali, no barulho daquela festa bêbada, esquisita e feliz.

O cara era interessante. Altão, estilo na medida, sem ser over. Eu já havia reparado, no meio de tanta gente, ele dançando sozinho. Mas você sabe do meu preconceito com gringos, né? Não é por nada, sem xenofobia, já te expliquei: odeio esse imaginário masculino internacional com relação à mulher brasileira. Odeio servir de personificação do pitoresco.

Ficamos conversando a noite inteira. Em vários momentos, pensei em uma de suas insistentes advertências: meu preconceito ainda me impediria de conhecer muita gente interessante. Mais uma vez, eu lembrei de você.

Ele tem 30 anos e estudou filosofia. Disse que eu era inteligente e tinha um ar esnobe. Você sabe que, nesses papos desconhecidos, eu sempre poso de intelectual e blasé. Pelo visto, colou. Hoje, me sinto uma farsa com padrão internacional. E, mais do que nunca, lembro de você.

Feliz Natal, amiga! Amo-te!

Interlúdio

Carta amiga na véspera de Natal

Suas influências sobre mim se tornam cada vez mais evidentes. E eu detesto admitir, porque sempre detestei ter que te dar razão.

Ontem, no almoço na casa da Mari, tinha uma rodinha de violão. E eu, hoje, odeio rodinhas de violão. Um cara muito bacana que acabara de conhecer virou meu melhor amigo por conta dessa identificação imediata: nós dois estávamos odiando a rodinha de violão. Quando aquele coro de desafinos entoou Oceano, tive calafrios. E me lembrei de você.

À noite, fui naquela festa que combinamos, da qual você desistiu em cima da hora. Ainda fez questão de dizer que sou uma grande furona e que, portanto, eu não tinha direito a reclamações. Por essas e mais tantas te acho irritante.

Azar. Eu, se fosse você, lamentaria por perder a oportunidade de me ver berrando a letra de Bandages, do Hot Hot Heat.

Teve uma hora lá que um gringo perguntou se eu falava inglês e, com a resposta afirmativa, ficou berrando frases de contentamento por ter encontrado quem o compreendesse ali, no barulho daquela festa bêbada, esquisita e feliz.

O cara era interessante. Altão, estilo na medida, sem ser over. Eu já havia reparado, no meio de tanta gente, ele dançando sozinho. Mas você sabe do meu preconceito com gringos, né? Não é por nada, sem xenofobia, já te expliquei: odeio esse imaginário masculino internacional com relação à mulher brasileira. Odeio servir de personificação do pitoresco.

Ficamos conversando a noite inteira. Em vários momentos, pensei em uma de suas insistentes advertências: meu preconceito ainda me impediria de conhecer muita gente interessante. Mais uma vez, eu lembrei de você.

Ele tem 30 anos e estudou filosofia. Disse que eu era inteligente e tinha um ar esnobe. Você sabe que, nesses papos desconhecidos, eu sempre poso de intelectual e blasé. Pelo visto, colou. Hoje, me sinto uma farsa com padrão internacional. E, mais do que nunca, lembro de você.

Feliz Natal, amiga! Amo-te!

quinta-feira, dezembro 22, 2005

Eu, por mim mesma - Tomo quarto

"No torpor do meu delírio torpe"

No recesso de tudo, durante os já falados quinze dias, li dois livros, ambos por indicações queridas. O primeiro, “A casa das belas adormecidas”, do Yasunari Kawabata, surgiu na conversa de mesa antes do cinema. Foi o que inspirou o Gabriel García Márquez em “Memoria de mis putas tristes”, o qual li no início do ano.

Dê discorreu poucos minutos sobre a obra. Suficiente para eu passar na livraria, depois da sessão de "Broken Flowers", e comprar um exemplar. Pedi que ela escrevesse uma dedicatória. “Por uma juventude menos ordinária; para uma velhice plena de alegrias, risos, acasos e lindas recordações. Que todos os nossos encontros e desencontros sejam como esse”. Palavras que ganhei.

O segundo foi indicação da Lili, que viu semelhanças entre meu jeito de escrever e o estilo da autora. O sugestivo título é "Ao homem que não me quis". Guardo a inspiração para os próximos tomos.

*****

O velho Eguchi, personagem experienciador, ao dormir com virgens dopadas, impedido de penetrá-las, faz de seus corpos catalisadores de lembranças. A vida é um amontoado de saudades. Em estado adiantado, tudo se acumula até doer...

Ora cheiros, ora toques; por vezes gosto, algumas rememoradas imagens. Ao som de ondas e rochas despudoradas que se esfregam naturalmente. O velho Eguchi, em suas experiências dos sentidos – propiciadas por aromas, cores, texturas, suspiros e sabores de suas belas adormecidas – , radicaliza a minha experiência de criação de caixas.

Elas, as belas, existem para que Eguchi viva suas melhores lembranças, seus acúmulos de fim de vida. As belas não precisam estar despertas para despertarem saudades esquecidas. Melhor até que não. Com as minhas caixas pesadas, amores são devaneios de embriaguez que dura até passar.

Com a leitura, roguei pela existência de quem me desvelasse; um corpo adormecido, no torpor do meu delírio torpe, que me lembrasse do muito amor que tenho, que esbanjo, e que só dou pra quem não pede. Que acumulo até explodir com juros, em juras.

Esconjuro. Juraria pelo sagrado para não precisar depender do pressuposto cruel de ser amada. Existindo quem me ame, me envaideço. Na ausência de quem me sinta, minha ira é dádiva.

A caixa, o depósito de meu sentir pesado, quem quer que seja, melhor que reste entorpecido, para não julgar as irrealidades dos meus ideais dopados.

Eu, por mim mesma - Tomo quarto

"No torpor do meu delírio torpe"

No recesso de tudo, durante os já falados quinze dias, li dois livros, ambos por indicações queridas. O primeiro, “A casa das belas adormecidas”, do Yasunari Kawabata, surgiu na conversa de mesa antes do cinema. Foi o que inspirou o Gabriel García Márquez em “Memoria de mis putas tristes”, o qual li no início do ano.

Dê discorreu poucos minutos sobre a obra. Suficiente para eu passar na livraria, depois da sessão de "Broken Flowers", e comprar um exemplar. Pedi que ela escrevesse uma dedicatória. “Por uma juventude menos ordinária; para uma velhice plena de alegrias, risos, acasos e lindas recordações. Que todos os nossos encontros e desencontros sejam como esse”. Palavras que ganhei.

O segundo foi indicação da Lili, que viu semelhanças entre meu jeito de escrever e o estilo da autora. O sugestivo título é "Ao homem que não me quis". Guardo a inspiração para os próximos tomos.

*****

O velho Eguchi, personagem experienciador, ao dormir com virgens dopadas, impedido de penetrá-las, faz de seus corpos catalisadores de lembranças. A vida é um amontoado de saudades. Em estado adiantado, tudo se acumula até doer...

Ora cheiros, ora toques; por vezes gosto, algumas rememoradas imagens. Ao som de ondas e rochas despudoradas que se esfregam naturalmente. O velho Eguchi, em suas experiências dos sentidos – propiciadas por aromas, cores, texturas, suspiros e sabores de suas belas adormecidas – , radicaliza a minha experiência de criação de caixas.

Elas, as belas, existem para que Eguchi viva suas melhores lembranças, seus acúmulos de fim de vida. As belas não precisam estar despertas para despertarem saudades esquecidas. Melhor até que não. Com as minhas caixas pesadas, amores são devaneios de embriaguez que dura até passar.

Com a leitura, roguei pela existência de quem me desvelasse; um corpo adormecido, no torpor do meu delírio torpe, que me lembrasse do muito amor que tenho, que esbanjo, e que só dou pra quem não pede. Que acumulo até explodir com juros, em juras.

Esconjuro. Juraria pelo sagrado para não precisar depender do pressuposto cruel de ser amada. Existindo quem me ame, me envaideço. Na ausência de quem me sinta, minha ira é dádiva.

A caixa, o depósito de meu sentir pesado, quem quer que seja, melhor que reste entorpecido, para não julgar as irrealidades dos meus ideais dopados.

sábado, dezembro 17, 2005

Eu, por mim mesma - Tomo terceiro

"Haja caixa pra tanto espetáculo"

Poucas vezes me vi amando. Já tentei inventar mil amores, mas sou exigente demais na hora de me iludir. A fantasia da cabeça voa até se esbarrar na coerência do meu sentir.

O “autor da frase” (último relacionamento duradouro que deixou de durar) tinha a cara de sonhos há muito gestados. “Nunca te vi e sempre te amei”. E eu achava que isso era uma doença a ser curada.

Hoje, penso que meus raros amores me serviram de caixas. Por conta da raridade dos meus amores, acumulo peças até encontrar uma caixa que eu julgue capaz de receber toda a minha capacidade de doar. Eu acumulo tanto pra dar muito depois. É por isso que não funciona. As poucas pessoas que amei foram as caixas escolhidas para entulhar de minhas sensações guardadas. Deve mesmo pesar.

Tudo fermenta dentro de mim, até o momento de oferecer. Eu mesma me deleito com aroma e sabor do que está há tempos engarrafado. Como aprovo tudo, é óbvio que recuso a desfeita de não ser de(gustada). Minha vaidade capital é pecado...

O “último absoluto” foi a melhor caixa que encontrei. Certa de que precisava me desvencilhar dos meus modelos, mantive a idéia fixa de me surpreender. E aconteceu. Sem pensar em nada, nesses esbarrões do acaso, encontrei nele o depósito para o que eu imaginava ser o melhor de mim.

Uma vez eu lhe disse que não sabia se gostava de estar com ele, ou se gostava de mim mesma quando ao seu lado. Palavras que exemplificam minha maneira egocêntrica de amar.

A caixa, pra completar, era espelhada. Nela, eu amava contemplar minha cara de amante. Tantas pessoas passam por mim sem que eu as ame que quando acontece é festa, palco, filme, aplauso. Um pouco circo também. Nessas horas, corda-bamba e nariz de palhaço é comigo mesmo.

Haja caixa pra tanto espetáculo...

Eu, por mim mesma - Tomo terceiro

"Haja caixa pra tanto espetáculo"

Poucas vezes me vi amando. Já tentei inventar mil amores, mas sou exigente demais na hora de me iludir. A fantasia da cabeça voa até se esbarrar na coerência do meu sentir.

O “autor da frase” (último relacionamento duradouro que deixou de durar) tinha a cara de sonhos há muito gestados. “Nunca te vi e sempre te amei”. E eu achava que isso era uma doença a ser curada.

Hoje, penso que meus raros amores me serviram de caixas. Por conta da raridade dos meus amores, acumulo peças até encontrar uma caixa que eu julgue capaz de receber toda a minha capacidade de doar. Eu acumulo tanto pra dar muito depois. É por isso que não funciona. As poucas pessoas que amei foram as caixas escolhidas para entulhar de minhas sensações guardadas. Deve mesmo pesar.

Tudo fermenta dentro de mim, até o momento de oferecer. Eu mesma me deleito com aroma e sabor do que está há tempos engarrafado. Como aprovo tudo, é óbvio que recuso a desfeita de não ser de(gustada). Minha vaidade capital é pecado...

O “último absoluto” foi a melhor caixa que encontrei. Certa de que precisava me desvencilhar dos meus modelos, mantive a idéia fixa de me surpreender. E aconteceu. Sem pensar em nada, nesses esbarrões do acaso, encontrei nele o depósito para o que eu imaginava ser o melhor de mim.

Uma vez eu lhe disse que não sabia se gostava de estar com ele, ou se gostava de mim mesma quando ao seu lado. Palavras que exemplificam minha maneira egocêntrica de amar.

A caixa, pra completar, era espelhada. Nela, eu amava contemplar minha cara de amante. Tantas pessoas passam por mim sem que eu as ame que quando acontece é festa, palco, filme, aplauso. Um pouco circo também. Nessas horas, corda-bamba e nariz de palhaço é comigo mesmo.

Haja caixa pra tanto espetáculo...

terça-feira, dezembro 13, 2005

Eu, por mim mesma, em sete tomos

Prelúdio:

As duas últimas semanas foram de pequenas das minhas intermináveis descobertas. Por isso, não me incomoda a idéia de que as próximas postagens versem sobre o meu umbigo. Escrevi antes textos igualmente “umbiguistas”, mas recentemente apaguei-os todos. Pode ser que eu venha a apagar os que, agora, penso em escrever. Mas, neste momento, o meu umbigo importa.

Eu por mim mesma – Tomo primeiro: "Cheiro de amêndoas amargas"

“Volte a ler um livro atrás do outro, faz bem à nossa relação”. O autor da frase é um ex-namorado. Lembrei muito do conselho dele nos últimos dias, porque concluí que, atualmente e há tempos, quem estiver comigo precisa ter a sensibilidade de adaptar a exortação para “não deixe de escrever”.

Andei apaixonada (e já não me refiro ao autor da agora célebre frase). Nunca disse isso a ele, porque odeio ser óbvia. Bastava a obviedade da minha paixão. Engraçado como paixão não me inspira: me paralisa. Meu sentir transforma impulsos cerebrais outrora úteis em abstrações indizíveis que, por isso mesmo, castram palavras. O apaixonar me idiotiza. Minha criatividade vai pras cucuias. E eu odeio ser óbvia, e odeio me repetir, como agora. Resquícios de paixão...

Até aqui - salve meus 24 anos! - tive poucas paixões. Falo de paixão mesmo, não dessas minhas invenções de que me utilizo para escrever boas histórias. Afinal, o apaixonar me idiotiza e, quando idiota, não escrevo boas histórias.

As duas últimas paixões, o já remoto autor da frase e o último absoluto, eles eu acho que amei. Só digo que me apaixonei pra, de alguma forma, desmerecer o que senti. Mantenho a crença de que o amor não me faria esbanjar tanta lágrima vagabunda. Mantenho a crença pra doer menos, pensando no dia em que amarei.

Os dois tiveram a criatividade de não me amar. Daqui por diante, quem fizer igual já não tem o mérito da originalidade. Não que isso signifique muita coisa, pois basta que eu me apaixone. Afinal, o apaixonar me idiotiza. E me torna repetitiva o suficiente pra ser óbvia outra vez.

O autor da frase costumava dizer que eu vivia “digerindo” tudo e que um dia eu escreveria um livro: “eu, por mim mesma, em sete tomos”. Depois que a paixão acaba, tudo vira inspiração. Hoje, me valho do título debochado de anos atrás pra me inspirar escritos, não sobre ele, "o autor da frase", mas sobre "o último absoluto". Esse não deixou qualquer sugestão de título para a posteridade. Ele não ligava pra esse negócio de literatura. Ele só lia as figuras.

Eu por mim mesma – Tomo segundo: "Um diagnóstico sentimental"

Nos últimos quinze dias, parei para não parar de vez. Há duas terças-feiras acordei em prantos, com dor no peito, respiração curta e taquicardia. Desespero acumulado por conta da falta de concentração e da exaustão que me distanciam de definições que me levariam ao descanso.

Depois de vários dias chorando, chegou a hora consulta. Falei da dor no peito, da falta de concentração e da taquicardia. A médica me perguntou se eu desconfiava do motivo de tudo isso. “É muita coisa. Necessito de recomeço”, respondi. Aos poucos, enumerei as muitas coisas: quatro anos sem férias, vontade de independência inversamente proporcional à minha estabilidade profissional, minha mente megalômana cansada. E todas as outras miudezas que se agigantaram nos últimos tempos devido a esses três principais motivos.

A doutora concordou que era muita coisa. Mesmo assim quis saber mais: “E o coração?”. “Se recuperando de um 'amor contrariado'”, disse eu, floreando com García Marquez. Ela deu uma risadinha, fez cara de quem sempre adivinha tudo e concluiu: “Quando o coração vai bem, o resto fica mais fácil”.

Se eu soubesse, desmereceria o amor.

Eu, por mim mesma, em sete tomos

Prelúdio:

As duas últimas semanas foram de pequenas das minhas intermináveis descobertas. Por isso, não me incomoda a idéia de que as próximas postagens versem sobre o meu umbigo. Escrevi antes textos igualmente “umbiguistas”, mas recentemente apaguei-os todos. Pode ser que eu venha a apagar os que, agora, penso em escrever. Mas, neste momento, o meu umbigo importa.

Eu por mim mesma – Tomo primeiro: "Cheiro de amêndoas amargas"

“Volte a ler um livro atrás do outro, faz bem à nossa relação”. O autor da frase é um ex-namorado. Lembrei muito do conselho dele nos últimos dias, porque concluí que, atualmente e há tempos, quem estiver comigo precisa ter a sensibilidade de adaptar a exortação para “não deixe de escrever”.

Andei apaixonada (e já não me refiro ao autor da agora célebre frase). Nunca disse isso a ele, porque odeio ser óbvia. Bastava a obviedade da minha paixão. Engraçado como paixão não me inspira: me paralisa. Meu sentir transforma impulsos cerebrais outrora úteis em abstrações indizíveis que, por isso mesmo, castram palavras. O apaixonar me idiotiza. Minha criatividade vai pras cucuias. E eu odeio ser óbvia, e odeio me repetir, como agora. Resquícios de paixão...

Até aqui - salve meus 24 anos! - tive poucas paixões. Falo de paixão mesmo, não dessas minhas invenções de que me utilizo para escrever boas histórias. Afinal, o apaixonar me idiotiza e, quando idiota, não escrevo boas histórias.

As duas últimas paixões, o já remoto autor da frase e o último absoluto, eles eu acho que amei. Só digo que me apaixonei pra, de alguma forma, desmerecer o que senti. Mantenho a crença de que o amor não me faria esbanjar tanta lágrima vagabunda. Mantenho a crença pra doer menos, pensando no dia em que amarei.

Os dois tiveram a criatividade de não me amar. Daqui por diante, quem fizer igual já não tem o mérito da originalidade. Não que isso signifique muita coisa, pois basta que eu me apaixone. Afinal, o apaixonar me idiotiza. E me torna repetitiva o suficiente pra ser óbvia outra vez.

O autor da frase costumava dizer que eu vivia “digerindo” tudo e que um dia eu escreveria um livro: “eu, por mim mesma, em sete tomos”. Depois que a paixão acaba, tudo vira inspiração. Hoje, me valho do título debochado de anos atrás pra me inspirar escritos, não sobre ele, "o autor da frase", mas sobre "o último absoluto". Esse não deixou qualquer sugestão de título para a posteridade. Ele não ligava pra esse negócio de literatura. Ele só lia as figuras.

Eu por mim mesma – Tomo segundo: "Um diagnóstico sentimental"

Nos últimos quinze dias, parei para não parar de vez. Há duas terças-feiras acordei em prantos, com dor no peito, respiração curta e taquicardia. Desespero acumulado por conta da falta de concentração e da exaustão que me distanciam de definições que me levariam ao descanso.

Depois de vários dias chorando, chegou a hora consulta. Falei da dor no peito, da falta de concentração e da taquicardia. A médica me perguntou se eu desconfiava do motivo de tudo isso. “É muita coisa. Necessito de recomeço”, respondi. Aos poucos, enumerei as muitas coisas: quatro anos sem férias, vontade de independência inversamente proporcional à minha estabilidade profissional, minha mente megalômana cansada. E todas as outras miudezas que se agigantaram nos últimos tempos devido a esses três principais motivos.

A doutora concordou que era muita coisa. Mesmo assim quis saber mais: “E o coração?”. “Se recuperando de um 'amor contrariado'”, disse eu, floreando com García Marquez. Ela deu uma risadinha, fez cara de quem sempre adivinha tudo e concluiu: “Quando o coração vai bem, o resto fica mais fácil”.

Se eu soubesse, desmereceria o amor.