quarta-feira, abril 06, 2005

Cachaça com cianureto, por favor!

No fim da aula, a professora pede para eu esperar. É perigoso andar pela rua às dez da noite. Vamos para o mesmo lado, uma acompanha a outra, se é que isso serve de alguma coisa. Não deve mesmo servir. Não serve. Mas deixa pra lá. Quase chegando no ponto de ônibus, barulho de tiros. Muitos tiros. Continuamos andando, então o barulho ficou muito próximo. A minha única reação foi me esconder atrás da professora. Isso mesmo. Eu quis evitar uma bala perdida lançando mão de um escudo humano, a minha professora de Ética. Cena patética, eu fugindo dos tiros. Rimei ética com patética, sem querer. Sem querer, mas rimei. Minha ética deve ser patética. É, já sei. Por que uma bala daquela não me acertou? Eu já morri de vergonha... Imagina se uma bala me acerta? Coitada da professora, que seria obrigada a lamentar.

Carrego uma culpa. Certa vez um professor foi assaltado porque parou para me dar carona. Levaram carro importado, relógio caríssimo e uma boa grana. De mim nada. Três alunas perderam suas bolsas. Comigo nada. Eu não perdi nada. Ganhei a certeza de que professor que anda comigo tem que, antes, andar com galho de arruda. E pé de coelho. E água benta. E figa. Duma figa...

A culpa duma figa já não basta. Agora a professora-escudo. Eu nunca basto. Desconcertada, tentei concertar. Teve jeito? Teve jeito. Só de piorar. Fiz que não ouvi nada, o medo passou. Foi embora junto com a indignação, com o senso crítico. Ficou a culpa. Se antes me protegi, fui tentar proteger: “Espero ônibus com você”. Mudei de assunto, violência não é nada. Nada? Que nada... Já morri, de mosca morta. E nem precisei ser baleada.

Acho que mereço ser reprovada em Ética. Se eu fosse a professora, era o que eu faria. Faria? Nada. Hoje eu perdôo de graça. Não que eu costume cobrar para perdoar. Eu sempre cobro de graça. Posturas que não tive. Mas hoje a misericórdia está em promoção. Porque eu nem consigo parar de rir. De rir por não existir, porque acho mesmo que morri. Morri de vergonha e, agora, morro de rir. Vocês não viram o que eu me vi...

Cachaça com cianureto, por favor!

No fim da aula, a professora pede para eu esperar. É perigoso andar pela rua às dez da noite. Vamos para o mesmo lado, uma acompanha a outra, se é que isso serve de alguma coisa. Não deve mesmo servir. Não serve. Mas deixa pra lá. Quase chegando no ponto de ônibus, barulho de tiros. Muitos tiros. Continuamos andando, então o barulho ficou muito próximo. A minha única reação foi me esconder atrás da professora. Isso mesmo. Eu quis evitar uma bala perdida lançando mão de um escudo humano, a minha professora de Ética. Cena patética, eu fugindo dos tiros. Rimei ética com patética, sem querer. Sem querer, mas rimei. Minha ética deve ser patética. É, já sei. Por que uma bala daquela não me acertou? Eu já morri de vergonha... Imagina se uma bala me acerta? Coitada da professora, que seria obrigada a lamentar.

Carrego uma culpa. Certa vez um professor foi assaltado porque parou para me dar carona. Levaram carro importado, relógio caríssimo e uma boa grana. De mim nada. Três alunas perderam suas bolsas. Comigo nada. Eu não perdi nada. Ganhei a certeza de que professor que anda comigo tem que, antes, andar com galho de arruda. E pé de coelho. E água benta. E figa. Duma figa...

A culpa duma figa já não basta. Agora a professora-escudo. Eu nunca basto. Desconcertada, tentei concertar. Teve jeito? Teve jeito. Só de piorar. Fiz que não ouvi nada, o medo passou. Foi embora junto com a indignação, com o senso crítico. Ficou a culpa. Se antes me protegi, fui tentar proteger: “Espero ônibus com você”. Mudei de assunto, violência não é nada. Nada? Que nada... Já morri, de mosca morta. E nem precisei ser baleada.

Acho que mereço ser reprovada em Ética. Se eu fosse a professora, era o que eu faria. Faria? Nada. Hoje eu perdôo de graça. Não que eu costume cobrar para perdoar. Eu sempre cobro de graça. Posturas que não tive. Mas hoje a misericórdia está em promoção. Porque eu nem consigo parar de rir. De rir por não existir, porque acho mesmo que morri. Morri de vergonha e, agora, morro de rir. Vocês não viram o que eu me vi...

quinta-feira, março 17, 2005

Holandês voador

Tu pouco sabes, desconheces João e Maria
Essa tua boca vazia, sem beijo é banguela
Mãos que nada agarram, pincel nem aquarela
Desta vida nem viu a solidão dos Buendía

Se tuas pernas não correm, como voas para mim?
Simples culpa sequer há para teus atos pueris
Apenas ensaias sorrisos menos que infantis
Aos tropeços te enroscas no calor tupiniquim

Quando chamo, tua resposta é de quem ouve
Bem sei, descobri, minha fala não te diz nada
A menos que nela reconheças a voz da amada
No versículo, teu rosto: Lucas quatro, dez, doze

Com teu corpo enrugado, por favor, venha aqui
De longe, guardo comigo todos os odores
Distante ensaio meus gestos, prevejo tuas cores
É hora, meu amor, de trocar a fralda de pipi

Holandês voador

Tu pouco sabes, desconheces João e Maria
Essa tua boca vazia, sem beijo é banguela
Mãos que nada agarram, pincel nem aquarela
Desta vida nem viu a solidão dos Buendía

Se tuas pernas não correm, como voas para mim?
Simples culpa sequer há para teus atos pueris
Apenas ensaias sorrisos menos que infantis
Aos tropeços te enroscas no calor tupiniquim

Quando chamo, tua resposta é de quem ouve
Bem sei, descobri, minha fala não te diz nada
A menos que nela reconheças a voz da amada
No versículo, teu rosto: Lucas quatro, dez, doze

Com teu corpo enrugado, por favor, venha aqui
De longe, guardo comigo todos os odores
Distante ensaio meus gestos, prevejo tuas cores
É hora, meu amor, de trocar a fralda de pipi

sexta-feira, março 04, 2005

Na morada dos entulhos


Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão
Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede
Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali
Mas era feita com muito esmero
Na rua dos Bobos
Número zero
(A Casa, de Vinicius de Moraes)

Esta semana tive que procurar umas fotos de três anos atrás, de um ensaio que fiz para a aula de fotojornalismo sobre trabalho informal no Rio de Janeiro. Por conta disso, na segunda-feira dormi às cinco da manhã, revirei a casa inteira, e nada. Só encontrei mesmo no dia seguinte, mas, até que isso acontecesse, eu fui jogando muita coisa fora. Acho engraçado eu ter tanta tralha acumulada, já que limpo tudo com uma freqüência bastante razoável.

Gosto de abrir as janelas, limpar as gavetas, arrumar os armários, pois não consigo deixar de perceber nisso uma metáfora da minha própria condição. Tomo o exemplo recente: não é à toa que, depois de cinco anos de faculdade, eu tenha me desfeito de tantos trabalhos, cadernos, folhas fotocopiadas e redações. Porque um ciclo se completou. O jogar fora é um ato de escolha, quase sempre. E de autoconhecimento, de percepção sensível. De compreensão das próprias mudanças, de coragem para se desvencilhar do tanto que a dinâmica da vida exige. Seria falta de apego da minha parte? Não mesmo. Tenho extrema dificuldade com os bilhetinhos trocados nas salas de aula de dez, doze anos atrás. Eu queria, sim, era não me apegar tanto. E a grande questão são os objetos que só fazem sentido pra mim mesma.

O meu ex-namorado era um excelente ilustrador. Mas ele nunca me desenhava. Certa noite, em um restaurante que fica numa das esquinas que mais gosto, enquanto falávamos de arte, construção da realidade, fé e tanto mais, ele fez um desenho de nós dois no papel que forrava a bandeja. Então, pediu que eu escrevesse algo sobre aquele momento e, em seguida, propôs que fôssemos embora e deixássemos o desenho ali mesmo.

Era a primeira vez que eu era desenhada, não podia abrir mão daquilo! Mas ele, por fim, me convenceu ao contar a história dos budistas, que se dedicam durante um ano na confecção de mosaicos de areia que são, no fim, pisados e desmanchados por um dos monges. A idéia é que o impulso maior seja a crença em um fazer e refazer constante, sem que as obras daí decorrentes tornem-se armadilhas, motivos de contemplações vazias capazes de nos aprisionar.

Tendo virado as costas para uma das manifestações de carinho que mais me emocionara até então, confesso que nos divertimos ao imaginar o que seria feito do desenho quando fosse encontrado. A resposta veio em duas semanas: um casal de amigos almoçou no mesmo lugar, e daí tomamos conhecimento de que estava numa moldura, pendurado na parede do restaurante. Quando voltamos lá para ver, os funcionários me reconheceram por causa da própria ilustração e logo o gerente foi chamado, porque estavam todos, há dias, curiosos para saber quem eram os autores da brincadeira.

Um ano depois disso tudo ter acontecido, com nosso relacionamento tão desmanchado quanto os mosaicos de areia dos budistas, voltei lá e pedi para ver o quadro de novo. Só para dar uma espiada, já que não estava mais na parede, mas na sala da gerência. Quando souberam que não mais existia o casal representado naquele papel emoldurado, me deram o quadro de presente. E este foi um dos meus momentos de maior angústia... Comigo aquele desenho não significava coisa alguma, não contava mais histórias, não me trazia lembranças, não me falava de um passado. Porque jamais foi feito para ser meu. Mas, até hoje, ele continua lá, numa parede coadjuvante da minha casa, por onde pouco passo, sem qualquer função, pois ainda não consegui jogá-lo fora.

Apesar da disposição de me "arejar", minha casa ainda resta cheia dos meus entulhos. E não importa de quem seja a casa, é quase sempre assim. Minha casa, sua casa. Qualquer e toda casa. Casa de boneca, da infância, da imaginação. Habitação de lembranças e casulo de sonhos. Vivenda de sentimentos. Casa feita de doces, como a de João e Maria. Casa de marimbondo. Casa de muitas moradas, como a do Pai.

Em “Cem anos de solidão”, o lar dos Buendía não é apenas o cenário das tramas familiares. Cada nova alegria é materializada na casa, que se enche de luz, de borboletas, de jardins. E tudo floresce, respira, pulsa, vive. Mas, de tempos em tempos, ela também cheira a mofo, é invadida pelo mato crescido, pelos insetos que perambulam nas paredes rachadas.

Na época da Páscoa, os judeus ficam sete dias sem comer o que eles chamam de “hametz” - o fermento, que representa a impureza. A recomendação é bíblica: “Fermento não se achará contigo por sete dias, em todo o teu território” (Deuteronômio, 16:4). Mesmo nos dias de hoje, as famílias mais zelosas de suas tradições abrem a dispensa e queimam todo o fermento existente em suas casas. Como se não bastasse, usam louças especiais, que jamais tiveram contato com alimentos impuros. E as paredes de muitas casas recebem uma mão de tinta fresca a cada ano, como sinal de renovação.

Ainda na bíblia, outra passagem sobre a Páscoa e mais uma recomendação de Jeová: “Não oferecerás o sangue do meu sacrifício com pão levedado, nem ficará gordura da minha festa durante a noite até pela manhã” (Êxodo 23:18). Daí, penso que, talvez, o Deus do Antigo Testamento não estivesse tão preocupado com a impureza em si, mas com o ato de renovação. Apesar da festa e da alegria da véspera, nas minhas interpretações tortas ouço um conselho: o de esperarmos o amanhã varridos de certos acúmulos, alguns até provenientes dos momentos felizes. Para que nem essas mesmas alegrias sejam impedimento para que se siga em frente.

Na morada dos entulhos


Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão
Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede
Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali
Mas era feita com muito esmero
Na rua dos Bobos
Número zero
(A Casa, de Vinicius de Moraes)

Esta semana tive que procurar umas fotos de três anos atrás, de um ensaio que fiz para a aula de fotojornalismo sobre trabalho informal no Rio de Janeiro. Por conta disso, na segunda-feira dormi às cinco da manhã, revirei a casa inteira, e nada. Só encontrei mesmo no dia seguinte, mas, até que isso acontecesse, eu fui jogando muita coisa fora. Acho engraçado eu ter tanta tralha acumulada, já que limpo tudo com uma freqüência bastante razoável.

Gosto de abrir as janelas, limpar as gavetas, arrumar os armários, pois não consigo deixar de perceber nisso uma metáfora da minha própria condição. Tomo o exemplo recente: não é à toa que, depois de cinco anos de faculdade, eu tenha me desfeito de tantos trabalhos, cadernos, folhas fotocopiadas e redações. Porque um ciclo se completou. O jogar fora é um ato de escolha, quase sempre. E de autoconhecimento, de percepção sensível. De compreensão das próprias mudanças, de coragem para se desvencilhar do tanto que a dinâmica da vida exige. Seria falta de apego da minha parte? Não mesmo. Tenho extrema dificuldade com os bilhetinhos trocados nas salas de aula de dez, doze anos atrás. Eu queria, sim, era não me apegar tanto. E a grande questão são os objetos que só fazem sentido pra mim mesma.

O meu ex-namorado era um excelente ilustrador. Mas ele nunca me desenhava. Certa noite, em um restaurante que fica numa das esquinas que mais gosto, enquanto falávamos de arte, construção da realidade, fé e tanto mais, ele fez um desenho de nós dois no papel que forrava a bandeja. Então, pediu que eu escrevesse algo sobre aquele momento e, em seguida, propôs que fôssemos embora e deixássemos o desenho ali mesmo.

Era a primeira vez que eu era desenhada, não podia abrir mão daquilo! Mas ele, por fim, me convenceu ao contar a história dos budistas, que se dedicam durante um ano na confecção de mosaicos de areia que são, no fim, pisados e desmanchados por um dos monges. A idéia é que o impulso maior seja a crença em um fazer e refazer constante, sem que as obras daí decorrentes tornem-se armadilhas, motivos de contemplações vazias capazes de nos aprisionar.

Tendo virado as costas para uma das manifestações de carinho que mais me emocionara até então, confesso que nos divertimos ao imaginar o que seria feito do desenho quando fosse encontrado. A resposta veio em duas semanas: um casal de amigos almoçou no mesmo lugar, e daí tomamos conhecimento de que estava numa moldura, pendurado na parede do restaurante. Quando voltamos lá para ver, os funcionários me reconheceram por causa da própria ilustração e logo o gerente foi chamado, porque estavam todos, há dias, curiosos para saber quem eram os autores da brincadeira.

Um ano depois disso tudo ter acontecido, com nosso relacionamento tão desmanchado quanto os mosaicos de areia dos budistas, voltei lá e pedi para ver o quadro de novo. Só para dar uma espiada, já que não estava mais na parede, mas na sala da gerência. Quando souberam que não mais existia o casal representado naquele papel emoldurado, me deram o quadro de presente. E este foi um dos meus momentos de maior angústia... Comigo aquele desenho não significava coisa alguma, não contava mais histórias, não me trazia lembranças, não me falava de um passado. Porque jamais foi feito para ser meu. Mas, até hoje, ele continua lá, numa parede coadjuvante da minha casa, por onde pouco passo, sem qualquer função, pois ainda não consegui jogá-lo fora.

Apesar da disposição de me "arejar", minha casa ainda resta cheia dos meus entulhos. E não importa de quem seja a casa, é quase sempre assim. Minha casa, sua casa. Qualquer e toda casa. Casa de boneca, da infância, da imaginação. Habitação de lembranças e casulo de sonhos. Vivenda de sentimentos. Casa feita de doces, como a de João e Maria. Casa de marimbondo. Casa de muitas moradas, como a do Pai.

Em “Cem anos de solidão”, o lar dos Buendía não é apenas o cenário das tramas familiares. Cada nova alegria é materializada na casa, que se enche de luz, de borboletas, de jardins. E tudo floresce, respira, pulsa, vive. Mas, de tempos em tempos, ela também cheira a mofo, é invadida pelo mato crescido, pelos insetos que perambulam nas paredes rachadas.

Na época da Páscoa, os judeus ficam sete dias sem comer o que eles chamam de “hametz” - o fermento, que representa a impureza. A recomendação é bíblica: “Fermento não se achará contigo por sete dias, em todo o teu território” (Deuteronômio, 16:4). Mesmo nos dias de hoje, as famílias mais zelosas de suas tradições abrem a dispensa e queimam todo o fermento existente em suas casas. Como se não bastasse, usam louças especiais, que jamais tiveram contato com alimentos impuros. E as paredes de muitas casas recebem uma mão de tinta fresca a cada ano, como sinal de renovação.

Ainda na bíblia, outra passagem sobre a Páscoa e mais uma recomendação de Jeová: “Não oferecerás o sangue do meu sacrifício com pão levedado, nem ficará gordura da minha festa durante a noite até pela manhã” (Êxodo 23:18). Daí, penso que, talvez, o Deus do Antigo Testamento não estivesse tão preocupado com a impureza em si, mas com o ato de renovação. Apesar da festa e da alegria da véspera, nas minhas interpretações tortas ouço um conselho: o de esperarmos o amanhã varridos de certos acúmulos, alguns até provenientes dos momentos felizes. Para que nem essas mesmas alegrias sejam impedimento para que se siga em frente.

sábado, fevereiro 26, 2005

Apaixonados pelo consumo dos corpos

Faz um tempinho desde a última vez que me apaixonei. Tudo começou na quarta-feira seguinte ao dia de Santo Antônio, que no ano passado caiu num domingo. Não tenho muita intimidade com a tradição católica, o que é uma pena. Mas meu pai, que sabe da vida de todos os santos, não perdeu a oportunidade de me dar um pãozinho de Santo Antônio, para ver se o casamenteiro lá dava um jeito na minha solteirice.

Naquela quarta-feira, eu estava na sala de reuniões quando alguém chegou no escritório. Pela porta de vidro translúcido, vi que era um estranho, ninguém da equipe. Quer dizer, estranho para mim, porque vi também que ele começou a conversar com a minha chefa, deixando as cadeiras de lado e sentando em uma das mesas. Achei aquilo esquisito, tanta intimidade num ambiente tão formal, com alguém mais formal ainda.

Intrigada, continuei prestando atenção. Claro que não dava pra ouvir nada, nem pra ver direito, só uma silhueta. E nessa de observar a silhueta, achei interessante os gestos dele, a maneira de mexer as mãos, de virar o rosto, que era, até aquele momento, nada além de um borrão. Eu tenho mesmo dessas coisas. Com a minha miopia aprendi a não depender tanto da imagem em si, porque o movimento das pessoas pode ser uma boa pista, talvez ainda mais marcante, mais incontestável.

Restava saber como era o rosto, porque também sou fascinada por detalhes, e costumo me saber gostando por causa de sorrisos e de olhares. Antes que eu pudesse descobrir por conta própria, Naná, a moça que servia o café, veio da cozinha, passou pela “silhueta” e entrou com a bandeja na sala de reuniões. Olhei para ela e em dois segundos entendi que o estranho, e pelo visto não só a silhueta, tinha agradado a mais alguém. Naná chegou pertinho de mim, na hora que estava colocando café na minha xícara, e falou, baixinho, pra ninguém ouvir nem perceber: “Mona, que bofe...”.

Afinal, soube que o “bofe” era o outro filho do dono da empresa. Acabara de chegar dos Estados Unidos, de Harvard, mais especificamente. Voltei para minha mesa, ele veio se apresentar. Foi só o cara virar as costas para eu escrever um e-mail: “Amiga, acho que o pãozinho de Santo Antônio funciona. Conheci o homem da minha vida: interessante, gato, usa o 212 da Carolina Herrera. Se veste bem, é descolado, estiloso, não é do tipo formal. O único problema é que tem uma pós-graduação em Harvard, o que agiganta as chances dele ser um grande pela-saco. Mas acho melhor não exigir muito do Santo, que, estou sentindo, resolveu caprichar...”.

Ele estava trabalhando em um projeto grande e, enquanto não tinha um escritório próprio, ficou usando o do pai. Daí, veio um convívio quase que diário, apesar de bem tímido. E eu, que tinha passado os seis meses anteriores de luto pelo término de uma relação falida, comemorei cada friozinho na barriga nas vezes que ele vinha na minha mesa puxar assunto. Indícios, finalmente, da minha libertação do passado recente.

Foram meses até que, por fim, marcamos um chope. Mas, com imprevistos e compromissos dos dois lados, só conseguimos nos encontrar depois de mais uns tantos meses, quando fui trabalhar em outro lugar e fiquei mais à vontade, porque sair com filho do chefão é muita furada. Com isso, se nos conhecemos naquela quarta-feira de junho, o primeiro encontro mesmo foi só no princípio de outubro. E eu já estava muito feliz, por tudo o que aquilo representava, pelos sopros de novidade no meu coraçãozinho cansado, pela camaradagem de Santo Antônio...

Com tantas expectativas, obviamente unilaterais, no dia do chope me vi diante de um desconhecido numa mesa de bar. O papo até que interessante, mas ele com um ar de superior que não se desfez um minuto sequer. Passada meia-hora, ele resolve me dizer que sou muito conservadora. A observação não tinha qualquer conexão com o assunto. E continuou: “Pelo seu modo de falar, de olhar, de segurar o copo, de se vestir, vejo que é conservadora”. Como não entendi de onde vinha a idéia, caí na besteira de perguntar. Ele, sem me responder, antes me testou: “Se não é conservadora, vamos pedir a conta e ir para um motel, agora!”.

Levei uns minutos para realizar as coisas. Nós não tínhamos sequer nos beijado. Aliás, mal tínhamos encostado um no outro, e mesmo assim só quando nos cumprimentamos. Fiquei olhando para aquele homem, que desde os últimos meses até aquele preciso momento tinha sido dono exclusivo dos meus suspiros. E pensei: “Diabos! Esse Santo Antonio me sacaneou!”.

Foi só falar o nome do coisa-ruim e uma Serpente que nem vi me empurrou uma maçã goela abaixo e acabou com todo o resto de paraíso. O meu candidato a homem da minha vida era um playboy carioca zona sul, riquinho, de família importante, talvez por isso mesmo idiota e arrogante. E agora ninguém mais desfaria a minha idéia de que o “bofe” tinha fimose, atrofia peniana e sofria de ejaculação precoce, e que tudo isso junto fez muito mal para as cabeças dele.

Ele ainda me perguntou por que recusei o convite. Disse só que não era a favor de sexo no primeiro encontro, e fomos embora. Ainda nos beijamos, acredite quem quiser, porque eu quase duvido que fiz isso. Talvez porque eu estivesse mesmo inconformada, tentando dar um voto de confiança pro desgraçado do Santo Antônio.

Hoje, acho que ele teve uma função importante na minha vida. Por me ajudar, indiretamente, a constatar que eu estava curada das minhas mazelas irremediáveis, já foi bom. Mas nunca mais nos vimos. Há dois meses, ele ainda me ligou para dizer que estava no Rio e para contar que tinha sido indicado para um cargo político. No início de fevereiro, ele foi empossado, e por conta disso ainda vi a cara dele, mas só nas fotos das matérias dos jornais. Ele continua bonito, mas, para mim, também continua com fimose, atrofia peniana e ejaculação precoce. Porque minha imaginação cria verdades de todos os tipos, mas as mais convincentes para mim mesma são aquelas ditas mais de uma vez...

Por conta das recentes matérias nos jornais, fiquei pensando na proposta dele e na razão da minha recusa. Não é simplesmente por conservadorismo que não concordo com sexo no primeiro encontro. É mais porque penso no sexo como uma brincadeira mágica, gostosa, leve, mas também tão intensa que não dá para brincar com qualquer um. Senão perde a graça, perde o gozo e, depois, nem adianta procurar. Porque não é que nem pique-esconde, e nem todo companheiro de brincadeira pergunta se “pode ir” depois de contar até três mil e seiscentos.

Acho que todo mundo deveria tentar criar relações minimamente significantes antes de querer fazer sexo. Porque aí sim há chances de existir a vontade de descoberta, o desejo de brincar de adivinhação. De cabra-cega e de pega-pega, com prazer de verdade. É só criança infeliz que, tendo mil brinquedos, vive triste e enjoada com todos, e fica sempre querendo ter mais. E como tem sempre alguém para dar tudo mesmo, nunca sobra nada para desejar, nem realidades fantásticas para criar.

Aprendemos certas lógicas utilitaristas desde pequenos. É por isso que sexo, nesse nosso mundinho consumista, parece que virou prestação de serviço. Eu prefiro continuar pensando nos meus modelos antigos de socialização de sonhos e de brincadeiras. Mas quem quiser seguir a linha de produção, que vá em frente, mas também aceite ser sempre trocado, porque defeito de fabricação e de uso inadequado é o que mais todo mundo tem.

Aliás, deixa eu parar por aqui. Acabo de me lembrar que tenho que ligar para o Procon...

Apaixonados pelo consumo dos corpos

Faz um tempinho desde a última vez que me apaixonei. Tudo começou na quarta-feira seguinte ao dia de Santo Antônio, que no ano passado caiu num domingo. Não tenho muita intimidade com a tradição católica, o que é uma pena. Mas meu pai, que sabe da vida de todos os santos, não perdeu a oportunidade de me dar um pãozinho de Santo Antônio, para ver se o casamenteiro lá dava um jeito na minha solteirice.

Naquela quarta-feira, eu estava na sala de reuniões quando alguém chegou no escritório. Pela porta de vidro translúcido, vi que era um estranho, ninguém da equipe. Quer dizer, estranho para mim, porque vi também que ele começou a conversar com a minha chefa, deixando as cadeiras de lado e sentando em uma das mesas. Achei aquilo esquisito, tanta intimidade num ambiente tão formal, com alguém mais formal ainda.

Intrigada, continuei prestando atenção. Claro que não dava pra ouvir nada, nem pra ver direito, só uma silhueta. E nessa de observar a silhueta, achei interessante os gestos dele, a maneira de mexer as mãos, de virar o rosto, que era, até aquele momento, nada além de um borrão. Eu tenho mesmo dessas coisas. Com a minha miopia aprendi a não depender tanto da imagem em si, porque o movimento das pessoas pode ser uma boa pista, talvez ainda mais marcante, mais incontestável.

Restava saber como era o rosto, porque também sou fascinada por detalhes, e costumo me saber gostando por causa de sorrisos e de olhares. Antes que eu pudesse descobrir por conta própria, Naná, a moça que servia o café, veio da cozinha, passou pela “silhueta” e entrou com a bandeja na sala de reuniões. Olhei para ela e em dois segundos entendi que o estranho, e pelo visto não só a silhueta, tinha agradado a mais alguém. Naná chegou pertinho de mim, na hora que estava colocando café na minha xícara, e falou, baixinho, pra ninguém ouvir nem perceber: “Mona, que bofe...”.

Afinal, soube que o “bofe” era o outro filho do dono da empresa. Acabara de chegar dos Estados Unidos, de Harvard, mais especificamente. Voltei para minha mesa, ele veio se apresentar. Foi só o cara virar as costas para eu escrever um e-mail: “Amiga, acho que o pãozinho de Santo Antônio funciona. Conheci o homem da minha vida: interessante, gato, usa o 212 da Carolina Herrera. Se veste bem, é descolado, estiloso, não é do tipo formal. O único problema é que tem uma pós-graduação em Harvard, o que agiganta as chances dele ser um grande pela-saco. Mas acho melhor não exigir muito do Santo, que, estou sentindo, resolveu caprichar...”.

Ele estava trabalhando em um projeto grande e, enquanto não tinha um escritório próprio, ficou usando o do pai. Daí, veio um convívio quase que diário, apesar de bem tímido. E eu, que tinha passado os seis meses anteriores de luto pelo término de uma relação falida, comemorei cada friozinho na barriga nas vezes que ele vinha na minha mesa puxar assunto. Indícios, finalmente, da minha libertação do passado recente.

Foram meses até que, por fim, marcamos um chope. Mas, com imprevistos e compromissos dos dois lados, só conseguimos nos encontrar depois de mais uns tantos meses, quando fui trabalhar em outro lugar e fiquei mais à vontade, porque sair com filho do chefão é muita furada. Com isso, se nos conhecemos naquela quarta-feira de junho, o primeiro encontro mesmo foi só no princípio de outubro. E eu já estava muito feliz, por tudo o que aquilo representava, pelos sopros de novidade no meu coraçãozinho cansado, pela camaradagem de Santo Antônio...

Com tantas expectativas, obviamente unilaterais, no dia do chope me vi diante de um desconhecido numa mesa de bar. O papo até que interessante, mas ele com um ar de superior que não se desfez um minuto sequer. Passada meia-hora, ele resolve me dizer que sou muito conservadora. A observação não tinha qualquer conexão com o assunto. E continuou: “Pelo seu modo de falar, de olhar, de segurar o copo, de se vestir, vejo que é conservadora”. Como não entendi de onde vinha a idéia, caí na besteira de perguntar. Ele, sem me responder, antes me testou: “Se não é conservadora, vamos pedir a conta e ir para um motel, agora!”.

Levei uns minutos para realizar as coisas. Nós não tínhamos sequer nos beijado. Aliás, mal tínhamos encostado um no outro, e mesmo assim só quando nos cumprimentamos. Fiquei olhando para aquele homem, que desde os últimos meses até aquele preciso momento tinha sido dono exclusivo dos meus suspiros. E pensei: “Diabos! Esse Santo Antonio me sacaneou!”.

Foi só falar o nome do coisa-ruim e uma Serpente que nem vi me empurrou uma maçã goela abaixo e acabou com todo o resto de paraíso. O meu candidato a homem da minha vida era um playboy carioca zona sul, riquinho, de família importante, talvez por isso mesmo idiota e arrogante. E agora ninguém mais desfaria a minha idéia de que o “bofe” tinha fimose, atrofia peniana e sofria de ejaculação precoce, e que tudo isso junto fez muito mal para as cabeças dele.

Ele ainda me perguntou por que recusei o convite. Disse só que não era a favor de sexo no primeiro encontro, e fomos embora. Ainda nos beijamos, acredite quem quiser, porque eu quase duvido que fiz isso. Talvez porque eu estivesse mesmo inconformada, tentando dar um voto de confiança pro desgraçado do Santo Antônio.

Hoje, acho que ele teve uma função importante na minha vida. Por me ajudar, indiretamente, a constatar que eu estava curada das minhas mazelas irremediáveis, já foi bom. Mas nunca mais nos vimos. Há dois meses, ele ainda me ligou para dizer que estava no Rio e para contar que tinha sido indicado para um cargo político. No início de fevereiro, ele foi empossado, e por conta disso ainda vi a cara dele, mas só nas fotos das matérias dos jornais. Ele continua bonito, mas, para mim, também continua com fimose, atrofia peniana e ejaculação precoce. Porque minha imaginação cria verdades de todos os tipos, mas as mais convincentes para mim mesma são aquelas ditas mais de uma vez...

Por conta das recentes matérias nos jornais, fiquei pensando na proposta dele e na razão da minha recusa. Não é simplesmente por conservadorismo que não concordo com sexo no primeiro encontro. É mais porque penso no sexo como uma brincadeira mágica, gostosa, leve, mas também tão intensa que não dá para brincar com qualquer um. Senão perde a graça, perde o gozo e, depois, nem adianta procurar. Porque não é que nem pique-esconde, e nem todo companheiro de brincadeira pergunta se “pode ir” depois de contar até três mil e seiscentos.

Acho que todo mundo deveria tentar criar relações minimamente significantes antes de querer fazer sexo. Porque aí sim há chances de existir a vontade de descoberta, o desejo de brincar de adivinhação. De cabra-cega e de pega-pega, com prazer de verdade. É só criança infeliz que, tendo mil brinquedos, vive triste e enjoada com todos, e fica sempre querendo ter mais. E como tem sempre alguém para dar tudo mesmo, nunca sobra nada para desejar, nem realidades fantásticas para criar.

Aprendemos certas lógicas utilitaristas desde pequenos. É por isso que sexo, nesse nosso mundinho consumista, parece que virou prestação de serviço. Eu prefiro continuar pensando nos meus modelos antigos de socialização de sonhos e de brincadeiras. Mas quem quiser seguir a linha de produção, que vá em frente, mas também aceite ser sempre trocado, porque defeito de fabricação e de uso inadequado é o que mais todo mundo tem.

Aliás, deixa eu parar por aqui. Acabo de me lembrar que tenho que ligar para o Procon...