terça-feira, fevereiro 15, 2005

Quando tenho medo de escolher só por covardia

Já faz um tempo tenho tentado ser mais tolerante com os meus próprios erros e com os dos outros. Busco não me torturar com minhas “culpas cristãs”, porque se eu ficar simplesmente me auto-flagelando nunca me movo em direção a mudanças concretas. Procuro me perguntar sobre as opções que quero fazer, para eu também poder defender os meus valores. Não com o intuito de me fechar para pensamentos diferentes ou propostas que destoam dos meus conceitos e “pré-conceitos”, de me armar para melhor me proteger. Que nada. Só quero que sonhos impulsionem meu caminhar; quero um alvo, que quase sempre mude de lugar, porque, muitas vezes, só mesmo o desvio me faz prosseguir.

No meu modo de ter fé, não acredito que Deus tenha um caminho prontinho para toda a humanidade percorrer. Aliás, creio mesmo é que Ele está de saco cheio da gente se repetir tanto e brigar para defender certas verdades, em vez de criar outras muito mais bacanas. Porque nisso a gente se aprisiona, olha a vida inteira a mesma estrada empoeirada, quando podíamos olhar pro céu, botar asas nas costas e voar sem rumo por aí.

Meus pais não desejaram por mim, apesar de já terem sido contra certas minhas escolhas. Minha mãe não gostava que eu fizesse cabaninhas com as almofadas do sofá da sala, nem que eu me trancasse no armário pra ler, nem que eu escalasse a soleira da porta imitando o homem-aranha, nem que eu grudasse o ouvido na caixa de som do rádio quando tocava uma música que eu gostava. Nem que eu vivesse pendurada nos galhos das árvores nos fins-de-semana no sítio, que eu comesse fruta demais antes do almoço, que eu andasse que nem um moleque, que eu me sujasse na lama, tomasse banho de chuva, subisse no telhado da casa, que eu abraçasse a filha da caseira pobre porque eu sempre voltava infestada de piolhos. Pior de tudo eram os cachorros vira-latas que viravam meus confidentes, com olhinhos compreensivos e orelhas atentas, e sempre me deixavam como herança um carrapato no umbigo, o lugar mais difícil de arrancar.

Aos onze anos, com a separação, fiquei morando com meu pai e dessa vez foi ele quem compôs a lista de preocupações com tudo o que estivesse me empolgando no momento. Capoeira era muito violento para meninas, movimento estudantil e passeatas não eram para a minha idade, igreja só para fanáticos, meus vários amigos o deixavam zonzo. E continuava com as “rugas” pelas minhas escolhas mais banais... “se ficar em casa lendo o tempo inteiro seu corpo vai enferrujar; exercício físico em excesso causa estresse muscular. Tomar sol é preciso; praia todos os dias é um absurdo, mesmo nas férias”. Anos mais tarde, ele foi contra o vestibular para jornalismo, porque eu não ia arranjar emprego depois. Há uns meses, reclamou que eu estava trabalhando demais e que não dava mais atenção pra ele.

Isso tudo me provoca uma vontade danada de riso incontido. Acabei fazendo o que queria, o que listei e tanto mais, até demais. Só que, mesmo hoje, quando estou bastante implicante (leia-se na TPM), acuso meu pai de não ter querido filha, mas uma bonequinha, pra ele manipular. No fundo acho só que ele não soube lidar comigo em alguns momentos, nem eu com ele, e esta é a prova mais saudável que eu não era uma bonequinha, porque senão vinha com folheto de instruções.

A consciência de que sou responsável pelas minhas escolhas me imobiliza às vezes, porque, de vez em quando, queria muito estar segura de que vou acertar. Mas sei que essa é uma das minhas tantas idéias babacas, porque se eu, com certeza só da minha insignificância, não venho com um manual de instruções, que dirá o mundo, que é muito maior e nunca mudou só porque eu nasci.

Hoje me sinto mais livre do que jamais antes, e isso é assustador. Tenho medo porque, apesar de livre, talvez continue com o pensamento escravizado. Tenho medo de a minha liberdade ser uma forma de castrar o outro. Medo de poder fazer, mas esperar até que ajam por mim. De ter forças para correr, mas me paralisar porque ninguém deu a ordem de partir. De saber o meu caminho, mas não andar por falta de companhia, porque ser livre muitas vezes é estar sozinho.

Quando tenho medo de escolher só por covardia

Já faz um tempo tenho tentado ser mais tolerante com os meus próprios erros e com os dos outros. Busco não me torturar com minhas “culpas cristãs”, porque se eu ficar simplesmente me auto-flagelando nunca me movo em direção a mudanças concretas. Procuro me perguntar sobre as opções que quero fazer, para eu também poder defender os meus valores. Não com o intuito de me fechar para pensamentos diferentes ou propostas que destoam dos meus conceitos e “pré-conceitos”, de me armar para melhor me proteger. Que nada. Só quero que sonhos impulsionem meu caminhar; quero um alvo, que quase sempre mude de lugar, porque, muitas vezes, só mesmo o desvio me faz prosseguir.

No meu modo de ter fé, não acredito que Deus tenha um caminho prontinho para toda a humanidade percorrer. Aliás, creio mesmo é que Ele está de saco cheio da gente se repetir tanto e brigar para defender certas verdades, em vez de criar outras muito mais bacanas. Porque nisso a gente se aprisiona, olha a vida inteira a mesma estrada empoeirada, quando podíamos olhar pro céu, botar asas nas costas e voar sem rumo por aí.

Meus pais não desejaram por mim, apesar de já terem sido contra certas minhas escolhas. Minha mãe não gostava que eu fizesse cabaninhas com as almofadas do sofá da sala, nem que eu me trancasse no armário pra ler, nem que eu escalasse a soleira da porta imitando o homem-aranha, nem que eu grudasse o ouvido na caixa de som do rádio quando tocava uma música que eu gostava. Nem que eu vivesse pendurada nos galhos das árvores nos fins-de-semana no sítio, que eu comesse fruta demais antes do almoço, que eu andasse que nem um moleque, que eu me sujasse na lama, tomasse banho de chuva, subisse no telhado da casa, que eu abraçasse a filha da caseira pobre porque eu sempre voltava infestada de piolhos. Pior de tudo eram os cachorros vira-latas que viravam meus confidentes, com olhinhos compreensivos e orelhas atentas, e sempre me deixavam como herança um carrapato no umbigo, o lugar mais difícil de arrancar.

Aos onze anos, com a separação, fiquei morando com meu pai e dessa vez foi ele quem compôs a lista de preocupações com tudo o que estivesse me empolgando no momento. Capoeira era muito violento para meninas, movimento estudantil e passeatas não eram para a minha idade, igreja só para fanáticos, meus vários amigos o deixavam zonzo. E continuava com as “rugas” pelas minhas escolhas mais banais... “se ficar em casa lendo o tempo inteiro seu corpo vai enferrujar; exercício físico em excesso causa estresse muscular. Tomar sol é preciso; praia todos os dias é um absurdo, mesmo nas férias”. Anos mais tarde, ele foi contra o vestibular para jornalismo, porque eu não ia arranjar emprego depois. Há uns meses, reclamou que eu estava trabalhando demais e que não dava mais atenção pra ele.

Isso tudo me provoca uma vontade danada de riso incontido. Acabei fazendo o que queria, o que listei e tanto mais, até demais. Só que, mesmo hoje, quando estou bastante implicante (leia-se na TPM), acuso meu pai de não ter querido filha, mas uma bonequinha, pra ele manipular. No fundo acho só que ele não soube lidar comigo em alguns momentos, nem eu com ele, e esta é a prova mais saudável que eu não era uma bonequinha, porque senão vinha com folheto de instruções.

A consciência de que sou responsável pelas minhas escolhas me imobiliza às vezes, porque, de vez em quando, queria muito estar segura de que vou acertar. Mas sei que essa é uma das minhas tantas idéias babacas, porque se eu, com certeza só da minha insignificância, não venho com um manual de instruções, que dirá o mundo, que é muito maior e nunca mudou só porque eu nasci.

Hoje me sinto mais livre do que jamais antes, e isso é assustador. Tenho medo porque, apesar de livre, talvez continue com o pensamento escravizado. Tenho medo de a minha liberdade ser uma forma de castrar o outro. Medo de poder fazer, mas esperar até que ajam por mim. De ter forças para correr, mas me paralisar porque ninguém deu a ordem de partir. De saber o meu caminho, mas não andar por falta de companhia, porque ser livre muitas vezes é estar sozinho.

sexta-feira, janeiro 28, 2005

Que Deus nos livre da mediocridade. Amém.

“Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca”

(Apocalipse 3:15,16)



Este versículo bíblico não saiu da minha cabeça a semana inteira. Minha interpretação pessoal inicialmente é que a mediocridade parece ser mais abominável que o Mal em si, existindo ele. Posto desta forma, muitos dos que até agora estiveram em paz com suas consciências podem estar condenados ao refluxo Divino e serem regurgitados para fora do Paraíso - o qual não sabemos onde se encontra, apesar de sempre dele facilmente nos perdemos. Interessante lermos assim o manual de onde foram extraídos os “sopros” para a formulação de tantas de nossas regras sociais e morais...



Dia desses, o Alexandre (amigo querido e brilhante teólogo) explicou que a palavra por nós conhecida como “pecado”, no original hebraico das Sagradas Escrituras tem um sentido bastante mais amplo: seria algo que nos afasta do eixo de nossa plenitude humana. É um conceito judaico que remonta aos tempos antes de Cristo, considerando que o Novo Testamento já não foi escrito na língua dos hebreus, mas na dos gregos.



Partindo desse princípio, uma vez que nos encontremos afastados da tal plenitude, penso que inicia-se imediatamente a tentativa de resgate das metas fundamentais. Mas, para ocorrer o movimento em direção ao caminho supostamente perdido, é necessária a tomada de consciência que legitima e reconhece o desvio. Sendo assim, no desencontro máximo está a origem mesma do reencontro.



Em nenhum dos pólos “frio” e “quente” consigo identificar a metáfora do essencialmente bom ou essencialmente ruim. Mas diria que o frio remete à necessidade de calor, e o quente clama pelo refrescamento. Nesse sentido, nos dois lados há iminência de movimento.



A mornidão relaxa, acomoda, paralisa. É do conforto que vem a letargia, o não caminhar, a impossibilidade de errância. A mediocridade nos protege da marginalização e da genialidade – aliás, outro par que pressupõe o mútuo deslocamento, na minha opinião. Estar morno, dando um significado mais popular à sagrada exortação, quer dizer viver “à meia bomba”. Sem impotência nem priapismo.



Tendo em vista tal inércia diabólica, a ira dos céus seria uma redenção. Afinal, os mornos são lançados para fora, arrancados à força do estômago Supremo, rejeitados pelo Santo organismo, deslocados à força. Regurgitados, expulsos e, com isso, impulsionados, e devolvidos à essência do movimento em direção à plenitude.



Deus, por favor, vomite. E dê-nos a Graça de sermos eventualmente atormentados. Amém.

Que Deus nos livre da mediocridade. Amém.

“Quem dera fosses frio ou quente! Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca”
(Apocalipse 3:15,16)

Este versículo bíblico não saiu da minha cabeça a semana inteira. Minha interpretação pessoal inicialmente é que a mediocridade parece ser mais abominável que o Mal em si, existindo ele. Posto desta forma, muitos dos que até agora estiveram em paz com suas consciências podem estar condenados ao refluxo Divino e serem regurgitados para fora do Paraíso - o qual não sabemos onde se encontra, apesar de sempre dele facilmente nos perdemos. Interessante lermos assim o manual de onde foram extraídos os “sopros” para a formulação de tantas de nossas regras sociais e morais...

Dia desses, o Alexandre (amigo querido e brilhante teólogo) explicou que a palavra por nós conhecida como “pecado”, no original hebraico das Sagradas Escrituras tem um sentido bastante mais amplo: seria algo que nos afasta do eixo de nossa plenitude humana. É um conceito judaico que remonta aos tempos antes de Cristo, considerando que o Novo Testamento já não foi escrito na língua dos hebreus, mas na dos gregos.

Partindo desse princípio, uma vez que nos encontremos afastados da tal plenitude, penso que inicia-se imediatamente a tentativa de resgate das metas fundamentais. Mas, para ocorrer o movimento em direção ao caminho supostamente perdido, é necessária a tomada de consciência que legitima e reconhece o desvio. Sendo assim, no desencontro máximo está a origem mesma do reencontro.

Em nenhum dos pólos “frio” e “quente” consigo identificar a metáfora do essencialmente bom ou essencialmente ruim. Mas diria que o frio remete à necessidade de calor, e o quente clama pelo refrescamento. Nesse sentido, nos dois lados há iminência de movimento.

A mornidão relaxa, acomoda, paralisa. É do conforto que vem a letargia, o não caminhar, a impossibilidade de errância. A mediocridade nos protege da marginalização e da genialidade – aliás, outro par que pressupõe o mútuo deslocamento, na minha opinião. Estar morno, dando um significado mais popular à sagrada exortação, quer dizer viver “à meia bomba”. Sem impotência nem priapismo.

Tendo em vista tal inércia diabólica, a ira dos céus seria uma redenção. Afinal, os mornos são lançados para fora, arrancados à força do estômago Supremo, rejeitados pelo Santo organismo, deslocados à força. Regurgitados, expulsos e, com isso, impulsionados, e devolvidos à essência do movimento em direção à plenitude.

Deus, por favor, vomite. E dê-nos a Graça de sermos eventualmente atormentados. Amém.

sábado, janeiro 22, 2005

Da TPM e outros demônios

Li uma vez que a TPM é um fator atenuante no tribunal. Ou seja, uma mulher que cometa um crime no período pré-menstrual pode ter sua pena reduzida. Os juízes, ou legisladores, certamente homens, consideram que uma mulher na TPM sofre de “insanidade temporária”.

Nós, loucas em tempo integral, na verdade, saímos todas satisfeitas com tanta compreensão masculina.

Pois querem saber de uma coisa? Uma das piores TPMs da minha vida, em janeiro do ano passado, teve um de seus pontos críticos 18 dias antes da sangria se manifestar. DEZOITO! D-E-Z-O-I-T-O!!! Isso quer dizer que, quando mais quis torcer o pescoço de alguém, se o tivesse feito, ninguém me consideraria louca, pelo menos não da classe das temporárias. Seria delinqüente, monstruosa, encapetada, assassina, peste, espírito de porco, tudo junto, mas não louca. Trabalho para o FBI, o Super-Mouse, Padre Quevedo, Liga da Justiça, Cruz Vermelha e Jesus Cristo, mas nada da alçada da doutora Nise da Silveira.

Pois tenho uma teoria (sim, eu e minhas teorias): durante a TPM é quando se verifica o ápice da lucidez de uma mulher.

Explico: de um modo geral e quase sempre as mulheres são doces. Boas filhas de pais carrascos, boas profissionais das empresas que lhes tira o sono, boas subordinadas dos chefes que as exploram, boas companheiras dos maridos que as atormentam, boas mulheres dos homens que as trocam por nuas amantes, boas mães de adolescentes rebeldes e boas donas-de-casa nos horários de folga de todas as outras atividades acima descritas.

E isso é normalidade? Não. É torpor.

A costela de Adão, vindo assim de graça, devia ter algum defeito de fabricação. Vai ver que ela é um agente infiltrado dos homens, a pecinha chave, que faz com que os neuro-transmissores das mulheres ignorem certas informações e quase todas as agressões sofridas. Uma farsa que se desfaz quando nossos hormônios intercedem por nós!

Ver demais, desde que o mundo é mundo, é uma manifestação do demônio. Lúcifer, diz a Bíblia, era um anjo de luz. Eva, quando comeu a maçã, viu que estava nua. No Ensaio sobre a cegueira de Saramago, enxergar representa um tipo de escravidão. Por outro lado, Tirésias, o vidente, semi-deus mensageiro de Zeus, era cego. Neo, em Matrix Revolutions, vira uma espécie de Tirésias.

Não por acaso, o demônio da visão sempre recai sobre personagens mulheres, enquanto a divina cegueira é dom exclusivo que somente toca aos homens.

Durante a TPM vejo tudo com mais clareza. Terminei com meu ex-namorado precisamente no já citado décimo oitavo dia antes da redenção vermelha. Foi a melhor coisa a ser feita e também uma decisão que jamais seria tomada em dias de torpor e estupor.

Naquele meu ápice de lucidez, só duas opções se apresentavam a mim: terminar o relacionamento ou matar o relacionado. Escolhi a primeira, graças a Deus. Afinal, do contrário, como já sabemos, eu teria sérios problemas com os homens dos tribunais...

Da TPM e outros demônios

Li uma vez que a TPM é um fator atenuante no tribunal. Ou seja, uma mulher que cometa um crime no período pré-menstrual pode ter sua pena reduzida. Os juízes, ou legisladores, certamente homens, consideram que uma mulher na TPM sofre de “insanidade temporária”.
Nós, loucas em tempo integral, na verdade, saímos todas satisfeitas com tanta compreensão masculina.
Pois querem saber de uma coisa? Uma das piores TPMs da minha vida, em janeiro do ano passado, teve um de seus pontos críticos 18 dias antes da sangria se manifestar. DEZOITO! D-E-Z-O-I-T-O!!! Isso quer dizer que, quando mais quis torcer o pescoço de alguém, se o tivesse feito, ninguém me consideraria louca, pelo menos não da classe das temporárias. Seria delinqüente, monstruosa, encapetada, assassina, peste, espírito de porco, tudo junto, mas não louca. Trabalho para o FBI, o Super-Mouse, Padre Quevedo, Liga da Justiça, Cruz Vermelha e Jesus Cristo, mas nada da alçada da doutora Nise da Silveira.
Pois tenho uma teoria (sim, eu e minhas teorias): durante a TPM é quando se verifica o ápice da lucidez de uma mulher.
Explico: de um modo geral e quase sempre as mulheres são doces. Boas filhas de pais carrascos, boas profissionais das empresas que lhes tira o sono, boas subordinadas dos chefes que as exploram, boas companheiras dos maridos que as atormentam, boas mulheres dos homens que as trocam por nuas amantes, boas mães de adolescentes rebeldes e boas donas-de-casa nos horários de folga de todas as outras atividades acima descritas.
E isso é normalidade? Não. É torpor.
A costela de Adão, vindo assim de graça, devia ter algum defeito de fabricação. Vai ver que ela é um agente infiltrado dos homens, a pecinha chave, que faz com que os neuro-transmissores das mulheres ignorem certas informações e quase todas as agressões sofridas. Uma farsa que se desfaz quando nossos hormônios intercedem por nós!
Ver demais, desde que o mundo é mundo, é uma manifestação do demônio. Lúcifer, diz a Bíblia, era um anjo de luz. Eva, quando comeu a maçã, viu que estava nua. No Ensaio sobre a cegueira de Saramago, enxergar representa um tipo de escravidão. Por outro lado, Tirésias, o vidente, semi-deus mensageiro de Zeus, era cego. Neo, em Matrix Revolutions, vira uma espécie de Tirésias.
Não por acaso, o demônio da visão sempre recai sobre personagens mulheres, enquanto a divina cegueira é dom exclusivo que somente toca aos homens.
Durante a TPM vejo tudo com mais clareza. Terminei com meu ex-namorado precisamente no já citado décimo oitavo dia antes da redenção vermelha. Foi a melhor coisa a ser feita e também uma decisão que jamais seria tomada em dias de torpor e estupor.
Naquele meu ápice de lucidez, só duas opções se apresentavam a mim: terminar o relacionamento ou matar o relacionado. Escolhi a primeira, graças a Deus. Afinal, do contrário, como já sabemos, eu teria sérios problemas com os homens dos tribunais...

segunda-feira, janeiro 17, 2005

Uma teoria

No último domingo pus em xeque uma verdade que tinha como certeza quase científica. Sempre tive muito claro para mim que a beleza feminina era muito mais cobrada, mas agora duvido das armadilhas que esta afirmação traz.

É certo que as gordurinhas das mulheres são muito mais percebidas e criticadas, enquanto que as barriguinhas de chope dos homens estão longe de representar uma ameaça. Para os que sabem falar de Baudelaire, Abbas Kiarostami, pós-modernidade, poetas latinos, música popular brasileira, Tigres Asiáticos e sei lá mais o que, os protuberantes abdomens são quase um complemento perfeito, motivo até de suspiros das apaixonadas. Só que ninguém nunca ouvirá um comentário masculino do tipo: “nossa, aquele cabelo desgrenhado me enlouquece! E a perna cabeluda, os óculos, a pancinha saliente dela... Hummm... tudo puro orgasmo visual!”

Não. Definitivamente, ninguém vai escutar isso.

Pareço me contradizer? Não mesmo. Comecei o post falando que havia caído por terra a minha crença de que a beleza feminina era mais cobrada e reafirmo que esta é uma visão restrita.

Para ilustrar a questão, cito como exemplo o cenário da minha descoberta: a praia de Ipanema.

Ontem: domingo, verão, férias escolares e 39 graus nos termômetros. Dizer que a praia de Ipanema estava lotada é desnecessário. Ainda assim insisti em arranjar um lugar ao sol, em todos os sentidos, mas não sem antes fazer algumas considerações.

No posto 8 me senti estrangeira no meio de uma gente barulhenta e com um senso de coletividade no mínimo oposto ao meu. Tudo bem, só queriam compartilhar a música que traziam em seus sons portáteis. Que gente mais alegre... Mas por via das dúvidas e tendo em vista a possibilidade sempre presente do meu gosto musical não ser necessariamente o do meu vizinho da barraca ao lado, prefiro fazer SILÊNCIO.

Um pouco adiante, já estariam os postos 9 e 10. Como não pretendia ver o “fashion week” (ou melhor, weekend) praiano dos cariocas e das cariocas na passarela de areia, todos sempre “num doce balanço a caminho do mar”, pensei seriamente na possibilidade de voltar pra casa e retomar a leitura do meu livro. Mas tive uma idéia, uma possibilidade de um “quase” oásis – um olhar atento às circunstâncias é capaz de prever que meu conceito de oásis estava bastante alterado. Pensei na única possibilidade de Paraíso na praia cheia: A FARME DE AMOEDO.

Para os que não sabem, a Farme de Amoedo é uma rua de Ipanema, internacionalmente famosa pelos bares gays. O trecho da praia em frente à rua em questão tem uma enorme, colorida e tremulante bandeira do Rainbow fincada na areia. Sabendo que boa parte da população carioca (famílias “de bem” com suas crianças, e tantos machões convictos) se recusaria a ficar ali, parti para minha experiência antropológica.

Sim, estava muito mais vazia aquela parte. E mais silenciosa. E mais civilizada.

A surpresa depois de 10 minutos e um olhar que se dispunha a ser bem atento: quase todos, repito, quase todos os homens que vi (devidamente acompanhados de seus homens), quase todos eram, se não exatamente bonitos, extremamente bem cuidados, vaidosos, malhados, depilados e charmosos. E, obviamente, morenos de sol. Orgulhosos, andando de mãozinhas dadas com seus pares, aos beijos, cheios de si e de amor para dar.

Surpresa número dois: quase todas, repito, quase todas as meninas que estavam com suas meninas, quase todas eram extremamente esquisitas, pálidas, encurvadas, mal-tratadas e de olhar ressabiado.

Depois disso, a reformulação do conceito: não sei se a beleza feminina é mais cobrada. Talvez os homens cobrem mais a beleza de seus pares, não importa de qual sexo.

As meninas, no canto, encolhidas, parecem mais condescendentes com qualquer tipo de displicência estética. Se for um sinal a mais de carência e desordem emocional que afetam a tantas mulheres a procura de um pouco de carinho e compreensão, aí é preocupante. Opção sexual eu não discuto, nem lamento. Quero mais que as pessoas sejam felizes. Mas elas são?

Uma teoria

No último domingo pus em xeque uma verdade que tinha como certeza quase científica. Sempre tive muito claro para mim que a beleza feminina era muito mais cobrada, mas agora duvido das armadilhas que esta afirmação traz.
É certo que as gordurinhas das mulheres são muito mais percebidas e criticadas, enquanto que as barriguinhas de chope dos homens estão longe de representar uma ameaça. Para os que sabem falar de Baudelaire, Abbas Kiarostami, pós-modernidade, poetas latinos, música popular brasileira, Tigres Asiáticos e sei lá mais o que, os protuberantes abdomens são quase um complemento perfeito, motivo até de suspiros das apaixonadas. Só que ninguém nunca ouvirá um comentário masculino do tipo: “nossa, aquele cabelo desgrenhado me enlouquece! E a perna cabeluda, os óculos, a pancinha saliente dela... Hummm... tudo puro orgasmo visual!”
Não. Definitivamente, ninguém vai escutar isso.
Pareço me contradizer? Não mesmo. Comecei o post falando que havia caído por terra a minha crença de que a beleza feminina era mais cobrada e reafirmo que esta é uma visão restrita.
Para ilustrar a questão, cito como exemplo o cenário da minha descoberta: a praia de Ipanema.
Ontem: domingo, verão, férias escolares e 39 graus nos termômetros. Dizer que a praia de Ipanema estava lotada é desnecessário. Ainda assim insisti em arranjar um lugar ao sol, em todos os sentidos, mas não sem antes fazer algumas considerações.
No posto 8 me senti estrangeira no meio de uma gente barulhenta e com um senso de coletividade no mínimo oposto ao meu. Tudo bem, só queriam compartilhar a música que traziam em seus sons portáteis. Que gente mais alegre... Mas por via das dúvidas e tendo em vista a possibilidade sempre presente do meu gosto musical não ser necessariamente o do meu vizinho da barraca ao lado, prefiro fazer SILÊNCIO.
Um pouco adiante, já estariam os postos 9 e 10. Como não pretendia ver o “fashion week” (ou melhor, weekend) praiano dos cariocas e das cariocas na passarela de areia, todos sempre “num doce balanço a caminho do mar”, pensei seriamente na possibilidade de voltar pra casa e retomar a leitura do meu livro. Mas tive uma idéia, uma possibilidade de um “quase” oásis – um olhar atento às circunstâncias é capaz de prever que meu conceito de oásis estava bastante alterado. Pensei na única possibilidade de Paraíso na praia cheia: A FARME DE AMOEDO.
Para os que não sabem, a Farme de Amoedo é uma rua de Ipanema, internacionalmente famosa pelos bares gays. O trecho da praia em frente à rua em questão tem uma enorme, colorida e tremulante bandeira do Rainbow fincada na areia. Sabendo que boa parte da população carioca (famílias “de bem” com suas crianças, e tantos machões convictos) se recusaria a ficar ali, parti para minha experiência antropológica.
Sim, estava muito mais vazia aquela parte. E mais silenciosa. E mais civilizada.
A surpresa depois de 10 minutos e um olhar que se dispunha a ser bem atento: quase todos, repito, quase todos os homens que vi (devidamente acompanhados de seus homens), quase todos eram, se não exatamente bonitos, extremamente bem cuidados, vaidosos, malhados, depilados e charmosos. E, obviamente, morenos de sol. Orgulhosos, andando de mãozinhas dadas com seus pares, aos beijos, cheios de si e de amor para dar.
Surpresa número dois: quase todas, repito, quase todas as meninas que estavam com suas meninas, quase todas eram extremamente esquisitas, pálidas, encurvadas, mal-tratadas e de olhar ressabiado.
Depois disso, a reformulação do conceito: não sei se a beleza feminina é mais cobrada. Talvez os homens cobrem mais a beleza de seus pares, não importa de qual sexo.
As meninas, no canto, encolhidas, parecem mais condescendentes com qualquer tipo de displicência estética. Se for um sinal a mais de carência e desordem emocional que afetam a tantas mulheres a procura de um pouco de carinho e compreensão, aí é preocupante. Opção sexual eu não discuto, nem lamento. Quero mais que as pessoas sejam felizes. Mas elas são?